terça-feira, 30 de junho de 2015

Chico Anysio: o gênio indomável (Por Thiago Muniz)

Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho (Maranguape 1931 - Rio de Janeiro 2012) é um dos nomes marcantes da história da comunicação brasileira. Ator, humorista, escritor, pintor, comentarista, diretor e radialista, profissão esta que sempre faz questão de citar entre as suas atividades, é o foco desta pesquisa. Este texto busca relatar a história do menino nascido na pequena cidade de Maranguape, no Ceará, que se tornou uma referência para o humor brasileiro. A atenção fundamental está na relação estabelecida entre Chico e o rádio em seu inicio de carreira e a influência do meio radiofônico em sua trajetória artística.


A infância e a ida ao Rio de Janeiro

O fato de ser nordestino significa que estar vivo já é um grande prêmio” (CHICO ANYSIO)

Nasceu em 1931 em Maranguape em um sítio que ainda pertence a um membro distante da família. Um dos cinco filhos de Dona Haydée e seu Francisco (Elano, Lupe, Lilia, Chico e Zelito). Sua infância foi cercada das meninices de sítio e banhos de rio, que eram segundo ele, um Éden que carregou pelo resto de sua vida.

O pai era proprietário de uma empresa de ônibus, o que garantia certo nível financeiro. Chico diz que a família era “quase-rica”, sendo que seu Francisco era chamado de coronel pelos moradores da cidade. Mas um dia a empresa pegou fogo e tudo que eles tinham foi perdido. Anysio afirmava que com oito anos ficou pobre e sem saber por que se viu com a família embarcando no Itapajé indo para o Rio de Janeiro, cidade onde iria construir sua carreira artística, embora não soubesse disso tão novo.

Chico ainda se recorda em chegar à cidade maravilhosa em um dia de domingo. “Eu estava no Rio, com oito anos, calças curtas, um pé enorme e uma magreza inacreditável”, escreveu em suas memórias". (CHICO ANYSIO).

O futebol começou cedo em sua vida, já que seu pai era presidente do Ceará Sporting e o time ficava concentrado no sítio da família antes dos jogos. No Rio, passou a torcer pelo Vasco só para contrariar o pai que era botafoguense.

Estudou no Atheneu e após uma reprovação, foi transferido para o Zaccaria, depois para o Anglo-Americano. Como o menino tinha uma atenção maior ao futebol do que aos estudos, acabou indo para o Colégio Interno Independência, onde passou o pior ano de sua infância, pois a estrutura era muito ruim, incluindo comida estragada. Com isso, dona Haydée o levou de volta ao Atheneu.

Ele era garoto e matava aulas para ir para a Quinta da Boa Vista jogar bola com os amigos ou ainda ia ao Cinema Trianon ou ao Capitólio para ficar a tarde inteira assistindo às sessões com trailers, documentários e jornais americanos. Nessa fase, descobriu que tinha facilidade para imitar as vozes dos locutores do cinema, mas até então não tinha pensado nisso profissionalmente.

A entrada no Rádio

A falta de dinheiro o incomodava, pois era o único da turma que não podia ir ao cinema nem ao futebol sem pedir dinheiro à família. Então como conseguir alguns trocados? Foi quando um amigo de futebol sugeriu que ele tentasse os programas de calouros, pois segundo ele, Chico imitava todos os locutores tão bem quanto o Zé Vasconellos. Esta idéia acabou levando o garoto a escrever em um caderno velho 28 piadas para um número. Ele se lembra da primeira apresentação:

“Eram cinco páginas que eu segurava com as mãos e os joelhos tremendo. Somente minha irmã Lilia sabia que eu até já tinha feito a inscrição no programa Papel-Carbono, do Renato Murce, líder de audiência na Rádio Nacional (CHICO ANYSIO)”.

Toda a família acreditava que ele havia ido ao futebol e depois para a casa de um amigo, mas Chico foi sozinho para a Nacional, onde fez o ensaio às três da tarde e ficou esperando até o momento de entrar no palco. Foi quando Suzy Kirby anunciou “ cópia número nove. Uma cópia de vários locutores. Francisco Anysio Filho”.

Ele entrou e foi recebido pelo apresentador de quem lembra com carinho, pois “ele travava todos os candidatos com muita dignidade”. O contra-regra, vendo o papel nas mãos do jovem tratou logo de colocar tudo sobre uma estante para partituras. O rapaz respirou fundo e fez sua apresentação.

Foi um grande sucesso, tanto que ao sair, Francisco recebeu abraços de profissionais da Nacional. Ao final, veio a notícia de que, com 399 votos, havia vencido o programa naquele dia 7 de setembro de 1947.

Assim, o garoto vindo de Maranguape recebeu seu primeiro cachê de cento e cinqüenta mil réis, que usou para comprar uma bicicleta para o irmão mais novo, Zelito.

Chico continuou indo aos cinemas para aperfeiçoar as imitações e passou a ganhar praticamente todos os programas de calouros em que ia. Chegando a também participar dos programas da capital paulista, onde também venceu no programa “A Hora do Pato” apresentado por Vicente Leporace.

Mas, o grande apoio foi dado pelo apresentador do programa de mesmo nome no Rio de Janeiro. Jorge Cury, que não só tratou Francisco como profissional, como ao final do programa deu-lhe um abraço e cochichou “Você vai longe garoto!” Para o jovem nordestino esta frase ecoou por toda a sua vida.

No mesmo ano, Anysio já tinha decidido começar sua carreira e para isso passava o dia ouvindo rádio para saber onde poderia colocar seu trabalho, lembrando sempre que na Nacional, a vaga de imitador já estava ocupada por José Vasconcellos.

Assim, Francisco decidiu levar seu portfólio de imitações para a Rádio Guanabara, onde por seis meses foi religiosamente de segunda a sexta-feira para tentar falar com o diretor. A secretária pedia um momento e ele se sentava na ante-sala. Um dia o diretor abriu a porta para falar com o contínuo e só encontrou o menino magricelo. Sem poder fugir questionou: O que você quer? E Chico de susto respondeu: quero entrar para o rádio.

O diretor da Guanabara rebateu de pronto: isso todos querem, mas o que você faz de diferente? Sou imitador, respondeu o menino. Então, levando Chico para a porta de saída disse: “me traga um programa de imitações, para vermos o que pode fazer”.

Chico Anysio voltou para casa e passou o final de semana escrevendo seu primeiro programa. Na volta levou consigo as folhas que acabaram lhe garantindo um programa às terças às cinco da tarde, mas sem nenhuma remuneração. Depois de alguns meses, o diretor da emissora demitiu o imitador justificando pouca audiência. Para o rapaz isso foi o ponto final em sua carreira. Passou a fazer suas imitações apenas para sua irmã Lilia e estudar para se tornar advogado.

Mas nesse momento, a carreira de ator entrou de volta em sua vida. Foi em um final de semana quando ia jogar bola com os amigos no campo do Fluminense e havia uma imposição: todos deveriam participar descalços para não estragar a grama. Lá estava ele, aguardando os amigos, quando soube que o jogo havia sido transferido para o Aliança, onde não se poderia jogar sem um calçado, pois o campo era de terra batida.

O jovem Chico foi buscar seu tênis quando encontrou em casa a irmã Lupe e o amigo da família Oromar Terra, ambos de saída. Por sorte, iam para a Rádio Guanabara para fazer um teste de atores. Nesse instante, Chico foi convencido pela irmã a ir. O resultado foi que conquistou o sétimo lugar como ator e terceiro como locutor. Entre os 25 aprovados estavam Nádia Maria, Beatriz Segall, Antonio Carlos, Batista Rodrigues, entre outros atores. E entre os locutores, o primeiro lugar ficou com o também iniciante Silvio Santos. Deste dia em diante, Francisco Anysio passou a ser um profissional de rádio fazendo o horário da meia noite às três da madrugada na locução.

Com isso, passou a chegar em casa às quatro e não conseguia mais acordar às sete para ir ao colégio. Assim deixou a vida acadêmica, ganhando quatrocentos mil réis por mês trabalhando na rádio.

Um bom salário para a época, mas Chico começou a ficar endividado, pois apostava o que tinha e muito mais em corridas de cavalos. Mesmo parando ainda ficou devendo para os agiotas. Em um momento de aperto, foi salvo por um amigo locutor. Raul Longras o convidou para ser o repórter atrás do gol nos jogos em que irradiava pela Guanabara. Com isso, levantou o valor necessário para saldar as dívidas e aprendeu mais um ofício dentro da emissora.

Além disso, assistiu grandes nomes do futebol carioca e brasileiro jogando diante de si. Chico lembra com saudade desse período e afirma que a Rádio Guanabara era uma família onde faziam tudo juntos desde os programas diários até os especiais. Porém, o período bom durou até 1949, quando a emissora foi vendida para Adhemar de Barros que pretendia utilizar a força da rádio para elegê-lo presidente. Com isso, mudou a direção da empresa que passou a ter uma linha ideológica em sua programação desagradando a todos os profissionais da casa. Tanto que vários se demitiram, como Fernanda Montenegro e Carlos Lacerda, que antes aproveitou o seu horário no ar para dizer categoricamente que era a última vez naquela rádio, pois não trabalhava para ladrão.

Com este processo de desmantelamento da emissora, Francisco foi para a Mayrink Veiga, mas não deu certo, pois brigou com o diretor, o sr. Varela, e foi demitido. Na saída da rádio, encontrou Ronaldo Lupo, para quem tinha escrito os diálogos para dois filmes. No saguão da emissora, o amigo ligou para Arnaldo Pinto, dono da Rádio Clube de Pernambuco, oferecendo o trabalho de Chico. O empresário fechou por telefone com Lupo um contrato de três anos com aumentos de salários sucessivos ano a ano.

Em Recife, Anysio, com 19 anos, não conseguiu o mesmo sucesso e não conseguiu ser aceito pelos colegas, pois todos sabiam que ele ganhava mais que os demais. Além disso, ele não conseguia afinar os textos para serem interpretados pelos atores locais e tinha contra si o novo diretor da emissora, Otávio Augusto Vampré. Após nove meses, a situação ficou insustentável. Foi quando Chico recebeu uma carta do irmão Elano, também radialista, acenando com a possibilidade de um contrato com a Rádio Clube do Brasil.

