quarta-feira, 20 de maio de 2015

A história do ódio no Brasil (Por Thiago Muniz)

Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas”. A frase que bem define o brasileiro e o ódio no qual estamos imersos é do historiador Leandro Karnal. A ideia de que nós, nossas famílias ou nossa cidade são um poço de civilidade em meio a um país bárbaro é comum no Brasil.

O “mito do homem cordial”, costumeiramente mal interpretado, acabou virando o mito do “cidadão de bem amável e simpático”.

Pena que isso seja uma mentira. “O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva”, explica o sociólogo Antônio Cândido. O brasileiro se obriga a ser simpático com os colegas de trabalho, a receber bem a visita indesejada e a oferecer o pedaço do chocolate para o estranho no ônibus. Depois fala mal de todos pelas costas, muito educadamente.

Corpo Esquartejado de Tiradentes
Olhemos o dicionário: cordial significa referente ou próprio do coração. Ou seja, significa ser mais sentimental e menos racional.

Mas o ódio também é um sentimento, assim como o amor. (Aliás os neurocientistas têm descoberto que ambos sentimentos ativam as mesmas partes do cérebro.) Nós odiamos e amamos com a mesma facilidade.

Dizemos que “gostaríamos de morar num país civilizado como a Alemanha ou os Estados Unidos, mas que aqui no Brasil não dá para ser sério.” Queremos resolver tudo num passe de mágica. Se o político é corrupto devemos tirar ele do poder à força, mas se vamos para rua e “fazemos balbúrdia” devemos ser espancados e se somos espancados indevidamente, o policial deve ser morto e assim seguimos nossa espiral de ódio e de comportamentos irracionais, pedindo que “cortem a cabeça dele, cortem a cabeça dele”, como a rainha louca de Alice no País das Maravilhas.

Ninguém para 5 segundos para pensar no que fala ou no que comenta na internet. Grita-se muito alto e depois volta-se para a sala para comer o jantar. Pede-se para matar o menor infrator e depois gargalha-se com o humorístico da televisão. Não gostamos de refletir, não gostamos de lembrar em quem votamos na última eleição e não gostamos de procurar a saída que vai demorar mais tempo, mas será mais eficiente.

Com escreveu Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil“, o criador do termo “homem cordial” : “No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedica­dos a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente pró­prio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação im­pessoal” Ou seja, desde o começo do Brasil todo mundo tem pensando apenas no próprio umbigo e leva as coisas públicas como coisa familiar. Somos uma grande família, onde todos se amam. Ou não?

O já citado Leandro Karnal diz que os livros de história brasileiros nunca usam o termo guerra civil em suas páginas. Preferimos dizer que guerras que duraram 10 anos (como a Farroupilha) foram revoltas. Foram “insurreições”. O termo “guerra civil” nos parece muito “exagerado”, muito “violento” para um povo tão “pacífico”. A verdade é que nunca fomos pacíficos. A história do Brasil é marcada sempre por violência, torturas e conflitos. As decapitações que chocam nos presídios eram moda há séculos e foram aplicadas em praça pública para servir de exemplo nos casos de Tiradentes e Zumbi. As cabeças dos bandidos de Lampião ficaram expostas em museu por anos. Por aqui, achamos que todos os problemas podem ser resolvidos com uma piada ou com uma pedrada. Se o papo informal não funciona devemos “matar” o outro. Duvida? Basta lembrar que por aqui a república foi proclamada por um golpe militar. E que golpes e revoluções “parecem ser a única solução possível para consertar esse país”. A força é a única opção para fazer o outro entender que sua ideia é melhor que a dele? O debate saudável e a democracia parecem ideias muito novas e frágeis para nosso país.

Em 30 anos, tivemos um crescimento de cerca de 502% na taxa de homicídios no Brasil. Só em 2012 os homicídios cresceram 8%. A maior parte dos comentários raivosos que se lê e se ouve prega que para resolver esse problema devemos empregar mais violência. Se você não concorda “deve adotar um bandido”. Não existe a possibilidade de ser contra o bandido e contra a violência ao mesmo tempo. Na minha opinião, primeiro devemos entender a violência e depois vomitar quais seriam suas soluções. Por exemplo, você sabia que ocorrem mais estupros do que homicídios no Brasil? E que existem mais mortes causadas pelo trânsito do Brasil do que por armas de fogo? Sim, nosso trânsito mata mais que um país em guerra. Isso não costuma gerar protestos revoltados na internet. Mas tampouco alivia as mortes por arma de fogo que também tem crescido ano a ano e se equiparam, entre 2004 e 2007, ao número de mortes em TODOS conflitos armados dos últimos anos. E quem está morrendo? 93% dos mortos por armas de fogo no Brasil são homens e 67% são jovens. Aliás, morte por arma de fogo é a principal causa de mortalidade entre os jovens brasileiros.

Séc XIX, escravo sendo castigado no Pelourinho
Quanto à questão racial, morrem 133% mais negros do que brancos no Brasil. E mais: o número de brancos mortos entre 2002 e 2010 diminuiu 25%, ao contrário do número de negros que cresceu 35%. É importante entender, no entanto, que essas mortes não são causadas apenas por bandidos em ações cotidianas. 

Um dado expressivo: no estado de São Paulo ocorreram 344 mortes por latrocínio (roubo seguido de morte) no ano de 2012. No mesmo ano, foram mortos 546 pessoas em confronto com a PM. 

Esses números são altos, mas temos índices ainda mais altos de mortes por motivos fúteis (brigas de trânsito, conflitos amorosos, desentendimentos entre vizinhos, violências domésticas, brigas de rua,etc). 

Entre 2011 e 2012, 80% dos homicídios do Estado de São Paulo teriam sido causados por esses motivos que não envolvem ação criminosa. Mortes que poderiam ter sido evitadas com menos ódio. É importante lembrar que vivemos numa sociedade em que “quem não reage, rasteja”, mas geralmente a reação deve ser violenta. Se “mexeram com sua mina” você deve encher o cara de porrada, se xingaram seu filho na escola “ele deve aprender a se defender”, se falaram alto com você na briga de trânsito, você deve colocar “o babaca no seu lugar”. Quem não age violentamente é fraco, frouxo, otário. Legal é ser ou Zé Pequeno ou Capitão Nascimento. Nossos heróis são viris e “esculacham”

Se tivesse nascido no Brasil, Gandhi não seria um homem sábio, mas um “bundão” ou um “otário”.

O discurso de ódio invade todos os lares e todos os segmentos. Agora que o gigante acordou e o Brasil resolveu deixar de ser “alienado” todo mundo odeia tudo. O colunista da Veja odeia o âncora da Record que odeia o policial que odeia o manifestante que odeia o político que odeia o pastor que odeia o “marxista” que odeia o senhor “de bem” que fica em casa odiando o mundo inteiro em seus comentários nos portais da internet. Para onde um debate rasteiro como esse vai nos levar? Gritamos e gritamos alto, mas gritamos por quê?

Política não é torcida de futebol, não adianta você torcer pela derrota do adversário para ficar feliz no domingo. A cada escândalo de corrupção, a cada pedreiro torturado, a cada cinegrafista assassinado, a cada dentista queimada, a cada homossexual espancado; todos perdemos. Perdemos a chance de conseguir dialogar com o outro e ganhamos mais um motivo para odiar quem defende o que não concordamos.

Eu também me arrependo muitas vezes de entrar no calor das discussões de ódio no Brasil; seja no Facebook, seja numa mesa de bar. Às vezes me pergunto se eu deveria mesmo me pronunciar publicamente sobre coisas que não conheço profundamente, me pergunto por que parece tão urgente exprimir minha opinião. Será essa a versão virtual do “quem não revida não é macho”? Se eu tivesse que escolher apenas um lado para tentar mudar o mundo, escolheria o lado da não-violência. Precisamos parar para respirar e pensar o que queremos e como queremos. Dialogar. Entender as vontades do outro. O Brasil vive um momento de efervescência, vamos usar essa energia para melhorar as coisas ou ficar nos matando com rojões, balas e bombas? Ou ficar prendendo trombadinhas no poste, torturando pedreiros e chacinando pessoas na periferia? Ou ficar pedindo bala na cabeça de políticos? Ficar desejando um novo câncer para o Reinaldo Azevedo ou para o Lula? Exigir a volta da ditadura? Ameaçar de morte quem faz uma piada que não gostamos?

Cabeça expostas a público do bando de Lampião, em 1938
Se a gente escutasse o que temos gritado, escrito e falado, perceberíamos como temos descido em direção às trevas interiores dos brasileiros às quais Nélson Rodrigues avisava que era melhor “não provocá-las. Ninguém sabe o que existe lá dentro.”

Será que não precisamos de mais inteligência e informação e menos ódio? Quando vamos sair dessa infantilidade de “papai bate nele porque ele é mau” e vamos começar a agir como adultos? 


Quando vamos começar a assumir que, sim, somos um povo violento e que estamos cansados da violência? Que queremos sofrer menos violência e provocar menos violência? Somos um povo tão religioso e cristão, mas que ignora intencionalmente diversos ensinamentos de Jesus Cristo. Não amamos ao nosso inimigo, não damos a outra face, não deixamos de apedrejar os pecadores. Esquecemos que a ira é um dos sete pecados capitais. Gostamos de ficar presos na fantasia de que vivemos numa ilha de gente de bem cercada de violência e barbárie e que a única solução para nossos problemas é exterminar todos os outros que nos cercam e nos amedrontam.

Mas quando tudo for só pó e solidão, quem iremos culpar pelo ódio que ainda carregaremos dentro de nós?

Há hipocrisia da sociedade em criticar e julgar qualquer pessoa quando lhe são proferidas ações odiosas e, ao mesmo tempo, infligir insultos e demonstrações de tal sentimento aos outros por simplesmente divergirem de seu ponto de vista.

Infelizmente, porém, senti que sua visão tira, de certa forma, a legitimidade do "cidadão do bem", que de fato existe. Certas ações de outrem inflamam, por vezes, nossa ira e revolta. Isso não é brasileiro, é humano, e não significa que deixemos de ser cordiais como pessoa, muito embora, como nação não sejamos mesmo, nem acredito que nos vemos mais assim. Todo brasileiro sabe o quão violento é seu país e que nunca foi pacífico. Esse é um conceito que "pegou" muito mais lá fora do que aqui. O que acontece é que e no Brasil, em que são falhas todas as instâncias legislativas, administrativas e executivas, atos de ódio tem maiores chances de ocorrer; e crimes, de serem cometidos.

Um exemplo é o "Adote um bandido", a ação daqueles agressores de modo nenhum se justifica, mas se explica: numa sociedade onde não há justiça, seus membros acabam compelidos por impô-la à força; e cega, não tem discernimento para refletir e dar-lhe a justa medida. Um "efeito colateral" disso é o que aconteceu com a mulher que foi assassinada por ter sido confundida com uma sequestradora.

Rio de Janeiro 1982, trabalhadores sendo revistados
Concordo e me identifico quando você fala sobre aqueles que postam comentários na Internet só para despejar seu ódio, mas a única diferença entre a ira dos brasileiros na rede e de outros povos é o vocabulário. Basta checar fóruns, sites de vídeos e política estrangeiros. O Brasil não é realmente cordial, e por este prisma, nenhum outro o é.

Não me surpreendi pela violência doméstica liderar o ranking no Brasil. E isso não ocorre por falta de reflexão e excesso de ódio, e sim por falta de coerção. 

