segunda-feira, 29 de outubro de 2018

RESISTÊNCIA (Por Ernesto Xavier)

Hoje meu nome é Resistência.

Sinto por Zumbi, que foi perseguido e morto por resistir à escravidão. Sinto por Dandara, tão importante quanto ele, mas ignorada pela história oficial, já que era mulher e negra. Sinto por Herzog, torturado e morto na ditadura militar. Sinto pelos milhões de índios assassinados e tirados de suas terras desde Cabral.

Sinto por cada LGBT espancado, morto ou ofendido apenas por serem quem são. Sinto também pelos iludidos, pois estes sentem o medo daquilo que desconhecem e perderam (ou talvez nunca tiveram) a empatia por aqueles que não têm o privilégio de estarem na elite, na branquitude, na heteronormatividade, no corpo ideal e desejado ou apenas na ilusão de serem algo que não são, mesmo que sofrendo por serem minoria, mas ainda assim, não se reconhecendo. A sociedade reconhece, filho.

A bala sempre atinge o alvo. Não tem bala perdida na terra brasilis.

Hoje sou a resistência de um povo que foi sequestrado, açoitado, forçado ao trabalho sem remuneração, estuprado, jogado na rua e despido de qualquer cidadania. Aqui estamos ainda. Tentam nos eliminar, mas resistimos. Tentam nos ignorar, mas entramos nas universidades. Tentam nos apagar, mas ocupamos as câmaras estaduais e a Federal.

Essa seguirá sendo a nossa história.

A história de quem apanha, cai e levanta. A história dos que defendem a democracia mesmo quando ela já se mostra perdida.

O ato do voto é apenas uma pequena parte do exercício democrático. Talvez o único que permanece vivo. No entanto, sua existência talvez já não importe tanto, já que a escolha de um presidente foi feita pela disseminação da mentira e do medo.

Mas que inocência me faria acreditar que apenas isso elegeu alguém? Não. Quem votou sabe. Sabe que ele recebeu dinheiro da JBS, sabe que ele é homofóbico, sabe do racismo, xenofobia, do nepotismo, do enriquecimento ilícito. Sabem. Mas a escolha vai além disso. Vai pelo caminho do ódio.

Mas que ódio é esse? Eu convivia com quem queria o meu mal e nem sabia? Talvez.

Enquanto eu não ameaçava qualquer privilégio deles, eu tinha um lugar em suas vidas. Talvez para que estivessem confortáveis e se sentissem menos ou nada preconceituosos. "Eu até tenho um amigo negro", diziam. Quando eu consegui aquela vaga na Universidade que eles julgavam ser deles, eu virei inimigo. Quando a mulher disse que não aceitaria um relacionamento abusivo, ela virou ameaça.

Quando um gay disse que não voltaria para o armário, virou ameaça. Quando uma mulher negra disse que não voltaria pra senzala simbólica a que estavam encarceradas, viraram ameaça. Quando o pobre dividiu a poltrona do avião e voltou pra visitar os parentes, virou ameaça. Quando ficou "difícil" encontrar empregada doméstica, viraram ameaça.

Assim como um golpe militar travestido de republicano foi a solução de uma elite escravocrata para frear a liberdade negra um ano após a abolição, agora tentam frear a ascensão progressista e suas múltiplas identidades que rogam por um espaço ao sol. Querem o direito de existir. Isso é democracia. É o exercício pleno da cidadania por todos os habitantes. É ter seu direito à educação de qualidade garantido. É ter direito a comer. Básico. Direito à moradia. Básico. Não é a esmola ao transeunte que vai resolver a consciência frágil de uma classe média que se vê como elite. Essa classe média que sustentou a eleição de um candidato notoriamente preconceituoso é o representante de seus anseios.

É a classe média que aplaude um jovem preso acorrentado ao poste. É a classe média que bate panela mesmo sem ter passado fome. É a classe média que fecha os olhos para o genocídio da juventude negra. É a classe média que incentiva e se orgulha da desigualdade. É a classe média que bate continência para uma polícia que mata e morre. Pretos e pobres que matam outros tão pretos e tão pobres quanto ela. É a classe média que coloca seu Iphone acima da vida. É a classe média que apoiou a ditadura e só se deu conta do que tinha feito quando seus filhos morreram nos porões do DOI-CODI. É a classe média brasileira que não quer deixar de tirar selfie com o Mickey, mas se diz patriota.




Um patriotismo de araque. Um patriotismo fascista e hipócrita. Quem ama seu país de verdade não pensa que o caminho para um compatriota, mesmo que diferente dele, seja o exílio.

Eu fui traído por aqueles que achei um dia serem meus amigos. Ganhei outros tantos na caminhada de luta e resiliência.

Hoje sou a resistência de um povo.

Hoje sou um pouco de todos que ainda acreditam no amor como forma de defender a vida. O amor não afaga apenas. Amor também é duro para dizer o que for necessário. Amor também tem cobrança. Amor também tem deveres e direitos. Por isso irei amar com todas as forças. Amarei meus companheiros de jornada para que possamos resistir. Amarei meu adversários, para que eu possa mostrar-lhes que nesse jogo político, onde a minha integridade física está ameaçada, a mão deles que diz afagar, está coberta de sangue, mas que ainda é possível limpar.

Estou triste, mas de pé.

Ninguém irá matar meus sonhos. O que trago em mim é inatingível.




Ass. Resistência

sábado, 27 de outubro de 2018

O PT acabou com o Brasil (Por Caio Barbosa)

Nasci no meio da ditadura militar. Família de classe média. Nasci numa casa que não posso reclamar, em Corrêas, Petrópolis, construída ao longo de 20 anos pelos meus pais. O primeiro tijolo foi colocado em 1974. O último, em 1994, quando eu já estava saindo de casa para tentar ganhar o mundo como um projeto de cientista social e, posteriormente, jornalista. Minha mãe, Edyla, é professora aposentada da rede pública. Mais de 40 anos de sala de aula, mais da metade deles no principal colégio da cidade. Professora conceituada, filha de um comerciante, o Barbosão, e da Vó Zizi, que morreu antes de eu nascer. Era também muito conceituada na cidade. Sua "profissão" era fazer o bem através de religiões de matriz africana. Tinham uma vida sem luxo, mas confortável.

Meu pai, Zé Carlos, o Barriga, ou Frias, também é professor aposentado da rede pública. De filosofia, história, sociologia e matemática. Cara burro à beça. Mas não era lá um grande professor como minha mãe. É muito conhecido na cidade por ser advogado criminalista. De família bem mais simples. Trabalhava de dia e estudava de noite, comia marmita que vinha esquentando sobre o motor do ônibus, de Pedro do Rio, longínquo distrito de Petrópolis onde nasceu, até o Centro. Vô Zé, seu pai, foi o policial rodoviário número 007 do país. Fazia a escolta de Getúlio. Minha vó, Olga, também era dona de casa.

Dessa zorra aí nasci eu, filho caçula. Tenho uma irmã dez anos mais velha, a Bianca, e um irmão sete anos mais velho, Frederico, o Orelha. Eu sou o Cabeça. Como vocês podem ver, classe média. Mas antes do PT, em quem lá em casa nunca ninguém votou, à exceção da minha irmã, na adolescência, meus pais (classe média) nunca haviam ido à Europa, por exemplo, algo que a classe média, hoje, pós-PT, faz todo ano. Mais de uma vez.

Também nunca tiveram carro zero. Aliás, nem carro novo. Era Passat velho, e a gente andava com garrafões d'água entre as pernas porque o radiador dava problemas e "fervia". Carro zero era coisa de gente muito rica. Algo impensável. Hoje, pós-governo PT, tem muita gente de carro MUITO MELHOR do que meus pais tinham, muita gente de carro zero. Tá difícil de pagar a gasolina depois do golpe do Temer, eu sei. Mas na ditadura, meu amigos, era pica. A gente ficava vendo o Jornal Nacional na quinta-feira para ver o anuncio do aumento da gasolina, que rolava à meia-noite. Tinha que correr para o posto, que fechava às 22h, porque se enchesse o tanque no dia seguinte, perderia, no dinheiro de hoje, meio salário mínimo. Em questão de duas horas.