Com esta proposta a mão ele foi falar com o proprietário da Rádio de Pernambuco que aceitou de pronto sua saída. Mas ainda havia dois anos e três meses para o fim do contrato. Em caso de demissão o ator teria de pagar uma multa. Como não tinha dinheiro para resgatar sua dívida, Francisco conseguiu que o empresário concordasse em receber em textos enviados semanalmente. Eles fecharam que o redator enviaria três programas por semana. Assim, Chico conseguiu voltar ao Rio de Janeiro para trabalhar na Rádio Clube do Brasil sob a direção artística de Dias Gomes e geral de Sérgio Vasconcellos.

Logo após chegar a emissora, Vasconcellos o chamou em sua sala e disse em voz baixa que estava indo para a Nacional e que o levaria consigo, mas que para isso ele não poderia fechar contrato com a Rádio Clube. Dessa forma, Chico passou a se esquivar de Dias Gomes que sempre tentava fazê-lo assinar a papelada.

Três meses se passaram e Sérgio realmente foi para a Rádio Nacional, a mais bem posicionada nas pesquisas e a que detinha a equipe mais bem paga. Chico ficou esperando o telefonema do amigo com o convite irrecusável, mas isso não aconteceu.

Ao invés disso, um corte de 50 funcionários na Rádio Clube deixou Anysio sem emprego novamente. Já que estava sem contrato foi um dos demitidos. Dessa forma, o ator tomou coragem e foi até o prédio da Nacional falar com Vasconcellos. A secretária pediu que esperasse. Depois de quatro horas, Sérgio saiu da sala, abriu um sorriso e perguntou: “E então? O que é que deseja? Que é que manda?” Deixando claro que não tinha a intenção de contratá-lo.

Esta situação abre o pior período profissional de Chico Anysio, onde passou seis meses sem conseguir um emprego, vivendo na casa da mãe com o dinheiro dado escondido pela irmã Lupe. “Eu sofria uma dor estranha. Não era apenas o desemprego que doía, mas a raiva de ter sido enganado, um descrédito nas minhas possibilidades, uma desconfiança sobre meu talento e a possibilidade de nunca mais arranjar emprego”, descreveu o ator.

Na falta de emprego em rádio consegui uma vaga de contínuo no Sindicato dos Economistas e aproveitava para fazer o serviço mais rápido para dar uma passadinha nas emissoras.

Um dia, foi à Rádio Tupi falar com o diretor Paulo de Grammont que o recebeu e lhe ofereceu uma vaga. Embora desconfiado da bondade do profissional, Chico acertou o salário e desceu pensativo em tudo o que tinha acontecido.

Indo para casa alguém o chamou. Era Haroldo Barbosa que perguntou onde ele estava trabalhando. Ele respondeu que acabara de acertar com a Tupi. Porém, Haroldo disse que um grupo de atores tinha saído naquele dia da rádio e que iam para a Mayrink Veiga e que ele (Chico) iria com eles. No caminho para a nova emissora, Barbosa explicou que o grupo era formado por Nancy Matinhos, Antonio Maria, Cesar Ladeira e Luiz Jatobá, além de Zé Trindade, Antonio Carlos, Duarte Moraes e Abel Pêra.Na chegada a Mayrink, Haroldo abriu a porta do diretor Gilson Amado e disse para que ele contratasse Chico, pois “o garoto era bom” e ele era seu avalista. E assim foi feito. Na rádio tudo iria muito bem pelos próximos cinco anos.

Chico passou a comandar três programas noturnos: Este Norte é de Morte (segundafeira, às oito), Me dá Meu Boné (quinta-feira, às nove e meia) e Angel Maria Canta (às oito e meia de sexta-feira). Depois entraria em outros tantos programas da emissora sempre com seus tipos e vozes.

A saudade dessa solidariedade profissional levou Francisco a escrever em suas memórias:

... havia uma convivência saudável e romântica naquele tempo do rádio. Encontrávamo-nos diariamente e sabíamos, sempre, dos problemas de cada um. Não foi a televisão quem afastou os artistas do convívio dia a dia, mas o progresso da televisão. As emissoras diversificaram seus estúdios, ampliaram as gravações para externas, inclusive. O videoteipe separou a gente". (CHICO ANYSIO)

A chegada da TV

Em 1957, pelas mãos de Haroldo Barbosa, Chico já tinha passado pela Atlântida, escrevendo roteiros para os filmes do amigo, quando foi escalado por ele para fazer um papel no programa “Aí vem a dona Isaura”, interpretada por Ema D´avila, na TV Rio, somando então dois empregos: um na Rádio Mayrink Veiga e outro na televisão. Nesse momento Chico Anysio percebeu a força no novo veículo e afirma ter sentido a queda de audiência do rádio:

A televisão começava a dominar o rádio. Isso me dava uma pequena dor por dentro, porque o rádio sempre foi para mim uma escola da maior importância. Foi no rádio que eu aprendi, que me criei. Não me trazia nenhuma felicidade esse nocaute que a televisão se preparava para impor ao rádio e muito me desagradou o rádio ter jogado a toalha, entregado a luta” (CHICO ANYSIO).

Infelizmente o rádio perdeu seu espaço no centro das atenções populares nos anos seguintes para a TV, mas foi nesse período, na TV Rio, que Chico teve seu contato mais criativo com os demais profissionais tanto do humor, como do recém chegado veículo, a televisão.

Após a TV Rio, ele ainda passaria na Excelsior, voltaria para a TV Rio após uma discussão com Carlos Manga, de onde foi para a Record de São Paulo e por fim para a TV Globo onde ficou mais de 30 anos como funcionário. Dessas idas e vindas, Chico Anysio se lembra de alguns profissionais com grande carinho por acreditar que eles participaram ativamente de sua formação profissional.

Embora tenha sido a televisão que tornou Chico Anysio um ator conhecido nacionalmente foi o rádio a sua grande escola e de onde veio boa parte de seus personagens.

O foco deste texto é exatamente essa passagem do jovem Francisco pelos estúdios das emissoras brasileiras. Por isso, não vou aprofundar a pesquisa no sentido de sua carreira televisiva, mas na radiofônica.

A influência dos amigos na carreira

Aquela boa acolhida entre os profissionais de rádio do Rio de Janeiro, jamais foi esquecida por Francisco. Tanto que em seu livro de memórias cita vários amigos e companheiros que influenciaram sua vivência artística.

O primeiro a quem Chico diz dever muito é José Vasconcellos, pois a amizade teve início ainda na infância, pois Zé era irmão de Tuneca, que fazia parte da sua turma de meninos do bairro. Além disso, José já era um humorista consagrado por suas imitações quando Francisco iniciou sua carreira tendo o amigo do irmão como modelo. Atualmente José vive em Itatiba, interior de São Paulo, mas ainda mantém contato com Chico.

Grande Othelo foi outro professor e amigo. Eles trabalharam juntos no rádio e também em chanchadas onde Chico afirma que ele e Roberto Silveira “seguraram muitas barras” de Othelo, indicando que o ator bebia, se envolvia com mulheres, brigava e faltava nas gravações. Mas sempre era perdoado por todos, pois ele fazia “cara de arrependimento” e ninguém tinha coragem de demiti-lo.

Na lista de ícones que ajudaram Chico está Carlos Manga, a que ele atribui um talento absoluto como diretor e a didática necessária para indicar caminhos aos atores nos estúdios ou nos sets de filmagem com firmeza e segurança:

"Aprendi (com Manga) que para dirigir com firmeza e segurança, para conseguir um trabalho tranqüilo e sem atropelos, não é preciso gritar e dizer palavrões. O diretor pode se impor com um silêncio marcado e um olhar fulminante. Isso garante respeito de todos, o que é melhor para todo mundo. Com uma direção firme todos trabalham melhor e mais rápido. Valeu ao Manga o fato de ser um dos melhores atores desse país”. (CHICO ANYSIO)

Também não podemos deixar de registrar a admiração dele por Antonio Maria, a quem acredita ser o autor mais original que já escreveu humor no país. Credita ao escritor a criação de alguns dos melhores textos, mais brilhantes e inteligentes que teve o privilégio de ler. Chico diz que quando começou na Mayrink Veiga era o texto de Maria que procurava imitar. Após ser deixado pela mulher, Maria passou a beber mais que o normal e a escrever crônicas, entre elas uma das melhores na opinião de Chico, “Brasileiro, profissão: esperança”. Na madrugada do dia 15 de outubro de 1964, Antonio Maria parou na porta do restaurante Le Rond Point para trocar um cheque e teve um infarto fulminante. “Morria ali uma glória da arte popular do Brasil” diz Chico.

Haroldo Barbosa de certa forma foi além de amigo um “avalista” de Francisco ao levá-lo para a Mayrink Veiga. Para o jovem cearense, Haroldo foi o primeiro a acreditar em seu trabalho como autor de textos humorísticos e como ator. Ele chamava Chico de garoto e ensinava:

... quando há um cômico em cena, tudo que ele disser tem de ser engraçado. Se não der para ter graça, ele tem que falar de um modo diferente do comum. O cômico é especial. Não use, nas falas de um cômico, uma linguagem neutra. Se não tiver num dia bom e a graça vier com dificuldade, procure, no mínimo, ser inteligente. Dez piadas ótimas não reabilitam uma bobagem” (CHICO ANYSIO).

Outra personalidade reverenciada na biografia de Chico é José Bonifácio Sobrinho, o Boni, ex-diretor da Tv Globo, de quem Anysio afirma:

Não existe, no mundo inteiro, ninguém que entenda de televisão mais que o Boni. A rapidez de raciocínio, o faro do sucesso, a mão de comando, a justiça das decisões, a imparcialidade, o talento, a palavra certa na hora exata, tudo nele funciona como um Rolex” (CHICO ANYSIO).

Na mesma turma estava Walter Clark, a quem Anysio chama de o melhor diretor comercial de tv que já conheceu. Segundo ele, ninguém vendia mais e melhor do que ele uma programação. Foi Clark que vendeu o primeiro projeto de Chico na TV Rio e depois o incentivou a produzir mais.

