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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

RESISTÊNCIA (Por Ernesto Xavier)

Hoje meu nome é Resistência.

Sinto por Zumbi, que foi perseguido e morto por resistir à escravidão. 

Sinto por Dandara, tão importante quanto ele, mas ignorada pela história oficial, já que era mulher e negra. 

Sinto por Herzog, torturado e morto na ditadura militar. 

Sinto pelos milhões de índios assassinados e tirados de suas terras desde Cabral.

Sinto por cada LGBT espancado, morto ou ofendido apenas por serem quem são. 

Sinto também pelos iludidos, pois estes sentem o medo daquilo que desconhecem e perderam (ou talvez nunca tiveram) a empatia por aqueles que não têm o privilégio de estarem na elite, na branquitude, na heteronormatividade, no corpo ideal e desejado ou apenas na ilusão de serem algo que não são, mesmo que sofrendo por serem minoria, mas ainda assim, não se reconhecendo. A sociedade reconhece, filho.

A bala sempre atinge o alvo. Não tem bala perdida na terra brasilis.

Hoje sou a resistência de um povo que foi sequestrado, açoitado, forçado ao trabalho sem remuneração, estuprado, jogado na rua e despido de qualquer cidadania. Aqui estamos ainda. Tentam nos eliminar, mas resistimos. Tentam nos ignorar, mas entramos nas universidades. Tentam nos apagar, mas ocupamos as câmaras estaduais e a Federal.

Essa seguirá sendo a nossa história.

A história de quem apanha, cai e levanta. A história dos que defendem a democracia mesmo quando ela já se mostra perdida.

O ato do voto é apenas uma pequena parte do exercício democrático. Talvez o único que permanece vivo. No entanto, sua existência talvez já não importe tanto, já que a escolha de um presidente foi feita pela disseminação da mentira e do medo.

Mas que inocência me faria acreditar que apenas isso elegeu alguém? Não. Quem votou sabe. Sabe que ele recebeu dinheiro da JBS, sabe que ele é homofóbico, sabe do racismo, xenofobia, do nepotismo, do enriquecimento ilícito. Sabem. Mas a escolha vai além disso. Vai pelo caminho do ódio.

Mas que ódio é esse? Eu convivia com quem queria o meu mal e nem sabia? Talvez.

Enquanto eu não ameaçava qualquer privilégio deles, eu tinha um lugar em suas vidas. Talvez para que estivessem confortáveis e se sentissem menos ou nada preconceituosos. "Eu até tenho um amigo negro", diziam. Quando eu consegui aquela vaga na Universidade que eles julgavam ser deles, eu virei inimigo. Quando a mulher disse que não aceitaria um relacionamento abusivo, ela virou ameaça.

Quando um gay disse que não voltaria para o armário, virou ameaça. Quando uma mulher negra disse que não voltaria pra senzala simbólica a que estavam encarceradas, viraram ameaça. Quando o pobre dividiu a poltrona do avião e voltou pra visitar os parentes, virou ameaça. Quando ficou "difícil" encontrar empregada doméstica, viraram ameaça.

Assim como um golpe militar travestido de republicano foi a solução de uma elite escravocrata para frear a liberdade negra um ano após a abolição, agora tentam frear a ascensão progressista e suas múltiplas identidades que rogam por um espaço ao sol. Querem o direito de existir. Isso é democracia. É o exercício pleno da cidadania por todos os habitantes. É ter seu direito à educação de qualidade garantido. É ter direito a comer. Básico. Direito à moradia. Básico. Não é a esmola ao transeunte que vai resolver a consciência frágil de uma classe média que se vê como elite. Essa classe média que sustentou a eleição de um candidato notoriamente preconceituoso é o representante de seus anseios.

É a classe média que aplaude um jovem preso acorrentado ao poste. É a classe média que bate panela mesmo sem ter passado fome. É a classe média que fecha os olhos para o genocídio da juventude negra. É a classe média que incentiva e se orgulha da desigualdade. É a classe média que bate continência para uma polícia que mata e morre. Pretos e pobres que matam outros tão pretos e tão pobres quanto ela. É a classe média que coloca seu Iphone acima da vida. É a classe média que apoiou a ditadura e só se deu conta do que tinha feito quando seus filhos morreram nos porões do DOI-CODI. É a classe média brasileira que não quer deixar de tirar selfie com o Mickey, mas se diz patriota.

Um patriotismo de araque. Um patriotismo fascista e hipócrita. Quem ama seu país de verdade não pensa que o caminho para um compatriota, mesmo que diferente dele, seja o exílio.

Eu fui traído por aqueles que achei um dia serem meus amigos. Ganhei outros tantos na caminhada de luta e resiliência.

Hoje sou a resistência de um povo.

Hoje sou um pouco de todos que ainda acreditam no amor como forma de defender a vida. O amor não afaga apenas. Amor também é duro para dizer o que for necessário. Amor também tem cobrança. Amor também tem deveres e direitos. Por isso irei amar com todas as forças. Amarei meus companheiros de jornada para que possamos resistir. Amarei meu adversários, para que eu possa mostrar-lhes que nesse jogo político, onde a minha integridade física está ameaçada, a mão deles que diz afagar, está coberta de sangue, mas que ainda é possível limpar.

Estou triste, mas de pé.

Ninguém irá matar meus sonhos. O que trago em mim é inatingível.

Ass. Resistência


Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".















terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Mas, Ernesto... (Por Ernesto Xavier)

O carro atravessa a estrada à noite. Uma picape. Carro caro. O motorista sou eu, no caso. Uma blitz à frente e o trânsito fica um pouco mais lento. Nada de mais. Todos os carros vão passando em fila tranquilamente. Os policiais quase nem olham para os veículos, riem entre si, conversam. Um deles mexe no whatsapp. Faço os procedimentos padrões: diminuo a intensidade do farol, mantenho as mãos no volante, abaixo os vidros. 

E então o que acontece?

O cara arma o fuzil e aponta na minha direção.
Tcharaaaaaam!
Eu então calmamente ligo a luz interna e ele então percebe que há outra pessoa dentro do carro: uma mulher branca.
Ele abaixa o fuzil e me manda seguir.
Tcharaaaaaaam!!
Minha carta de alforria estava sentada no banco ao lado. Que maravilha é viver no Rio de Janeiro do século XIX. O fato ocorreu há alguns meses atrás. Clima tenso no Rio. Quando não foi, não é mesmo?
Aí alguns leitores vêm aqui me dizer: “Mas, Ernesto, eles estão apenas fazendo o trabalho deles”.
Sim, estão. Me apontando o fuzil. Fico até mais tranquilo quando ele engatilha. Dá aquela sensação gostosa de set de filmagem do Rambo. Só que eu, por acaso, sou o inimigo do Rambo.
Mas, Ernesto, a maioria desses policiais também são negros e pobres”.
Sim, querida, são. Ou você acha que as consequências do racismo atingem e são reproduzidas apenas pelos brancos?
Eu tenho uma sugestão: Deveriam criar uma nova matéria escolar para os ensinos Fundamental e Médio: “Racismo Estrutural Brasileiro: imagem e sociedade”.
Nesta disciplina, que seria obrigatória, valendo nota e só valeria tirar 10, o aluno aprenderia sobre como se formou o pensamento do cidadão brasileiro, como chegamos até aqui, etc.
Deixa de ser irônico, Ernesto”.
Estou falando sério. Nela, aprimoraríamos o olhar dos jovens, negros ou brancos. Mostraríamos novelas, comerciais de TV, editoriais de moda, noticiários. Seria interdisciplinar. O aluno deveria contar quantos negros encontra em uma novela que se passa no Brasil, quantos aparecem em comerciais de margarina, quantos aparecem nos noticiários policiais e fariam uma equação para chegar ao coeficiente de negritude da mídia brasileira.
O aluno entenderia porque “naturalmente” ele associa o crime a uma pessoa negra. Ele entenderia porque ele não se vê como negro, porque ele acha normal que quase todas as empregadas domésticas e babás sejam negras. E também que não é legal dizer que “ela é quase da família”, nem chama-la de “mãe-preta” ou coisas do tipo.
A matéria teria questões no ENEM. Envolveria História, Geografia, Sociologia, Matemática. Olhem o “valor agregado” que isso traria para o “cidadão de bem”. A classe média adora valor agregado e cidadão de bem.
Mas, Ernesto, porque você foca tanto nos policiais? Você quer acabar com a imagem dos militares?