Não carecem puramente de discernimento do que é certo ou errado os criminosos, e sim do medo de sofrer as consequências. A desigualdade e segregação sociais, assim como a baixa escolaridade da maior parte dos brasileiros tem papel importante nesse comportamento, mas não são os únicos fatores. E nos colocarmos no lugar deles, como fazem muitos deputados, ativistas, pseudocomunistas e hipócritas não tem melhorado a situação. Porém, como você mesmo diz, enxergá-los apenas como incômodos marginais e não humanos, como fazem outros tantos "playboys", policiais, acomodados e imediatistas, tampouco adianta.

Também concordo que é impossível ser contra o bandido e a violência ao mesmo tempo. Mas quem disse que temos que ser contra a violência quando ela se faz necessária e justificável? Veja bem, não me refiro a nenhum episódio de barbárie ou justiça feita com as próprias mãos, e sim a fatos históricos cuja violência foi imprescindível, um último recurso para mudar uma sociedade e, portanto, legítima.

Desejo uma nação pacífica tanto quando você e acredito ser possível, dentro de uns cem anos, que o povo brasileiro aprenda a refletir, votar, planejar, e que se conscientize e responsabilize pelos seus atos. Só uma sociedade madura impedirá que os "ratos" que impregnam todos os escalões civis e militares de nosso país, os quais são os principais disseminadores de ódio na nossa sociedade, se rearticulem no poder.

Acho que todos os ativistas de redes sociais deveriam ler este texto. Observo esse sentimento de ódio nas pessoas há um certo tempo, mesmo naquelas que se dizem mais "esclarecidas e sensíveis às causas sociais". O discurso que pregamos, cheio de ideologias e promessas de mudanças, torna-se vazio se acharmos que, para mudar, o policial, o bandido, o político, o pastor, o padre, o rico, o pobre, etc. devem morrer. Esse ódio pode ser observado até mesmo em coisas inofensivas, como a opinião sobre um filme, por exemplo: vou nas redes sociais, dizemos que não gostamos e ficamos esperando uma avalanche de pessoas criticar para que possamos brigar com elas (ou dizemos que não gostamos de um filme que todos gostaram para fazer o mesmo), e isso é mais normal do que a gente pensa.

Gosto sobretudo do seu texto, Fred, porque você usa a primeira pessoa do plural. Sempre encontramos discursos inflamados sobre os problemas do Brasil na terceira pessoa ("o brasileiro", "o Brasil", "esse povo"...). Com certeza, isso faz parte da ideia de que somos um bando de gente pacífica cercado por pessoas violentas.

Recentemente, refleti bastante sobre as manifestações de 2013 e seus desdobramentos, e passei por ondas ora de renovada esperança na mudança da mentalidade das pessoas (nossa mentalidade), ora de total desânimo com a falta de perspectiva prática que as manifestações por si só trouxeram. Desde que me conheço por gente, destilo esse ódio mencionado no texto contra tudo e todos, como se a culpa do nosso país/sociedade ser assim se encontrasse do lado de fora. Não havia ainda percebido que a maioria de nós é hipócrita, que enquanto critica o outro comete atos igualmente danosos pra sociedade, mesmo que sejam apenas atos verbais. 

2014, menor infrator após ser espancado
na Zona Sul do Rio de Janeiro
Decidi seguir o conselho de um amigo e começar a agir como formiguinha. Ele me convenceu de que a mudança é lenta e depende de nós. Temos que primeiro mudar de atitude com relação aos problemas que compartilhamos em sociedade, depois de nos informarmos melhor sobre o que realmente acontece, coisa que ficou muito mais fácil com o advento da internet, vide este blog. Li alguns bons textos de pensadores comprometidos com o bem estar das pessoas e mudei minha postura diante dos nossos problemas sociais, tentando encontrar soluções cabíveis para eles, ao invés de apenas me somar ao coro de críticos não construtivos. Uma das máximas da minha nova postura é o "gentileza gera gentileza", sabedoria popular eternizada nas vigas da perimetral do Rio, recentemente demolidas, mas que permanece viva na memória do povo.

Decidi colocá-lo em prática. Ultimamente venho puxando papo com as pessoas no trem, ônibus, na rua. quando vejo que tenho uma brecha para somar algo à visão que aquela pessoa tem da nossa sociedade, eu faço. 

Se todos que possuem um razoável senso crítico construtivo e um entendimento dos problemas que enfrentamos, de forma ampla, colaborassem para elucidar pessoas que não tiveram a mesma chance que nós de se ilustrar, já seria um bom começo, talvez o único possível. Aqueles, maioria dentre nós, que estão reféns de uma cultura televisiva que os torna meros espectadores de uma história brasileira em curso completamente distorcida podem receber de bom grado uma informação ou reflexão que foge ao que estão habituados a ouvir e repetir. Só pra terminar, um exemplo bem contundente de como podemos mudar o Brasil agindo como elos em uma cadeia.

Estava no trem dia desses, nem estava tão cheio, mas como de praxe, algumas poucas pessoas de pé se amontoavam perto da porta. Eu estava sentada a uma certa distância. Sentou-se um senhor bem humilde ao meu lado saindo da aglomeração e comentou que já havia sido furtado em uma situação parecida. Dei papo pra ele e disse que tinha mesmo que ter cuidado e ele então começou a falar montes de coisas sobre como as pessoas são ruins umas com as outras, que não dá pra confiar, que pra ele bandido que rouba trabalhador é o pior tipo e tinha que morrer. Eu não quis dizer que os maiores ladrões dos trabalhadores estão no poder, mas esse não era o ponto. Pensei comigo, quanta raiva, e não tirei a razão dele. É pra ter raiva mesmo, mas não pode ficar só nisso. Matar os bandidos do alto ou baixo escalão não vai resolver nada. Outros virão, como sempre foi. Aguardei. Ele entaõ começou a falar nos presídios lotados e que aquelas pessoas não tinham jeito, que saíam e continuavam bandidas.

Que tinham que "matar tudo". Enxergando uma deixa, eu perguntei pra ele se não seria melhor que o governo que já gasta tanto dinheiro para manter aquelas pessoas presas ociosas, sem contribuírem em nada pra gente que está aqui trabalhando, ao invés de os matar, os colocasse para trabalhar também. Nem quis entrar na complexidade da discussão sobre o que leva essas pessoas a cometerem crimes. Queria apenas mudar o ponto de vista dele, quebrar a corrente de ódio. Disse que se o sistema prisional fosse reorganizado, os presos poderiam aprender um ofício e serem empregados nas próprias obras do governo, minha casa minha vida por exemplo, nos Pac´s (Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal), etc.

Assim, receberiam um salario, (acredito que dinheiro não falta, pagamos muito imposto que é mal empregado) contribuiriam para a sociedade e sairiam da prisão com um ofício e experiência, talvez pudessem permanecer empregados na mesma função. Todo mundo concorda que a chance de reinserção de um preso na sociedade é muito baixa no modelo "correcional" atual. A prova foi que os olhos dele brilharam e ele disse, "é mesmo, sabe que eu mesmo trabalho em obra, sou pedreiro!". Ele nem sequer cogitou que aquele preso poderia tirar o lugar dele. Ele é uma pessoa disposta a aceitar o outro que cometeu um erro mas que tem uma chance de mudar.

Até aquela pessoa que num primeiro momento nós por preconceito julgamos incapaz de compreender uma obviedade dessas, e outras tantas, possui no seu inconsciente, ou sei lá aonde, um mínimo grau de discernimento pra julgar o que é melhor pra nós como sociedade. Só temos que semear as idéias, no terreno que for. Vai levar muito tempo, mas é o único começo que eu julgo palpável. Sociedade mais justa, no sentido de equilibrada, não se constrói com dinheiro, com risco Brasil, com créditos dos bancos internacionais, com aumento de renda, com aumento do consumo de bens e serviços. Se constrói em cima da nossa percepção e postura de cidadania e respeito ao próximo, com reflexão e conhecimento amplo sobre como os problemas devem ser resolvidos.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O pseudo-fim da escravidão: o dia seguinte (Por Thiago Muniz)

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16), faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de 4 séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.

Mas enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a amiga Globo nos lembrou.

E no dia seguinte tudo seria diferente.

Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, dizem outros, é o dia que não terminou.
Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.

Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece São Paulo na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. 

Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui, tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.

O dia seguinte, a década seguinte, os 127 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dirigiram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado agronegócio. 

Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. Com isso garantem o poderio econômico a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.

Nada diferente do que tem sido os últimos 127 anos. Ou os últimos 515?

E nesse dia seguinte ao 13 de maio, nesse dia depois do “fim da escravidão”, resistimos! E em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.

E sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!

Ouvi em um trecho de uma música dos racionais: ”Se você é negro tem de fazer duas vezes melhor…”Pela historia, pelo passado, e a herança preconceituoso que nos restou", eu vejo que esta afirmação da música, infelizmente, é uma realidade, (mais uma vez lamento, não não deveria ser assim). Só nos resta lutar por dias melhores, por melhores condições de vida para nós e nossa família. Interessa a elite que nos continuemos inferiores,vamos a luta!

Infelizmente vivemos em uma sociedade onde o dinheiro e a ganância estão acima de quaisquer direitos, somos explorados e escravizados até hoje, a única diferença é que hoje como escravos ”modernos” somos nós quem escolhemos os senhores a quem vamos servir; somos ludibriados por um sistema, que nos traz uma falsa sensação de liberdade.

E ainda por cima, após o "fim" da escravidão, você é jogado na rua com uma mão na frente e a outra atrás, enquanto quem te explorou a vida inteira ainda ganha indenização. Pouco mais de cem anos depois, o governo tenta amenizar a injustiça reservando cotas nas universidades e no serviço público para você, mas uma massa de coxinhas te humilha e diz que isso é racismo reverso.

A resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico. No entanto, Job, que estudou a resiliência em organizações, argumenta que a ela se trata de uma tomada de decisão quando alguém depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças na pessoa para enfrentar a adversidade. Assim entendido, Barbosa propôs que se pode considerar a resiliência como uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.

Em crônica publicada no dia 19 em maio de 1888 – mês em que foi abolida a escravatura no país –, Machado de Assis descreve um cenário bem atual e ironiza a “liberdade” que negros e negras passaram a ter com o fim da escravidão.

Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a abolição da escravatura.

"Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

– Oh! meu senhô! fico.

– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

– Artura não qué dizê nada, não, senhô…

– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites."

Texto extraído do livro Assis, Machado de. Obra Completa, Vol III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 – 491.





BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

domingo, 10 de maio de 2015

Carlos Latuff: o cartunista ativista (Por Thiago Muniz)

“A função do artista é violentar”

A frase emprestada do cineasta Glauber Rocha encabeça o blog onde Latuff disponibiliza seu trabalho.


Poucos cartunistas se deram tão bem na era da internet quanto Carlos Latuff. Bom desenhista, politicamente engajado, inteligente e rápido no gatilho, Latuff tomou posições claras e se tornou uma referência no ativismo social.

Presença constante em no blog, desenhando pra quem não consegue entender as entrelinhas do noticiário, o ilustrador Carlos Latuff publica diariamente em seu blog charges políticas de alta periculosidade.

No fim dos anos 1990, ficou chocado com a situação palestina durante uma visita e passou a tê-la como inspiração principal. Com isso, ficou cada vez mais comum ver seus trabalhos reproduzidos em cartazes e faixas de manifestantes anti-guerra pelo mundo inteiro.

Nascido no Rio de Janeiro há 45 anos, vive em Porto Alegre, e foi adotado pelos gaúchos. Sente-se mais em casa ali do que no Rio, que considera uma cidade desvirtuada do que foi nos bons tempos.