Outro diretor de TV a quem o humorista credita parte de sua carreira é Daniel Filho, com quem trabalho na TV Rio, Excelsior e na Globo. Segundo Chico, ele sempre deu palpite mais do que certos nos programas onde trabalharam juntos.

Entre os nomes gravados na memória do humorista está o da atriz Dercy Gonçalves que descreve como a “maior artista cômica do mundo” e a pessoa por quem nutre grande respeito.

Todas estas pessoas e outras tantas passaram pela vida de Francisco Anysio enriquecendo sua carreira com a criação de papéis em programas, dicas de como atuar, de como escrever, de como dirigir. Eles tiveram um papel decisivo na criação da base do trabalho de Chico no rádio e na TV facilitando elaboração das concepções de ator e de autor:

O ator é o veículo através do qual o personagem se apresenta. Quando faço um papel qualquer, é necessário que saia de mim para o personagem entrar e viver. Ele tem que ter seu próprio gestual e seus tiques. Nada de mim pode estar nele. Ou se houver, que seja o mínimo. Somo dois: eu e o personagem... é imperioso que alguém ou alguns possam encontrá-lo sem minha presença ... O autor, o escritor, vive outro tipo de delírio. Pelo fato de ser criador, ele precisa ter alguma vivência. Ninguém pode escrever bem sobre uma coisa que não conhece. Por essa razão eu freqüentei todos os ambientes possíveis. O autor escreve melhor quando sabe o que esta escrevendo. O ator representa melhor quando sente” (CHICO ANYSIO).

Outro aspecto que o fez diferente dos demais humoristas foi sua aprendizagem na escola do improviso do texto radiofônico, onde os atores deviam estar preparados para qualquer situação. Além disso, um artista na época não era tão conhecido como na atualidade, um contraponto a superexposição vivida pelos artistas hoje diante dos meios de comunicação.

Como estímulo ou desconsolo. Hoje às coisas são mais fáceis, porque há mais profissionais. O passado foi mais romântico. A televisão atualmente faz um ídolo em dois capítulos de novela. Não há apenas O Cruzeiro e Revista do Rádio para oferecer a possibilidade de capa. Hoje há uma fartura de revistas divulgando o rosto das estrelas e dos astros, tudo rápido. Mas, é óbvio, existe um lado escuro nesta vasta claridade: um mês depois da novela acabar, poucos lembram sequer do título dela” (CHICO ANYSIO).

Os laços de Chico Anysio com os profissionais de rádio perduram até hoje. No período que antecedeu sua saída da TV Globo, ele foi alvo de críticas pelo uso de profissionais da velha guarda no programa “Escolinha do Professor Raimundo”, sobre este assunto o humorista rebate explicando que valorizar estes atores é uma escola:

Muita gente acha que utilizo os velhos comediantes simplesmente para os ajudar. Enganam-se. Utilizo-os muito mais por esperteza. Eles me ensinam sempre. Não há dia em que eu não aprenda uma coisinha a mais com eles... Infelizmente há os que vêem nos comediantes da antiga “coisas superadas”. Idiotas, os que pensam assim. A Escolinha do Professor Raymundo é chamada por grande parte da crítica de velharia. Ridículos críticos que não aprenderam que um programa que apresenta Brandão Filho, Antônio Carlos, Grande Othelo, Zezé Macedo, Walter D´Ávila, Nélia Paula, Jayme Filho, Mário Tupinambá, Berta Loran, Nádia Maria e outros desse padrão, não tem por que ser chamado de velharia, mas de faculdade” (CHICO ANYSIO).

Fora do ar...

A carreira de Francisco teve uma virada após os anos 90. Com a entrada de Marluce Dias da Silva na direção da TV Globo, ele foi colocado de lado e retirado do ar gradativamente. Esta convivência turbulenta teve um ponto alto quando o ator deu uma entrevista a Revista Isto É onde fez declarações contundentes contra a emissora. Em uma das respostas à jornalista Celina CORTEZ (2000) ele disse:

Não é a Globo que me julga ultrapassado, é a doutora Marluce. Mas não me interessa a opinião dela, do Roberto Marinho ou do Fernando Henrique Cardoso. A opinião do povo é o que me interessa. Trabalho para as classes C, D e E. Quando essa gente achar que estou superado, paro de fazer televisão”.

Na mesma entrevista ele coloca a diferença entre a gestão de Boni e de Marluce à frente da emissora do Jardim Botânico.

Não tenho nada contra a direção da doutora Marluce (Dias da Silva), só que acho o seu método muito estranho. Pela primeira vez, em 47 anos de tevê, trabalho numa casa onde ninguém tem acesso à pessoa que nos dirige. Suas ocupações são muitas, porque ela não delega. Só quem resolve é ela. Com Boni não era assim. Para a Globo, a direção dela é melhor, porque economiza mais. Os programas têm saído piores, o diferencial da Globo em relação às concorrentes sempre foram os gastos”.

Estas e outras entrevistas caíram como uma bomba no meio artístico e especialmente na TV Globo, onde em dezembro de 2001 fez seu último programa (Escolinha do Professor Raimundo), pois a emissora o retirou do ar alegando que o formato estava desgastado. Desde então as aparições do ator são em papéis curtos em novelas e minisséries como Sítio do Picapau Amarelo (2005), Sinhá Moça (2006) e Pé na Jaca (2007).

Recentemente ele se mudou para São Paulo onde habita um apartamento de 90 metros quadrados na Alameda Santos, próximo à Av. Paulista. Adoentado, vítima de um enfisema pulmonar que o deixou com apenas 30% da capacidade respiratória. Segundo o repórter Leonardo ATTUCH da Revista Isto É “Todos os dias, ele faz um trabalho de reabilitação pulmonar e caminha numa esteira. Começou fazendo um minuto apenas. Hoje, consegue andar quatro minutos sem se cansar e espera chegar aos 40´ (2009).

Chico afirma que fumar é a única coisa de que se arrepende em toda a sua vida. No sexto casamento, atualmente com a fisioterapeuta Malga di Paula, 40 anos mais jovem, e nove filhos (oito homens e uma mulher), o ator recebe da TV Globo um salário de cerca de cem mil reais por mês dentro de um contrato que vale até 2012. Mas não é um homem rico, pois as pensões levam boa parte de sua verba.

Fora do espaço televisivo, Chico tenta se manter, mas as atividades não são tão lucrativas como antes. Um dos seus trabalhos mais recentes foi o lançamento de um DVD com os melhores momentos de seus programas. Porém, só vendeu cerca de quinze mil cópias, o que segundo o autor, rendeu apenas duzentos e quarenta e nove reais. Além disso, ele planeja seu novo espetáculo com título de “Tudo eu” onde pretende fazer dez novos personagens. Desta forma, sua galeria subirá para 216 diferentes personagens, sendo muitos trazidos de suas vivências no rádio. Sua vida na capital paulista se restringe a escrever, tanto que afirma ter 16 livros inéditos prontos, entre poemas, novelas e contos.

Chico conta que irá morrer trabalhando, assim mantém um vício antigo:

É preciso escrever sempre, mesmo que seja para jogar no lixo. Escrever muito. Mais. Sempre. Sem parar. Escrever ficou sendo minha tarefa mais amada” (CHICO ANYSIO).

Chico Anysio por Chico Anysio


Infelizmente profissionais como Chico Anysio não encontram mais espaço nos veículos de comunicação brasileiros. Seja pela falta de visão dos gestores ou pelo simples preconceito do trabalho desse brilhante humorista, que está fadado ao esquecimento das próximas gerações. Seus personagens ilustraram boa parte dos últimos 40 anos da história nacional, sempre com críticas sociais e intelectuais a uma situação vivenciada pela população. Ele próprio reconhece que o rádio foi sua maior escola e ao avaliarmos seu percurso profissional, podemos perceber que muitas de suas criações foram produzidas a partir da convivência com Haroldo Barbosa, Antonio Maria e tantos outros com quem conviveu nos primeiros anos de sua carreira nas principais emissoras de rádio do Rio de Janeiro.

Eu sou um grande apaixonado pelo rádio, porque tudo que eu sei eu aprendi no rádio. O rádio de hoje, no entanto, ficou restrito aos comunicadores e isto faz com que os atores procurem as dubladoras, para usá-las com aprendizado. Não sei se é correto estimular alguém a entrar para o rádio, se este alguém não tiver uma linda voz (para vir a ser locutor) ou um grande desembaraço e improviso (para ser um comunicador)” (BERTUZZI,2007)

Seu perfil de workaholic sempre o levou a trabalhar em todos os espaços que conseguia. Tanto que registrou em sua carreira as ações de locutor, narrador, galã de novelas de rádio, locutor e comentaristas de futebol, ator, novelista, redator, teleator, escritor, compositor, imitador e pintor. Suas contribuições ao humor no Brasil não podem deixar de serem registradas e seus ensinamentos apreendidos diante do momento em que vivemos uma ausência de criatividade tanto no rádio como na televisão. Mas poucos têm a humildade de aprender com Chico e com os demais atores que vieram do rádio. Por isso, vivemos em um país sem graça.



BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

domingo, 28 de junho de 2015

Era uma vez uma certa seleção brasileira de futebol... (Por Thiago Muniz)

There once was a Brazilian soccer team... S.O.S!


Aqueles que eram exemplo do prazer de jogar futebol, hoje chutam a bola com angústia e correm pedindo clemência ao cronômetro.

Este atestado de óbito não tem data nem lugar, porque existiram muitos. Penso no célebre obituário publicado pelo jornal britânico The Sporting Times quando a Inglaterra caiu diante da Austrália no críquete e deu origem ao troféu denominado The Ashes (as cinzas), disputado a cada dois anos por Inglaterra e Austrália: “Em memória afetuosa do críquete inglês, falecido no The Oval em 29 de agosto de 1882, profundamente lamentado por um amplo círculo de amigos e conhecidos. Descanse em paz. O corpo será cremado e as cinzas, levadas à Austrália”.