Não, querido. Eu só não quero morrer. E, no caso, quem porta arma no Estado e pode fazer isso é um policial. Um médico não me ameaçaria com um bisturi e nem um professor com um giz.
Mas...
Dentro da sala de aula esse futuro policial poderia aprender um pouco sobre quem ele é, quem são seus irmãos sem farda, quem realmente pode ser uma ameaça e de que forma o pensamento social brasileiro age sobre ele, levando-o a pensar que somente pelo outro ser negro, então é uma ameaça.
Não, ele não pensa isso. Não é consciente não maioria das vezes. A sociedade é assim. A sociedade é racista. Infelizmente tenho que te avisar isso, caro leitor:
Você provavelmente é racista.
Não se assuste. Não vá para o banheiro chorar. Aguente firme. Vou repetir. Você provavelmente, se não for negro, é racista.
Respirou?
Um novo mundo se abre quando entendem isso. A sociedade brasileira está fundada em princípios de exclusão racial. Não dá pra explicar isso em apenas um texto no Facebook. Leva tempo. Apenas confie no que estou te dizendo. Algumas coisas irão acontecer comigo e nunca irão acontecer com você, branco, simplesmente porque minha pele carrega alguns símbolos, que historicamente me tornam alvo.
Sim, eu como negro, sou mais alvo do que agente (aquele que age, ok?) da violência. Cerca de 23100 jovens negros entre 15 e 29 anos são mortos todos os anos no Brasil. Um negro morto a cada 23 minutos. Morto por mãos brancas e negras, sim. Morto por estar envolvido com algo errado ou não. Morto porque a vida o colocou desde o nascimento em posição vulnerável. Ele pode ser um policial. Nossa polícia é, também, a que mais morre. Já chorei e sofri por 2 policiais negros mortos na minha família. Pessoas que eu amava demais. Não quero isso novamente.
Criaram uma guerra entre pretos. Bandidos negros. Policiais de baixa patente igualmente negros.
Não é só a polícia que deve entender isso. É você que escreve “mas” a tudo que diz respeito ao nosso direito à vida. 

O seu “mimimi” ajuda indiretamente a matar mais alguém. 

Provavelmente um jovem negro morreu enquanto você lia esse texto. Você leu mesmo? 

Ou apenas vai escrever o nome do seu candidato à presidente nos comentários? 

O nome dele é o seu argumento?

#SentiNaPele

Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".








domingo, 8 de outubro de 2017

Não era sobre pedofilia. Não era sobre corrupção. (Por Elika Takimoto)

Lembram-se de quando a gente ficava se esgoelando dizendo: “eles não estão na rua contra a corrupção”? Com o tempo, o que alertávamos se confirmou. Provas foram expostas, malas encontradas, áudios liberados e… silêncio de quem fez um fuzuê com as pedaladas que são cometidas há anos (e que logo depois do golpe foram liberadas pela corja que está no poder, vale lembrar).

A frase épica de Bertold Brecht “a cadela do fascismo sempre está no cio” explica bem tudo o que aconteceu. Era um bando de fascistas no armário que estava sem graça de vir a público. Afinal, falar que odeia pobre e que quer mais que preto, mulher, trans, gays se explodam não pegava bem.

Daí veio 2013 e a Globo aproveitando-se daquelas manifestações “apartidárias” – cujas bandeiras da CUT eram proibidas – criou o vilão e o herói. O Brasil ficou dicotômico como os personagens das novelas. Há o bandido (PT) e o Salvador da Pátria (Moro). Esse tipo de narrativa novelesca o povo assimila bem como se entre o branco e o preto não houvesse uma infinidade de tons de cinza.

E a cadela no cio passou a copular devassamente.

Foi naquele contexto que os fascistas vestiram uma camisa de heróis da nação. Teriam a nobre missão de “livrar o Brasil da corrupção”. Caíram como patos e lá foram de verde e amarelo para as ruas achando que estavam salvando a nossa pátria.

Passou, de repente, a ser questão de soberania nacional falar mal do PT e tirá-lo do poder. Achavam e diziam eles. Eles. Os mesmo que estavam completamente irritados com as políticas sociais como o programa Mais Médicos, Bolsa Família e as cotas, vale observar.

O fascismo funciona exatamente assim para quem não sabe. O inimigo tem que estar bem definido e cabe aos fascistas desmoralizá-lo. Vídeos descontextualizados das falas da Dilma eram a cereja do bolo naquela época. Queriam ridicularizá-la a qualquer preço. Pessoas a chamavam de burra e riam da retórica de uma mulher que hoje está pelo mundo dando palestras a convite de grandes universidades. Como se conseguissem ser metade da metade que Dilma é.

E eles não param. Como 2018 está logo ali e Lula segue sendo preferência da população brasileira como mostram todas as pesquisas, é necessário desmoralizar a esquerda e tudo o que ela representa.

Incrivelmente pautas humanitárias e a defesa pela liberdade de expressão saíram das atas das reuniões da direita. Haja vista o que o MBL anda fazendo.

O episódio Homem Nu foi mais um exemplo de como se comporta a hipócrita cadela do fascismo.

Avisamos: não é sobre pedofilia! E os patos lá fazendo postagens “temos que proteger nossas crianças…”. Proteger de quê, cara pálida? Quando a gente perguntava isso, ouvia como resposta: contra a pedofilia!

Qual a razão dessa resposta sem nenhum sentido? Das duas uma. Ou a pessoa é burra de pedra a ponto de conectar uma performance artística sem o menor teor sexual com pedofilia ou falta-lhe caráter mesmo, pois faz isso com o intuito de diminuir a capacidade intelectual dos artistas e dos que os apóiam.

E a prova de que eles não estavam preocupados com as crianças porcaria nenhuma veio a galope: o caso do estuprador do Piauí.

O crime foi noticiado por todos os jornais. Silêncio dos protetores das crianças do nosso Brasil. O estuprador teve autorização para ficar com uma criança dentro de sua cela porque ajudava a família do menino financeiramente.

Segundo o levantamento do projeto, ligado ao Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso a Informação da USP, enquanto o caso do museu teve 550 mil compartilhamentos, o do estuprador do Piauí ficou na média de 45 mil. “Uma relação de 10 pra 1”, afirma a página.

“No caso do MAM, as matérias muito compartilhadas estavam dispersas em várias publicações do Jornalivre, Veja, Folha, Instituto Liberal e Ceticismo Político, entre outros; no caso do estuprador do Piauí praticamente foram compartilhadas apenas matérias da Folha de São Paulo e do UOL”, disse a pesquisa.

Além disso, enquanto o caso do MAM motivou manifestações do Movimento Brasil Livre (MBL), da família Bolsonaro e de partidos conservadores, o caso do Piauí “não teve nenhum grande compartilhador” e não chegou a ser mencionado por aqueles que foram contrários à exposição.

E se alguém aqui achar que estou exagerando, deixo aqui as frases de um cartaz que está fixado no museu do Holocausto em Washington que tem como objetivo alertar as pessoas sobre os perigos do fascismo e como identificar seus primeiros sinais. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

1. Empoderamento nacionalista contínuo.
2. Desdém por direitos humanos.
3. Identificação do inimigo como causa unificadora.
4. Supremacia militar.
5. Sexismo desenfreado.
6. Controle de mídias de massa.
7. Obsessão com segurança nacional.
8. Governo e religião interligados.
9. Poder/direitos corporativistas protegidos.
10. Poder/direitos de trabalhadores suprimidos.
11. Desdém pelos intelectuais e pelas artes.
12. Obsessão por crime e punição.
13. Corrupção e nepotismo desenfreado.
14. Eleições fraudulentas.

Não era sobre a corrupção e não era sobre pedofilia. É sobre extermínio de raças e de classes.

Acreditam agora ou precisam ainda de mais exemplos?