A gente era de classe média. Mas na ditadura tinha dificuldade de comer carne. Não por falta de dinheiro, mas porque faltava no mercado. Hoje, pós-PT, a gente come carne todo dia. E mais de 40 milhões de brasileiros, que nunca haviam comido carne, passaram a comer. Gente que morria de fome passou a não morrer. Uma revolução reconhecida pelo mundo.

Na minha infância, durante a ditadura, o pão francês era caro, o que obrigava a minha mãe a fazer pão de batata, um negócio horroroso. Hoje a gente come pão francês todo dia. E tem pão de tudo o que é tipo na padaria.

Na ditadura, mesmo sendo de classe média, meu pai bebia cerveja barata (Brahma) e cachaça barata (Velho Barreiro). São as que mais gosto até hoje. Vinho era de garrafão, que dava uma dor de cabeça de três dias. Whisky era coisa de muito rico. Quando rolava de esbanjar alguma coisa, meu pai comprava um Teachers. Hoje ele tem sempre um Red Label a tiracolo, ou um vinho português.

Saí de Petrópolis e fui estudar em Niterói, na UFF. Governo FHC. Na Faculdade de Comunicação Social, por exemplo, não havia negros. Só o Ricardo Jácomo. Os outros, na faxina. Em Ciências Sociais, que também cursei, até tinha, mas quase todos africanos, que vinham estudar aqui. Negro brasileiro, só na faxina. Agora tem na sala de aula.

Antes do PT, eu viajei o Brasil INTEIRO de ônibus, de caminhão, de lombo de jegue para ver o Fluminense jogar. Depois do PT, eu passei a viajar de avião. Tudo bem que o Emiliano Tolivia paga no cartão e eu vou pagando aos poucos. Mas de avião. Aqui no Rio, tinha que pular a roleta de ônibus, ou ir em cima dele, para ver o Flu jogar. Agora vou até de táxi (no aplicativo).

Eu nunca gostei do PT, reconheço e lamento todos os escândalos do governo PT. Mano Brown deu o papo. Mas amanhã vou votar. Porque se alguém disser que o PT acabou com o Brasil, ou este alguém está com problema de memória, se tiver a minha idade ou mais, ou é desinformado, se for mais jovem, ou é mau caráter. 

Outra opção não há.

P.s: só para encerrar. Quando te disserem que o PT acabou com a Petrobras, ria. A Petrobras segue firme e forte, apesar de tudo o que aconteceu no governo PT, que em resumo foi lotear a Petrobras para o PP, partido do Bolsonaro. Foi o PP do Bolsonaro, no governo PT, que saqueou a Petrobras. O Lula sabia? Não sei. É possível. Mas o Bolsonaro também devia saber, pois era o partido dele, por onde ele foi o deputado mais votado.

O Lula está preso por um apartamento no cu de São Paulo sem nenhum documento comprobatório. O Bolsonaro está solto mesmo tendo, comprovadamente, 13, de luxo, na Zona Sul do Rio. Com registro e tudo. Só não se tem registro de onde saiu o dinheiro para ele comprar isso tudo. De onde será?

Caio Barbosa é jornalista. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A eleição da Desidratação (Por Thiago Muniz)

As eleições de 2018 mostram que a sociedade resolveu arregaçar as mangas, independente do rumo que o Brasil tomará a partir de 2019, a questão é que muitos caciques, principalmente os que estão ligados diretos e indiretamente com corrupção, foram castigados nas urnas.

Eles foram castigados impiedosamente. Perderam força regional e o ímpeto de reação.

Essa força nas urnas foi graças a um discurso contra a corrupção; o que soa como um extremismo reacionário hipócrita e mesmo assim uma parcela da sociedade comprou a ideia e se cegaram, o que chega a ser um perigo e maléfico.

Por um lado, esse extremismo fez com que as urnas elegessem candidatos inéditos e exóticos nas Assembléias Legislativas e para o Congresso Nacional. Por outro lado, o extremismo desacerbado com a cegueira fundamentalista faz com que boa parte deste eleitorado perca o bom senso, a capacidade de argumentar e eleva o seu nível de violência, principalmente na base da agressão física.

A desidratação política fará com que esses caciques se reinventem ou até desistam da carreira política.

Uma constatação; o resultado desta eleição afirma uma verdade muito clara: a doutrinação jamais ocorreu nas escolas, ocorre nas igrejas.

Como disse Darcy Ribeiro: "O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso."

Enfim, muita água para rolar na política, muita discussão e intolerância está por vir, vide a característica destes neo-políticos. Agora a suástica nazista virou um dogma.

Muitas trevas e sangue estão por vir.

Onde será o reveillon de 2018 para 1964?










Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerda Mundial News FM.


sábado, 29 de setembro de 2018

Ele Não (Por Thiago Muniz)

"Uma cidade refém do crime não pode votar em quem está envolvido com o crime." (Caio Barbosa)

Com quantas "fraquejadas" se faz uma revolução?

Quando as mulheres colocam alguma coisa na cabeça, não tem quem mude. As mulheres assumem maior protagonismo nas mobilizações políticas do país. As mulheres sabem que, para que tenham direito à vida com dignidade, ele não pode ser eleito.

Afinal, o deputado de extrema-direita se diz abertamente contra os Direitos Humanos e já proferiu diversas declarações de cunho antidemocrático, algumas delas transformadas em promessas de campanha inconstitucionais.

O deputado de extrema-direita cresceu politicamente com um discurso populista autoritário que instrumentaliza o medo e o ódio, abusando da disseminação de informações falsas de viés sensacionalista; se utiliza frequentemente da sua garantia de imunidade parlamentar para fazer menções elogiosas, ou no mínimo questionáveis à crimes como o estupro, lesão corporal, homicídio, sonegação de impostos, tortura, além das rotineiras ofensas e ataques a mulheres, pessoas negras, LGBTIs, quilombolas, indígenas e imigrantes.

O deputado de extrema-direita defende a existência de duas categorias de pessoas, os “cidadãos de bem” e os “bandidos” (às vezes chamados de comunistas, petistas, esquerdistas, maconheiros, vagabundos…) prometendo aos primeiros proteção e privilégios e, aos segundos, a prisão e a morte – de modo que o candidato não é nem tão patriota, honesto ou cristão como gosta de se afirmar, não sendo exagero chamá-lo de fascista.

Não se trata, portanto, de um ataque à pessoa do deputado de extrema-direita, mas sim da aversão ao que ele representa: um projeto de país injusto, excludente, antidemocrático e genocida.

Violência gera violência. Seja ela incitada em discursos, em ideologias, em apologias, seja em agressões físicas ou "verbais, direta ou indiretamente. Toda ação gera uma reação. Não se pode esperar paz quando se incita o caos. Não se pode esperar carinho quando se pratica o ódio. Uma péssima forma de fazer política: foram diversas as vezes em que, ao invés de oferecer uma proposta para enfrentar os problemas sociais, o deputado de extrema-direita e seus aliados destilaram ódio e discriminação contra mulheres, negros e homossexuais.

O que queremos é que o Brasil volte a crescer e a proporcionar qualidade de vida para seu povo, nós, trabalhadores e trabalhadoras!

Gente que tem nojo de povo, de gente, do brasileiro. São a escória deste país. A escória humana.

Ele não.








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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerda Mundial News FM.


domingo, 2 de setembro de 2018

O último a sair apaga a luz: Museu Nacional (Por Thiago Muniz)

Como deixaram acabar com o Museu Nacional? 200 anos de pura história virando guimba.

O sentimento é de INÉRCIA. Profunda TRISTEZA. Muita REVOLTA com o descaso a nossa história. HORROR com o caos predominante. O DESCASO era notório.

Tristeza profunda com o incêndio do Museu Nacional. Passei minha infância tendo a Quinta da Boa Vista como o espaço mais agradável dos meus passeios. Tudo fica na memória. Lamentável o descaso dos governos. Incalculável a perda. A falta de investimento em cultura e no patrimônio público tem consequências dramáticas.

Um dos dias mais tristes da minha vida. Um acervo inteiro repleto de peças históricas, obras de arte, pesquisas, fontes e documentação viraram cinzas. O zelo pela memória é um ato político. Vocês estão vendo em forma de tragédia anunciada a importância de um voto. O governo ignorou centenas de vezes o apelo dos funcionários do museu por uma restauração, o governo reduziu drasticamente o orçamento destinado a cultura. Não podemos “deixar a história para lá”, aprendam. Não é difícil.