No entanto, com a seleção brasileira a urna misturaria diversas cinzas, com um epitáfio de efemérides. Três Copas do Mundo e duas Copas América consecutivas fora da final, mais a quase nula presença de jogadores verde-amarelos em papeis determinantes dentro dos gigantes da Europa e, principalmente, o regresso de Dunga ao banco da seleção dizem muito. É como se um ex-presidente que deixou péssimas recordações voltasse a ser eleito não por amnésia dos votantes, mas sim por mera resignação.

A doutrina de Dunga parece dever obediência aos preceitos positivistas impressos na bandeira brasileira: ordem e progresso. Segundo essa colocação, é impossível buscar o segundo sem ter o primeiro. À custa de quê? De um Brasil confuso, agachado, paranoico, tímido. A única coisa mais grave que deixar de jogar respeitando uma essência é insistir na traição, mesmo com a constatação de que esta também não funciona. Colocada para morrer, a seleção verde-amarela prefere fazer isso renunciando às suas raízes.

É um futebol que sobreviveu a várias crises. Logo de início, o regionalismo que empobrecia o elenco (na Copa de 1930 no Uruguai jogaram cariocas e não paulistas). Depois, o trauma do Maracanaço (o escritor Nelson Rodrigues suplicava pela presença de apoio psicológico: “Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador”). Passada a era dourada, a nostalgia com clímax na Copa da Espanha em 1982 (“jogando assim, é válido perder”, dizia Sócrates). Mais tarde, a mercantilização (Ronaldo e sua insólita final na França em 1998) justificada pelos troféus. Embora nenhuma tão prolongada e existencial como a insensatez atual: nem ser nem fazer; de tanto negar a si mesma, esquecer o que é buscar a si mesma.

Aqueles que eram exemplo do prazer de jogar futebol, que eram mestres na volta à infância que pode ocorrer em um campo, que sublimaram essa atividade às máximas proporções estéticas, hoje chutam a bola com angústia, hoje correm pedindo clemência ao cronômetro, hoje se enredam em recordações do que existiu e desapareceu.

Era uma vez a seleção brasileira, versão futebolística e contemporânea daquela equipe inglesa de críquete. As cinzas serão levadas ao Mineirão.

Alarmado pela impunidade com a qual apanhava, Lionel Messi conta que durante a partida contra a Colômbia se dirigiu ao árbitro mexicano Roberto García Orozco e lhe pediu explicações. “Isso é a América e aqui é assim que se joga”, disse o juiz. O homem cuja responsabilidade é velar pela pureza do espetáculo não só peca pela ignorância como se gaba dela. Orozco desautorizou a si mesmo e expôs o caráter atroz da organização que o banca, essa Conmebol em frangalhos, que lança o futebol sul-americano na mediocridade. Não, o que acontece em campo não é imune à corrupção. Ficou evidente na miserável partida do Brasil, merecidamente eliminado da Copa América pelos voluntariosos paraguaios na segunda partida das quartas-de-final que terminou em disputa de pênaltis.

O Brasil é e continuará sendo a maior fábrica de talento natural do futebol. Nenhum país reúne mais indivíduos com melhores condições físicas, técnicas e culturais para praticar esse esporte. O patrimônio, entretanto, há 30 anos é continuamente dilapidado por uma entidade, a Confederação Brasileira de Futebol, que funciona cada vez pior em relação à quantidade de dinheiro que arrecada. Com a conivência de políticos oportunistas e com a perversa cumplicidade de veículos de comunicação sem senso crítico, a CBF gira em um redemoinho de autocomplacência, ineficácia, desvio de verbas e estupidez. Seu ex-presidente, José Maria Marin, permanece na prisão na Suíça sob acusações de corrupção; e seu sucessor, Marco Polo del Nero, é objeto de uma investigação judicial que não promete ser edificante. Os dois são os responsáveis pelo vexame apresentado no Chile.


Ainda não se passou um ano desde o histórico fracasso da Copa do Mundo, aquele 7x1 aplicado no anfitrião pela Alemanha em Belo Horizonte, e os resultados ratificam o que parecia uma evidência. Que Dunga não é o homem indicado para sair de uma crise que ele mesmo ajudou a criar. Os ciclos de Parreira, Scolari e Dunga, superexpostos e redundantes, simplificaram o jogo da equipe até o empobrecimento. No sábado a involução seguiu seu curso. A perplexidade dos jogadores coincide com um desconhecimento profundo do que devem ser como nação futebolística.

Diante das dúvidas existenciais alheias, o Paraguai se reafirma no que sempre foi. Em Concepción apresentou-se com seu manual de sempre. Solidariedade fraternal, espírito de sacrifício, habilidade pelos lados do campo e contundência nas duas áreas. Víctor Cáceres comandou o jogo duro do meio campo e ninguém fez prisioneiros. Pressionaram no campo de defesa, as faltas foram se acumulando, e o Brasil teve dificuldades em passar pelas linhas dos paraguaios.

O gol de Robinho aos quinze minutos do primeiro tempo foi um brilho casual. Elias lançou Daniel Alves, o lateral cruzou e Robinho concluiu aparecendo de trás para surpreender os zagueiros. Ao contrário das impressões do público, feliz diante da expectativa de agitação, o 1x0 não representou o início de um glorioso intercâmbio, mas o ponto de partida de uma penosa estabilidade tática. Foi a primeira e última vez em todo o primeiro tempo que o Brasil tocou na bola dentro da área de Villar. Recolhido em seu campo, preferiu esperar aferrado a uma ineficaz ideia de fortificação.

Armada para formar uma barreira de seis defensores, a seleção de Dunga é o retrato de uma equipe velha. Há décadas os planos de jogo que não permitem a liberação dos laterais são incompatíveis com a eficiência e o jogo bem disputado. Elias e Fernandinho tornaram-se dois pivôs no sentido mais arcaico do termo. Ficando muito próximos aos zagueiros, alargaram a equipe, não participaram das jogadas de ataque, e por não terem serventia, não foram úteis nem para trazer segurança. Ninguém cobriu os laterais, talvez porque o modelo não prevê sua utilização sistemática. Quando a equipe precisou de Daniel Alves e Filipe Luís não os encontrou.

Com a ajuda de seus incansáveis atacantes, Benítez pela esquerda e Derlis pela direita, o Paraguai provocou uma chuva incessante de cruzamentos, faltas laterais e escanteios que quase sempre eram concluídos a gol. A incompetência defensiva do Brasil só foi igual a sua incapacidade de dar três passes seguidos. Os zagueiros, Miranda e Thiago Silva, pareciam juniores. Thiago Silva sofre de um ataque de nervos desde que a devastadora experiência da Copa triturou sua fé. Ele é um conjunto de excelentes capacidades. Mas não consegue deixar de sofrer. O futebol virou um sofrimento. Sua depressão contagia e comete erros graves, como o que provocou o pênalti a favor do Paraguai. Foi um toque de mão. Semelhante ao que quase o condenou nas quarta-de-final da última Liga dos Campeões. Tocou na bola para desviar um cruzamento em uma disputa com Santa Cruz e o árbitro não teve outro remédio a não ser marcar a penalidade. Derlis converteu o gol de empate.

O Brasil não conseguiu mais se recuperar porque já não entende nada sobre sua própria identidade. São muitos anos sem uma ideia de jogo que concilie sua tradição e sua natureza. Os jogadores não encontraram o fio da partida e não souberam como agir contra um adversário que sobe como a maré no segundo tempo. Infatigáveis, os guaranis comemoraram a decisão por pênaltis efusivamente enquanto Dunga sussurrava coisas no lado do campo, no meio de um círculo de brasileiros suplicantes, abraçados, como se tentasse confortar com mentiras.

A disputa de pênaltis teve dez cobranças. Jefferson e Villar, dois goleiros especialistas, não defenderam nenhuma. Douglas Costa e Everton Ribeiro, ambos reservas, chutaram para fora e aceleram o processo. 

Nem o erro de Santa Cruz tirou a convicção dos paraguaios. Há muito tempo o Brasil já não sabia mais nem o seu próprio nome.

Pelo crime de um péssimo jogo em Concepción, Brasil e Paraguai mereceram, depois do 1x1 no tempo normal, o castigo de decidir nos pênaltis a vaga nas semifinais da Copa América.

Como na última edição do torneio, deu o time guarany de novo, por 4x3. Só restou a este cronista tomar um uísque paraguaio, ouvir uma guarânia e blasfemar em “portunhol selvagem”, a língua que falamos na nossa tríplice fronteira com “los hermanos” paraguaios e argentinos.

A seleção canarinho até ensaiou um bom futebol coletivo nos minutos iniciais, com um Philippe Coutinho beatlemaníaco e aventureiro qual atua no Liverpool, um Elias ao estilo do jogador que conhecemos do Corinthians e Daniel Alves respirando Barcelona. Dessa forma, veio o gol de um refeito Robinho, aos 24 do primeiro tempo.

E por aí ficou a ilusão tingida de verde e amarelo. Em vez de tentar o segundo gol, o Brasil, aos poucos, adotou um joguinho cartorial, precavido e burocrático. Um Elias quase proibido de ir mais adiante, acompanhando o ataque, era o retrato do resto da jornada.

A despedida brasileira, na primeira partida de mata-mata depois da tragédia dos 7x1 para a Alemanha, revela, neste aniversário de um ano do Mineirazo, cabalísticos sete erros:

1) Fora de campo, o técnico Dunga pisou na bola, na véspera da partida, ao misturar na mesma frase a intenção do politicamente correto e um gesto de racismo: “Acho que sou afrodescendente, gosto de apanhar”. Em um país com forte herança escravagista e de uma seleção brasileira historicamente negra, a frase foi um desastre, para dizer o mínimo. O que diria o cronista Mario Filho, autor do clássico nacional “O negro no futebol brasileiro”?

2) Dentro da cancha, um treinador sem imaginação ou capacidade de sair da sinuca paraguaia. Quem pensa mal, treina mal. É preciso sim saber usar as palavras. Não pode ser um “sem noção”, como dizemos aqui nos trópicos.

3) A CBF não quis aprender nada com o 7x1. Simplesmente ignorou, sob a ilusão de que o fracasso na Copa 2014 teria sido um fato surreal e isolado.