Elika Takimoto é Doutora em Filosofia pela UERJ. Mestre em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ. Graduada em Física pela UFRJ, Professora e Coordenadora de Física do CEFET/RJ. Integrante do grupo de pesquisa Estudos Sociais e Conceituais de Ciência, Sociedade e Tecnologia.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Cícero, meu primeiro amigo gay (Por Paulo-Roberto Andel)

Em alguns meses de 1975, meu pai ainda era um homem de algumas posses. Morávamos num prédio de quatro andares, sem elevador, na rua Santa Clara (posteriormente demolido para dar vez a um flat), em Copacabana. Até então, sempre tínhamos gente trabalhando em casa (desde criança, detestei a palavra "empregada", que me sugeria aparte social).

Um belo dia, minha mãe inovou e contratou o Cícero. De cara, já era diferente por ser homem numa atividade essencialmente ocupada por mulheres à época. E também por usar aquele chapéu de cozinheiro que eu acho um barato. E, finalmente, por ser homossexual assumido, o que causou verdadeiro horror nos nossos vizinhos.

Uma delas, Dona Mimi, uma senhora portuguesa branca, de bem, em nome de Deus, quis fazer um movimento para que nos mudássemos do prédio - era inaceitável para ela ver um "veado" nos corredores. Mas aí minha mãe, que era baixinha mas não era fácil, a viu num cochicho com outra vizinha e a enquadrou bonito. Nos corredores a palhaçada acabou. Quando eu saía com minha mãe para ir à escola, a idosa lusa e sua amiga ainda cochichavam, mas quase encolhidas. Hoje, sou capaz de supor qual era o teor da conversa baixa: "Essa mulher deixa um veado dentro de casa com uma criança".

Comi pratos sensacionais feitos pelo Cícero. Mais de 40 anos depois, sou capaz de lembrar do bife com arroz e fritas e da panqueca de carne. Foram muitos pratos. Ele sempre falava comigo, ria, me dava tchau, mas eu nunca entendia porque quando a minha mãe sempre insistia para que ele deixasse a cozinha para ficar perto de nós na sala, ele nunca vinha. Só falava comigo de longe, talvez a uns quatro metros de distância. Eu tinha que gritar para que ele escutasse.

Quando meu pai faliu, tivemos que mudar de apartamento, de bairro e de padrão. No dia da despedida, foi a única vez que vi Cícero de perto: ele deu um beijo e um abraço em minha mãe, agradeceu muito a ela, passou a mão na minha cabeça e foi embora. Ainda o vimos na rua, debochando alto das vizinhas fofoqueiras. Poucos dias depois, mudamos por alguns meses para um minúsculo apartamento em Vaz Lobo, para depois voltarmos a Copacabana, ficando dezesseis anos na Siqueira Campos, aí já sem ninguém trabalhando em casa.

Ainda pude viver mais trinta anos com meus pais, com todos os altos e baixos de uma família, mas fomos felizes. Contudo, nunca conversávamos sobre aquela época porque era dolorosa para todos nós: não queríamos ter mudado, passamos muita dificuldade financeira e quase fome, mas superamos tudo. Quando falávamos no Cícero, minha mãe ria e se divertia, tinha saudades dele. Mas só depois de muito tempo é que refleti.

Estávamos num momento de dificuldades. Ela era uma super hiper cozinheira e uma pessoa muito simples. Por que será que teria contratado um cozinheiro num momento em que estávamos tão apertados? E porque ele nunca chegava perto de mim, mesmo com ela insistindo para que viesse conversar conosco?

As respostas talvez não sejam exatas, mas levam à reflexão. Provavelmente minha mãe contratou Cícero porque ele estava com alguma dificuldade profissional, já que estávamos com pouquíssimo dinheiro - de alguma forma, ela o quis protegê-lo. E Cícero nunca chegou perto de mim porque tinha MEDO de ser visto em qualquer ato com uma criança, mesmo com a mãe perto: a ditadura militar-empresarial chegava a todos os lugares, quanto mais na minha casa (meu pai e meu tio foram presos no fim dos anos 1960 por "subversão"). E pior ainda que encontrasse um homossexual brincando com uma criança, não importando qual fosse o motivo.

Cícero é a primeira lembrança que tenho de um homossexual na vida - a segunda é de Serguei, que minha mãe adorava e que hoje tenho a honra de ser seu biógrafo, ao lado de Rodrigo Barros. Cícero sempre me tratou com todo o respeito, a ponto de se auto-mutilar socialmente. A ele devo excelentes pratos de comida deliciosa.

De lá para cá, foram muitos anos e muitos e muitos queridos amigos homossexuais, milhares de álbuns tocados por músicos homossexuais, livros fantásticos escritos por homossexuais. As artes, o cotidiano, o futebol - SiM! -, o trabalho, as faculdades, os bares, tudo. Ex-namoradas e ficantes. Amigas queridas e grandes admirações. Como poderia ousar discriminar o que faz parte da minha vida desde sempre?

Não vivi a orientação homossexual, mas jamais por preconceito e sim porque não é minha essência. Se fosse, creio que eu teria tido apoio de meus pais, teria que enfrentar inúmeros percalços mas, provavelmente, acabaria numa organização LGBT em luta pelos direitos e causas. Mas não preciso ser necessariamente homossexual para abraçar e me solidarizar com todos os homossexuais, amigos meus ou não, diante dessa idiotice agora rebatizada de "liminar da cura gay". Homossexualidade não foi, não é nem nunca será doença, exceto para aqueles que nem sempre são sexualmente seguros de si mesmos.

De alguma forma todos aqueles amigos homoafetivos são aqui representados pelo nome de Cícero, que foi o meu primeiro amigo gay quando eu nem sabia o que era sexo. Penso na dor daquele homem em 1975, temendo ser preso e desaparecido pelo simples fato de conversar com uma criança. Mas o pior é pensar que, 40 anos depois, parte do Brasil é ainda tão primitiva quanto naquele tempo.

Pela cura da ignorância já!


Paulo-Roberto Andel é escritor, cronista, editor do Panorama Tricolor. @pauloandel








quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Brazil: dos Coronéis aos Imbecis (Por Thiago Muniz)

FARINHA pouca, meu PIRÃO primeiro.

O país chamado Brasil (ou Brazil...) é composto basicamente por uma minoria elitista coronelista e por uma parcela de imbecis que pensam que são elites.

A elite CORONELISTA é composta por uma minoria de empresários que atuam em diversos setores da economia, desde o controle dos meios de comunicação até trabalho escravo (sim, é isso mesmo), sendo que são tão fortes em suas bases políticas que possuem plena consciência da impunidade e quando uma bomba estoura sabem que podem contar com a "nobre" Justiça. Essa elite é perigosa e nociva, posta os seus interesses acima do bem e do mal e estão sempre dispostos a destruir quem os enfrenta. Lucram absurdamente pois possuem alguma espécie de fundação ou sonegam impostos na cara lavada mesmo. Alguns deles mantém suas influências em suas área de territórios sendo políticos ou apadrinhando políticos no âmbito federal, estadual e municipal. Praticamente em todos os estados brasileiros existe esta espécie de corja que não agrega em nada para o país, pelo contrário, só aleija. Ah! E se o patriarca ainda estiver vivo (essa espécie fez pacto com o diabo) os crimes cometidos serão todos arquivados pois já passaram dos 70 anos.

A classe dos IMBECIS é a típica classe média que come sardinha e arrota camarão. Bastou prosperar mais um pouco na vida e pensam que são a elite da sociedade. É a mesma classe imbecil que prosperou nos áureos tempos econômicos, onde puderam trocar de imóvel, automóvel, escola para os filhos e até contrataram empregada doméstica. Uma parte dela se solidarizou com o golpe e bateu panelas em suas varandas. Outra parte pertence a classe de servidor público federal que prosperou com o reajuste em seus rendimentos e receberam equipamentos adequados para trabalharem com dignidade e mesmo assim se solidarizaram com o golpe e bateu panelas em suas varandas. Uma outra parte tão mais imbecil quanto que recalcada pela ascensão das classes menos favorecidas ao acesso a mais educação e saúde, cultivaram um ódio exorbitante no governo que propiciou essa ascensão e se solidarizaram com o golpe e bateram panelas em suas varandas. Esses imbecis reunidos não sabem argumentar decentemente e se você emitir uma opinião diferente da deles você será rotulado e as vezes até perseguido.