Latuff é um dos principais ativistas políticos de esquerda no Brasil. Suas charges são publicadas em diversos países e o tema principal do seu trabalho é ligado aos direitos humanos, cidadania, contra a repressão do Estado aos movimentos sociais, além da causa a favor da Palestina.

Já foi ameaçado de morte, seu trabalho é muito compartilhado pela internet e suas charges costumam ser usadas por manifestantes como símbolo de luta e denúncia.

Carlos Henrique Latuff de Sousa (Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1968) é um chargista e ativista político brasileiro.

Latuff iniciou sua carreira como ilustrador em 1989, numa pequena agência de propaganda situada no centro do Rio de Janeiro. Tornou-se cartunista depois de publicar sua primeira charge num boletim do Sindicato dos Estivadores, em 1990, e permanece trabalhando para a imprensa sindical até os dias de hoje.

Com o advento da Internet, Latuff deu início ao seu ativismo artístico, produzindo desenhos copyleft para o movimento zapatista.

Após uma viagem aos territórios ocupados da Cisjordânia, em 1999, tornou-se um simpatizante da causa palestina, no contexto do conflito israelo-palestino e passou a dedicar boa parte do seu trabalho a esse tema. Tornou-se anti-sionista durante esta viagem e hoje ajuda a propagar ideais anti-sionistas.

Tem trabalhos espalhados por todo o mundo. É de sua autoria a primeira charge brasileira participante do Concurso Internacional de Caricaturas sobre o Holocausto, organizado em 2006, no Irã, pelo jornal Hamshahri em resposta às caricaturas de Maomé, publicadas na Dinamarca. O concurso deu lugar a uma exposição de 204 obras vindas de todo o mundo, no Museu de Arte Contemporânea de Teerã. Latuff obteve o segundo lugar, com um desenho que retrata um palestino em desespero diante do muro da Cisjordânia, usando o uniforme dos prisioneiros de campos de concentração nazistas. No uniforme, aparece o Crescente, um símbolo muçulmano, em vez da Estrela de David, símbolo do judaísmo, que era usada pelos prisioneiros judeus nos campos de concentração nazistas.

As grandes manifestações de protesto de 2011, que se espalharam por todo o mundo árabe - a "Primavera Árabe" -, repercutiram no trabalho de Latuff, que quase diariamente produzia charges sobre eventos associados a esses movimentos. O SCAF, a Líbia e a OTAN são alguns dos temas frequentes de seu trabalho. Seus trabalhos sobre a "Primavera Árabe" tornaram-se importantes para os povos que viveram e vivem esses acontecimentos, sendo comum encontrar reproduções de caricaturas de Latuff em cartazes exibidos nas mãos de manifestantes nas ruas, tanto no Mundo Árabe como em outras regiões do mundo, exposto pelos meios de comunicação brasileiros e internacionais. "É um trabalho autoral, mas não se trata da minha opinião. É preciso que seja útil para os manifestantes, e que eles possam usar aquilo como uma ferramenta," explica o chargista. "Charge incomoda", resume.

A Primavera Árabe representou uma verdadeira revolução no Oriente Médio, quando cidadãos egípicios começaram a se mobilizar contra o governo de Hosni Mubarak por meio das redes sociais. O cartunista brasileiro Carlos Latuff teve muitas de suas charges usadas em protestos no Egito. Segundo ele, ativistas entravam em contato com ele via twitter solicitando trabalhos para as manifestações.

Segundo Latuff, a internet ainda é uma ferramenta que pode ser usada como contraponto do que é mostrado pela mídia. "A imprensa no Egito não mostrava o que acontecia ou porque não podia, por questão censura, ou porque não queria, por ter o 'rabo preso' com o governo", afirma. As redes sociais, então, se tornaram um veículo alternativo: "Os cidadãos que tinham acesso à internet usavam twitter e facebook e colocavam lá suas reportagens. Foi por isso que o governo cortou o sinal de internet e celular por um tempo. Eles tinham controle sobre a mídia, mas não tinham sobre a internet", lembra.

Lembrado principalmente por seu ativismo político e simpatia pela causa muçulmana, principalmente pela Palestina, o cartunista brasileiro Carlos Latuff nunca escondeu ser contrário às publicações da revista 'Charlie Hebdo' sobre Maomé.

"Não acho que essas charges deveriam ser proibidas. Mas o artista deve usar o bom senso" , pondera. "Não trabalharia no Charlie. Não tenho por que fazer desenhos de Maomé sem roupa."

Ao traçar um paralelo entre o trabalho satírico na imprensa francesa e na brasileira, Latuff explica que a revista parisiense claramente provoca os fiéis, enquanto no Brasil, segundo ele, os cartunistas estão mais preocupados em fazer graça do que crítica.

Apesar de ser crítico à abordagem da revista parisiense, Latuff afirma jamais ter imaginado que a repercussão das charges tomaria proporções terroristas e afetaria o mundo inteiro.

"Fui e continuo sendo contra as charges de Maomé, mas não posso aceitar a execução sumária de quem quer que seja por causa de suas opiniões", diz.

O ataque dessa quarta (8) não foi o primeiro ataque sofrido pela revista. 'Charlie Hebdo'. Em 2011, o veículo havia sido alvo de um ataque com bomba após publicar edição sobre a religião islâmica. À época, o editor-chefe do veículo, Stéphane Charbonnier, o Charb, um dos 12 mortos no ataque, passou a sofrer ameaças de morte e desde então andava sob escolta policial. Além de Charb, os chargistas Georges Wolinski, Jean Cabut, conhecido como Cabu, e Tignous também foram mortos no ataque.

"Creio que soubessem o vespeiro onde estavam se metendo, mas não esperavam uma reação dessa proporção", diz o brasileiro.

Cartunistas, jornalistas e participantes da quarta edição do Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML) debateram no dia 23 de março, em Túnis, capital da Tunísia, a liberdade de expressão tendo como mote o atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, em janeiro, que matou 12 pessoas, das quais quatro cartunistas.

Na opinião de Latuff, o ataque ao Charlie Hebdo motivado pelas charges do profeta Maomé não tem como pano de fundo a liberdade de expressão, mas sim ao fato de o semanário francês e outros veículos na Europa incentivarem a discriminação crescente contra o islamismo no continente. “A gente precisa entender a que servem essas charges no momento em que muçulmanos e imigrantes na Europa são perseguidos. Essa discussão do contexto histórico e geopolítico não foi feita pela imprensa e pelos cartunistas”.

Para Latuff, os cartunistas devem ter bom senso e responsabilidade em seus trabalhos. “Eu não apoio a censura, mas entendo que você precisa saber a quem ou a que o seu trabalho está servindo. Não é questão de limite, mas de bom senso, de responsabilidade por aquilo que você faz. Quando você faz charges ofendendo e agredindo muçulmanos, qual o objetivo dentro de uma lógica de islamofobia na Europa em que os muçulmanos são perseguidos?”, questiona.

O jornalista do jornal satírico francês Ravi, Sébastien Boistel, destacou que não se deve colocar limites arbitrários à liberdade de expressão. “Para nós, o que efetivamente nos incomodou com as caricaturas publicadas pelo Charlie Hebdo não é propriamente o conteúdo, mas de onde a caricatura vinha. Há caricaturas que vêm de jornais da direita e da extrema-direita. Dar audiência a esse tipo de publicação para nós representa uma preocupação por retransmitir a opinião desses jornais de direita”.

Segundo Boistel, a liberdade de expressão é um direito fundamental na França e as pessoas que se sentirem ofendidas com alguma publicação podem recorrer aos tribunais. Ele lembra que o Charlie Hebdo já foi processado diversas vezes.

Para Latuff, é urgente criar alternativas de comunicação no Brasil. “Quando se tem uma mídia mais plural, tem o contraponto. É muito comum ver uma emissora de rádio ou de TV que não abre para o contraditório. Sinto muita falta de debates no Brasil, por exemplo. Isso tem a ver [com o fato] de as empresas de comunicação estarem nas mãos de famílias que têm seus próprios interesses”.

O FMML é um evento paralelo ao Fórum Social Mundial, que também ocorreu em Túnis, entre os dias 24 e 28 de março de 2015.

A conta não fecha: quando um jornal europeu acaba sendo alvo de protestos por publicar charges ofensivas ao profeta Maomé, a liberdade de expressão é invocada em defesa da publicação. “Mas quando um cartunista como eu, que não tem foco sobre o judaísmo ou questões raciais, dedica seu trabalho a expor o apartheid israelense sobre os palestinos, recebe difamação”, resume Carlos Latuff.

Esta difamação voltou à tona na virada de 2012 para 2013, quando o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Simón Wiesenthal, entidade israelense sediada em Los Angeles, colocou o cartunista na terceira posição de uma lista que aponta dez organizações ou pessoas consideradas mais antissemitas. Na tentativa de ilustrar sua posição no seu relatório, o instituto utilizou charge de Latuff que mostra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, torcendo um cadáver palestino para obter votos eleitorais.

“Não fiquei surpreso. Não é a primeira vez que acontece esta tática de associar crítica ao estado de Israel ao antissemitismo. Existe uma série de organizações nos Estados Unidos e na Europa que se dedicam a este tipo de tarefa: identificar na imprensa, na Internet, artigo e opiniões que sejam contrárias à política de Israel para expô-los como antissemitas”, lembra Latuff.

A lista do Centro Simón Wiesenthal é encabeçada por Mohammed Badie, líder da Irmandade Muçulmana (grupo islâmico), seguido por Mahmud Ahmadinejad, presidente do Irã. O terceiro nome é do cartunista brasileiro – que está, na lista, à frente do partido nazista grego, por exemplo. Nada que abale a disposição de Latuff em continuar denunciando os crimes do estado de Israel sobre os palestinos por meio de suas charges.

“Na verdade, (a lista) deixa a gente satisfeito porque mostra que o trabalho está surtindo efeito. O que lamento é a utilização do antissemitismo para fins políticos”, diz ele. Uma petição online, já assinada por mais de 450 pessoas, exige “o fim da manipulação do antissemitismo para fins políticos”.

Carlos Latuff não faz revoluções. Não pega em armas nem media conflitos. Mas o trabalho do brasileiro é parte importante nas grandes revoltas do século XXI. Seja pintado no Muro do Apartheid que cerca Jerusalém ou numa bandeira a tremular na Faixa de Gaza, os traços do cartunista dão forma a sentimentos e reivindicações de povos oprimidos mundo afora. Traços estes que se tornaram famosos principalmente por retratar histórias de lutas por liberdade e direitos sociais de povos no Oriente Médio.

Na Primavera Árabe, um dos mais célebres levantes populares dos últimos anos, era comum ver faixas, bandeiras e camisas exibindo charges do carioca, em protestos contra ditaduras enraizadas há décadas na região. No Brasil, o trabalho de Latuff retrata, diariamente, os assuntos em pauta na sociedade. Mas é a polícia brasileira, vista por ele como “brutal e corrupta”, que encabeça a lista de temas que mais geram polêmica. A crítica aos órgãos de segurança é respondida, por vezes, com ameaças de morte nas redes sociais.

E é a internet a responsável pela disseminação dos trabalhos do carioca. Grupos de rebeldes e a mídia alternativa, comumente, entram em contato com ele através das redes sociais, em busca de material para ser usado em manifestações e publicações no mundo inteiro. Apesar da repercussão mundial, Latuff ainda é pouco conhecido no Brasil. Um dos motivos é sua habitual crítica forte aos meios de comunicação em nosso país, vistos por ele como “uma grande indústria de manipulações”.