4) Se o futebol canarinho perdeu relevância no mundo, é triste saber que está abaixo também das seleções da América Latina. O fim de um “império”. Ninguém teme mais a camisa amarela.

5) Em nome da falsa mística que temos que jogar “sério”, o Brasil não sorrir mais em campo. Tudo bem não ser um time de chorões, mas essa cara dura, com exceção de Robinho, revela que a garotada não se diverte mais com o jogo. Oswald de Andrade, um dos maiores escritores brasileiros, em seu manifesto antropofágico, já dizia: “A alegria é a prova dos nove”.

6) José Maria Marin, ex-presidente da CBF está preso na Suíça; Del Nero, o atual, teme até sair de casa, e manteve distância da equipe na Copa América, com medo de ser detido. A turma do “Bom Senso F.C.”, grupo de atletas que repensa o futebol brasileiro, precisa ser ouvida mais seriamente.

7) O 7x1 não serviu de quase nada. Que esta melancólica despedida de hoje, com um técnico sem imaginação que serve apenas para tolher o pouco talento que nos resta e a ideia de se divertir em campo, sirva para alguma coisa. O samba está no divã. Que volte no melhor dos rebolados.






O torcedor acordou 11 dias antes, na folga de um sábado de inverno, logo depois que o Brasil deixou prematuramente a Copa América do Chile. Não precisará despertar no dia 8 de julho de 2015 para constatar que o futebol brasileiro perdeu um ano inteiro, contado. Mas quem se importa com a Seleção da CBF no país do 7 a 1?

A camisa amarela era um símbolo. Não é mais. A CBF é o problema. A cúpula está mais preocupada em medir os passos do FBI do que monitorar as decisões de um ultrapassado Dunga. Torcedores cobrem com adesivo o símbolo da CBF em camisas, mantas, chapéus e abrigos. Vergonha pura.

Na rua, o fã, assim como parte da imprensa esportiva, ainda está iludida com o futebol brasileiro. Acha que o país é celeiro de craques. Não vê a evolução do futebol, olha os vizinhos ou observa o progresso de outras seleções. Entende que o DNA do futebol bonito é só do Brasil.

O torcedor, como a mídia, ainda acredita em centroavante aipim e camisa 10 que “pensa o jogo” – só para ficar em duas posições. São jogadores em rápido processo de extinção. Não há um só time competitivo no planeta futebol que guarde lugar à dupla. O futebol que ganha dispensou os dois dinossauros. Os atrasados, como nós, os cultuam, pedem, imploram, acham que um time não funciona sem eles.

A CBF tem culpa por travar o progresso, mas é hora de avançar. Entender, pelo menos, que o futebol mudou e que nós ficamos para trás, mesmo no Cone Sul.

Não somos mais referência de chuteiras. Quem somos nós mesmo?

O futebol da Seleção eliminada pelo Paraguai, lanterna das Eliminatórias e cheio de refugos de clubes brasileiros, foi uma vergonha. Nada justifica atuação tão ruim contra um time cujo centroavante é o mesmo há 15 anos.

Roque Santa Cruz estará nas próximas duas edições da Copa América, aos 40 e tantos anos, podem apostar. Não tem virose, cansaço de férias ou apagão (outro?) que sirva de desculpa.

O Brasil não teve organização. Fernandinho e Filipe Luís abusaram dos chutões na direção que seus narizes apontassem. Jogador de Seleção não pode usar tantas vezes este recurso. Se os usa demais é porque não tem outros. E daí não pode ser convocado.

Daniel Alves subia e ninguém cobria. A jogada do gol de Robinho foi de aniversário. No segundo tempo, a produção ofensiva da Seleção se resume a um arremate de Fernandinho.

É preciso mecânica também para atacar, e não só para defender. Triangulações pelos lados, o falso 9 recuando para abrir espaço, um dos volantes se somando aos homens de frente. Nada. Sem Neymar, a Seleção foi medonha.

Pode piorar: é só chegar em 6º nas Eliminatórias e ficar fora de uma Copa pela primeira vez. Você duvida? Eu, não.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

Belo Monte: um rio de direitos violados (Por Thiago Muniz)

A hidrelétrica está para começar suas operações, mas os direitos dos moradores da região não foram contemplados.

Falta apenas um documento, a licença de operação, para que a hidrelétrica de Belo Monte possa dar início à geração e venda de energia. A Norte Energia – consórcio responsável pelo empreendimento, de maioria do grupo Eletrobrás – solicitou a licença ao IBAMA em fevereiro. O objetivo é iniciar o enchimento do lago em setembro deste ano para começar a gerar energia em novembro. A insistência da empresa em afirmar que tudo está correndo bem, inclusive rebatendo em longas notas, reportagens publicadas na imprensa, oculta uma série de violações de direitos que se avolumam em Altamira e região.

Um dos principais gargalos no momento é a remoção forçada das famílias da área do futuro reservatório, principalmente na área urbana de Altamira, que terá parte de seu território alagado de maneira permanente. 

A conta da Norte Energia, logo de início, já não fechava: foram cadastradas 7.790 famílias, mas a previsão era construir apenas 3.980 casas no dito “reassentamento urbano coletivo”. Centenas de famílias foram excluídas do direito à moradia.

Após um longo processo de luta, a Norte Energia aceitou incluir 400 famílias nessa conta – porém para elas não é oferecida a opção de uma outra casa. As indenizações oferecidas, melhor dizendo, impostas com base na lógica patrimonialista, são insuficientes para garantir uma nova casa na Altamira dos preços hiperinflados pela própria construção da barragem. Em um bairro como o Baixão da Colina, por exemplo, as ofertas de indenização ficam entre R$ 5 mil e R$ 17 mil em média. Às famílias insatisfeitas, a empresa sugere o direito de recorrer na Justiça.

Nos critérios de tratamento com os atingidos, impostos pela empresa e sancionados pelo órgão licenciador sem passar pelo crivo da população, o modo de vida tradicional da região amazônica é amplamente desrespeitado. Por exemplo, muitos ribeirinhos, pescadores e indígenas necessitam casas na cidade – onde têm acesso a serviços públicos e ao comércio – e também na área rural – onde exercem a pesca, o plantio ou o extrativismo. Essas duas casas são necessárias para manutenção de seu modo de vida. No entanto, a Norte Energia só dá direito a essas famílias a uma casa, no limite, as forçando a fazer uma escolha entre ser rural e ser urbano que não faz sentido para esses povos.

A indenização em dinheiro – alternativa menos recomendável - é largamente incentivada tanto no meio urbano quanto rural. Segundo o Ministério Público Federal, dos mais de 400 pescadores proprietários de ilhas no Xingu, apenas um optou pelo reassentamento urbano e dois pelo rural – em área considerada imprópria para pescadores inclusive pelo IBAMA. Para os agricultores atingidos, a empresa tem oferecido carta de crédito no valor de R$ 135 mil reais. Essa medida esbarra na realidade fundiária da região: não é possível encontrar nas proximidades terras documentadas com esse preço, o que obriga os agricultores a:

a) contraírem dívidas para comprar lotes,
b) emigrarem para áreas distantes em “fundo de travessão” (sem infraestrutura),
c) entrarem no mercado paralelo das cartas de crédito, que funciona, aparentemente, com conivência da empresa.

Dessa maneira, a Norte Energia se desobriga da responsabilidade de construir um verdadeiro reassentamento rural coletivo – reconhecidamente, a opção que melhor atende à reparação dos modos de vida dos atingidos.

A empresa também insiste sempre em afirmar que não vai alagar nenhuma terra indígena, uma verdade que esconde algumas perversidades. A primeira é que indígenas estão sim sendo removidos para dar lugar ao lago: mais de 600 famílias vivem na área que vai alagar e mal são reconhecidos como indígenas, não recebendo tratamento que leve em conta suas especificidades e causando a separação de familiares, que são realocados para diferentes bairros.

O reassentamento urbano próximo ao rio – uma conquista dos indígenas e pescadores – sequer começou a ser construído, pois a Norte Energia afirma que “não há demanda”. Segundo: duas terras indígenas, Arara da Volta Grande e Paquiçamba, estão localizadas no trecho do rio que vai praticamente secar devido à barragem. Terceiro: reconhecidamente, as próprias medidas mitigatórias da Norte Energia causaram um efeito desastroso nas aldeias da região. A empresa se converteu em um balcão de negócios diretos com os indígenas, distribuiu voadeiras, carros de luxo e combustível para cooptar lideranças e inundou as aldeias da região com comida industrial e outras bugigangas, o que tem inclusive aumentado os níveis de doenças entre os indígenas.

Categorias de trabalhadores tradicionais da região também são ameaçadas. A mais óbvia delas, a dos pescadores, até hoje não teve o reconhecimento da Norte Energia de que sua atividade foi impactada, apesar dos testemunhos unânimes. Com relação aos oleiros (fabricantes de tijolo artesanal), a empresa reconhece para indenizar apenas os proprietários das olarias, desconsiderando os trabalhadores empregados e os responsáveis pelo transporte dos materiais.

Para os carroceiros, a situação é ainda mais grave, pois sequer são reconhecidos como categoria atingida e não têm nenhum tratamento previsto no Plano Básico Ambiental (PBA) de Belo Monte. A categoria sofre com o aumento do trânsito e a diminuição da procura pelo serviço de frete devido à desarticulação do mercado local. Para a Norte Energia, no entanto, eles são atingidos “pelo progresso”.

Os reassentamentos urbanos também já apresentam inúmeros problemas. Casas apresentam rachaduras e infiltração, não há equipamentos básicos como escolas e postos de saúde (obrigando as crianças a gastarem horas diárias rodando em transportes coletivos pela cidade para estudar), as ruas são escuras e inseguras, o sistema de tratamento de esgoto exala mau cheiro de forma permanente e falta até água para as famílias. Muitas mulheres perderam suas fontes de renda, que dependiam de antigos laços comunitários (eram manicures, cabeleireiras, costureiras e vendedoras de cosméticos) e a empresa nunca as compensou pela interrupção dessas atividades. Para não falar do aumento do índice de violência, tráfico de drogas e prostituição que sempre acompanha a construção de barragens e atinge as mulheres com mais intensidade.