Há muitas décadas esse museu vinha agonizando, mas exceto os historiadores, arqueólogos, biólogos e outros profissionais que sabiam da importância deste espaço, quase ninguém se importou. Alguns até davam gargalhadas e do alto da respectiva estupidez reacionária, proferiram em alto e bom som que se dependesse deles, acabariam com este e todos os outros museus. "Cultura e história não dão camisa a ninguém!" Diziam eles.

Podem comemorar corruptos e reacionários. Os desejos de vocês estão sendo atendidos. Agora, estou aguardando e deduzindo o arsenal de hipocrisia e demagogia que será despejado por muitos candidatos diante do que ocorreu. Se valesse prêmio adivinhar o que vão dizer, garanto que ficaria rico.

Vão fingir lamentações, prometer recursos para a cultura e blá blá blá. O fato é que um dos mais importantes aparelhos de cultura do país se foi. O resto é questão de tempo. O incêndio que destrói o Museu Nacional neste momento, na Quinta da Boa Vista, simboliza os tempos obscuros que vivemos no Brasil e o fim da Ciência promovido pelos canalhas golpistas. Parabéns a quem apoiou a destruição do país.

Isso era uma tragédia anunciada. Não importa agora questionarmos se foi criminoso ou mera fatalidade. O que importa agora é termos a noção que um dos acervos históricos do nosso país se foi, da mesma maneira que estão definhando com a nação.

Aos que não sabem, o Museu Nacional em termos de acervo era o quinto maior museu do mundo...

Não sei o que virá de pior, tempos sombrios.

Sem palavras...

" O Museu Nacional arde em chamas agora. A mais antiga instituição cientifica do país e guarda em seu acervo mais de 20 milhões de itens. Idealizado por D. João VI, o museu que ocupa um prédio histórico, o palácio de São Cristóvão, completou 200 anos em junho deste ano. Logo que foi criado, serviu para atender aos interesses de promoção do progresso cultural e econômico do país. Ele guardava muitas preciosidades como o mais antigo fóssil humano já encontrado no país, batizada de "Luzia", que fazia parte da coleção de Antropologia Biológica. Para vocês terem uma noção da importância histórica, o Museu Nacional foi palco para a primeira Assembleia Constituinte da República no final do século dezenove que marcou o fim do império no Brasil. Esse incêndio não pode ser considerado um acidente. Recentemente visitei o Museu e fique assustada de como ele estava abandonado. Isso é fruto de mais um descaso de nossos governos com a cultura e a educação. Muitos não sabem, mas ele está há pelo menos três anos funcionando com orçamento reduzido. Chegaram a anunciar, pasmem, uma "vaquinha virtual" para arrecadar recursos junto ao público para reabrir a sala dos dinossauros. A meta era chegar a R$ 100 mil reais. Não é um prédio pegando fogo que estamos vendo. É a nossa história sendo apagada. Dor. Só dor aqui.
(Elika Takimoto)

" Não precisamos de educação, cultura, história, não, não precisamos de absolutamente nada disso. Só precisamos de grandes líderes neoliberais, inflação de dois dígitos, mercado totalmente livre, nenhuma lei de proteção ao trabalho, ao trabalhador, não, não precisamos de nada disso, é tudo besteira, afinal pra quê história, aquela coisa mofada, múmias, roupas e estátuas envelhecidas, pra quê.Não precisamos de professores de história, então pra que alunos, não, nada disso importa, importa sim, reduzir toda a verba ou orçamento da cultura, todos os benefícios, importa sim libertarmos o mercado, afinal ele se ajusta naturalmente, pra quê levar nossos filhos ao museu? Pra ver índio pelado, negro açoitado, coisa de velho. Precisamos sim de queimar todos os livros, todos os projetos educacionais, precisamos de armas, muitas armas, muita munição, muito sangue, afinal é isso que o povo brasileiro está pedindo, é isso que estamos produzindo. Deixa o museu queimar né, deixa os falsos profetas tomarem o poder, deixa a privatização se preocupar com seus lucros. Aos 59 anos digo com tristeza, nós, todos nós merecemos tudo o que temos de ruim aqui nesse país pq batemos Palmas pra maluco dançar e apoiamos projetos de destruição, infelizmente. Não, não há espaço pra revolta, revolta sem termos feito absolutamente nada? Não, não temos esse direito, se fizermos uma pesquisa rápida aqui, quantos de nós fomos a um museu esse ano, quantos de nós lemos um livro, assistimos uma exposição de arte qualquer, fomos a um show de um artista da nova geração e desconhecido, sim, aquele fora da fama da TV, ficaríamos envergonhados com o resultado dos números. Nelson Rodrigues, sempre ele, dizia, "O mineiro só é solidário no câncer", confesso que nunca entendi muito bem, porém quando assisto comoção depois do caldo entornado, da vaca ir pro brejo e do leite derramado, posso entender um pouquinho. Não somos nada solidários, somos individualistas egoísticamente falando, somos duros com os pobres, os famintos nas ruas, mas arriamos às calças pro rico e bem nascido, não somos um povo "legalzinho" e muito menos "bonzinho", somos cruéis, queremos ver corpos e sangue derramados, mas não queremos que sejam os dos nossos filhos, queremos os dos filhos do outro, do desconhecido, jamais seremos uma nação, continuaremos sendo um bando de ajuntados por conta da colonização, e não me venham dizer que a culpa é de Portugal, reconheço toda a capacidade dos patrícios, afinal, não fossem eles não teríamos esse gigante chamado Brasil. Ahhh tá pegando fogo, foi destruído o acervo da história do nosso país e da humanidade ajuntado por Pedro, João? Ainda tem muito mais pra pegar fogo e ser destruído, lá na Dom Hélder Câmara tem um, a última sede de fazenda cafeeira do Rio de Janeiro, pertinho do Norte shopping, ah o shopping nós conhecemos né, sim, lá tem a remanescente da Fazenda Capão do Bispo, procure saber, temos ainda muito mais, aliás o Rio de Janeiro é repleto de museus, bibliotecas, patrimônios da nação que não são visitados e muito menos valorizados, ah que pena que nós não tivemos tempo de conhecer né, ah sim, tem o Louvre, podemos ir até lá e aproveitamos para fazer uma selfie na Torre Eiffel.
(Silvio Almeida)

" As chamas que destruíram o Museu Nacional já têm ardido em todo o país. São os trabalhadores tratados como lixo por seus patrões, humilhados e postos para correr. Os pobres humilhados diariamente na entrada e saída de favelas pelo poder público. Os doentes amontoados nos hospitais. As balas assassinas que matam inocentes e policiais, mortos por armas traficadas por outros policiais. O Brasil incendiado pelo ódio primitivo dos verdadeiros homens das cavernas, loucos para que morram 150 milhões de brasileiros, mas sem coragem para admitir publicamente - por isso odeiam as políticas sociais mas não possuem propostas para o caos brasileiro, simplesmente porque não têm hombridade para dizer o que pensam. Ratos passando por cima de crianças, gente dormindo em esgotos, gente morrendo de fome. Armas para todos, nas quatro patas. Cem milhões de mortos-vivos, enquanto os grandes salões corporativos comemoram vitórias às custas de ruínas. Diante deste cenário macabro, quem chora o Museu são os poucos, são os bons, são os que sabem o tamanho da tragédia. Vai ter gente dizendo que o Museu Nacional não faz falta, porque tem Jornal Nacional todo dia. "
(Paulo-Roberto Andel)






























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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerda Mundial News FM.



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Elika Takimoto para oxigenar a ALERJ (Por Thiago Muniz)

Prova viva, cabal e baixinha de que números e letras não precisam viver em conflito cisjordânico permanente: todos podemos ler, todos podemos escrever, todos podemos calcular.” (Paulo-Roberto Andel)

O Brasil que eu quero é Transparência, Senso de Justiça e Ética como atributos primordiais aos nossos políticos. Ainda dá tempo? Mas é claro que dá, e venho aqui apresentar a minha (e será a SUA!) candidata a deputada estadual pelo Rio de Janeiro: ELIKA TAKIMOTO.

Doutora em Filosofia pela UERJ. Mestre em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ. Graduada em Física pela UFRJ, Professora e Coordenadora de Física do CEFET/RJ. Integrante do grupo de pesquisa Estudos Sociais e Conceituais de Ciência, Sociedade e Tecnologia. Elika é vencedora do Prêmio Saraiva Literatura, categoria: crônicas.