Essas classes aleijam o Brasil de tal forma que não permite um crescimento sustentável, pois só olham para seus próprios rabos e não pensam no próximo. Só pensam em criar formas de aumentarem suas rendas na lei do menor esforço, por isso sonegam, corroboram para a corrupção e na lei da vantagem. Não estão preocupados numa reforma políticas senão perderão seus benefícios. Não se preocupam em ampliar a educação para todos pois enxergam como mais concorrência e mais entendimento com os aspectos sociais, manter a classe pobre o máximo de alienada é a meta deles.

O Brasil é a terra da PATIFARIA e da BAGUNÇA.

Então? Ainda tem esperanças para o país?








BIO


Thiago Muniz é roteirista, colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerdablog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Amigo Branco (Por Ernesto Xavier)

Olá, amigo branco. Tudo bem? 

Hoje estou falando contigo. É um papo necessário. Há tempos nós caminhamos juntos, conversamos, você lê o que eu escrevo e até concorda comigo em vários pontos. 

Não precisamos concordar em tudo, eu sei. Mas tem uns assuntos que a gente não falou ainda, assim, na cara, na sinceridade, de forma crua, sabe? Acho que chegou a hora.

Nada no Brasil é uma coincidência. Tudo é fruto de uma história escrita por mim, por você e por todo mundo que pisou aqui um dia.

Eram 23h43 de uma terça-feira. Eu estava no BRT lotado, sem espaço para mais ninguém, que iria em direção à Santa Cruz. Não era coincidência que cerca de 80% das pessoas que estavam ali, àquela hora, voltando para suas casas, eram negras. Muitas delas nem sabem que são negras, eu creio. Suas almas sabem. Seus genes sabem. Seus ancestrais sabem.

Não é coincidência que mais de 70% da população carcerária seja negra. Não é coincidência que 78% dos homicídios sejam de negros. Não é coincidência que dos 513 deputados federais, quase nenhum deles seja negro. Não é coincidência que as favelas sejam predominantemente negras. Não é coincidência que apenas 12,8% dos universitários sejam negros, mesmo com as cotas.

Somos seres históricos, resultado de tudo que veio antes de nós. 

Estou falando de estrutura. Racismo Estrutural. 

O racismo não é só quando você vê alguém chamando o outro de macaco. Isso na verdade é Injúria Racial. O racismo vai muito além do xingamento. Ele está presente em praticamente tudo que vemos no Brasil. Infelizmente não te explicaram isso na escola e nem vão explicar. Em casa? Você também não ouvirá isso em casa, amigo branco. Nem na TV. Nem na Veja. Talvez na internet, já que agora temos este espaço para falar. Mas você lê? Ou acha que estamos chatos e só sabemos falar disso? A gente tem que ser “chato” e repetitivo, porque não nos deixaram falar por 400 anos. 

É um tempinho, né?

Quando a polícia entra na favela atirando e acertando tanto o bandido, quanto o morador, isso é reflexo do racismo estrutural. Quando esse bandido predominantemente é negro, isso é o racismo estrutural. Quando o policial mal remunerado e mal treinado, em grande parte negro, arrisca a vida, isso também é o racismo estrutural. Quando aquele aluno da escola pública “sabe” que seu futuro vai ser bem complicado e que ele dificilmente conseguirá algo melhor do que seus pais, isso também é o racismo estrutural. Quando o dinheiro investido pelo governo em infraestrutura faz do Leblon um bairro limpo, com saneamento, asfalto liso, mais segurança, transporte e saúde, enquanto Sepetiba tem transporte precário, ruas sem asfalto, buracos, esgoto a céu aberto, quase nenhuma estrutura, isso, sim, é o racismo estrutural.

Aí você vai dizer que na verdade é uma questão social. Tolinho.

Quem é pobre no Brasil? É o filho da desembargadora que foi solto depois de mais de 120 kg de maconha ou o Rafael Braga, preto, com uma garrafa de Pinho Sol? Quem vai conseguir habeas corpus pra cuidar dos filhos, a Adriana Ancelmo ou a Ana Lys, negra e periférica?

O acesso à justiça é diferente. O acesso à saúde, à educação, ao emprego, ao amor. Até o amor é influenciado pelo racismo. Pergunte à uma mulher negra e ela vai te explicar.

Ser pobre e preto não é uma coincidência. Ser branco e pobre é uma exceção. 

Quando a TV tem pouquíssimos artistas negros em comparação aos brancos, isso é o racismo estrutural gritando e te dizendo que não quer mudar, que o mundo ideal deles não é aquele que te inclui se você é preto. Isso vai entrando na cabeça daquela criança negra, que desde pequena não se vê em lugar algum. Ela quer ser princesa, mas nunca apresentaram a ela as princesas africanas, as histórias africanas. Ele/ela quer ser cientista, mas nunca mostraram a ele/ela algum cientista parecido com ele/ela. Ele não conhece Neil DeGrasse, nem sabe que Machado de Assis e Lima Barreto eram pretos, nem ouviu falar em Carolina de Jesus. Malcolm X? Luther King Jr? Angela Davis? Nem dão aula de inglês direito na escola dele. Cursinho? Hahahaha Piada. Isso é racismo estrutural, amigo branco. 

Quando você vai naquela festinha pleiba com ingresso à 80 reais, você só vai ver o preto servindo ou na banda daquele rap ou funk que você gosta de ouvir, mas que você só ouve se for na tua esquina, porque se for pra entrar na quebrada onde essa música surge, você não vai. Não vai porque você curte um “ambiente diferenciado”. Você não sobe a favela pra comprar maconha e pó. Você tem um intermediário que te livra disso. Mas teu dinheiro financia a guerra. A guerra que você vê na TV e se diz horrorizado. Tu é patrocinador da guerra, cara. A guerra que mata os pretos. A guerra que ainda tenta eliminar os pretos do Brasil, assim como queriam há 100 anos atrás. 

Você tá me lendo até aqui? Tá mesmo? 

Já conseguiu imaginar um presidente negro no Brasil ou isso é só coisa que americano pode ter?

Esse país não é miscigenado porque todo mundo se ama e gosta de procriar com gente de outra cor, de outra classe, de outra origem. Nós somos filhos do estupro. Desculpa te contar isso agora, mas é o que posso te dizer. Não é uma suposição. É uma questão de análise de documentos e relatos antigos, além de exames de DNA feitos recentemente. A mulher negra não seduzia o português para conseguir regalias. Ela era estuprada, mesmo tendo companheiros negros. Homens negros fortes eram tidos como reprodutores, assim como fazem com bois e cavalos. 

Negros aos montes foram jogados nas periferias, sem emprego, sem casa, sem estudo. Jogados nas ruas. Não é à toa que temos tantos moradores de rua...negros. Quando surge um branco, ele vira o “mendigato” e é abrigado por alguém que se compadece de alguém tão bonito que está nas ruas. O preto não vira mendigato. O preto vai forçado para abrigo, o preto é preso, o preto toma jato de água, o preto é cracudo, o preto é amarrado no poste. 

Amigo branco, você historicamente é racista. Desculpa te informar isso mais uma vez. Eu sei que você talvez nunca tenha xingado alguém de macaco, você tem vários amigos negros, você já namorou ou ficou com alguém negro, você curte as paradas negras e apoia de toda forma possível. Obrigado. Siga melhorando, beleza? Mas...ainda precisa entender o que você representa e reproduz. Não tem como eu passar a mão na sua cabeça. Não estou brigando. É uma conversa, séria, sim, mas sincera. O racismo por ser estrutural, permeia tudo, está enraizado, entranhado. O mito da democracia racial nos persegue e impede avanços. 

Cuidado com o “mas” das suas respostas. Normalmente ele é um silenciador. Ele te coloca em posição de poder, pois esta posição sempre foi sua, não é mesmo? O “mas” assassino, que diz ser tolerante, porém olha com antipatia para o fim dos próprios privilégios. 

Privilégio não é mérito, amigo branco. Privilégio é privilégio. 

Um dia eu volto pra falar mais. Por hoje é isso. Não deixe a estrutura te engessar. 

Sua estrutura pode matar alguém.

Um abraço,

Amigo preto



Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O enigma da classe média no Brasil (Por Thiago Muniz)

"Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.