O indicativo de que as ações mitigatórias com relação à construção de uma barragem deveriam, senão melhorar, ao menos manter igual o nível de vida dos atingidos e atingidas, é largamente aceito na oficialidade. No entanto, podemos afirmar sem medo que, de maneira geral, os atingidos não só não melhoraram de vida como em muitos casos pioraram ou ainda vão piorar.

Belo Monte é um caso escandaloso pela sua magnitude, mas não é exceção. Todas as empresas, em todas as regiões, tratam os atingidos como parte dos custos. A hidreletricidade compõe mais de 70% da nossa matriz elétrica e mais de 1 milhão de pessoas já foram atingidas por barragens. Mesmo assim, até hoje ainda não existe uma Política Nacional de Direitos para esse povo, ficando a critério do empreendedor decidir que tratamento dar aos atingidos. Como se costuma dizer, é como “pôr a raposa para tomar conta do galinheiro”.

A Norte Energia tem pressa, inclusive por estar sujeita a multas milionárias se a Aneel decidir não perdoar seu atraso de mais de um ano no cronograma. A pressão recai sobre os trabalhadores - não à toa, três operários morreram em um acidente no canteiro semana passada e sabemos que muitas mortes ocorrem lá dentro todos os meses e são devidamente abafadas. A pressão também recai sobre os atingidos, que acabam tendo de pagar com seus direitos o preço do “desenvolvimento”. E vai sobrar para o brasileiro pagar, pois são os trabalhadores que vêm sustentando com tarifas cada vez mais abusivas todo o mercado altamente lucrativo da eletricidade no Brasil (que em lucratividade perde somente para os bancos).

Diante da ausência de uma política de direitos, a experiência de mais de 20 anos de existência do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) nos ensina que apenas a organização e a luta dos atingidos têm contribuído para a melhora de vida e o verdadeiro desenvolvimento nas regiões impactadas. Apenas com luta se obtém o reconhecimento como atingidos, reassentamentos dignos e com participação ativa dos atingidos, acesso a políticas públicas, além de meios de reestruturação econômica e cultural. Essa é a lição que queremos compartilhar.

Escândalo do petrolão leva TCU a investigar Belo Monte

Consórcio responsável pela usina é formado por empresas citadas na Lava Jato: Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Galvão Engenharia.

O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou nesta quarta-feira a abertura de fiscalização da usina de Belo Monte, que está em construção no Pará. A medida, sugerida pelo ministro José Múcio e aprovada por unanimidade no plenário do tribunal, determina que seja feita a investigação de possíveis irregularidades no uso de recursos públicos federais no projeto, cujo consórcio responsável é formado por empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato: Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Galvão Engenharia.

Segundo o ministro Múcio, não houve nenhuma denúncia específica para motivar o procedimento, mas a série de denúncias envolvendo empreiteiras recomenda uma ação preventiva. O objetivo, portanto, é identificar e prevenir desvios que possam causar prejuízos aos cofres públicos.

O TCU destacou que os custos da usina de Belo Monte aumentaram de 19 bilhões de reais para 33 bilhões de reais, com predomínio de capital público e 70% dos financiamentos com origem no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para o órgão, esse aumento dos custos pode estar relacionado à "falta de controle das estatais quanto ao processo decisório e às condições favoráveis de financiamento oferecidas pelo BNDES".

A concessionária Norte Energia, dona da usina, é uma empresa privada. Como as atribuições do TCU se restringem à fiscalização do uso de recursos públicos, a investigação deve se ater à parcela de investimentos da Eletrobras e de suas subsidiárias Chesf e Eletronorte, que são donas de praticamente metade da empresa (49,98%).

O restante do capital da Norte Energia pertence aos fundos de pensão Petros e Funcef (20%) e a outras empresas, como Neoenergia, Cemig, Light, Vale, Sinobrás e J.Malucelli Energia. A investigação foi proposta pelo procurador do Ministério Público junto ao TCU, Sergio Ricardo Costa Caribé.

"Dessa forma, essencial que as fiscalizações do TCU se conformem a esse novo quadro, investigando o uso de recursos públicos federais em empreendimentos que contam com participação relevante de empresas públicas, mas são controladas por sócios privados", diz o relatório do ministro Múcio. A auditoria ainda entrará em fase de planejamento e não tem prazo para conclusão dos trabalhos.

Belo Monte está com 65% de suas obras concluídas. A usina terá 11.233 MW de potência. O TCU chegou a avaliar a possibilidade de investigar também as usinas de Santo Antônio e Teles Pires, cujas concessionárias também são integradas por empresas da Eletrobras. Porém, devido ao estágio avançado das obras dos empreendimentos, o órgão chegou à conclusão de que não haveria risco sistêmico para o setor elétrico.


O Brasil está prestes a ver mais um reservatório de usina hidrelétrica ocupar espaços que antes eram destinados a múltiplos usos. A história se repete, com nuances de diferenças e muitas similaridades. A hidroeletricidade é apontada como uma das energias ambientalmente mais limpas do planeta, no entanto, não se pode dizer o mesmo de seus impactos sociais. A hidrelétrica de Belo Monte está instalada em uma das regiões de maior sociobiodiversidade, do Brasil, muito próxima ao Parque Indígena do Xingu e de Altamira, cidade que sempre foi um portal para a Amazônia. Principal obra da primeira fase do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), a construção da usina de Belo Monte começou em 2011 e tem sido recheada por tropeços em sua implantação e carregada de passivos ambientais e sociais.

A falta de cronograma claro e definição de responsabilidades para as contrapartidas assumidas pela Norte Energia, empresa responsável pela obra, transforma qualquer pequena demanda em um imenso jogo de empurra entre os atores envolvidos. As obras das estações de tratamento de água e saneamento em Altamira são o exemplo mais pitoresco desses impasses. A empresa entregou para a prefeitura toda a infraestrutura que garantiria água de boa qualidade e o tratamento de esgotos, contudo, nega-se a fazer as ligações aos imóveis que consomem a água e geram os esgotos. Nesse processo foram investidos R$ 485 milhões e a população ainda depende de poços e fossas em seu cotidiano.

Há críticas consistentes também em outras áreas da relação entre poder público e a Norte Energia, como saúde ou segurança. A presença da obra de Belo Monte, que será a 3ª maior hidrelétrica do mundo, levou milhares de trabalhadores e migrantes para a região, causando um enorme impacto sobre os serviços públicos, que já não eram de excelência antes do início dessa movimentação. A população de Altamira deu um salto de 100 mil para 150 mil habitantes, o que se refletiu no número de ocorrências policiais, onde a taxa de homicídios subiu de 48 para cada 100 mil habitantes para os atuais 57 assassinatos por 100 mil habitantes. A média nacional é de 32 e a média mundial é de seis.

Transitar em Altamira também tornou-se um exercício arriscado. O número de acidentes de trânsito na cidade subiu de 456 para 1169 em um ano, o que serviu, também, para aprofundar a crise nos serviços públicos de saúde, que em apenas um hospital em 2013 os atendimentos foram triplicados.

Saúde e educação foram áreas muito impactadas pela presença de uma nova população, formada principalmente por trabalhadores da Norte Energia, suas famílias, prestadores de serviços e pessoas em busca de mais oportunidades, além, é claro, das populações ribeirinhas e rurais deslocadas de suas casas por conta das obras e do território que será ocupado pelas águas represadas do rio Xingu. A empresa se comprometeu a investir na infraestrutura de saúde, mas atrasou a entrega de todos os equipamentos contratados.

A infraestrutura de educação também é bastante exigida, novamente o atraso na entrega das obras combinadas com a Norte Energia levou os municípios a suportarem excesso de alunos em salas de aula. Além disso, há um dado importante: o Ministério da Educação considera em seus repasses para os municípios o número de estudantes matriculados no ano anterior. No caso da região impactada por Belo Monte o número de alunos tem crescido à base de mil a mais por ano, o que amplia a pressão sobre os recursos municipais. Em 2012, havia em Altamira 24.791 alunos, em 2015 o número de alunos matriculados (ensino infantil e fundamental) aumentou para 27.486.

É importante registrar que houve um expressivo aumento nas taxas de reprovação e evasão escolar com riscos importantes para segurança de crianças e adolescentes. Somado a isso há o fato de que o Conselho Tutelar de Altamira conta com apenas cinco pessoas para atender mais de dois mil casos por ano.

A hidrelétrica é, também, o empreendimento de maior impacto sobre populações indígenas em todo o Brasil. Mais uma vez o empreendedor não inovou em nada, adotou na maior parte de seus investimentos com foco nesse grupo critérios clientelistas. Dos R$ 212 milhões que a empresa alega ter gasto a maior parte foi ofertada em presentes e “mesadas” para as aldeias, em uma relação desigual com as comunidades. Essa oferta desmedida de dinheiro desequilibrou os sistemas de produção de alimentos nas aldeias, que passaram a comprar produtos industrializados de baixa qualidade e impôs riscos à segurança alimentar principalmente das crianças.

A relação da Norte Energia com o Ibama tem sido de conflito e composição em situações onde licenças são concedidas antes que as contrapartidas sejam, de fato, entregues à população e às prefeituras da região. Essa situação piora com a falta de uma presença efetiva de comando e controle, o que tem levado a uma exploração de recursos naturais em Terras Indígenas, onde a retirada de madeira já pode ter chegado a valores próximos a meio bilhão de reais.

A situação dos recursos pesqueiros é um capítulo a parte. Mesmo fazendo um monitoramento semestral na região, os dados coletados pelo Ibama não estão sendo colocados à disposição da população, de pesquisadores ou de organizações sociais que fazem o acompanhamento dos impactos sobre a pesca, um importante elemento de geração de renda e segurança alimentar para as populações ribeirinhas e para os povos indígenas.

Mesmo não sendo o primeiro e nem o único empreendimento de porte instalado no Brasil, a construção de Belo Monte vem repetindo erros que já deveriam ter ficado no passado autoritário. Praticamente todas as iniciativas de diálogos produtivos entre os principais atores não têm levado a avanços importantes, questões fundamentais como o reassentamento de populações rurais e a criação de assentamentos urbanos não avançam por falta de flexibilidade nos planos da empresa.