Autora de mais de dez livros, dentre eles:
  • História da física na sala de aula;
  • Minha vida é um blog aberto;
  • Como enlouquecer seu professor de física;
  • Filhosofia;
  • Beleza suburbana;
  • Tenso, logo escrito; 
  • Isaac no mundo das partículas.

Tenho uma grande admiração pela Elika. Conheço há pelo menos 15 anos, acompanhei de perto a sua ascendência profissional como professora, os seus textos enigmáticos sobre milhares de assuntos, a maneira irreverente como cuida de seus filhos e sua vida pessoal. Recebeu um desaconselho do presidente Lula sobre entrar na política, e de quebra, se filiou ao partido e amadureceu a ideia de se candidatar.

E tinhosa e focada como é, se candidatou e ganhou muita força. És a minha candidata.

Gostou? Se identificou? Quer colaborar? Acesse o LINK da campanha de financiamento coletivo. Lá você será contemplado(a) com o vídeo explicativo da Elika sobre a importância do financiamento.

Você não se arrependerá!













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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerda Mundial News FM.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

14 de Maio (Por Ernesto Xavier)

Eu sempre me pego pensando naquele 14 de maio. Faço um projeção do que deve ter se passado na vida de milhões de negros que foram escravizados por toda a vida e que agora estavam "livres". Sim, tão perigoso quanto o sequestro, encarceramento e trabalho forçado, foi a libertação nos moldes que encontramos no Brasil.

Calma. Não se precipite. Não estou dizendo que deveríamos permanecer escravizados. Claro que não.

Mas já pararam para pensar em como isso se deu?

O sistema já estava falido. A lei Áurea não foi uma novidade.

Ela era a consolidação da derrota escravocrata. Já tínhamos negros libertos. Os que sobreviviam, claro. A média de vida de um negro na lavoura era de 7 anos. Muitos começavam ainda crianças. Morriam cedo. As condições eram degradantes. A sociedade compactuava com tudo. A Igreja também. As leis, ou seja, o judiciário, também. O governo também. As "pessoas de bem" também.

Matar um negro não te levava para o inferno. Negro não era "gente". Não tínhamos alma.

Já pensou o que é ser sequestrado em sua terra, levado para um local totalmente desconhecido, com uma língua diferente, em porões fétidos e insalubres, acorrentados? Trabalhar no sol quente, alimentar-se mal, ser tirado de sua família, perder tudo que tinha? Criar uma relação com aqueles que estavam ao seu lado era uma necessidade. Como fazer isso quando aqueles eram de grupos rivais na terra de origem? Com uma língua diferente? Com deuses diferentes?

Como humanizar-se quando se vê seus filhos serem tirados de perto de si, quando sua mulher é estuprada, quando se é açoitado?

Então chega um lei e diz que aquilo tudo acabou. Alívio.

Mas onde viver? Como sobreviver? Voltar para a terra de onde veio? Como? E quando já se nasceu naquela terra que ainda lhe parece estranha?

Como recomeçar?

Analfabeto. Sem casa. Sem trabalho. Desumanizado.

Ou alguém acha que do dia para a noite a sociedade passou a ver o negro como humano? Passou a achá-los legais? Passou a ama-los?

Então chegaram uns pobres da Europa. Brancos. Que recebiam lugar pra morar, um pedaço de terra muitas vezes, um trabalho, não eram forçados a trabalhar ou açoitados, tinham a cor de pele admirada, eram considerados mais produtivos e inteligentes, estavam com a família. Enquanto aqueles negros nada disso recebiam.

"Vamos dar moleza para esses negrinhos? Jamais."

E isso foi de geração em geração.

As periferias, cortiços e morros ocupados pelos negros libertos. Grupos e mais grupos saíam dos interiores para as capitais em busca de trabalho e moradia. Ali nasciam os morados de rua, os desvalidos, os marginalizados.

Ah, aquele 14 de maio. Uma liberdade aprisionante. Presos a uma terra que não era deles. Jogados propositalmente ao léu para que morressem. Sim, está documentado: pensavam que em 100 anos não existiriam mais negros no Brasil.

130 anos depois cá estamos. Vivos e ainda firmes na tentativa de reparar os estragos que nos fizeram nos últimos 500 anos. Resistir é preciso.

Dizem que é vitimismo, que vemos racismo em tudo, que podemos chegar a qualquer lugar apenas por nosso esforço. Mas quando vejo as filas de desemprego, os presídios, os manicômios, o IML, as favelas, eu vejo um mar negro. Vejo o 14 de maio se repetindo dia após dia, como se parados estivéssemos em uma data sem que pudéssemos sair dela.

Quero chegar aos dias seguintes. Quero ultrapassar a fronteira do engenho de cana-de-açúcar e caminhar com meus irmãos por uma terra em que possamos chamar de nossa.

Ainda somos estrangeiros em um país que não nos quer.

Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".



A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão




quinta-feira, 12 de abril de 2018

Fim da Linha para a Corrupção (Por Francisco da Zanzibar)

Chega! 

Eu queria meu Brazil de volta e finalmente consegui! 

Acabou esta merda de corrupção neste país livre, democrático e cheio de gente feliz. 

Não faz o menor sentido milhões de pessoas louvarem um paraíba que não sabe nem roubar direito, com uma porra dum apartamento cafona de merda que nem era dele. 

Como pode esse homem querer governar o Brazil? Isso é inaceitável! É um paraíba! Quem tem que mandar é rico que sabe se vestir, que tem presença e que saiba alinhar as minhas ferraduras.

Precisamos de profissionais de verdade para construir a nassão (sic) que merecemos. 

Para isso, precisamos usar o melhor que temos: políticos traficantes com seus helicópteros cheios de cocaína, juízes fascistas e acovardados, empresários corruptores, polícias e demais forças rendidas, capachos estadunidenses, redes de TV e imprensa escrita 100% prostituídas e contra os interesses da população, pastores bandidos e atores pornô de quinta categoria formando openeão (sic). 

Do pó viemos, ao pó voltaremos. Claro, também precisamos de cem milhões de idiotas que riem de tudo feito hienas e acham ótimo, porque é isso mesmo. O sistema não funciona sem uma grande massa de imbecis a serviço dele. 

Não basta ser imbecil: é preciso levar chibatadas do senhor feudal e ficar satisfeito, feliz. E daí que tem gente morrendo nas ruas? 

O que importa é ter smartphone, nudes, gatonet, latão na mão e muito "uhuuuuuu!". Foda-se o outro: não fui eu que fiz este mundo e não tenho culpa de quem ele é. Acabou a corrupção. Agora podemos ver toda noite o jornal da TV feito cachorros espiando frango assado na padaria, enquanto um corno de voz imponente lê as ordens de seus patrões. 

Estamos em abril, precisamos correr com a nossa sonegação do imposto de renda, porque aí sobra algum pra gente gastar no shopping. Daqui a pouco tem Copa do Mundo: se o patrão escravagista não liberar o horário pra ver os jogos, será que alguém descola um atestado médico? 

Ah, quando uma mulher negra for fuzilada a gente aplaude. Afinal, era puta, sapatão, comunista, mulher de traficante e nós sabemos de tudo: nosso QI não tem quatro patas à toa. 

Foi o que nos ensinou o nosso grande líder, um liberal que passou a vida inteira pendurado no saco do Estado, e que quer a morte dos veadinhos mas usa penteado de garoto-moça. Daqui a pouco a gente assiste às aulas on line de Facebook e Twitter. 

Mais tarde tem intensivão do Fantástico Fascismo. A gente olha a internet e as bancas de jornais, tem aquelas manchetes com letras gigantescas e então pensamos "Nossa, que escândalo! Ainda bem que a imprensa é 100% isenta, não tem partido nem interesses e está sempre do lado do povo". 

Finalmente o meu Brazil está de volta. 

Mas o que eu queria mesmo era ser dono daquele apartamento com 50 milhões que não deu em nada. Aquilo deve ter sido um boi de piranha: pegaram parte do dinheiro em um, deixado de propósito lá, e levaram o "resto" para outros. 

Emprego de salário mínimo eu deixo pra essa gentinha aí, que deveria trabalhar de graça pra mim.