Apesar de possuir descendência árabe, Carlos Latuff afirma que seus pensamentos nada têm a ver com sua família: “Muita gente pensa que é por causa da minha origem libanesa, pelo lado da minha avó, mas não é isso. Tem a ver com a solidariedade com os povos, sejam árabes, curdos ou de qualquer outro lugar. Considero-me um internacionalista”, disse Latuff à Agência Efe. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, iniciou sua carreira trabalhando em veículos da imprensa sindical, ao fim da década de 80. Mas foi só em 1998, após tomar conhecimento do movimento zapatista no México, que o cartunista passou a desenvolver trabalhos com viés ativista em questões que envolvem lutas sociais.

Em 1999, após visitar territórios de refugiados palestinos na Cisjordânia, Carlos Latuff tornou-se simpatizante da causa Palestina, assunto que passou a ser recorrente nos trabalhos do carioca. E rendeu-lhe até um prêmio: segundo a organização judaica Simon Wiesentha, Latuff é o terceiro maior antissemita (pessoa que tem aversão a judeus) do mundo, devido a sua postura contrária à ilegal ocupação israelense em territórios palestinos. Além do posto, recebeu ameaça de morte do grupo ligado ao Likud, partido de extrema-direita de Israel.































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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Quando panela de rico bate, panela de pobre esvazia (Por Thiago Muniz)

Rico não se manifesta no interesse dos de baixo. Essa classe social tão barulhenta não quer ver mais pobres em aeroportos ou universidades, quer ver menos. Tem ojeriza ao povo.

É incrível como, no Brasil, basta rico soltar um peido que o país para.

Na noite da última terça-feira, um bando de moradores de bairros “nobres” de algumas capitais combinou pela internet de fazer um “panelaço” durante o programa partidário do PT, garantido ao partido e aos seus simpatizantes, militantes e eleitores pela Carta Magna. Esse protesto, impossível de quantificar, foi parar no Jornal Nacional.

Segundo o insuspeito Estadão, em São Paulo as panelas soaram em “bairros nobres, como Higienópolis, Jardins, Perdizes, Bela Vista, Tatuapé, Vila Romana, Ipiranga, Morumbi, Pinheiros, Praça da Árvore, Vila Mariana, Pompéia e Itaim Bibi.

Por aí dá para se ter uma ideia de quão poucos cidadãos – que mal sabem onde fica a cozinha de seus imensos apartamentos – fizeram essa manifestação de egoísmo contra um partido cuja obra social marcou tanto este país que o mesmo partido já elegeu QUATRO presidentes da República em sequência.

No Rio, os “panelaços” também se reduziram a bairros “nobres” da Zona Sul, como Copacabana, Leme, Lagoa, Ipanema e Botafogo. Já em bairros populares da Zona Norte, como o Grajaú, algum desavisado que aderiu às manifestações da elite ouviu de volta gritos em favor de Lula – sempre segundo o Estadão.

Lula não se elegeu em 2002, reelegeu-se em 2006, elegeu a sucessora em 2010 e esta reelegeu-se em 2014 à toa. Sim, claro que Dilma Rousseff perdeu popularidade, mas esse fenômeno decorre do medo do terrorismo econômico – que conseguiu prejudicar a economia – e, tão logo a economia entre nos eixos, as coisas irão mudar.

A menos que a sabotagem continue e alcance seu objetivo, claro. Mas sabotar a economia é um jogo que a elite pode jogar por um tempo, mas que não irá jogar mais quando a água começar a lhe bater na bunda.

O mesmo aconteceu em outras capitais, segundo o Estadão. Em Florianópolis e Porto Alegre o jornal também relata que o “panelaço” ficou mesmo lá nos bairros de rico.

Por que rico protesta contra o PT? Não é por medo do terrorismo econômico. Eles sabem que não estão perdendo nada. O problema dessa gente é aturar pobre em aeroporto, shoppings, universidades e até, ousadia das ousadias, em restaurantes e casas noturnas da moda.

Precisa ser cego e surdo para dizer que não sabe quanto as pessoas mais pobres melhoraram de vida desde 2003. As lojas estão cheias de pobres comprando celulares, televisões de última geração; o desemprego, mesmo tendo subido um pouco, ainda é um dos mais baixos da história; a quantidade de universitários praticamente dobrou nos últimos 12 anos…

Mas boa parte dessas pessoas está com medo. A inabilidade do governo ao promover o ajuste fiscal soou mal e conferiu verossimilhança a uma cantilena sobre desastre econômico que vinha sendo martelada havia anos, mas todos os analistas mais importantes – incluindo aí FMI, Banco Mundial e agências de classificação de risco – preveem melhora a partir do ano que vem.

Então por que os ricos batem panela? Por que atacam um ex-presidente que, segundo o Datafolha, não só melhorou a vida da imensa maioria como também é considerado por essa maioria como o melhor presidente da história?

É oportunismo, caro leitor. O PSDB, freguês do PT há quatro eleições presidenciais seguidas, quer obter lucro eleitoral enquanto pode, por isso estimula um grupelho de endinheirados de bairros “nobres” a servir de massa de manobra. Gente preconceituosa, elitista, que acha que se tirar os benefícios do pobre elegendo um governante pró ricos, vai sair ganhando.

Não vai. Este país está à beira de uma convulsão social há muito tempo. Só ainda não ocorreu de o morro descer para o asfalto para cobrar a nossa descomunal dívida social graças a alguém que essa elite cretina execra. Ele mesmo, Lula.

Se não fosse a distensão social promovida pelos governos do PT a partir de 2003, essa gente que bate panela para tirar direitos e oportunidades de pobre talvez nem estivesse aqui para contar a história, pois se – ou quando – o morro descer, vai cobrar a dívida social à bala.

Essa história de rico bater panela quando pobre melhora de vida, vem de longe. Faz algum tempo, a Folha de São Paulo publicou reportagem muito interessante que mostra que essa forma de protestar foi criada no Chile no estertor do governo Salvador Allende, pouco antes de Pinochet dar o golpe.

O resultado daquilo todo mundo conhece.

Rico escolheu um jeito esdrúxulo de se manifestar politicamente. O ato de bater panelas sugere protesto contra a fome, que foi justamente o que os governos do PT combateram. E que tanto desagradou aos paneleiros.

Quando rico bate panela para defender seus interesses políticos, pobre ou remediado deve abrir o olho. Rico não se manifesta no interesse dos de baixo. Essa classe social tão barulhenta não quer ver mais pobres em aeroportos ou universidades, quer ver menos. Tem ojeriza ao povo. Não entre no jogo de uma gente que tanto mal já fez ao Brasil.

Estou a ver televisão, quando é anunciado o programa político do Partido dos Trabalhadores. De repente, alguns vizinhos do prédio onde moro e dos edifícios circunvizinhos começam a bater em panelas, frigideiras, fôrmas, caçarolas e tambores. Sim... Tambores? Afinal, trata-se da tribo dos coxinhas paneleiros, que remonta, por intermédio do som de um batuque mequetrefe e desprovido de ritmo e harmonia, as origens e os sentimentos mais antigos da humanidade — os mais ferozes e inconfessáveis.

Reacionários e rancorosos em crise de identidade, porque portadores de uma depressão psicossocial sem precedentes, os coxinhas paneleiros, moradores dos bairros de classe média, média alta e ricos nunca passaram fome na vida e, ignorantes, não percebem o quão ridículo é bater em panelas, um símbolo de protesto dos povos latino-americanos reprimidos pelas ditaduras ou pelos pobres, que ocupavam as praças, a realizar os "panelaços", porque realmente sentiam fome. Uma fome generalizada até os idos da década de 1990, quando a América do Sul, por exemplo, foi varrida em sua dignidade por causa de presidentes ou mandatários neoliberais que conquistaram o poder e "ferraram" com seus povos e países, a exemplo de FHC — o Neoliberal I.

Agora e neste momento, os coxinhas batuqueiros de panelas estão a demonstrar uma profunda depressão cívica, que contamina seus humores e cérebros, que não conseguem ao menos debater o País e perceber, inclusive, que suas vidas melhoraram de forma real, na prática e no dia a dia. Porém, a vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves causou um pânico e inconformismo a essa gente fútil e deslumbrada, que sonha em ter ascensão social para frequentar a classe A. Este é o sonho "dourado" de nove entre dez coxinhas ritmistas de panelas de marca e que reluzem como as luzes da ribalta de suas lindas salas refrigeradas e repletas de quadros, abajures e candelabros.

Trata-se da depressão da "coxada", que se sente profundamente traída pelos governos petistas por ver empregados braçais, gente de origem humilde e trabalhadores em geral a ocupar os espaços públicos e alguns privados até então destinados "somente" para a pequena burguesia de temperamento feroz e intolerante, ao ponto de mandar a educação às favas, além de xingar e vociferar contra tudo e todos, com palavrões e palavras ríspidas as pessoas que não compartilham com suas concepções políticas e ideológicas notadamente ridículas, pueris, sectárias, provincianas, racistas, que formam o conjunto de seus preconceitos e violências.

Lamentável é a ignorância social e histórica dessa gente de alma pequena, mas mesquinhez e insensatez gigantescas, bem como se apresenta em forma de desfaçatez e infâmia o analfabetismo político desse grupo social aliado dos interesses dos ricos e dos muito ricos. Coxinhas paneleiros encolerizados, donos de bons empregos, que viajam e compram o que desejam, passam a bramar e a esbravejar com a barriga cheia de comida e bebida, mas os cérebros vazios de ideias, de conhecimento, de generosidade e sensatez. Trata-se do dantesco em toda a plenitude de sua estupidez.

Enquanto isto, a imprensa burguesa, leviana e venal, fonte de informação preferida dos coxinhas paneleiros que conhecem Miami e desconhecem as realidades do Brasil e de seu povo, fica a cantar loas e boas a um panelaço promovido por burgueses e pequeno burgueses, nos melhores bairros das capitais do País, como se fosse um protesto do povo brasileiro, que votou em Dilma e não em Aécio Neves, candidato da direita, das oligarquias e dos coxinhas paneleiros de classe média, que jamais vão ser ricos e, consequentemente, não frequentarão os saraus, a comezaina, os regabofes e a papança dos ricos e dos muito ricos. É melhor os pais coxinhas avisarem seus filhos coxinhas sobre esta dura, porém, verdadeira realidade. Coitados...

A verdade é a seguinte: os coxinhas paneleiros de péssimo ritmo e harmonia estão cagando e andando para a corrupção e para "tudo o que está aí". Se estivessem, eles iriam bater tanto nas panelas, que não sobrariam mais tão importantes objetos no mercado consumidor. Afinal, e imaginem, se tais coxinhas revoltados resolvessem ter, enfim, uma pauta séria de reivindicações e exigissem à base da porrada em panelas a investigação, a denúncia, a acusação, o julgamento e a prisão de todos os corruptos, inclusive da oposição, leia-se PSDB, DEM, PPS(PSB), PRO, SD etc., além de empresários de outros setores da economia, que não sejam apenas da construção civil, a exemplo dos magnatas bilionários de imprensa, que estão nas listas dos escândalos HSBC e Zelotes.


Imagine os coxinhas paneleiros de janelas e varandas, seres humanos(?) completamente despolitizados e que viajam todo o dia na maionese, exigir com porradas em panelas, que antes estavam abarrotadas de comida boa e saborosa, a prisão dos responsáveis pelos roubos da Lista de Furnas, do Banestado, do Trensalão, do Metrozão, do maior roubo do mundo: a Privataria Tucana, do Mensalão Tucano, da sonegação da Rede Globo referente à Copa do Mundo de 2002, dentre inúmeros casos, acusações e denúncias, que a PGR, o MP, o STF, a Receita, a PF resolveram congelar. Só não me perguntem se essas instituições fazem política ou se aliaram à oposição aos Governos do PT. O que você acha, cara pálida?