– É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Esse caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior – tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria essa confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como se fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável...
" (Luiz Fernando Veríssimo)

O brasileiro classe média, ano-base 2013, tem um pet. Não um gato, não um cachorro. Um pet. O brasileiro classe média puxa conversa sobre o pet com donos de outros pets: "Dois dão o mesmo trabalho que um. Só gasto mais em ração". Esse é um momento importante na vida do brasileiro classe média, pois pressupõe uma interação social que se desenvolve na calçada, ainda que estimulada pelas necessidades fisiológicas do pet. O brasileiro classe média quase nunca é visto na calçada, salvo quando entra e sai de seu carro.

O brasileiro classe média vai para a academia de carro. O brasileiro classe média tem um carro com insulfilme, "dá mais segurança, não se consegue ver direito quem tá dentro", pois bandidos costumam roubar carros com uma pessoa, mas não com duas, preferem carecas aos homens de bigode, e jamais se meteriam com alguém vestindo uma camisa havaiana. O brasileiro classe média pode ter um rosário pendurado no retrovisor do carro, mas ninguém lá do Céu emitiu uma opinião muito clara sobre ser errado usar a vaga do deficiente físico quando se está com pressa e parece muito complicado encontrar lugares nessa droga de estacionamento. O brasileiro classe média fura o sinal no domingo à tarde porque "não tá vindo ninguém".

O brasileiro classe média acredita em bairro planejado, brigadeiro gourmet e bufê-de-saladas-pratos-quentes-sushi-churrasco-ilha-de-massas-por-R$ 42,90. O brasileiro classe média nunca nega os caramelos e amendoins que a companhia aérea lhe oferece. Durante o voo, o brasileiro classe média não lê, dorme. Em solo estrangeiro, será reconhecido menos pelos maus modos do que pelos ostentosos e deslocados tênis de corrida, os quais, a seus olhos de brasileiro classe média, parecem adequados para qualquer ocasião.

O brasileiro classe média não faz, compra pronto. O brasileiro classe média não recebe em casa, mas no salão de festas do condomínio. A mulher brasileira classe média tem cabelo longo, liso e loiro. Ela é casada com o cara que gosta muito de camisas de times de polo e se acha 20 anos mais jovem do que realmente é (às vezes pelo simples fato de estar usando tênis de corrida). A mulher brasileira classe média vai ao salão fazer as unhas, ou chama a manicure em casa. E as manicures são obviamente as novas empregadas domésticas.

O brasileiro classe média pedindo pão no supermercado: "Me dá cinco. Bem clarinhos". O brasileiro classe média flagrado enquanto conduzia em alta velocidade: "Essa indústria da multa, vou te contar". O brasileiro classe média atendendo ao celular no meio do filme: "Alô? Tô no cinema! Me liga depois!" Senhoras e senhores, é muita jequice.

Vejamos: até o final de 2001, o Brasil estava acostumado com uma pirâmide social que segregava de direitos e oportunidades milhares de cidadãos. Frequentar restaurantes e cinemas não estavam previstos nos acordos coletivos destes brasileiros. Serviços como salões de beleza, petshops e celular eram observados com frequência apenas nas cenas das novelas globais, nas quais o mordomo fala mais de uma língua e sabe usar com muita desenvoltura o “hashi”.

Estes brasileiros sempre sonharam com a possibilidade de ascensão social, mas não uma ascensão que segrega seus vizinhos. Sonhavam com tempos melhores onde ele e sua família pudessem absorver um pouco daquilo que apenas os “mais abastados” estavam habituados: jantar em restaurantes, churrascarias, temakerias, sorveterias, caminhar com os seus “pet’s” pelos parques e calçadas das cidades sem constrangimento.

Comentar com os colegas sobre a peça nova que assistiu no Teatro ou mesmo sobre o filme que aguçou os comentários dos críticos de cinema viraram realidade neste Brasil com “data base 2013”. Mas o brasileiro desta nova e “emergente” classe média ousou ainda mais. Ousou em disputar espaços em aviões viajando com a sua família para destinos onde o português não é utilizado e as camisetas de clubes que circundam as ruas não são as do Internacional, do Grêmio ou de outros clubes, mas sim do “Bulls, Celtics, Yankes, Red Sox, etc…”.

O brasileiro classe média “data base 2013” deixou de ir no parque de diversões da sua vila, para frequentar a “Disney”, às vezes até indo com os pacotes da “Tia Iara” que ainda hoje continua parcelando no cartão de crédito as passagens dos filhos deste novo Brasil assim como fazia com os da “classe média com data base até 2010”.

Só que o que estes brasileiros da “nova classe média” não esperavam ter de lidar com velhos hábitos e preconceitos da velha classe média brasileira, incomodada por ter que dividir espaços antes “exclusivos” com estes moradores periféricos que vão à shoppings com tênis de caminhada e/ou ginástica e frequentam suas academias.

Há poucos anos, outro jornalista desta mesma empresa destilava todo o seu rancor com esta nova classe média brasileira acusando-os de serem os responsáveis pelos crescentes engarrafamentos das grandes cidades, neste caso a cidade era Florianópolis, tendo em vista que, segundo palavras do comentarista local, “agora todo o pobre tem o seu carro e divide as ruas das cidades com seu símbolo de ascensão social”.

Mas a velha classe média brasileira ainda pode se vangloriar e considerar-se exclusiva numa coisa: o “brasileiro data base 2013” não veem com o preconceito social incluso de fábrica.





















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Thiago Muniz é colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do site Jornal Correio Eletrônico. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Por onde anda Angelo Assumpção? (Por Thiago Muniz)

Qual é a diferença entre brincadeira e racismo?

Até que ponto a intenção de brincar ultrapassa o ato de ofender?

Um dos melhores atletas da seleção brasileira de ginástica – o único negro da equipe – viajou junto com a delegação para o Rio de Janeiro, para a disputa da Olimpíada Rio-2016, mas teve que se contentar em torcer pelos companheiros das arquibancadas.

Arthur Nory Mariano gravou um Snapchat, com outros dois ginastas brancos, fazendo duas piadas racistas contra Angelo, que estava no mesmo ambiente. Ele disse, gargalhando, que o saco do supermercado é branco, e o de lixo, preto; e que a tela do celular quando quebra fica da cor preta. Angelo ficou abalado. Como qualquer negro ficaria. Como qualquer branco também deveria ficar. Ou, no mínimo, constrangido.

Por coincidências que sempre se repetem em casos de racismo no Brasil, quando racistas são apanhados em flagrante, a vítima do racismo, Ângelo Assumpção, foi quem acabou não participando das olimpíadas de 2016, devido às mudanças das regras para escolha dos participantes, dizem as autoridades esportivas.

Desde então, a Confederação Brasileira de Ginástica decidiu punir. Decidiu punir a vítima, como sempre. Armou um vídeo com pedido de desculpas, com os quatro ginastas no quadro. Decidiu apaziguar. Angelo foi quase coagido a não registrar Boletim de Ocorrência contra Arthur, que praticou o crime inafiançável de racismo.

Houve todo um trabalho de mídia para mudar a imagem do atleta racista. Primeiro, Arthur não é mais Nory, é Mariano. Saiu em todas os jornais, portais e emissoras de televisão como o galã brasileiro. E, mais patético ainda, foi o suposto affair dele com uma atleta americana negra. Com entrevistas dizendo que são “crush”. Um trabalho global digno de Oscar, daqueles que se faz com ator galã da emissora carioca, praticamente uma força-tarefa de valorização (falsa) da imagem.

Apesar de tudo isso. Depois de sofrer crime de racismo, ser pressionado para calar a boca e ser cortado da Olimpíada realizada no seu próprio país, Angelo nos dá uma lição. Em uma foto postada em seu Instagram, ele diz: “Foi um ano muito difícil pra mim , um ano que tive que superar várias dificuldades e aceitá-las. Tudo passa… Ontem fui assistir [sic] a ginástica que continua crescendo e sempre dando orgulho para todos os brasileiros. Parabéns pra todos os atletas e continue com o trabalho duro.”

Sangue frio e classe contra o racismo. Mas, ao mesmo tempo, é possível ver em seu olhar a vontade de, um dia, quem sabe, talvez, ainda representar bem – como sempre representou – o Brasil na Ginástica artística.

O que Arthur (Nory) Mariano já fez pelo Brasil? O que ele fez pra merecer disputar as olimpíadas, além de ser branco?

Em tempo, Nory (Mariano) ganhou a medalha de bronze no solo individual na Rio 2016. Esportivamente falando foi merecido, mas tenho certeza que o Ângelo brigaria pelo ouro, uma pena, uma lástima.




