Essa falta de diálogo reflete-se, também na ausência de transparência em relação aos investimentos, aos financiamentos e aos volumes de recursos alocados em cada uma das áreas de atuação da Norte Energia em todo o processo de planejamento, licenciamento e construção da usina de Belo Monte. Neste momento em que as comportas estão para ser fechadas fica a lição de como não de fazer uma grande obra de infraestrutura na Amazônia, região sensível que ainda vai abrigar muitos bilhões em geração de energia, mineração, estradas e todo o tipo de intervenções impactantes sob o ponto de vista ambiental e social.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A reestruturação do currículo no mercado de trabalho (Por Thiago Muniz)

As regras do jogo profissional mudaram. É preciso mudar de mentalidade.

"Não permita que ninguém jamais diga quanto você vale. Você é o único capaz de saber seu próprio valor." (Muhammad Ali)

"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou."
(Albert Einstein)

Desemprego no Brasil vai a 6,7% em abril

O IBGE divulgou nesta quinta-feira (25) que a taxa de desemprego em seis capitais do país se situou em 6,7% em abril, o índice mais alto desde 2010. A renda média real, por sua vez, também caiu 1,9% sobre abril e 5% na comparação com um ano antes e está em 2.117,10 reais. Os dois indicadores continuam a compor o quadro de deterioração do mercado de trabalho e da economia neste ano.

Este artigo foi escrito para quem está desempregado neste exato momento. Para quem sofre de frustração e impotência ao verificar que não encontra um emprego. Para quem há algum tempo sente que enviar currículos se transformou em uma perda de tempo. E, definitivamente, para quem deixou de ter medo de se reinventar profissionalmente porque já não tem nada a perder. Para todos vocês, descrevemos a seguir um percurso de nove etapas. Cada uma delas representa um caminho que o leitor deverá percorrer por conta própria.

1. Tome as rédeas de sua vida profissional. A crise explicitou a necessidade de transformação do modelo produtivo que rege nosso sistema econômico. Coube a nós viver o fim da era industrial e o início da era do conhecimento. As regras do jogo profissional mudaram e continuarão mudando, cada vez mais depressa. As instituições estabelecidas já não têm a capacidade de garantir segurança econômica para os cidadãos. Os contratos de trabalho por tempo indeterminado estão diminuindo. E para muitos chegou a hora de encarregar-se pessoalmente do trabalho. E de realizar uma função profissional útil, criativa e que faça sentido, que de preferência não possa ser automatizada e digitalizada pelas novas tecnologias, tampouco ser terceirizada para um país em desenvolvimento.

2. Cultive a inteligência emocional. Estar desempregado é uma situação profissional muito complicada de lidar. No entanto, para conseguir iniciar um processo de mudança, é importante não nos deixar levar pela reclamação, pela vitimização ou pela culpa, pois com isso só conseguiremos consumir a energia vital de que necessitamos para buscar novas soluções e alternativas. É fundamental investir tempo em nos conhecer em profundidade, aprendendo a cuidar da nossa autoestima e a cultivar a confiança em nós mesmos. Na medida em que desenvolvemos nossas fortalezas internas, começamos a enfrentar a adversidade de forma mais responsável, otimista e eficiente. E, à base de treinamento, verificamos que nosso grau de satisfação não tem tanto a ver com nossas circunstâncias, mas com a atitude que tomamos diante delas.

3. Treine a inteligência financeira. Em geral, as crenças sobre o dinheiro passam de geração em geração por inércia, sem nos darmos conta. Do mesmo modo que não escolhemos nosso time de futebol, nossa visão profissional e financeira do mundo foi pré-fabricada; é item de série. Não nos ensinaram a resolver nossos próprios problemas econômicos sozinhos. Cultivar nossa inteligência financeira nos capacita a fazer orçamentos, dando-nos a oportunidade de gerar excedentes para economizar, investir e não depender de empréstimos ou dívidas. Também nos mostra como ganhar mais e gastar menos, emancipando-nos das instituições estabelecidas.

4. Descubra seu propósito profissional. Em vez de fazer o que se diz que temos de fazer (buscar saídas profissionais), é hora de encontrar nosso verdadeiro propósito. E para isso é essencial escolher um caminho profissional que faça sentido para nós. Para além dos motivos típicos que nos movem a trabalhar (dinheiro, poder, segurança, comodidade ou reconhecimento), temos de nos conectar com uma motivação intrínseca que nos permita conceber nossa profissão de forma mais vocacional. Para isso, temos de redefinir nosso conceito de sucesso, assim como os valores que queremos que guiem nossas decisões e ações. O que faríamos profissionalmente se não tivéssemos de ganhar dinheiro? A que nos dedicaríamos se soubéssemos que tudo vai dar certo? O que faríamos se não tivéssemos medo? Saber a resposta dessas perguntas não tem preço.

5. Decida seu papel profissional. Cerca de 85% dos profissionais espanhóis trabalham como “funcionários”, vendendo seu tempo em troca de um salário no fim do mês, e fazendo parte de um sistema produtivo que enriquece outras pessoas. Mas além desse papel profissional existe o de “empreendedor”. Ou seja, aquele que trabalha para si mesmo como autônomo ou freelancer, ou que monta um projeto e contrata outras pessoas. Cada um conta com uma série de vantagens e desvantagens, exige um tipo de mentalidade específico e é acompanhado de um determinado estilo de vida. É por isso que passar de funcionário a empreendedor implica em uma mudança profunda na forma de se relacionar com o mercado de trabalho. E como a segurança profissional está na berlinda, é uma questão de escolher entre a incerteza do funcionário e a incerteza do empreendedor.

6. Faça algo que o apaixone e que potencialize seu talento.Apesar de termos sempre ouvido que “não podemos ganhar o pão fazendo o que gostamos”, na hora de se reinventar é fundamental nos dedicarmos a uma profissão que nos motive e interesse de verdade. Só assim encontraremos a força e a dedicação para dar o melhor de nós, potencializando nossas virtudes e habilidades. Todos temos algum tipo de talento a descobrir e desenvolver. Em essência, o talento é a forma pela qual expressamos nosso valor. Isso sim, os dons que são necessários para realizar as novas funções profissionais não têm nada a ver com a educação industrial ou as aptidões acadêmicas convencionais. Em vez disso, surgem quando nos comprometemos com nosso processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Quando mais nos conhecemos, mais nos valorizamos por sermos quem somos. E quanto mais nos valorizamos, mais sabemos para que servimos e como podemos ser úteis para a sociedade.

7. Encontre um problema social que o motive a resolver. As pessoas estão dispostas a pagar por produtos e serviços que atendam às suas necessidades e satisfaçam suas aspirações. O desafio está em saber que problemas podemos resolver fazendo o que gostamos usando nossos talentos. Também é importante criar “propostas de valor” que melhorem a qualidade de vida de outras pessoas. Ao mesmo tempo, é fundamental conhecer as últimas aplicações e ferramentas digitais que podemos empregar na Internet, concebendo assim novas formas de agregar valor ao mercado profissional.

8. Invista em formações específicas. Nesse ponto do caminho pode ser decisivo assistir a seminários que nos ensinem a “saber como” e a “ter com que” expressar nosso talento. Nesse sentido, a universidade convencional parece estar deixando de ser a única opção. Quanto do que estudamos nos foi realmente útil para desempenhar nosso trabalho atual? A nova formação será cada vez mais focada em oferecer cursos práticos que nos ensinem a desenvolver habilidades que nos permitam resolver problemas concretos. O investimento mais importante tem de ser feito em nós mesmos. Nossa inteligência, nossa criatividade e nosso talento são nossa principal fonte de riqueza.

9. Desenvolva sua marca pessoal. O marketing está se democratizando e se personalizando. E cada vez mais será protagonizado pela “marca pessoal”. Uma vez que temos claro o que oferecemos, o desafio é descobrir como oferecer. Ou seja, a maneira como nos comunicamos e conectamos com as pessoas a quem nossos serviços podem servir. É primordial montar uma página na web explicando os benefícios e soluções que oferecemos, utilizando as redes sociais para nos apresentar a nossos potenciais clientes. Por meio de nossa marca pessoal conseguimos que nossa profissão seja um reflexo da pessoa que somos, aprendendo a ganhar dinheiro como resultado de criar riqueza para a sociedade.

CV: 10 erros comuns

Já pensou em quem lê o seu Curriculum Vitae? Tente estar na pele de um recrutador e imagine que tem 300 CVs para analisar e tempo limitado para o fazer. Por onde vai começar?

Por mais que queira, não terá tempo para ler exaustivamente todos os CVs e, como tal, tem de filtrar e reduzir o leque de potenciais candidatos, procurando encontrar formas fáceis e eficientes de o fazer. Nesta fase, ainda não está à procura dos melhores, e sim procurando argumentos para eliminar candidatos, ou como se diz, está à procura de erros.

Um CV com erros pode significar a perda de boas oportunidades de emprego e revê-lo é essencial para prevenir erros que podem funcionar como filtros de rejeição na cabeça dos recrutadores. Conheça os 10 erros mais comuns em CVs, segundo o site Monster:

1) Ter erros gramaticais

Se o seu CV tiver erros e não for perfeito, os recrutadores poderão basear-se nisso para tirar conclusões à cerca de ti. “Não é atento”, “não tem atenção ao detalhe”, “não se esforçou”, “não se dedicou o suficiente” ou até “não sabe escrever”, são alguns dos pensamentos aos quais os recrutadores podem se agarrar para o eliminar.
2) Ser pouco objetivo

Os recrutadores querem compreender claramente o que já fez e alcançou. Quanto mais específico for, mais facilmente passará uma imagem compreensível pelo recrutador. “Membro de equipe de vendas” é menos objetivo e esclarecedor que “Prospecção, contato, abordagem e negociação com potenciais clientes. Angariação de X novos clientes e R$ Y em receitas”.

3) Não estar adaptado

Um CV geral enviado para todas as empresas ou vagas tem maior dificuldade em dar resultado. O CV deve ser ajustado em função da oportunidade almejada e das necessidades e competências específicas ao emprego.