Então, se já imaginou, imagine também se os coxinhas paneleiros, cujas "revoltas" são, sobretudo, seletivas, resolvessem acabar com os fundos de suas panelas porque estão "putos" da vida com a Lei da Terceirização, que prejudica a classe trabalhadora, com os aeroportos construídos em fazendas de parentes de Aécio Neves, com o massacre dos professores do Paraná, com a falta de água e de planejamento do governo de São Paulo, à frente o governador tucano Geraldo Alckmin, ou com a dengue que infestou o estado bandeirante, o mais industrializado do País, cujo povo está a ser comido por mosquitos, que lhes dão em troca dor e febre.

Não. De forma alguma. E a reforma política? Os coxinhas berram por ela nas ruas, mesmo sabendo que o financiamento privado de campanhas é o maior responsável pela corrupção, como informa, inapelavelmente, o noticiário sobre os escândalos? A resposta é um sonoro não! Os coxinhas paneleiros são reacionários e amargurados, quiçá, violentos. Apostam no atraso e no retrocesso e só faltam gritar, a pleno pulmões, "Mamãe, eu quero o meu Brasil sectário e elitista de volta!", para logo complementar: "Eu quero a minha universidade pública, o meu bairro, o meu aeroporto e aviões, o meu shopping, o meu cinema, bar e restaurante, a minha loja de eletroeletrônicos e de carros de volta, porque somente eu e os meus podem usufruir das coisas boas da vida!"

Por fim, o revoltado coxinha paneleiro e seletivo dá um altissonante rugido: "Eu não quero — acredite, é sincero e pra valer o preconceito enraizado e a hipocrisia que sinto — ver a minha empregada doméstica, o meu mecânico e o meu porteiro em Paris, Miami, Londres e Nova York. Tudo, menos isto. Do contrário, prefiro a morte!" E assim segue o Brasil, que, em 2018, vai realizar outra eleição presidencial. Os coxinhas das "revoltas" seletivas ainda vão bater muito em suas panelas chiques e de grife. O melhor a fazer é entrar em uma escola de samba ou bloco carnavalesco e treinar a batucada. Ou usar as panelas para cozinhar. É isso aí.

Que batam panelas até furar.

Para além de 2018!

Não desistam… O Brasil é grande. Cabe até paneleiro ignorante nesse país.

Somos generosos com a ignorância de vocês.

Mas não se equivoquem: panela não é urna, respeitem meu voto!

Golpe nunca mais!

Viva a Democracia!



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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

terça-feira, 5 de maio de 2015

1968: o ano que não acabou e não acabará (Por Thiago Muniz)

“Foi um ano muito especial. Um momento de uma sintonia mágica, misteriosa. [...] Achava que se podia mudar tudo através da ruptura, da revolução. A ironia da história é que eles [os jovens] não fizeram a revolução política, mas acabaram fazendo a revolução cultural”.

(Zuenir Ventura em entrevista à Revista Época em 2008)

Sinônimo de rebeldia e contestação, 1968 destacou-se numa década de transformações. ''É proibido proibir'' e ''paz e amor'' foram palavras de ordem de uma geração, nascida em plena Guerra Fria, que viveu os ''anos rebeldes''.

Na França, os estudantes protestaram contra as reformas educacionais, mas pediram também maior liberdade, criticando o conservadorismo. A repressão do governo gerou em maio as famosas ''barricadas do desejo'', particularizadas por unir estudantes e trabalhadores, que organizaram uma greve geral.

Acordos trabalhistas, férias e violência esvaziaram o movimento. Em junho, eleições gerais reafirmaram a força do presidente, o general De Gaulle, mas o exemplo francês se espalhou. Na então Tchecoslováquia, desde o início do ano, reformas pretendiam modernizar a economia e transformar o papel do Estado. Com apoio de intelectuais, operários e estudantes, o presidente Dubcek buscou uma via própria e mais humanizada de socialismo.

Esse reformismo encontrou na URSS de Brejnev o maior opositor. A fim de manter sua hegemonia no Leste Europeu, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram o país. Terminava a ''Primavera de Praga'' sob repressão, mas os tchecos responderam com indiferença. Um grafite simbolizava isso nos muros da capital: ''Circo russo na cidade: não alimentem os animais''.

Nos EUA, os jovens aumentaram os protestos contra a participação na Guerra do Vietnã. A comunidade negra, frustrada com o assassinato do líder pacifista Martin Luther King, viu adiado seu grande ''sonho''. Os radicais ganharam espaço -Panteras Negras, Malcom X- e a questão racial continuou em aberto.

A utopia de liberdade e felicidade em 68, no socialismo ou no capitalismo, provam que o ''ano não terminou''.

Manifestações estudantis em Paris, movimentos antiguerra nos Estados Unidos, a utopia pela democracia em Praga, a luta pelo fim da ditadura no Brasil. Depois de 1968, o mundo nunca mais foi o mesmo e, embora nada tenha ocorrido da forma esperada, seus efeitos são sentidos até hoje

Se o século 20, o mais movimentado da história, teve um ponto em torno do qual transformações se concentraram como um enxame, esse momento foi certamente 1968. Foram, acima de tudo, 12 meses de ruptura.

No planeta todo, muitos estavam empolgados (outros, horrorizados) com a perspectiva de questionar heranças antigas e sagradas: patriotismo, coragem militar, estrutura social e familiar, lealdades ideológicas e legados culturais. Os que se deixaram levar pelo entusiasmo daquele ano sentiam que, enquanto um mundo morria, outro estava nascendo. E queriam de toda forma estar entre os parteiros.

O que eles não perceberam de cara, no entanto, é que nem todas as mudanças radicais estavam ao alcance da mão. Embora as relações raciais e sexuais, a situação da mulher, a cultura e a guerra nunca mais fossem as mesmas depois de 1968, o saldo desse ano amalucado não foi propriamente uma revolução, mas uma divisão – um abismo que talvez ainda separe as pessoas em dois campos difíceis de reconciliar.

“O mundo inteiro está vendo!” A chave para entender por que 1968 foi tão singular talvez apareça nesse slogan, gritado pelos estudantes americanos que apanhavam da polícia de Chicago durante a convenção do Partido Democrata na cidade.

O escritor americano Mark Kurlansky, autor de 1968 – O Ano Que Abalou o Mundo, aponta que, pela primeira vez na história, os meios de comunicação interligavam o planeta inteiro via satélite, ao vivo. Muitos governos viam a sucessão de protestos e rebeliões como prova de uma conspiração internacional. A explicação verdadeira para a sincronia, porém, era bem mais simples: os manifestantes tinham ficado sabendo uns dos outros pela TV.

A televisão, no entanto, era só um catalisador, diz Kurlansky. “Se eu tivesse que escolher um único fator como aquele que influenciou a geração de 1968, seria a Segunda Guerra Mundial, a qual, por sua vez, gerou a Guerra Fria”, diz. “Minha geração rejeitou a visão de um mundo dividido por duas superpotências armadas até os dentes.

Isso significa que 1968 foi diferente de 1967 ou 1969 por representar um crescendo dramático de acontecimentos, que começaram antes desse ano e continuaram depois dele.” Sua geração era a dos baby-boomers, jovens nascidos após o fim da Segunda Guerra, na maior explosão demográfica já ocorrida no Ocidente (o baby boom). Seus filhos – 75 milhões de pessoas só nos Estados Unidos – beneficiaram-se da prosperidade econômica nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, tornando-se a geração mais bem educada e rica de seus países natais.

Nunca tantos jovens tinham ido parar na universidade de uma vez só. Possuíam, portanto, condições ideais para consumir novos tipos de cultura de massa, formação para discutir política e interesse em levar uma vida diferente da de seus pais.

Como diz o jornalista Zuenir Ventura em seu livro 1968 – O Que Fizemos de Nós, é possível que no século 20 tenha havido outro ano igual ou mais importante que 1968. Mas nenhum foi tão discutido. Nas próximas páginas, os eventos mais marcantes do ano e a análise de especialistas sobre suas conseqüências no mundo atual.

30 de Janeiro

Hora de parar: Com a Ofensiva do Tet, americanos exigem o fim da Guerra do Vietnã


Pode-se dizer que 1968 começou para valer nos Estados Unidos em 30 de janeiro. A data marca o Tet, o início do Ano Novo lunar vietnamita, escolhido pelos guerrilheiros comunistas viet-congues para o início de uma ofensiva suicida contra o Vietnã do Sul e seu aliado ocidental, os Estados Unidos.

Com apenas 70 mil soldados (contra meio milhão de homens só entre as forças americanas), os vietcongues invadiram a embaixada americana em Saigon e ocuparam dezenas de cidades em nome do Vietnã do Norte, controlado pelos comunistas – ao todo, os ataques vietcongues atingiram 36 cidades do sul do Vietnã entre 30 de janeiro de 1968 e junho do ano seguinte. A embaixada dos Estados Unidos foi retomada depois de um combate curto, mas bastante sangrento.

Como o poder bélico americano era infinitamente mais forte do que o dos comunistas, as cidades ocupadas foram retomadas em poucos dias. O Vietnã do Norte operava uma guerra de guerrilha, com ataques-surpresa e túneis subterrâneos, por onde os vietcongues movimentavam-se e transportavam materiais sem serem notados. Muitos soldados usavam nos combates facas caseiras, mas a China e a União Soviética, que apoiavam os comunistas, providenciaram também para os guerrilheiros submetralhadoras AK-47 e mísseis com capacidade para derrubar helicópteros.

Após a Ofensiva do Tet, os viet-congues perderam tantos homens que, na prática, deixaram de existir como força de combate independente. Não que isso tenha importado muito: a ofensiva foi, para os comunistas, uma vitória de propaganda estrondosa.

A imprensa ocidental mostrou soldados americanos com aparência desorientada, morrendo aos montes, além de revelar imagens chocantes de guerrilheiros capturados e desarmados sendo mortos com tiros na cabeça. Foi o suficiente para que o movimento contra a guerra ganhasse força. Por isso, a Ofensiva de Tet é considerada pelos especialistas o começo da derrota americana na Guerra do Vietnã.

O início do movimento que culminou nos protestos antiguerra nos Estados Unidos foi pequeno, tímido, apoiando-se na base da esquerda do fim dos anos 50 e começo dos 60, que incluía os movimentos pelos direitos civis e trabalhistas. Isso significa que, quando amadureceu, a coalizão antiguerra passou a incluir os grupos que defendiam igualdade racial e justiça social (não por acaso, já que americanos negros e pobres eram os mais atingidos pelo recrutamento compulsório para o Vietnã), bem como estudantes universitários que atingiam a idade militar.

Alguns especialistas acreditam que a oposição maciça dos jovens à guerra também possa ter vindo de uma sensação generalizada de impotência. As instituições nas quais a juventude estava inserida (como universidades, igrejas e até mesmo locais de trabalho) eram muito mais hierarquizadas do que atualmente. A idade mínima para votar nas eleições dos Estados Unidos, por exemplo, era de 21 anos (só cairia para 18 em 1971), embora com três anos menos os jovens de sexo masculino já estivessem aptos a lutar na guerra.

A oposição à luta no Vietnã mobilizou os campi das principais universidades do país, levando à invasão de prédios e ao cerco a instalações universitárias que faziam pesquisa militar. Alguns jovens em idade de servir às Forças Armadas preferiam ir para a cadeia a serem mandados para o Sudeste Asiático, enquanto outros se dispunham a cruzar a fronteira canadense para escapar – muitos deles acabariam tornando-se cidadãos canadenses e nunca mais voltariam aos Estados Unidos.