Este é um país para homens de terno, brancos, de bem, em nome de Deus e da família, cabelos gomalinados e pastas recheadas de dólares, mandando uma banana na cena da novela enquanto milhões de otários aplaudem e saúdam o Carnaval. 

A corrupção acabou. 

O desemprego, a violência desmedida, a ignorância e a incapacidade de pensar no país como uma sociedade igualitária, não. 

Mas foda-se: agora podemos descansar em paz, deitados em berço esplêndido da maior senzala multicolorida voluntária e ignorante do mundo.


Francisco da Zanzibar atualmente é avesso a redes sociais e qualquer tipo de tecnologia, ainda escreve suas colunas numa máquina de escrever, que segundo ele: "Para não perder a ternura jamais..."










sábado, 17 de março de 2018

O Fardo em cima de Marielle (Por Dereck Duque Estrada)

Vou tirar um pouco o foco de cima da Marielle.

Você, você mesmo que acha um absurdo existir direitos humanos, que acha que bandido não deve ter direito a nada a não ser a morte. 

Eu entendo seu sentimento, já pensei assim, já devo ter dito bem feito quando morre alguém que luta por direito de marginais também, mas espera aí , o que é o direito humano? Você sabe?

Você sabe o que é feito quando não estão relatando abuso de autoridade? Pois é, eu não sabia, mas agora eu sei, talvez seja essa a diferença entre a gente nesse exato momento.

Sabe, no asfalto, perto da principal, tudo é tranquilo e suave, embora ultimamente nem tanto, mas lá em cima polícia enfrenta um inimigo que eles nem sabem de onde vem e usam qualquer meio para cumprir a missão. 

Sabe o que isso quer dizer? Opressão. Não me entenda mal, não estou dizendo que toda operação tem violência, mas ela existe e eu não tô falando de violência contra bandido, estou falando de ataque contra moradores da favela, pessoas trabalhadoras que vivem nessas zonas de violência. O morador de favela tem medo do tráfico, mas também tem medo da polícia.

Quando começa o confronto, mais um morador morre.

Policial também morre, traficante também. E sabe o que acontece com a criminalidade? ELA SOBE!

Sim! É isso que eu tô te dizendo, a violência se intensifica. E com mais violência temos mais gente morta, policial, morador traficante, mas até aqui não tem problema, sabe por que?

Porque é pobre morrendo pelo confronto do pobre contra pobre que deveria proteger o pobre que morreu.

Se uma operação termina com um morador morto, a polícia falhou gravemente.

Se a operação termina com um policial morto a polícia falhou gravemente.

Se a operação termina com um traficante morto, a polícia falhou gravemente.

Sabe por que? Porque a função da polícia é proteger e não matar.

Mas se a morte fosse em legítima defesa é aceitável, mas entenda, isso é uma falha.

Por que isso é uma falha? Porque não deveria ser necessário isso.

Como tornamos isso desnecessário então?

Tirando as armas do morro.

Se uma arma chega no morro ele não comprou no camelô da esquina, ela veio de fora , entrou na fronteira atravessou o país e finalmente chegou na favela. Sabe o que isso nos mostra, uma incompetência de primeira dos órgãos de segurança pública . Se o fuzil e munições não subirem pro morro , sabe quantos policiais iriam morrer? ZERO!

Mas o problema da incompetência da segurança publica no país é maior que somente incompetência, tem corrupção e é nesse ponto onde o esquema é feito de forma sensacional.

O tráfico pra se manter trabalha em conjunto com altas patentes, das polícias (todas sem exceção), com vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores, ministros entre outros.

Novamente, não estou generalizando, estou dizendo que a máquina tem um alcance maior do que você pensa, estamos falando de grana e quem é corrupto vai fazer o que lhe mandam por dinheiro.

Pronto o esquema de armamento está montado, se alguém for pego, vai ser o pobre cabo e um outro patente baixa que vão levar a culpa em prol do esquema.

Se você conseguiu acompanhar até aqui, vamos continuar, já definimos que a violência é coordenada com níveis acima do estado brasileiro.

Agora vem a pergunta chave, porque fazem isso?
Resposta: Poder, mais violência aumenta a sensação de insegurança , mais insegurança gera uma insatisfação da população com esse setor, insatisfação com esse setor gera uma solução, "bandido bom é bandido morto".

Cara essa frase é de uma safadeza tão grande que parece piada. Sabe qual é o problema dela, ela só se aplica pro traficante.

Ninguém quer degolar o Aécio pelo helicóptero de coca, ninguém procura saber quem foi o responsáveis por permitir que arma do exército fossem pro morro.

Ninguém quer saber quem são os bandidos fardados ou de terno.

Sabe por que?
 
Porque estamos com medo e medo cega.

A gente só quer se sentir um pouco mais seguro , mas não tá rolando então a gente pede pra matar mais , como se estivéssemos tratando uma praga que ataca nosso jardim.

Mas irmão, não adianta a máquina não quer que isso acabe porque você com medo é mais um voto para política de extermínio e mais um mandato pro deputado/vereador/senador que não faz nada pela sua vida.

E nós ficamos alienados, agredindo quem na verdade, sem que soubéssemos, estava ali presente lutando pela gente também.

Descanse em paz Marielle.

A luta não é só aqui, a luta é na rua.

#MariellePresente


Dereck Duque Estrada é Engenheiro, cidadão e crítico em política. 
Texto com revisão de Thiago Muniz.














quinta-feira, 15 de março de 2018

Polícia? Que Polícia? (Por Sidney Pinho Junior)

O que mais estarrece e provoca profunda indignação é que, boa parte da sociedade apoia a violência policial, a truculência e o abuso de autoridade batendo nas portas das pessoas, consideradas por esta minoria facínoras, bandidos desqualificados, quando na verdade são as pessoas de bem que trabalham, que lutam pelo pão de cada dia, sem a devida assistência do estado, omisso e covarde, opressor e mantenedor de uma polícia assassina, cruel e que não tem dignidade por conta de uma nação apodrecida, corrupta e viciada em enganar os cidadãos!

A classe média, refugiada em seus apartamentos financiados pelo sistema econômico que escraviza a todos, pensa ser parte das elites e se sente imune aos desmandos da polícia repressiva e anti-cidadão, mas no fundo sabe que ao sair às ruas das cidades brasileiras, não apenas no Rio de Janeiro, está correndo o risco de não voltar para casa, podendo como qualquer um, pobre, favelado, morador de comunidade ou não, acabar sendo vítima de uma polícia que cada vez se faz mais perigosa que a própria bandidagem!

A república, imposta aos brasileiros no golpe de estado de '15 de novembro de 1889, já nasceu viciada em preconceitos, tendo sido construída sob os alicerces da desigualdade, da impunidade e da sanha de poder das elites que nunca quiseram construir uma nação rica e próspera…

Os oligopólios se multiplicaram e cresceram explorando o cidadão comum, promovendo desigualdades e construindo muros sociais que legaram uma sociedade frágil, limitada e vivida em sofrer sem nunca dizer nada; transformada em gado, em servis conformados, encangalhados, colonizados e escravizados por políticas que não foram feitas para uma nação livre, pas para um país servil, alinhado e subserviente aos impérios capitalistas selvagens!

Hoje, estamos testemunhando o resultado, ainda parcial, mas absolutamente aterrador do que nos foi imposto nestes 129 anos de república, espúria e sem alma… um estado onde ser “cidadão de bem” é cultivar o preconceito indiscriminado, é valer-se das parcas benesses concedidas por um estado impostor, mentiroso e explorador e sentir-se parte dos privilegiados, de uma elite a qual jamais pertenceram, mas que insistem em acreditar!

Mas não se iludam pois o pior ainda está por vir… depois de rasgarem a CLT, extinguir o salário mínimo à partir da lei da terceirização e do trabalho intermitente, criando um novo estado escravocrata, de transformarem o ensino médio em indústrias de operários que jamais terão acesso ao ensino superior, reservado aos filhos dos poucos privilegiados de classe média, estão acelerando todo o processo de elitização definitiva de uma nação que jamais existiu!

Voltando a polícia, se construiu uma instituição de repressão e de formação destrutiva, onde uniformizada de soldadinhos de chumbo foram se investido de autoridades intocáveis e impunes, contra a sociedade e os cidadãos que ao invés de serem reconhecidos como tal, são tratados como suspeitos, criminosos, já que o estado perpetuou o crime como seu principal princípio de atuação, executando e levando aos cidadãos suas culpas e mazelas.