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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blogs "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A Escola sem partido num país em retrocesso (Por Thiago Muniz)

Para interpretar o programa Escola sem Partido, não basta ler o Projeto de Lei. É necessário conhecer o que está por trás dele. Para isso, basta entrar no site do programa e em sua página do Facebook. Na rede social, eles indicam a leitura de uma “bibliografia politicamente incorreta”. Um dos livros sugeridos chama-se Professor não é educador, que faz uma dissociação entre o ato de educar, que seria responsabilidade da família, e o ato de instruir, que caberia ao professor. Ou seja, a escola deveria se limitar a transmitir conhecimento, sem discutir valores ou a realidade dos alunos. Isso é um absurdo. 

Dialogar com a realidade do aluno é uma das principais estratégias para tornar o ensino das disciplinas significativo para ele. A meta do programa é proibir a doutrinação em sala de aula. A definição do que chamam de doutrinação pode ser encontrada no site do programa, no setor “Flagrando o doutrinador”. Lá, existe uma lista de atividades em que os alunos devem ficar atentos para identificar o professor que adota essa conduta. “Você pode estar sendo vítima de doutrinação ideológica quando seu professor se desvia frequentemente da matéria objeto da disciplina para assuntos relacionados ao noticiário político ou internacional”, diz um dos itens. É como se o objeto da disciplina pudesse ser dissociado de tudo o que acontece na comunidade, no mundo. Isso não tem fundamento algum. É fácil perceber que, por trás desse projeto, há uma concepção de escola muito deturpada. 

Em 2015, o Escola sem Partido entrou com uma ação legal contra o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira], órgão do Ministério da Educação responsável pela elaboração da prova do Enem. A prova daquele ano, cujo tema de redação foi violência contra a mulher, foi acusada de promover doutrinação ideológica. Na opinião deles, a temática seria inconstitucional porque o aluno não teria um contraditório possível. Seria obrigado a criticar a violência contra as mulheres. 

O argumento central foi, conforme escrevem no site do movimento, a “inconstitucionalidade da exigência do respeito aos ‘direitos humanos’”. Esse é um exemplo do que eles querem fazer com a educação. Consideram inconstitucional uma prova que defende os direitos humanos. Isso é um escândalo.

O projeto quer estabelecer princípios para a educação nacional. A questão é que a Constituição Federal e a lei de diretrizes e bases já determinam esses princípios. Temos, então, um primeiro problema: como uma lei ordinária quer estabelecer algo que já está na Constituição? E o pior: o projeto amputa dispositivos constitucionais. Ele defende o “pluralismo de ideias no ambiente acadêmico”. 

Na Constituição, o pluralismo de ideias também é defendido, mas ao lado do pluralismo de concepções pedagógicas, que foi intencionalmente excluído do projeto. Eles excluem justamente o elemento atribuído ao professor. Além disso, um projeto de lei tem de ser objetivo e claro para que possa ser aplicado de maneira justa. Não é o caso desse projeto. Ele proíbe a “doutrinação”, mas não define que prática é essa. 

A subjetividade é um elemento de inconstitucionalidade. No projeto, as proibições são formuladas de forma tendenciosa, misturando práticas obviamente condenáveis com as salutares. Por exemplo, no terceiro dever do professor: “O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas”. É obvio que o professor não deve usar a sala de aula para fazer propaganda partidária, mas isso não quer dizer que ele não deva discutir política ou incentivar seus alunos a participar da vida pública. 

Ele não pode estimular o estudante a ir à manifestação x ou y, mas deve incentivá-lo a se manifestar democraticamente em espaços públicos. Isso é importante para a formação da cidadania, além de ser um objetivo garantido no artigo 205 da Constituição Federal.

O Escola sem Partido afirma se basear na Constituição Federal e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, cujo artigo 12 estabelece que os pais têm direito a que seus filhos recebam educação religiosa e moral de acordo com suas próprias convicções. Essa é uma interpretação absolutamente equivocada da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. 

Ela defende o espaço privado da intervenção do Estado, mas não se refere à prestação de serviços. É claro que, dentro do espaço privado, as famílias têm o direito de educar seus filhos de acordo com suas crenças. O que não pode acontecer é que essas normas invadam o espaço público da escola. O interesse da educação é justamente formar pessoas capazes de conviver com as diferenças, com outros valores e outras culturas. 

O professor não tem como evitar atividades que possam estar em conflito com as convicções dos pais de turmas heterogêneas, com cerca de 30 alunos. Isso amarraria o professor, que ficaria incapaz de discutir qualquer assunto. 

A maneira como o projeto está redigido pode abrir espaço para a proibição de diversas discussões. Se a intenção é proibir atividades que possam ir contra a crença de uma família, é necessário que se defina que crenças são essas. Se não, tudo poderá ser reprimido. Afinal, qualquer afirmação pode ferir alguma crença.

O programa diz que, em sala de aula, o professor tem liberdade de ensinar, mas não tem liberdade de se expressar. Seus representantes afirmam que, se houvesse liberdade de expressão em sala de aula, o docente não precisaria cumprir um programa de conteúdos obrigatórios. É um dos argumentos mais estúpidos que já ouvi. Em qualquer circunstância, qualquer cidadão tem sua liberdade de expressão, que é limitada por apenas leis. 

A obrigatoriedade de conteúdos não tira do professor sua liberdade de expressão. O projeto afirma que “não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente, sob pena de ser anulada a liberdade de consciência e de crença dos estudantes, que formam, em sala de aula, uma audiência cativa”. Ele desqualifica o professor, tirando todos os elementos da sua prática.

O site do projeto cita uma pesquisa do Instituto Sensus que diz que 80% dos professores afirmam proferir discursos “politicamente engajados” em sala de aula. Essa é uma pesquisa com perguntas tendenciosas, cujos resultados não querem dizer nada. A interpretação das respostas também é extremamente tendenciosa e equivocada. 

Assim como o programa Escola sem Partido, essa pesquisa confunde partidarismo e política. Política é ação coletiva no espaço público, ou seja, falar de política não é fazer propaganda partidária. Professores devem falar com os alunos sobre o que está acontecendo no mundo, sobre a atuação deles no espaço comum. 

Ter um discurso politicamente engajado em sala de aula significa que esses professores estão formando para a cidadania. Estão formando alunos que se sintam capazes de mudar o mundo. Essa é a concepção de política com a qual a maioria dos professores trabalha.

O projeto está coberto de incoerências. Como diz o professor Fernando Penna: "é mal formulado, tendencioso e inconstitucional". Não serve para nada. Se tem algo de positivo no projeto é que, depois de arquivado, ele poderá mobilizar professores para uma discussão sobre os limites éticos da sua prática. Essa discussão deve envolver a sociedade como um todo, mas principalmente professores, o que não foi feito até agora. Nem ao longo da elaboração do projeto, nem ao longo de sua tramitação.

Como elaborar um projeto que discute a ética do professor, sem convidar essa categoria para discutir quais os critérios de sua própria atividade profissional?


































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terça-feira, 28 de junho de 2016

O discurso da extrema direita ganha audiência (Por Thiago Muniz)

Recebe a classificação de extrema direita toda manifestação humana que possua orientação considerada exageradamente conservadora, elitista, exclusivista e que alimente ainda noções preconceituosas contra indivíduos e culturas diferentes das de seu próprio grupo. Assim, é considerado de extrema direita o indivíduo, grupo ou filosofia que se localize mais à direita do pensamento de direita comum a todas as sociedades do planeta.

Muitas vezes o termo é utilizado para sugerir um individuo ou grupo com ideias extremistas, preconceituosas ou ultraconservadoras.

Seja como for, o pensamento de extrema direita em geral está baseado na crença, muitas vezes messiânica, da condição especial de determinado povo, cultura ou crença, bem como na iminente ameaça que este grupo irá ou já esteja sofrendo por parte de outros grupos diferentes em meio ao seu caminho ao domínio de todas as outras sociedades, sendo necessária a união e mobilização contra tal ameaça vinda "do outro".