Os mais extremistas passaram a ver os vietnamitas como heróis e a demonizar as forças americanas, pintadas como assassinas imperialistas. Os manifestantes gritavam slogans nos protestos com rimas: “Hell, no, we won’t go!” (Diabos, não, nós não vamos!) ou “Ho, Ho, Ho Chi Minh, NLF is gonna win” (Ho, Ho, Ho Chi Minh, os vietcongues vão vencer), referido-se a Ho Chi Minh, o líder dos comunistas.

Após a Ofensiva do Tet, as forças americanas, sentindo-se acuadas por um inimigo que parecia suicida ao extremo, acabaram também perdendo o autocontrole em várias ocasiões, atacando sem remorso a população civil do país. A mais emblemática dessas explosões foi o massacre de My Lai, em que 504 aldeões do vilarejo de mesmo nome, mesmo desarmados e sem abrigar guerrilheiros, foram mortos a sangue frio por ordem expressa de oficiais americanos. Episódios assim só faziam a antipatia da população em relação ao conflito crescer.

Os Estados Unidos só sairiam da guerra travada no Sudeste Asiático em 1973, após anos de conflito entre manifestantes e a polícia e dezenas de milhares de mortes de soldados dos dois lados (a Guerra do Vietnã, porém, acabaria mesmo dois anos mais tarde). Também em 1973, os americanos acabaram com a convocação compulsória para o serviço militar e transformaram suas Forças Armadas numa estrutura totalmente voluntária.

Assim, de uma vez só, o governo americano atendeu às demandas do movimento antiguerra e enfraqueceu a futura oposição interna a conflitos, já que os universitários americanos de classe média não eram mais forçados a participar deles. Muitos pesquisadores acreditam que esse tenha sido provavelmente o principal motivo pelo qual não há uma oposição de massa contra a guerra no Iraque hoje.

Post-scriptum: Desilusão com as instituições

"A Ofensiva do Tet teve um impacto importante na opinião pública americana – foi vista (e continua sendo) como o começo da virada. O episódio convenceu muitos moderados de que a guerra era invencível. Era a hora de questionar os relatórios oficiais do governo sobre a guerra. A falta de confiança no governo não provocou – mas certamente ampliou – a tendência ao ceticismo e à desilusão com as instituições do Estado que caracteriza tanto a esquerda quanto a direita americanas até hoje. Está absolutamente claro que o fim da Guerra do Vietnã mudou substancialmente a imagem dos militares pelos americanos, assim como as relações entre os cidadãos e as Forças Armadas. Os militares passaram a não mais refletir os valores culturais dos Estados Unidos como um todo, tornando-se muito mais cristãos e muito mais republicanos que o resto do país. Os participantes dos movimentos antiguerra trilharam caminhos diferentes. Os da esquerda ficaram mais pacifistas. Os moderados aprenderam a evitar intervenções internacionais. Já os conservadores concluíram que essa postura poderia enfraquecer e limitar a habilidade dos militares de agir no exterior e caminharam no sentido de isolar o militarismo da opinião pública."

Chris Capozzola é historiador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e especialista em Guerra do Vietnã.

4 de Abril

Morte do herói: Sem Martin Luther King, movimento negro americano ficou menos pacifista


Depois de hesitar muito, o maior líder negro americano, Martin Luther King, abraçara a luta contra a Guerra do Vietnã. A causa da dúvida era o medo de que os negros americanos fossem acusados de antipatrióticos. Sobre o conflito, King dissera: “Precisamos deixar claro que não toleraremos mais, não votaremos mais em homens que continuam a considerar as mortes de vietnamitas e americanos como a melhor maneira de promover a liberdade e a autodeterminação no Sudeste Asiático”.

A luta dele contra o racismo começara havia mais de 15 anos. Já nos anos 50 o pastor batista estava engajado em movimentos pelos direitos dos negros. Em sua trajetória, elaborou discursos belíssimos e conseguiu que fosse aprovada a Lei dos Direitos Civis (em 1963), que transformava a legislação segregacionista americana em algo inconstitucional, e, em 1965, que os negros tivessem direito ao voto. Ao mesmo tempo, recebia ameaças de morte, era perseguido pelo FBI e sofria de depressão.

Em 1965, King já tentara se engajar na luta pelo fim da Guerra do Vietnã, mas foi atacado por amigos e oposição, que não queriam que ele se metesse nessa briga. Mas, em 1968, King combinou a luta contra o racismo com o ativismo contra a guerra e as desigualdades sociais. O pastor tinha ido para Memphis, no Tennessee, em 4 de abril, para apoiar uma greve de lixeiros. Desiludido com o sonho de um país mais justo e com direitos iguais, começou a escrever o discurso “Por que a América deve ir para o inferno”. Com o sermão inacabado, conversava na sacada do Lorraine Motel quando levou um tiro no pescoço, às 18h01. Morreu uma hora depois, no hospital. O assassino, o branco James Earl Ray, foi preso dois meses depois, mas o crime nunca foi esclarecido.

O movimento que tinha em Martin Luther King Jr. seu grande ídolo já estava rachando havia pelo menos dois anos. Outros líderes, como Stokely Carmichael, um intelectual radical nascido em Trinidad e Tobago, estavam falando em “Poder Negro” e estruturando o grupo rebelde dos Panteras Negras, deixando de lado a ideologia não-violenta do pastor King e buscando o confronto com o governo e com os brancos. “Agora que levaram o doutor King, está na hora de acabar com essa merda de não-violência”, desabafou Carmichael, depois daquele 4 de abril.

Os líderes dos Panteras Negras não pegavam leve. Os mais moderados exigiam o ensino da história dos negros americanos e de suas lutas políticas em escolas e universidades. Os radicais defendiam uma espécie de nacionalismo negro, no qual os afro-americanos tomavam o poder que lhes havia sido negado – embora ninguém dissesse exatamente qual “Estado” seria criado no lugar dos Estados Unidos “branco”.

Nessa onda de radicalismo, os defensores do Poder Negro tentavam encontrar a arte, a moda e até os cortes de cabelo genuinamente africanos. Ao lado dessas preocupações quase sempre inofensivas, alguns intelectuais do movimento defendiam a criação de organizações paramilitares e até o estupro de mulheres brancas (uma forma de revidar os séculos de dominação sexual exercida pelos homens brancos sobre mulheres negras). Ao mesmo tempo, os Panteras Negras exigiam que os afro-americanos ficassem isentos do serviço militar – afinal, não teriam razões para lutar por um país que os oprimia. É claro que os recrutadores não engoliram a idéia.

Apesar dos confrontos raciais que se seguiram em muitas das principais cidades americanas, e da repressão muitas vezes brutal da polícia, a ação de Martin Luther King e seus companheiros acabou revertendo de vez a segregação racial institucionalizada nos Estados Unidos. A política de ação afirmativa nas universidades criou uma classe média negra relativamente rica e poderosa. Embora haja tensão racial difusa nas grandes metrópoles americanas, pode-se dizer que é graças aos acontecimentos de 1968 que o negro Barack Obama é hoje um dos principais candidatos a presidente dos Estados Unidos.

Convenções Desafiadas
Fatos que marcaram a cultura em 1968

• Jimi Hendrix lança, em 10 de janeiro, seu segundo disco, Axis: Bold as Love

• Na Índia, em fevereiro, os Beatles encontram Maharishi Mahesh Yogi e popularizam a técnica da meditação

• Em 6 de abril, Stanley Kubrick lança o clássico da ficção científica 2001, Uma Odisséia no Espaço

• Também em abril estréia o musical hippie Hair, na Brodway, com nudez e apologia às drogas

• Em maio, estréia no Brasil O Bandido da Luz Vermelha, marco do cinema marginal

• Após recusar um roteiro da feminista Valerie Solanas, Andy Warhol leva um tiro dela e é internado

• Em julho, radicais de direita espancam atores da peça Roda Viva, de Chico Buarque

• No mesmo mês, chega ao mercado o disco Tropicália ou Panis et Circensis, com uma mistura de ritmos

• Em 7 de setembro, mulheres protestam em pleno concurso de Miss Estados Unidos

• Em setembro, Geraldo Vandré é preso após cantar “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” no Festival Internacional da Canção da TV Globo

• Ainda no mesmo mês, Caetano Veloso é vaiado no Festival ao cantar “É Proibido Proibir” e diz que o povo não estava entendendo nada

• Estranhamente, os Beatles e seu White Album, lançado em novembro, pediam moderação

Post-scriptum: Inspiração para mudanças radicais

"1968 foi um ano em que uma geração de estudantes e trabalhadores nascidos durante e imediatamente após a Segunda Guerra desafiaram o status quo no mundo da Guerra Fria – particularmente as universidades, a polícia e o Exército. Estudantes negros abraçaram o orgulho racial e figuras separatistas ou militantes anti-racismo como Malcolm X e Martin Luther King. A geração de 68 que hoje ocupa importantes cargos em universidades, governos, partidos políticos, literatura e indústria do entretenimento seria provavelmente muito menos inspirada a devotar suas vidas e seus sonhos a mudanças radicais se 1968 não tivesse existido. O assassinato de Martin Luther King foi um colapso terrível. Ele era um homem carismático, indiscutivelmente um dos líderes mais radicais que vimos no século 20. A desilusão que se seguiu a sua morte causou danos incalculáveis às esperanças que aquela geração tinha de ver tempos melhores. Hoje, Barack Obama é apresentado como representante da nova geração e daqueles que desejam transcender as ácidas divisões raciais, culturais e políticas que herdamos dos anos 60 – divisões que Reagan e os Bush exploraram para desacreditar o liberalismo e as questões raciais daquela década. Mas eu acredito que o apelo de Obama é estruturado em alguns daqueles grandes desejos de 1968, apesar de ele expressá-los em termos muito patrióticos – termos que eram rejeitados em 1968."

James Green é historiador da Universidade de Yale especializado em movimentos civis da década de 1960.

15 de Maio

Barricadas francesas: Manifestações estudantis de maio pretendiam tirar De Gaulle do poder


Charles de Gaulle, o presidente da França na época, deve ter mordido a língua infinitas vezes depois de declarar “saúdo o ano de 1968 com serenidade” em seu discurso de Ano Novo à nação. Serenidade era tudo o que a França não teria naquele ano. As manifestações no país começaram já em janeiro por motivos relativamente banais, ligados à falta de voz dos estudantes nas universidades e à exigência de dormitórios mistos na Universidade de Nanterre, no subúrbio de Paris. No entanto, a reação brutal da polícia aos protestos fez os universitários ficarem cada vez mais irredutíveis, sob a batuta de líderes como Daniel Cohn-Bendit, ou “Dany, o Vermelho” (por causa do cabelo ruivo, já que ele estava longe de ser comunista).

Cohn-Bendit dominava dois grandes talentos da geração de 1968: língua afiada e respeito zero pela autoridade. Em um dos primeiros protestos, teria pedido ao ministro da Juventude, enviado ao local para negociar com os estudantes, que acendesse seu cigarro. Em seguida, disparou: “Senhor ministro, li seu informe sobre a juventude. Em 300 páginas, não há uma só palavra sobre questões sexuais”. O ministro, tentando ser divertido, respondeu que não era de admirar que um sujeito feio como Dany estivesse preocupado com essas coisas. A tréplica veio fulminante: “Ora, aí está uma resposta digna do ministro da Juventude de Hitler”.