Não gritem contra os PM´s, não gritem contra os policiais civis, os federais, rodoviários federais e os mal preparados guardas civis, mas berrem e esgoelem-se contra o estado brasileiro, contra as autoridades constituídas que jamais pensaram que a educação é verdadeiramente transformadora, construtora e financiadora de uma nação, gritem contra as oligarquias que querem continuar enxergando o mundo de cima de seus privilégios espúrios de suas empáfias elitistas e que jamais pensaram em ter um país de verdade!

Não podemos culpar a omissão e o conformismo da classe média, pois talvez sejam eles as maiores vítimas sociais do modelo republicano capitalista inconsequente, que valoriza o ter e despreza o ser, transformando pessoas de bem em indivíduos egoístas, sem amor ao próximo e fechados ao clamor de uma sociedade pobre e que agoniza em direção ao cada falso…

Haveremos que nos despir de tudo que aprendemos e acreditamos até aqui, despimos-nos de todo preconceito, de todo desamor, mas principalmente despimos-nos da ganância, do incontrolável desejo do ter, a qualquer custo e a qualquer preço, pois somos todos vítimas de nós mesmos, que acreditamos num estado que não existe, numa justiça que trabalha em favor de poucos, na classe política que já nasceu tão podre quanto a república tupiniquim que nos oprime a todos… precisamos de coragem para dizer não e colocarmo-nos em marcha de resistência, marcha pela cidadania, pelo direito, pelos deveres negligenciados que nos aviltam com as mais cruéis formas de humilhação!

Não é mais uma questão de ser de esquerda ou de direita, de ser contra ou a favor de Lula, de Serra ou de Bolsonaro, não, não é mais uma questão de escolha pessoal, mas de sobrevivência coletiva, é questão de segurança nacional, pois já passa da hora de construirmos uma nação para todos n´s indistintamente, pobres ou ricos, brancos, negros e pardos, de esquerda e de direita, sem impormo-nos preconceitos que só nos separaram, gerando mágoas, desentendimentos e morte, muita morte!

O Brasil tem que ser revisto, a república tem que ser condenada por todos os seus crimes, por todas as atrocidades que nos impôs por mais de um século e, não podemos perdoar àqueles que querem cortar nossas cabeças, condenar nossos filhos ao inferno que se aproxima, mutilando nossas vidas e nos condenando ao fim que está nos devastando!

Unimo-nos todos, não por este Brasil, mas pela nação que ergueremos das cinzas podres da República covarde.







Hasta Siempre, Marielle (Por Ernesto Xavier)

"Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades...
" (Cazuza)


A morte de Marielle não é algo fácil de se digerir. Não é apenas mais uma morte.

Em primeiro lugar devemos entender quem ela era.

Morreu uma mãe negra.

Uma mãe negra periférica. Uma mãe negra da favela que virou liderança política em uma cidade sitiada por bandidos fardados, bandidos de colarinho branco e bandidos descamisados. Uns se confundem com os outros. Difícil dizer quem é quem. Quando termina um e começa o outro? No Rio é difícil dizer.

Mas além das questões partidárias, ideológicas e de qualquer outro gênero, devemos lembrar que ali tinha (tem) um ser humano, com família, com amigos, com sonhos, anseios, angústias, questões, erros, acertos. Morreu um ser humano.

Morreu também uma ideologia. Morreu uma ideia de que ainda podemos lutar por algo. Não podemos, amigos. Somos nada. Somos pó de estrelas sendo soprados aleatoriamente no universo.

Dispersos em neuroses. Somos poeira, colegas.

Neste caso, somos corpos negros violados. Desfigurados. Acuados. Coagidos. Indefesos.

Somos carne negra sendo vendida a preço de banana.

Lutar por algo que mexesse na estrutura racista, misógina e desigual desse país sempre fez jorrar sangue. Nossa história é de guerra, não de paz.

Marielle era da Maré.

Marielle lutava pelas milhares de vidas negras e pobres perdidas diariamente.

Marielle era presidente da comissão que fiscalizaria a intervenção na câmara municipal.

Marielle denunciou as mortes de jovens em Acari por policiais no último final de semana.

Marielle incomodava e muito.

Marielle somos nós, companheiros.

Se você não se importa, talvez não tenha entendido que o próximo também pode ser você.

Quem matou Marielle?

Quem poderá afirmar? 

Quem mata os mais de 40 mil corpos de jovens negros todos os anos no Brasil?

O Brasil matou Marielle.

Marielle, PRESENTE.

Descanse em paz. Seja lá onde essa paz possa ser alcançada.


#SentiNaPele


Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".




























terça-feira, 6 de março de 2018

E Lula será preso... (Por Fernando Drummond)

Sigilo bancário de Michel Temer é quebrado pelo Barrosão, aquele que um dia foi um excelente professor de Direito da UERJ. Mas bom ladrão não deixa rastro. Se ele tem alguma coisa na conta dele, é mais imbecil do que aparenta. Mas que tá sangrando, tá. Vai aprovar reforma nem no banheiro de casa.

Taca fogo no Cabaret Brazil!!! Com perdão aos estabelecimentos.

P.S.: O grande problema é que me parece uma imensa cortina de fumaça pra prisão de Lula.

Lula será preso nos próximos dias por causa de um triplex que está no nome da OAS e penhorado em nome dela.

O Senador Perrela, DONO do helicóptero do pó, afilhado de Aécio, e não estou fazendo nenhuma referência ao narcotraficante que quase virou Presidente do Brasil e construiu aeroportos em suas terras, navegam em mares de Almirante, tranquilos, sem serem incomodados pelo pior STF de toda a história.

Carmem Lúcifer, com perdão a Lúcifer, diz que não há provas contra o narcos Aécio. Mesmo com o áudio dele mandando matar o primo antes da delação, pedindo propina, etc etc etc...

Em resumo: se estivéssemos na Argentina, o povo estaria nas ruas. Fingimos ter rivalidade futebolística com eles. Mas o que temos é inveja, por serem um país muito menor que o nosso, com o povo muito maior. Somos um bando de milhões de covardes, corruptos seletivos em um país bonito por natureza.

Vimos o golpe de 2016 e nada fizemos. Vimos uma quadrilha assumir e fizemos cantigas.

Acompanhamos o julgamento de Lula no TRF-4 e tiramos selfies. Agora, não reclamem. É tarde demais. E eu avisei em 2016 e quem me acompanha sabe: vocês estão apostando em Lula 2018? 2018 não irá nem chegar.

Pela primeira vez em minha vida, não sei o sentimento que tenho ao ver a bandeira de meu país: se nojo ou raiva.

Eu avisei em 2016 que 2018 não chegaria. Mas insistiam. Diziam, naquele ano: “não vai ter golpe, vai ter luta”. 

Teve golpe na Câmara e nem um pneuzinho queimado porque, diziam as centrais, “não poderíamos nos igualar a eles”. No Senado, evidentemente, o mesmo desfecho. 

Por pedaladas fiscais, usurparam do poder uma mulher, a primeira mulher Presidenta de nosso país. 

Antes disso, destruíram seu governo com aquele adesivo: “a culpa não é minha, eu votei no Aécio”. 

Neste momento, morreu a democracia

Parece que os eleitores do traficante sumiram ou tiraram o adesivo. Começaram, então, a dizer que quem colocou o Temer lá foram os eleitores de Dilma. 

Negativo. Quem colocou o Temer foi quem tirou Dilma, os paneleiros, os amarelo-patos, os corruptos deputados comprados e senadores. 

Daí teve uma luz no fim do túnel. 2018 se aproximava e Lula seria o candidato. E teve gente que acreditou que, depois que tiveram tanto trabalho com o golpe, iriam devolver o país ao PT? Não, né. 

Lula foi julgado baseado num PowerPoint tosco do ridículo procurador Dallagnon, que recebe muito mais do que o teto constitucional, assim como seu chefe, o Juiz Sérgio Moro, sobrinho e filho dos fundadores do PSDB de Maringá/PR

Lula, então, passou a ser dono de um imóvel que não está no nome dele e penhorado em nome da real dona, a OAS. É, então, que temos a segunda vítima fatal: o Estado Democrático de Direito.
Por tudo isso, digo sem medo de errar, o que falei em 2016: o povo brasileiro não fará nada.