Desde a década de 80 do século XX o termo vem sendo bastante utilizado para classificar a ideologia de grupos, muitas vezes armados, que patrocinam através de desfiles e passeatas, na Europa e Estados Unidos, o pensamento do partido nazista alemão e fazem culto ao seu líder, Adolf Hitler. Estes tais grupos de extrema direita ficaram conhecidos através da imprensa pelo nome genérico de neo-nazistas, existindo dentro desses grupos de extrema direita, porém, as mais diversas ramificações filosóficas.

Ultimamente, o termo vem sendo aplicado também a partidos ultraconservadores presentes especialmente na Europa, que se apoiam no medo do europeu com relação ao imigrante, que além de ser promovido como alguém que chega "de fora" para tomar o emprego do cidadão comum europeu, ainda desvirtuaria a cultura cristã tradicional do continente com suas diversas religiões, línguas e costumes, com especial atenção ao islã, que seria uma religião promotora do terrorismo.

Nos Estados Unidos, outro centro importante de atividade de grupos de extrema direita, pode-se citar nesta categoria a tradicional Ku Klux Klan, surgida logo após o fim da Guerra Civil Norte-americana, ativa ainda hoje, e que prega a supremacia da raça branca (caucasiana), ultranacionalismo e combate à imigração estrangeira.

A imagem da KKK ficou eternizada em filmes, livros e canções pela perseguição de negros e mexicanos, realizando muitas vezes linchamentos fotografados e documentados como ato de validação dos valores de sua organização. Além da KKK, podemos encontrar nos EUA grupos de extrema direita baseados nos cultos religiosos, em especial na região do chamado Bible Belt (cinturão bíblico) região sudeste dos EUA, onde há grupos que seguem uma filosofia cristã extremamente rigorosa.

Aliás, é dessa região que se originou o termo "fundamentalismo", que foi utilizado pela primeira vez no final do século XIX para descrever os crentes daquela região. Outra corrente extremista nos EUA encontra-se baseada em grupos armados, que adotam todo um estilo de vida à volta da arma e do conceito de proteção contra o inimigo imigrante estrangeiro, isso sem deixar de mencionar os grupos neo-nazistas, presentes em todo território norte-americano, muitas vezes mesclando características similares com as dos grupos armados ou religiosos.

Além de todos esses grupos, podem ser encontrados simpatizantes da extrema direita nos dois partidos predominantes na política norte-americana, os partidos Republicano e Democrata, pois, apesar de sempre disputarem o poder a cada eleição legislativa ou executiva, estes dois partilham muitas ideias conservadoras que beiram às vezes as ideologias de extrema direita.

A extrema-direita, marcadamente associada às trágicas experiências do nazifascismo, continua apresentando muitos traços originais do contexto de sua emergência: irracionalismo, nacionalismo, defesa de valores e instituições tradicionais, intolerância à diversidade — cultural, étnica, sexual — anticomunismo, machismo, violência em nome da defesa de uma comunidade/raça considerada superior. 

Compartilhando do ideário político vinculado aos interesses de dominação, opressão e apropriação privada da riqueza social, distancia-se da direita tradicional pela intolerância e pela violência de suas ações, embora, quando organizada em partidos ou associações públicas, recuse tais práticas por parte de seus membros.

O fascismo se configurou como uma experiência histórica emblemática da barbárie, uma vez que se concretizou no mesmo solo ocidental que semeou o projeto civilizatório da modernidade, fundado na razão, no Estado laico e no humanismo. Sua reedição tem sido recusada por vários pensadores, tanto pelas feridas traumáticas que o fascismo legou para a humanidade quanto pela compreensão da história como processo irrepetível. 

No entanto, uma abordagem crítica sobre a totalidade social permite identificar que se a história não se repete, uma vez que expressa particularidades da ação concreta dos homens no atendimento de necessidades também históricas e particulares, sua processualidade contraditória é constituída de momentos de conservação e de superação que só são radicalmente ultrapassados por rupturas revolucionárias.

O resultado é que de modo crescente, a preferência pelo discurso abertamente radical de direita vem ganhando adeptos, mudando o perfil destes e começando a surgir mesmo em países sem tradição de suporte a este radicalismo. 

A pesquisa apura uma média geral do crescimento dos votos em partidos de extrema-direita em todas as eleições nacionais ocorridas desde o surgimento destes partidos até o ano de 2008 na Europa ocidental (Portugal, Espanha, Irlanda, Alemanha, çustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Itália, Luxemburgo, Reino Unido e Suécia). 

O resultado é que o crescimento da média de votos em partidos da nova extrema-direita cresceu de 1,36% em eleições do começo da década de 1980 para 7% em eleições de 2008.

Cresce a extrema direita no Brasil. Felizmente, tirando os deputados Feliciano e Bolsonaro, tem pouca presença institucional. Mas, de duas uma: ou criará um partido novo, ou continuará numa relação ambígua com o PSDB, que lhe dá votos mas perturba a identidade.

A extrema direita não elege quase ninguém aqui. Para cargos executivos, menos ainda. Mas se fortalece na expressão de suas ideias. É fraca em poder, mas avança no berro. Para usar a expressão de Gramsci, disputa a hegemonia. Degrada o debate no país.

Durante alguns anos, PSDB e PT, representando nossa centro-direita e centro-esquerda, viveram uma aproximação na prática - ainda que ela fosse negada no discurso de ambos. Mas nos últimos anos a retórica subiu em decibéis. Temos um paradoxo: candidato, Aécio Neves prometeu continuar a política social do PT; reeleita, Dilma Rousseff adotou medidas econômicas dos tucanos. Portanto, a realidade não os afasta tanto - mas, na aparência, eles parecem estar quase em guerra. 

O que vale, a realidade fria ou a aparência raivosa? As políticas econômicas e sociais, ou a retórica desenfreada? a razão ou a paixão? Porque guerras favorecem os extremos.

Onde é mais fácil ver a extrema direita é na internet. Ela povoa os comentários das redes sociais e das edições online dos jornais. É incrível o ódio que destila. Há poucos dias, lendo as notícias sobre o fuzilamento de Marcos Archer na Indonésia, me surpreendeu a quantidade de comentários atacando o PT, que nada tinha a ver com o assunto. 

A maior parte era escrita por pessoas desinformadas da realidade e desacostumadas ao cultivo da língua. Mas são veementes. Felizmente, não vão muito além do Facebook e dos blogs.

Ou não iam. Saíram da internet e foram para as ruas nos últimos meses - numa paródia, em menor, das manifestações de 2013. Pediram que os militares rasgassem a Constituição e tomassem o poder. No diagnóstico, erram. Misturam em seu ódio homossexualidade, Hugo Chávez e programas sociais. Nas suas propostas, nem percebem que o mundo atual não está para golpes. O que fariam as Forças Armadas, se tomassem o poder? Meio século atrás, os golpistas tinham uma agenda inteira montada. Os militares não tinham afeição pela democracia. 

Os empresários receavam os movimentos sociais, que avançavam. A economia estava em grave crise. O governo norte-americano apoiava qualquer golpe de direita na América Latina. Hoje, nada disso existe. Os extremistas são, literalmente, reacionários. Querem que o mundo recue. Não têm projeto viável.

Esse público nas ruas e na Internet vai além de seus próprios pregadores na mídia. Alguns colunistas de jornal chegaram perto de declarar ilegítima a eleição de 2014, o que é uma afirmação bastante grave de se fazer numa democracia, mas não lembro nenhum que tenha pedido a derrubada do governo eleito. Entre os ideólogos e seus seguidores que foram às passeatas ou escrevem em blogs, há uma distância. Os primeiros são mais informados, mais inteligentes. Os segundos, não. Apenas radicalizam.

Mas um problema sério é que essa extrema direita, que tem votado no PSDB nos momentos decisivos, pressiona nosso partido que porta em seu nome a social-democracia - uma denominação típica da esquerda - a ir para a direita. E isso traz alguns resultados. Assim se entende o uso do aborto na campanha tucana em 2010 ou a ênfase de Alckmin numa política repressiva de segurança. Esse fato cria problemas de identidade no PSDB, reduzindo o peso do passado glorioso de Montoro, Covas, Ruth Cardoso. É óbvio que FHC não deve se sentir confortável com esse avanço dos extremismos.