Esse era o estilo de Cohn-Bendit e companhia, que, mais do que apenas reivindicações políticas, queriam que a conservadora sociedade francesa fosse renovada de cima a baixo. Não é à toa que os rebeldes franceses de 1968 estão entre os melhores criadores de slogans revolucionários da história. Entre eles: “Decreto um permanente estado de felicidade”, “Sou marxista da facção do Groucho” (em referência ao comediante Groucho Marx, e não ao filósofo e crítico ferrenho do capitalismo Karl Marx), “A imaginação toma o poder”. Uma pichação famosa da época mostra a sombra de Charles de Gaulle amordaçando um rapaz, com os dizeres: “Seja jovem e cale a boca”.

No mês de maio as coisas ficaram mais pesadas. Em poucos dias, as exigências dos estudantes passaram a encampar a renúncia de Charles de Gaulle (que representava a França conservadora odiada por eles) e eleições gerais. Dia após dia, Paris era palco de combates intermitentes entre a polícia e os manifestantes, armados de pedras – quase todas retiradas do calçamento do charmoso bairro estudantil, o Quartier Latin – e coquetéis molotov. Barricadas eram preparadas diariamente nas ruas, atrás das quais os manifestantes se entrincheiravam. Num dos episódios mais violentos, na noite de 24 de maio, a polícia respondeu às pedradas com bombas de gás lacrimogênio e muita pancadaria.

Os conflitos trouxeram à tona algumas das piores divisões internas da França, como o fantasma do anti-semitismo. Cohn-Bendit e outros líderes revoltosos eram judeus. O primeiro teve de ouvir de um policial: “Amiguinho, você vai pagar. Uma pena não ter morrido em Auschwitz com seus pais, porque isso nos livraria do aborrecimento de fazer o que faremos agora”.

Uma greve geral em apoio aos estudantes, iniciada em 18 de maio, levou cerca de 10 milhões de pessoas a cruzarem os braços por três dias – nenhuma revolta juntou tanta gente na história. O presidente francês chegou a se refugiar numa base militar na Alemanha, mas retomou o controle ao oferecer um aumento de 35% no salário mínimo (um bom jeito de fazer os operários abandonarem os estudantes) e convocar eleições legislativas gerais às pressas. “Os operários e os estudantes, no fundo, nunca estiveram juntos”, disse mais tarde Cohn-Bendit. “Os operários queriam uma reforma radical das fábricas. Os estudantes queriam uma mudança radical de vida.”

Nas eleições organizadas por Charles de Gaulle, os partidários do presidente, visto no fim das contas como alguém que conseguira restabelecer a paz, acabaram vencendo – e os protestos estudantis, assim, se esgotaram, com as últimas universidades desocupadas pelos manifestantes em meados de junho. Muitos dos estudantes foram imediatamente convidados a escrever livros relatando sua breve experiência revolucionária. Cohn-Bendit, que tinha dupla nacionalidade (francesa e alemã), foi expulso do país e mudou-se para a Alemanha. Só teve permissão para voltar à França dez anos mais tarde.

Post-scriptum: Não existe um pensamento único

"Não há um pensamento de Maio de 68, mas uma nebulosa de correntes. A crítica de 68 se deslocou em três vertentes intelectuais e políticas. A primeira é a do retorno do liberalismo, que se desenvolveu no fim dos anos 70. Mas as duas correntes liberais na França são opostas a 68. De um lado, há uma corrente liberal libertária, cujo discurso, em geral, diz que em 68 há um certo número de coisas a recuperar: a fragilização de formas verticais de autoridade, o enfraquecimento do Estado central, a crítica do gaulismo. Uma outra linha neoconservadora, muito mais crítica frente a Maio de 68, é mais ligada ao quadro tradicional da sociedade. Houve ainda uma crítica forte do Partido Comunista Francês, visando não o movimento operário de 68, mas sim contra o 68 estudantil. Além disso, no ano passado Daniel Cohn-Bendit fez comentários após declarações do então candidato à presidência Nicolas Sarkozy, que criticou o movimento. Cohn-Bendit cometeu uma falta política ao dizer que passear no iate de um magnata e desfilar com uma top model (a mulher de Sarkozy, a terceira, é ex-modelo e cantora) seria um comportamento da geração de 68. Esse é o discurso anti-68, o mais tolo. Porque não creio que o ideal de Maio de 68 é o de se exibir ao lado de uma modelo."

Serge Audier é mestre em Filosofia Moral e Política na Universidade de Sorbonne e autor do livro La Pensée Anti-68 (“O pensamento anti-68”, inédito em português).

5 de Junho

Carisma nas eleições: Assassinato do senador Robert Kennedy levou conservador Nixon à presidência


Época de eleições presidenciais nos Estados Unidos. O ocupante da Casa Branca, Lyndon Johnson, do Partido Democrata, era o favorito até anunciar, em 31 de março, que não tentaria a reeleição. As primárias democratas viraram, então, um duelo entre dois candidatos contra a Guerra do Vietnã: o cerebral Eugene McCarthy e o carismático senador Robert Kennedy, irmão do presidente assassinado John Kennedy.

Além da mítica dos Kennedy, Bobby tinha a seu lado um programa reformista que, ao menos como promessa de campanha, encampava exigências do movimento negro e dava prioridade à população carente e ao ataque à desigualdade social. Era um católico fervoroso que levava a proibição do uso de anticoncepcionais tão à risca que teve 11 filhos com a mulher, Ethel, mas usava a doutrina social da Igreja como forma de conclamar os americanos a acabar com a exploração econômica no país.

Com apenas 42 anos, Kennedy conseguia empolgar até os estudantes revolucionários com seu discurso idealista, que criticava a obsessão dos Estados Unidos com o crescimento econômico a qualquer custo. Dá para imaginar, por exemplo, George W. Bush dizendo que o PIB é menos importante do que parece? Pois foi o que Bobby afirmou em um de seus mais famosos discursos: “Não encontraremos nem um propósito nacional nem satisfação pessoal numa mera continuação do progresso econômico. Não podemos medir a realização nacional pelo Produto Interno Bruto. Pois o PIB (...) cresce com a produção de napalm, mísseis e ogivas nucleares. Ele mede tudo, em suma, menos o que torna a vida digna de ser vivida”.

Não dá para saber se essa retórica iria transformar-se em ação, mas Bobby parecia apoiar suas palavras com atos simbólicos, colocando-se ao lado de Martin Luther King ou dos trabalhadores rurais de origem mexicana que lutavam por melhores salários e condições de trabalho na Califórnia. Quando King foi assassinado, Bobby fez um discurso emocionado em homenagem ao líder negro, pedindo união e compaixão para os americanos. Indianápolis, a cidade onde ele estava nesse dia, coincidência ou não, não sofreu com depredações feitas pela população negra que se seguiram ao crime, como outras metrópoles americanas.

Mas, antes que sua plataforma pudesse ser testada, Bobby Kennedy, após vencer as primárias na Califórnia, morreu com os tiros disparados pelo palestino Sirhan Sirhan, que tinha raiva do apoio do candidato a Israel, no Hotel Ambassador, em Los Angeles, em 5 de junho. Tanto Kennedy quanto McCarthy haviam prometido acabar com a Guerra no Vietnã se eleitos. Com Bobby morto e McCarthy sem coragem para continuar sua campanha para valer, a oposição estudantil ao conflito ficou politicamente órfã – e acabou tornando-se mais radical, disposta a bagunçar o processo eleitoral americano.

Foi nesse clima que milhares de jovens se reuniram em Chicago para protestar durante a convenção do Partido Democrata, entre 26 e 29 de agosto. Os manifestantes, entre outras coisas, quiseram indicar “Mister Pigasus”, um porco, como candidato a presidente e plantaram uma bandeira dos vietcongues no parque da cidade. As provocações levaram a polícia a descer o sarrafo em todos os que se encontravam nas ruas, bem diante das câmeras de TV. No fim das contas, os democratas indicaram o vice-presidente Hubert Humphrey como candidato. Humphrey foi vencido pelo republicano Richard Nixon, cuja campanha apelava para a “maioria silenciosa” de americanos que via os manifestantes como baderneiros antipatrióticos. A campanha de 1968 acabou com o domínio dos democratas e dos liberais na política americana. Depois daquele ano, dos sete presidentes americanos, só dois seriam democratas: Jimmy Carter e Bill Clinton.

Feitos em órbita

Os acontecimentos que marcaram a ciência e o esporte

• Christiaan Barnard realiza o primeiro transplante bem-sucedido do coração em 2 de janeiro na África do Sul

• No mesmo mês, a IBM anuncia mais velocidade na memória cache, componente do PC que processa informações

• O boxeador Muhammad Ali recusa-se a se alistar para lutar no Vietnã

• A primeira ligação para o sistema de emergência 911 é feita em fevereiro

• Em 24 de agosto, a França torna-se a quinta potência a explodir a bomba de hidrogênio

• O primeiro caixa eletrônico de banco moderno é criado em 20 de setembro por um americano. Além de disponibilizar dinheiro, o equipamento fornecia extrato e transferia quantias

• A fabricante de aviões Boeing apresenta em público pela primeira vez, em setembro, o 747-100, o Jumbo

• Às 11h02 de 11 de outubro, é lançada a Apollo 7, a primeira missão tripulada do projeto Apollo da Nasa

• Nas Olimpíadas do México, em 15 de outubro, dois atletas negros, Tommie Smith e John Carlos, vestem luvas pretas no pódio para receber suas medalhas e levantam os punhos cerrados do movimento dos Panteras Negras

• Na véspera de Natal, a nave Apollo 8 e seus tripulantes, os americanos Frank Borman, Jim Lovell e William A. Anders, tornaram-se os primeiros a entrar na órbita da Lua e ver seu lado oculto o satélite natural da Terra. Os três se revezaram lendo em voz alta os dez primeiros versículos do Gênese, o relato da criação do mundo na Bíblia

Post-scriptum: É proibido sonhar

"Quarenta anos depois da morte de Robert Kennedy, nós temos uma dívida interna enorme (cerca de 9,8 trilhões de dólares), uma ocupação debilitada em um país árabe, déficits monetários escancarados com o resto do mundo, um problema econômico devido à desregulação e à privatização descuidadas e um governo que parece não querer ou não conseguir enfrentar nenhuma das nações que mais insistem em causar problemas. Toda essa inaptidão e corrupção parecem ser naturais sob o regime dos republicanos porque a direita nunca realmente acreditou no poder do governo em fazer nada positivo. Baby-boomers como George W. Bush, que estavam balançando a bandeira americana quando a maior parte de sua geração protestava contra a guerra, criaram a pior bagunça para a nação desde pelo menos a Guerra Civil. Há uma relativa calma em 2008, mesmo com uma guerra no exterior nada popular, porque a cínica marca política conservadora de dividir-e-conquistar desmoralizou possíveis idealistas. ‘O idealismo está morto’, dizem os republicanos em uníssono. Melhor empilhar bens materiais e ser consumidores obedientes que agir como cidadãos politicamente engajados. Pelo menos em 1968 os jovens tinham esperança e podiam sonhar com um planeta e com um futuro melhor. Não dá para ignorar o estrago ao país feito pelos ‘heróis conservadores’."

Joseph Palermo é historiador da Cornell University e autor de Robert F. Kennedy and the Death of American Idealism (“Robert F. Kennedy e a morte do idealismo americano”).

20 de Agosto

Primavera cancelada: Tentativa de democratizar o comunismo fez Praga ser invadida


Um dirigente tímido e afável tornou-se, em 5 de janeiro de 1968, primeiro-secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia. Seu nome era Alexander Dubcek, e ele ficaria conhecido como o arquiteto da Primavera de Praga – uma tentativa corajosa, mas ingênua, de criar uma sociedade comunista e democrática ao mesmo tempo, espécie de “desestalinização” do sistema que predominava no país.