Fugimos à luta e somos covardes. Porque, se tivéssemos o mínimo de vergonha na cara, pegariam pedrinhas e tacariam na cadeia aonde ficará Lula. Crime de Dano. Eu seria um deles. Revezaríamos e não teria cadeia suficiente para quase 60% da população. 

Sinto vergonha de ser brasileiro e pior. 

Sinto nojo de ter cursado Direito em um país em que péssimos magistrados brancos condenam o melhor Presidente que esta Republiquetinha já teve, cujo pecado é não ser o sociólogo FHC, que tem um apartamento gigante na Avenida principal de Paris, Focq. 

O seu grande pecado foi ser um mero metalúrgico.



Fernando Drummond é escritor, cronista e roteirista. Autor do Best Seller "Trilogia do Mal" e junto com os parceiros Nathan Minto e Thiago Muniz lançarão em maio o livro "O Desempregado do Amor", pré-venda no link: https://pag.ae/bjvYMgj

Confirme sua participação no evento em: https://www.facebook.com/events/187719685150697/

























terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Mas, Ernesto... (Por Ernesto Xavier)

O carro atravessa a estrada à noite. Uma picape. Carro caro. O motorista sou eu, no caso. Uma blitz à frente e o trânsito fica um pouco mais lento. Nada de mais. Todos os carros vão passando em fila tranquilamente. Os policiais quase nem olham para os veículos, riem entre si, conversam. Um deles mexe no whatsapp. Faço os procedimentos padrões: diminuo a intensidade do farol, mantenho as mãos no volante, abaixo os vidros. 

E então o que acontece?

O cara arma o fuzil e aponta na minha direção.
Tcharaaaaaam!
Eu então calmamente ligo a luz interna e ele então percebe que há outra pessoa dentro do carro: uma mulher branca.
Ele abaixa o fuzil e me manda seguir.
Tcharaaaaaaam!!
Minha carta de alforria estava sentada no banco ao lado. Que maravilha é viver no Rio de Janeiro do século XIX. O fato ocorreu há alguns meses atrás. Clima tenso no Rio. Quando não foi, não é mesmo?
Aí alguns leitores vêm aqui me dizer: “Mas, Ernesto, eles estão apenas fazendo o trabalho deles”.
Sim, estão. Me apontando o fuzil. Fico até mais tranquilo quando ele engatilha. Dá aquela sensação gostosa de set de filmagem do Rambo. Só que eu, por acaso, sou o inimigo do Rambo.
Mas, Ernesto, a maioria desses policiais também são negros e pobres”.
Sim, querida, são. Ou você acha que as consequências do racismo atingem e são reproduzidas apenas pelos brancos?
Eu tenho uma sugestão: Deveriam criar uma nova matéria escolar para os ensinos Fundamental e Médio: “Racismo Estrutural Brasileiro: imagem e sociedade”.
Nesta disciplina, que seria obrigatória, valendo nota e só valeria tirar 10, o aluno aprenderia sobre como se formou o pensamento do cidadão brasileiro, como chegamos até aqui, etc.
Deixa de ser irônico, Ernesto”.
Estou falando sério. Nela, aprimoraríamos o olhar dos jovens, negros ou brancos. Mostraríamos novelas, comerciais de TV, editoriais de moda, noticiários. Seria interdisciplinar. O aluno deveria contar quantos negros encontra em uma novela que se passa no Brasil, quantos aparecem em comerciais de margarina, quantos aparecem nos noticiários policiais e fariam uma equação para chegar ao coeficiente de negritude da mídia brasileira.
O aluno entenderia porque “naturalmente” ele associa o crime a uma pessoa negra. Ele entenderia porque ele não se vê como negro, porque ele acha normal que quase todas as empregadas domésticas e babás sejam negras. E também que não é legal dizer que “ela é quase da família”, nem chama-la de “mãe-preta” ou coisas do tipo.
A matéria teria questões no ENEM. Envolveria História, Geografia, Sociologia, Matemática. Olhem o “valor agregado” que isso traria para o “cidadão de bem”. A classe média adora valor agregado e cidadão de bem.
Mas, Ernesto, porque você foca tanto nos policiais? Você quer acabar com a imagem dos militares?

Não, querido. Eu só não quero morrer. E, no caso, quem porta arma no Estado e pode fazer isso é um policial. Um médico não me ameaçaria com um bisturi e nem um professor com um giz.
Mas...
Dentro da sala de aula esse futuro policial poderia aprender um pouco sobre quem ele é, quem são seus irmãos sem farda, quem realmente pode ser uma ameaça e de que forma o pensamento social brasileiro age sobre ele, levando-o a pensar que somente pelo outro ser negro, então é uma ameaça.
Não, ele não pensa isso. Não é consciente não maioria das vezes. A sociedade é assim. A sociedade é racista. Infelizmente tenho que te avisar isso, caro leitor:
Você provavelmente é racista.
Não se assuste. Não vá para o banheiro chorar. Aguente firme. Vou repetir. Você provavelmente, se não for negro, é racista.
Respirou?
Um novo mundo se abre quando entendem isso. A sociedade brasileira está fundada em princípios de exclusão racial. Não dá pra explicar isso em apenas um texto no Facebook. Leva tempo. Apenas confie no que estou te dizendo. Algumas coisas irão acontecer comigo e nunca irão acontecer com você, branco, simplesmente porque minha pele carrega alguns símbolos, que historicamente me tornam alvo.
Sim, eu como negro, sou mais alvo do que agente (aquele que age, ok?) da violência. Cerca de 23100 jovens negros entre 15 e 29 anos são mortos todos os anos no Brasil. Um negro morto a cada 23 minutos. Morto por mãos brancas e negras, sim. Morto por estar envolvido com algo errado ou não. Morto porque a vida o colocou desde o nascimento em posição vulnerável. Ele pode ser um policial. Nossa polícia é, também, a que mais morre. Já chorei e sofri por 2 policiais negros mortos na minha família. Pessoas que eu amava demais. Não quero isso novamente.
Criaram uma guerra entre pretos. Bandidos negros. Policiais de baixa patente igualmente negros.
Não é só a polícia que deve entender isso. É você que escreve “mas” a tudo que diz respeito ao nosso direito à vida. 

O seu “mimimi” ajuda indiretamente a matar mais alguém. 

Provavelmente um jovem negro morreu enquanto você lia esse texto. Você leu mesmo? 

Ou apenas vai escrever o nome do seu candidato à presidente nos comentários? 

O nome dele é o seu argumento?

#SentiNaPele

Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".








terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O Fim da Ala dos Compositores (Por Vinicius Natal)

"As alas acabaram e a discussão é longa. Outra questão relevante é a perda das escolas de samba como espaços de composição dos chamados "sambas de terreiro". Se a produção de sambas-enredo diminuiu muito, a de sambas de terreiro está praticamente extinta. Poucas escolas ainda fazem concursos de sambas de quadra, com quase nenhuma repercussão fora da bolha. Algumas perguntas: as direções das escolas de samba estão dispostas a dialogar para pensar em democratizar as disputas? Interessa a alguém que as disputas sejam democratizadas? Existem maneiras de se impor controle de gastos nos concursos? É justo que sambas com redes de financiamento, lícitas ou ilícitas, formem palcos milionários, em detrimento dos demais concorrentes? Quem ganha dinheiro com as disputas? Como formar novos compositores? Está sendo feito sobre isso nas escolas mirins? Sambas encomendados matam alas de compositores ou só existem porque as alas de compositores morreram? Eu teria mais umas vinte proposições a fazer..." (Luiz Antõnio Simas)

Assistindo o bar apoteose do amigo Alex Cardoso, fiquei pensando.

Lembro muito bem que, quando eu era pequeno, frequentava diversas festas da ala dos compositores da Vila Isabel. Havia datas esperadas como a festa de natal, a entrega dos sambas que era bebemorada e compartilhada, os pagodes depois dos ensaios, as viagens à casa de praia de Irany Olho Verde, os passeios, os jogos de futebol entre casados x solteiros, os concursos de samba de meio de ano, o pagamento de mensalidade, a eleição acirrada da disputa entre as chapas para ver quem seria o presidente da ala - cargo respeitadíssimo - e, por fim, disputas de samba em que o samba, por si, contava - não é folclore, é real!