Pode essa extrema direita, que é mais forte em São Paulo, mas cujo tamanho exato ninguém no Brasil é capaz de mensurar, alterar a natureza do PSDB? Não me parece provável. Ela deve manter seu papel de aliada subordinada. Presta o serviço de destruir imagens petistas e recebe alguma compensação midiática por isso. Mas é uma aliada incômoda. Não gosta dos direitos humanos, com os quais o PSDB histórico tem um forte compromisso. Não gosta dos programas sociais, dos quais os tucanos não querem ou não podem abrir mão.

Pior, a extrema direita carrega o risco de convencer demais. Ela ajuda o PSDB na medida em que reforça o antipetismo de parte razoável do eleitorado - mas, se crescer em votos, pode fazer os tucanos perderem os votos de seus eleitores iluministas e, pior, tornar-se dominante em algumas seções regionais do PSDB, o que poria o partido em sério risco.

Há outra possibilidade, para a qual me alertou o cientista político português Álvaro Vasconcelos, ora professor visitante no IRI da USP. Sem o PSDB, a extrema direita pode se tornar um partido próprio, e este pode ganhar força. É o que sucede na Europa. A Frente Nacional ameaça a política francesa há anos. Tem uma votação elevada, embora o sistema eleitoral francês traduza esses sufrágios em pouquíssimos cargos de efetiva significação.

Mas essa é uma possibilidade remota. Como a extrema direita brasileira, dado o seu exacerbado antipetismo, acaba apoiando o PSDB, ela não se organiza para tomar o poder. Prefere operar nas laterais. Sabe que - hoje - teria poucos votos, se disputasse as eleições para valer. 

Mas é preciso fazer constantemente o balanço do que é melhor para o país e para os tucanos - se é a extrema direita continuar subordinada, sem voz independente mas podendo minar um partido sério, com história e com futuro, ou se é ela adquirir voz e identidade próprias, com o risco de crescer mais. Porque o atual, talvez crescente, desencanto com os políticos favorece aventuras.













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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




sexta-feira, 24 de junho de 2016

O discurso da xenofobia em alta (Por Thiago Muniz)

Xenofobia significa aversão a pessoas ou coisas estrangeiras.

O termo é de origem grega e se forma a partir das palavras “xénos” (estrangeiro) e “phóbos” (medo). A xenofobia pode se caracterizar como uma forma de preconceito ou como uma doença, um transtorno psiquiátrico.

O preconceito gerado pela xenofobia é algo controverso. Geralmente se manifesta através de ações discriminatórias e ódio por indivíduos estrangeiros. Há intolerância e aversão por aqueles que vêm de outros países ou diferentes culturas, desencadeando diversas reações entre os xenófobos.

Nem todas as formas de discriminação contra minorias étnicas, diferentes culturas, subculturas ou crenças podem ser consideradas xenofobia. Em muitos casos são atitudes associadas a conflitos ideológicos, choque de culturas ou mesmo motivações políticas.

Há vários motivos para se lamentar a saída do Reino Unido (mais desunido do que nunca) da União Européia. O menor continente do planeta é historicamente o mais salpicado de guerras e litígios por metro quadrado. Quando o Tratado de Maastricht instituiu a União Européia em 1993, a Humanidade experimentava a utopia da paz entre 27 países distintos, desiguais, porém sujeitos desde então às mesmas regras gerais (que extrapolam apenas a unidade monetária).

A onda de intolerância fez com o Papa Francisco, recém ungido à condição de líder espiritual dos católicos, escolhesse como destino da primeira viagem oficial de seu pontificado (em julho de 2013) a Ilha de Lampedusa, na Itália, porta de entrada de centenas de milhares de imigrantes na Europa.

"Tende a coragem de acolher aqueles que procuram uma vida melhor”, pediu o Papa. O apelo continua ecoando sem efeito no velho continente.

A luz vermelha já está acesa. Antes as pessoas tinham pudor de expressar a rejeição aos imigrantes e estrangeiros residentes, mas agora tudo é falado abertamente, sobretudo na Inglaterra, Áustria e nos países do norte da Europa. Os franceses das "grandes cidades" sao sempre mais diplomatas com relação a imigração, porém basta ir um pouco mais para o interior do pais e ver que realmente o sinal vermelho já está bem aceso.

Xenofobia em alta. Curiosamente, na 2ª Guerra Mundial, navios abarrotados de europeus (especialmente franceses) desembarcaram milhares de refugiados do velho continente no norte da África (especialmente Argélia) que acolheu essa gente toda.

O êxito dos separatistas britânicos parece ter origem na aversão à chegada maciça de imigrantes (que hoje somam mais de 8 milhões no Reino de Sua Majestade). A vitória do "Brexit" ocorreu apenas 3 dias depois de a ONU anunciar que o número de refugiados no mundo inteiro alcançou a impressionante marca de 65 milhões de pessoas fugindo de guerras, perseguições e torturas. Isso dá uma média de 24 novos refugiados a cada minuto, algo parecido com o que houve durante a 2a Guerra Mundial. Uma gigantesca crise humanitária.

Há vários motivos para se lamentar a saída do Reino Unido (mais desunido do que nunca) da União Européia. O menor continente do planeta é historicamente o mais salpicado de guerras e litígios por metro quadrado. Quando o Tratado de Maastricht instituiu a União Européia em 1993, a Humanidade experimentava a utopia da paz entre 27 países distintos, desiguais, porém sujeitos desde então às mesmas regras gerais (que extrapolam apenas a unidade monetária).

Mais que o tratado de Maastricht, o acordo de Schengen aproximou a UE da utopia. A livre circulação entre os Estados membros é uma demonstração de maturidade, responsabilidade e segurança na escolha feita. Parece que a Grã-Bretanha não consegue entender a importância dessa maturidade.

O discurso da direita britânica é cópia mal feita do discurso xenófobo do Trump. Elege-se como inimigo comum o "estrangeiro". É uma receita infalível para obter rápida popularidade, assim como declarar guerra a um outro país. Londres é a capital mais cosmopolita do planeta graças a essa caprichosa combinação de culturas e etnias. O que seria dos Estados Unidos sem os mexicanos? Fizeram até um filme bem humorado sobre isso anos atrás ("Um dia sem mexicanos / 2004"). A crise climática vai agravar a questão dos imigrantes. São outros tempos que exigem outras políticas. Gente mais qualificada, a altura dos novos desafios.

O problema é que todos hipocritamente atacam a consequência (o êxodo de refugiados) e não a causa (tirania, fome, guerras). Os próprios refugiados que correm das perseguições nos seus países, querem aplicar suas leis próprias nos países que os acolhem, e condenam os comportamentos dos cidadãos que os recebem... Enquanto durar essa epidemia politicamente correta de não dar nome aos bois e punir quem não respeita regras (de ambos os lados), não há saída verde para esse sinal.

Lei de Sociedade; Essa decisão sem sombra de dúvidas terá consequências negativas para o Reino Unido. Os reflexos psíquicos da egolatria e do orgulho monárquico e imperialista sempre se sobrepôs contra a fraternidade, a solidariedade e o amor universais. Numa dimensão maior que se distancia da nossa, as rédeas da condução dos destinos da nossa Humanidade não está nas nossas mãos (nas mãos do Reino Unido ou dos EUA). Pois, ir contra as Leis que nos regem é contrair dívidas para depois ter que pagá-las a juros compostos. Cedo ou tarde eles terão uma retomada de consciência.

Tomar decisões como esta do Reino Unido, sob influência mais emocional (egoísta eu me atrevo a dizer) do que racional, é sempre perigoso. A União Europeia, apesar de alguns equívocos, é o maior projeto integracionista da humanidade, em todos os tempos. Alexandre, o Grande; o império romano; Napoleão, tiveram a oportunidade de semear a união de forças, e fracassaram. A UE avançou neste sentido, não sem errar, mas avançou. O momento atual do planeta pede união de forças, e não a desintegração. Lamentável. Triste. Sinais amarelos todos piscando e berrando no painel de controle.

O que vemos acontecer em escala planetária é o mais do mesmo, inclusive no Brasil. A indiferença dos que têm muito aos que nada ou quase nada têm é grave e, talvez, a nossa omissão diante daquilo que presenciamos pode nos tornar tão indiferentes quanto aos que assim pensam e agem. É uma questão de escolha. Ou empoderamos os despossuídos, alimentando seus corpos, suas ideias e ideais, ou a omissão nos coloca do lado dos opressores.













BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.