Dubcek vinha de uma família de entusiastas idealistas do socialismo e tinha até morado com os pais no território do atual Quirguistão, então o recanto mais atrasado da União Soviética, como prova da disposição da família em colaborar com o comunismo. Por tudo isso, Dubcek achava que suas credenciais pró-Rússia eram impecáveis e que os dirigentes da superpotência comunista jamais pensariam que ele fosse um traidor do socialismo.

Perto dos cidadãos de outros países comunistas da Europa Oriental, tchecos e eslovacos sofriam menos com a censura da imprensa, tinham mais liberdade artística e conseguiam viajar ao Ocidente com mais facilidade. Não era difícil encontrar jovens cabeludos e barbudos, fumando maconha e ouvindo Beatles, nas ruas de Praga.

Essa liberalização incipiente gerou um apetite por mais reformas, e o primeiro-secretário se dispôs a responder a ele. “Dubcek decidira fazer uma reforma profunda na estrutura política do país, com a intenção de remover todos os vestígios do autoritarismo que ele considerava uma aberração no sistema socialista”, escrevem Regina Zappa e Ernesto Soto, autores do recém-lançado 1968 – Eles Só Queriam Mudar o Mundo. Sob Dubcek, a imprensa se tornou a mais livre de todo o bloco soviético, com reportagens denunciando a corrupção de antigos líderes do Partido Comunista e vários correspondentes ocidentais circulando pela capital, Praga. Foram traçados planos para estabelecer o multipartidarismo e para dar autonomia aos eslovacos, a etnia de Dubcek.

A União Soviética, no entanto, não gostou nada daquilo. Dubcek sempre jurou lealdade aos russos, mas ficava no fogo cruzado entre os aliados poderosos e seu povo, cada vez mais apressado em suas exigências de mudança. “Por que fazem isso comigo? Não percebem quanto dano me causam?”, queixou-se ele a um companheiro de governo, referindo-se à pressão exercida pelos tchecoslovacos. Em agosto, a tensão acabou dando lugar ao confronto: forças soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Dubcek recebeu a notícia chorando de incredulidade. “É uma tragédia. Não esperava que isso pudesse acontecer. Dediquei toda a minha vida à cooperação com a União Soviética e fizeram isso comigo”, disse à chefia do Partido Comunista tcheco.

A população do país tentou resistir de forma não-violenta, deitando-se na frente de tanques, escrevendo frases provocativas nas paredes (“O circo russo chegou à cidade. Não alimente os animais”) e transmitindo ao mundo, por rádio, o que estava acontecendo.

Dezenas de estudantes e cidadãos comuns que eram a favor das reformas se arriscaram a lançar coquetéis molotov nos veículos blindados russos, sendo sumariamente fuzilados – ao todo, foram 72 mortos e 702 feridos. Outros, ingenuamente, tentavam argumentar com os soldados invasores e convencê-los de que deveriam voltar para casa. Até países comunistas que andavam se distanciando da influência da União Soviética, como a Iugoslávia e a Romênia, condenaram a invasão de uma nação aliada dos soviéticos.

Não adiantou: os russos e os quatro países que os apoiavam na invasão mantiveram a pressão e levaram toda a cúpula do Partido Comunista tchecoslovaco para Moscou. A desculpa oficial era uma negociação. Mas, na prática, os russos colocaram os “aliados” em prisão domiciliar e chantagearam os dirigentes do país para que eles repudiassem publicamente as reformas.

A União Soviética, no entanto, não tinha levado em conta a teimosia quase inabalável dos tchecoslovacos. Mesmo com o país ocupado, o presidente Ludvik Svoboda recusava-se a assinar um documento apoiando oficialmente a invasão orquestrada pelos soviéticos. Comunista da velha guarda, Svoboda estava convencido de que seria possível chegar a um acordo se a chefia soviética topase sentar-se à mesa com os que haviam sido um dia seus aliados.

Dubcek e companhia mostraram-se duros na queda e ousaram defender as reformas diante do líder soviético Leonid Brezhnev. É claro que foram vencidos e forçados a desfazer a Primavera de Praga (que já tinha esse nome na época basicamente porque durou toda a primavera do Hemisfério Norte). Mas saíram de Moscou com duas conquistas importantes: seus pescoços ainda estavam intactos e não houve expurgo assassino na Tchecoslováquia.

Post-scriptum: Começo do fim do comunismo

"A Primavera de Praga pertence ao principal ponto de referência da história moderna tcheca. Muitos dos participantes do movimento político foram excluídos da sociedade. Eles estabeleceram milícias dissidentes, promoveram os direitos humanos e organizaram movimentos civis nos anos 70 e 80. Seus representantes estiveram envolvidos em diversas ações a partir daí, como o processo de democratização no começo dos anos 90. Mas eles ficaram sob fogo e foram substituídos pela geração mais nova de recentes pragmáticos comunistas e tecnocratas. Nos últimos anos, a possível base do plano de Defesa Nacional de Mísseis dos Estados Unidos passou a ser comparada à ocupação soviética após 1968. A Primavera de Praga de 1968 representa a parte integral do desenvolvimento da sociedade civil transnacional e da transformação da esfera pública no século 20. A invasão das tropas soviéticas na Tchecoslováquia definitivamente dividiu o movimento comunista mundial e emancipou partidos de esquerda específicos da supervisão de Moscou. Um dos mais importantes marcos foi quando Mikhail Gorbachev discutiu os objetivos da reforma perestroika na Rússia em 1987 – que, em comparação com a Primavera de Praga, estava 20 anos atrasada."

Zdenek Nebrensky é historiador formado pela Charles University, de Praga, na atual República Tcheca, e especialista em movimentos estudantis dos anos 60.

26 de Junho

Ditadura escancarada: Greves generalizadas e ações da esquerda marcaram o ano do AI-5


A situação esquizofrênica do Brasil em 1968 fazia do país uma verdadeira bomba-relógio. Como quase todos os países ocidentais, havia por aqui uma população estudantil numerosa, que abraçara o ativismo político radical. Do outro lado, havia o governo de uma ditadura militar, um inimigo arquetípico que precisava ser derrubado. Por isso, a repercussão de cada confronto era cada vez mais virulenta e sombria.

Alguns grupos de esquerda no país já tinham decidido que a oposição democrática não era mais viável e partiram para a guerrilha urbana. Numa das ações mais ousadas daquele ano, integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária invadiram um hospital militar de São Paulo em 22 de junho e, quatro dias depois, carregaram uma caminhonete com 50 quilos de explosivos, fazendo com que ela atingisse um quartel do Exército, matando um soldado e ferindo outros seis.

No mesmo mês, uma passeata que reuniu mais de 100 mil pessoas, organizada pelo movimento estudantil, mas contando também com a participação de setores da Igreja e da sociedade civil, tomou as ruas do Rio de Janeiro para protestar contra a ditadura. Embora dois estudantes já tivessem sido mortos em confrontos com a polícia durante aquele ano, o clima da chamada Passeata dos Cem Mil esteve mais para o festivo. Uma chuva de papel picado caiu sobre os participantes do protesto e cinco estudantes acabaram presos.

A partir daí, no entanto, houve um crescendo de confrontos cada vez mais violentos. Uma greve de operários em Osasco, na Grande São Paulo, fez com que a cidade fosse sitiada durante seis dias pelos militares, a partir de 16 de junho. Em outubro, novos confrontos envolvendo facções da direita e da esquerda, dessa vez entre os estudantes, degringolaram em uma batalha campal entre alunos da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, ambas localizadas no centro de São Paulo.

A coisa começou com meras agressões verbais entre esquerdistas da USP e anticomunistas do Mackenzie, mas a escalada da briga passou a contar com rojões, paus, pedras, coquetéis molotov, vidros com ácido sulfúrico e até tiros – um estudante do lado da USP acabou morrendo. No mesmo mês, o congresso (clandestino) da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, São Paulo, foi invadido pela polícia, que levou para a cadeia cerca de 900 estudantes. Os pais dos jovens presos, alguns dos quais funcionários públicos, também foram perseguidos pela repressão.

Os desafios ao regime militar, contudo, também tinham uma cara institucional: a do deputado Márcio Moreira Alves, para ser mais exato. Membro de um Congresso que ainda se considerava independente, Alves criticou em termos duros e irônicos a repressão aos movimentos de oposição e chegou a sugerir que as jovens brasileiras não namorassem mais oficiais do Exército.

O governo militar respondeu à polarização do país e ao gracejo de Alves esmagando o que restava das liberdades civis no Brasil – não sem uma última resistência do Congresso, que se recusou a suspender a imunidade parlamentar do deputado a pedido das autoridades. Em 13 de dezembro, o Ato Institucional número 5 concedeu poderes praticamente ilimitados ao presidente da República para dissolver o Congresso, retirar direitos políticos e civis de dissidentes e até confiscar seus bens. “Salvamos a democracia”, declarou o presidente Arthur da Costa e Silva na televisão. O deputado Alves foi cassado após o AI-5 e exilou-se.

A repressão, no entanto, só conseguiu fazer com que a oposição clandestina e violenta no Brasil recrudescesse, pelo menos por algum tempo. Guerrilhas urbanas e rurais tentaram, sem sucesso, contra-atacar os militares no fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Todas elas foram derrotadas, mas a mística que surgiu em torno da resistência brasileira à ditadura em 1968 acabaria virando o modelo da luta pela redemocratização do país.

Post-scriptum: Fizeram a revolução comportamental

"O regime militar no Brasil estava procurando um pretexto para se fechar antes de 1968, antes que houvesse um acirramento da contestação entre os jovens ou o surgimento das guerrilhas de esquerda. O fato é que, dentro do regime, havia duas forças em luta. Uma era mais liberal. Já a outra preferia o fechamento. A chamada linha dura acabou ganhando. Por isso, o Ato Institucional 5 teria acontecido de qualquer jeito, mesmo se não houvesse protesto nenhum em 1968. Aquela geração tinha um voluntarismo muito grande, um espírito de ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer’.

Evidentemente, isso não aconteceu. A idéia de que haveria uma revolução, que de uma hora para a outra o mundo ia virar de pernas para o ar, estava errada. Eles não fizeram a revolução política. Mas acabaram fazendo a revolução comportamental. Não é por acaso que os ideais de solidariedade, de levar em consideração as minorias – por exemplo, os movimentos sociais, os movimentos gay, feminista e ecológico –, muito presentes atualmente, são conquistas que começaram em 1968. Essa é a grande herança positiva para a geração atual. Mas há também um legado maldito que a geração de 1968 deixou para os jovens atuais. O principal é a ilusão de que as drogas fossem um instrumento de ampliação da consciência, quando, na verdade, eram a morte."

Fonte de Pesquisa

1968 – O Ano Que Abalou o Mundo, Mark Kurlansky, José Olympio Editora, 2005

Quadro completo dos principais acontecimentos do ano fatídico no mundo todo, com detalhes interessantes sobre os países do bloco comunista. Falta só uma cronologia.

Boom!, Tom Brokaw, Random House, 2007

O autor examina a geração de 1968 no contexto dos anos 1960. Há ótimos depoimentos de famosos e anônimos em primeira pessoa, mas apenas americanos falam.

1968 – O Ano Que Não Terminou e 1968 – O Que Fizemos de Nós, Zuenir Ventura, Planeta, 2008

Zuenir lança uma caixa com os dois livros: o primeiro, lançado há 20 anos, e o segundo, inédito – este traz uma avaliação, quatro décadas depois, dos efeitos de 1968.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



































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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do blog do Drummond. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.