4) Estar focado em funções

Os recrutadores preferem ver CVs focados em resultados/conquistas do que em funções/deveres. “Organização de histórico de arquivos, tornando-os mais facilmente acessíveis aos membros do departamento” é preferível a “Gestão documental do departamento”

5) Ser demasiadamente longo ou demasiadamente curto

Por norma um CV não deve ter mais do que 2 páginas. Já a tentação de tentar apenas 1 página pode significar deixar de fora informação relevante e valiosa para o candidato.

6) Ter um objetivo fraco

O objetivo do CV deve “vender” o seu valor acrescentado à empresa. Evite chavões como “À procura de oportunidades desafiadoras e com boas perspectivas” e aproveite para mostrar como pode beneficiar a empresa “Procuro utilizar e potencializar as minhas capacidades de persuasão e negociação para contribuir com o aumento das vendas da empresa”.

7) Ser passivo

Ao escrever o CV, deves utilizar verbos orientados para a ação. Em vez de “Responsável pela angariação de clientes”, pode escrever algo como “Angariei X clientes no valor de R$ Y no espaço de um ano”.

8) Omitir informação relevante

Por vezes experiências que podem parecer menos importantes são relevantes para os recrutadores. Um trabalho em part-time durante os estudos pode tê-lo ajudado a ganhar competências como gestão de tempo ou trabalho em equipe.

9) Ser difícil de ler

Um bom CV deve facilitar a vida do leitor. Para tal, certifique-se que tem uma estrutura e apresentação adequadas e que é fácil de ler e analisar.

10) Ter os contatos incorretos

De nada lhe serve um bom CV se depois não pode ser facilmente contatado. Certifique-se que mantém os contatos corretos e atualizados e que utiliza um número de celular que tem sempre disponível ou um e-mail que acesse regularmente.

Lembre-se que um bom CV é essencial na seleção para entrevistas e logo, decisivo na sua procura de emprego.



BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

Delação Premiada: o X-9 emancipado (Por Thiago Muniz)

Delação premiada é uma expressão utilizada no âmbito jurídico, que significa uma espécie de "troca de favores" entre o juiz e o réu. Caso o acusado forneça informações importantes sobre outros criminosos de uma quadrilha ou dados que ajudem a solucionar um crime, o juiz poderá reduzir a pena do réu quando este for julgado.

Muitas pessoas consideram a delação premiada como se fosse um "prêmio" para o acusado que opta por delatar os comparsas e ajudar nas investigações da polícia. 

De acordo com a lei brasileira, o juiz pode reduzir a pena do delator entre 1/3 (um terço) e 2/3 (dois terços), caso as informações fornecidas realmente ajudem a solucionar o crime.

A delação premiada está prevista por lei no Brasil desde 1999, através do decreto de lei nº 9.807 e no artigo 159 do Código Penal Brasileiro, ambos respectivamente com os seguintes textos:

Artigo 159 (Código Penal Brasileiro):

"Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate: Pena: reclusão de oito a quinze anos.
§ 4° - Se crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá sua pena reduzida de um a dois terços".​

Artigo 13 (artigo nº 9.807/99):

"Poderá o juiz, de ofício ou a requerimento das partes, conceder o perdão judicial e a consequente extinção da punibilidade ao acusado que, sendo primário, tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e o processo criminal, desde que dessa colaboração tenha resultado:

I – a identificação dos demais co-autores ou partícipes da ação criminosa;

II – a localização da vítima com a sua integridade física preservada

III – a recuperação total ou parcial do produto do crime.

Parágrafo único: a concessão do perdão judicial levará em conta a personalidade do beneficiário e a natureza, circunstâncias, gravidade e repercussão social do fato criminoso"

Artigo 14 (artigo nº 9.807/99):

"O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais co-autores ou partícipes do crime, no caso de condenação, terá sua pena reduzida de um a dois terços".

Como funciona a delação premiada

A delação premiada pode ser requerida pelo próprio réu, através de um pedido formal feito por seu advogado, ou sugerida pelo promotor de justiça que está investigando o processo criminal.

Caso a delação premiada seja aprovada, o delator deverá dar ao juiz informações pertinentes sobre o caso em que está envolvido. Se o juiz considerar os dado informados pelo réu realmente importantes, consentirá um "alívio" na sua pena, como:

- redução da pena de um a dois terços do total;
- pena em regime semiaberto;
- anulação total da condenação;
- perdão pelo envolvimento no crime;

No entanto, caso as informações fornecidas pelo delator sejam inverídicas, o juiz pode aumentar a sua condenação e ainda processá-lo por "delação caluniosa", sendo punido com dois a oito anos de prisão por faltar com a verdade.

A delação premiada, que deflagrou com maior vigor a operação “Lava Jato” da Polícia Federal, voltou a chamar a atenção a um antigo instituto do Direito Penal, porém, são necessárias algumas reflexões a respeito. 

Na prática, a delação premiada não chega a ser uma confissão, pois para sua configuração o fato seria tão somente dirigido a quem depõe, por outro lado, também não configura como mero testemunho, porque quem o presta mantém-se equidistante das partes, logo, a definição mais apropriada que se pode dar é de um “estímulo à verdade processual”, semelhantemente à previsão da confissão espontânea, sendo, portanto, instrumento que ajuda na investigação e repressão de crimes.

Para “premiar” esse estímulo, o legislador prevê a possibilidade de redução de pena do réu em todas as suas previsões na Lei, restando firmar a posição jurídica que este instituto apresenta, podendo ser considerado um atenuante, circunstância judicial ou causa de diminuição de pena.

Outro ponto a ser superado é o valor da delação no processo penal, vez que gera consequências e muitas vezes traz circunstâncias nefastas para os nomes de pessoas que são envolvidas na delação. Para o professor Fernando Capez, a delação premiada possui valor de prova testemunhal na parte referente à imputação, mas admite reperguntas por parte do delatado, caso contrário, jamais poderia servir de base a uma condenação pelo dever do respeito ao princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa.

Mesmo assim, se concluído com as reperguntas que o fato alegado na delação não pôde ter sido comprovado, o prejuízo de ter o nome envolvido em um crime permanece, não sendo possível apagá-lo após a repercussão causada. Sobre a concepção da delação premiada, não se pode deixar de citar o italiano Cesare Beccaria, considerado o principal representante do Iluminismo Penal, imbuído pelos valores e ideais iluministas, tornou-se reconhecido por contestar a triste condição em que se encontrava a esfera punitiva do Direito na Europa. Assim, em meados do mesmo século XVIII, publicou a obra “Dei delitti e delle pene”.

Nesta obra, Beccaria fez referências contrárias à prática da delação, se referindo àqueles como delatores e traidores, no capítulo destinado ao estudo das “Acusações Secretas” e, quando trata do oferecimento de diminuição de pena ou atenuante ofertada pelos Tribunais ao cúmplice de um grave delito que delatar seus companheiros, caracteriza como a essência da injustiça.

Por esse motivo, não só na função do exercício do direito de defesa de quem tem seu nome envolvido em uma delação, mas também se critica o ponto de vista sócio-psicológico, podendo ser considerado como imoral ou, no mínimo, antiético, vez que estimula a traição, comportamento insuportável para os padrões morais modernos, seja dos homens de bem, seja dos piores criminosos. Se não bastasse o desiquilíbrio social de tal instituto, sob o enfoque jurídico, indiretamente rompe com o princípio da proporcionalidade da pena, já que se punirá com penas diferentes pessoas envolvidas no mesmo fato e com idênticos graus de culpabilidade.

A delação premiada desestimula o trabalho investigativo da polícia judiciária, em sua função precípua de investigar os crimes da sociedade, ou mesmo quando o Ministério Público avoca para si a função da persecução criminal, se utiliza de tal instrumento e gera desequilíbrio na balança da Justiça, vez que encurta caminhos incertos e não pune com a mesma severidade pessoas envolvidas no mesmo fato criminoso, causando insegurança social. Ainda, quando o delator, integrante subordinado da organização criminosa, após assinar a delação, acaba por expor a si e a sua família em situação de risco, não tendo do Estado a proteção e apoio necessários até a desarticulação total dessa organização. Essa circunstância denota a fragilidade do Estado em proteger testemunhas e vítimas.

Em termos práticos, não basta a mera delação para que o criminoso se beneficie, deve resultar a delação na efetiva elucidação do crime, ou, nos casos de quadrilha, associação criminosa ou concurso de agentes, na prisão ou desmantelamento do grupo, para ser utilizar adequadamente, reconhecendo o peso de uma acusação que não possa ser provada, bem como na necessária e adequada proteção e segurança do delator.

O que é X9:

X9 significa dedo duro, fofoqueiro, delator, linguarudoentre outros. Essa expressão teve origem na história em quadrinhos americana, inicialmente publicadas em tiras de jornal, em 1934. O detetive X-9 era um agente secreto que trabalhava numa agencia sem nome, que depois passou a ser denominada de FBI, durante um periodo em que esse orgão gozava de popularidade.

No Brasil essas histórias em quadrinhos do Agente X9 começaram a surgir nos anos 40 e foram publicada até os anos 70. As ações do Agente X9 foram apresentadas em uma série para a tevevisão em 1937 e em um filme rodado em 1945, estrelado por Lloyd Bridges.

X9 era também o nome dado aos presos do extinto presídio do Carandiru, em São Paulo, que ficavam no Pavilhão X9, que eram informantes da polícia, que recebiam delação premiada, e também os responsáveis por crimes hediondos, como sequestro e estupro, que se ficassem juntos com os outros presos poderiam ser mortos.

Agente X-9

Agente X-9 é um software espião, imperceptível, que de modo invisível registra tudo que é digitado no teclado do computador e todos os sites visitados.

O software pode ser usado como fiscalizador de todos os acessos à internete de uma determinada máquina e não é detectado pelo usuário do computador. Possui um filtro que impede o acesso a sites indesejados.

Todas as informações rastreadas são enviadas, como relatório, para o e-mail do fiscalizador. O X-9 captura também as imagens da webcam.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.