Hoje, o compasso não é mais esse...

As alas de compositores, enquanto núcleos de sociabilidade, acabaram. Vamos aceitar isso. Samba de enredo virou um quesito assim como casal de mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente, carnavalesco e a plástica, etc. Cada vez é mais comum a encomenda de samba em busca de um campeonato e de 40 pontos. Prática que, sejamos francos, tem nos rendido sambas incríveis.

Que se assuma isso como um dado concreto e se crie uma nova forma de resgatar a sociabilidade e divertimento de uma ala dos compositores, enquanto grupo coeso, ou vamos dar murro em ponta de faca. E aí todo mundo sangra, exceto os mesmos compositores mega talentosos - os quais conhecemos bem e,merecidamente, são os mais aplaudidos.

Vamos pensar aqui:

- As disputas de samba se modificaram sensivelmente com a entrada da indústria fonográfica nas escolas de samba. Pensar, então, de que forma o papel das produtoras e distribuidoras impacta nas relações de dentro de compositores da escola é uma tarefa urgente - sambas que rendem mais de 400 mil reais em um ano, quem ganha o lucro, a escola de samba que "sequestra" mais de metade do dinheiro do compositor e, até mesmo, as escolas que nada pagam. Afinal, o compositor não é um artista, assim como o carnavalesco?

- O número de sambas, na maioria das escolas, em uma disputa, é ínfimo. Tem escolas que tem 5 sambas pra disputar e a escola precisa ficar enrolando para não acabar cedo. É justo e correto enrolar uma disputa nesse nível?

- As torcidas, que antes eram pessoas da comunidade que torciam para seu samba sair vencedor, hoje são ônibus alugados de variados locais do Brasil para torcer, sem a mínima ligação com as agremiações. É pertinente isso para a escola de samba que queremos?

- Uma parceria de grupo especial gasta, aproximadamente, 100 mil para ganhar uma disputa. Logo, 100 mil reais é um dinheiro que se pode/deve investir em disputa de samba?

- As quadras ficam vazias em disputa de samba, na maioria das escolas, e há uma lenda que disputa dá lucro para escola. Será mesmo? O custo para abrir uma quadra em disputa é tão grande...

- Muitas escolas encomendam samba mas, para passar um ar de sobriedade, fingem ter uma disputa com o samba escolhido desde o início. Isso é honesto com o sambista?

Longe de ter certezas aqui, mas esse modelo de concurso está falido, assumamos isso... Mais importante que a disputa de samba, é se voltar para os milhares de compositores que amam suas agremiações e, hoje, não escrevem mais. Talentosos artistas da cultura popular que foram se afastando e, como o tempo é cruel, estão nos deixando, ressentidos, sem poesia.

Já joguei o jogo na minha escola e, cruelmente gastamos mais de 70 mil reais, sem patrocínio. 

Encarar os problemas é uma necessidade para a mudança e, creio eu, que os deuses do carnaval nos deram a oportunidade de sermos melhores. Não só por nós, mas por todos os poetas de samba do Brasil.

Que o "Não deixe o samba morrer" deixe de ser só uma canção, mas se torne uma prática cotidiana.

E que comece agora...

Foto: Acervo Alexandre Medeiros

Vinicius Natal é compositor, diretor cultural da Unidos de Vila Isabel, professor de História e mestrando em Antropologia pela UFRJ.










segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Intervenção (Por Ernesto Xavier)

"Nós sofremos uma intervenção parecida em 2014. Tivemos um soldado para cada 55 moradores. Eu nunca tive um médico ou professor para cada 55 moradores". Gisele Martins, moradora da Favela da Maré, à Rádio Brasil de Fato.

O Rio de Janeiro possui cerca de 850 regiões dominadas pelo tráfico de drogas. 850. Elas não nasceram por geração espontânea ou milagre. Sacou o tamanho do problema? Imaginou uma intervenção nesse cenário?

E se eu te disser que o problema mais grave não está dentro dessas 850 regiões ou comunidades ou territórios ou favelas, seja lá o nome que você quiser dar?

O Rio vem firmando parcerias com as forças armadas há décadas. Grandes eventos como a ECO-92 tiveram os militares juntos. Copa do Mundo. Papa. Olimpíadas. Aquela sensação gostosa de paz, mesmo que os números absolutos dissessem o contrário. Mas se na TV diz que tá tudo em paz, então tá tudo em paz.

Durante o período de instalação das UPPs, eram as forças armadas que faziam a primeira ocupação, lembram? E aquele tanque enferrujado da Marinha entrando na favela? Lembram também? Eu fico imaginando aquele blindado lançando um tiro no meio da comunidade. Espetáculo.

A classe média ia urrar em gozo! Classe média gosta de ver sangue, contanto que não seja o seu. Se você pensar que a classe média reclamava de Merthiolate porque ardia e preferia mercúrio cromo, forçando o Merthiolate a não arder mais, então imagina se essa classe média tomasse um tiro de “bala perdida” dentro de seus apartamentos em Copacabana?

Desde junho do ano passado tivemos movimentações importantes do exército no Rio, na Rocinha, na Maré e na Cidade de Deus. Deu em que? Nada. O bagulho ficou mais doido. A porrada estancou. Os trafica faziam o que queriam. Tá todo mundo aí ainda. Dinheiro gasto a rodo. Anexos no orçamento. 

Aquele dinheirinho que escoa pro caixa 2 da campanha. Uma M-A-R-A-V-I-L-H-A.

Não se acaba com o tráfico e consequentemente o crime organizado matando traficante na favela por dois motivos simples: eles são substituídos por outro rapidamente, pois aquilo não é o Ministério do Trabalho e a pobreza e o acesso aos bens de consumo seguem escassos e em segundo lugar porque quem mantém aquela máquina funcionando não é atingido, mesmo que uns dêem mole e deixem um helicóptero com 400 kg de pasta base de cocaína ser apreendido na própria fazenda.

Esses são os dois principais motivos, mas outros se juntam nessa sopa de entulho que a gente é obrigado a tomar.

Uma delas está na “inteligência” do exército. Essa mesma que dizem que irão usar agora no Rio. A grande maioria dos militares está concentrada na região Sudeste. Um contingente espetacularmente grande não faz absolutamente nada. Limpam quartel e fazem vigília. Não estão na fronteira pra reforçar a fiscalização do que entra e sai do país.

Não estão defendendo fronteira, saca? Soberania nacional, defesa territorial e outras paradas que Bolsominions adoram falar. Não é pra isso que serve? Rio de Janeiro e São Paulo não fazem fronteira com ninguém. Coleguinha, AK-47 e AR-15 não brotam em árvore. Vem do exterior por via terrestre ou pelo porto. Traficante de favela carioca não fala inglês, espanhol ou russo pra negociar arma e droga na fronteira. Então tem alguém graúdo que faz isso por ele. Não sou eu. Não é você (acho) e não é o PM que tá aqui no Rio trabalhando de viatura velha e sem colete.

Outro ponto: traficante não sabe fazer manutenção em arma. Uma metralhadora dessas dura uns 3 meses na mão deles. Aí quebra e tem que comprar outra. Rotatividade sinistra! Chega muita parada. Deve vir pelo Ifood ou Uber Eats. Só pode. Entra no aplicativo, escolhe a metralhadora e ela chega com o motoboy junto com a nota fiscal e o troco.

Essa intervenção já começou faz tempo. Lá pelo século XVI quando tiraram meus antepassados da África e jogaram aqui.

Mas tudo você coloca o racismo no meio, né Ernesto?

Sinto dizer, porém não fui eu que no dia 13 maio abri as portas das senzalas, jogando negros na rua, sem trabalho, sem casa, sem instrução, sem dinheiro, com fome, marginalizados. É, não fui eu. Juro.

Depois também não fui eu que fiz remoções. Nem promovi o encarceramento em massa de negros.

Ah, também não fui eu que matei negros após a abolição, mesmo que eles nada tivessem feito. Não posso esquecer de dizer que também não fui eu que contei uma falsa história da África e do negro nos livros de história, nos filmes, novelas, livros...feitos por brancos, claro.

As favelas cresceram com esses negros, nordestinos, marginalizados em geral. O poder do Estado só ia lá com a polícia ou com candidato pra pedir voto. Fuzil ou santinho. E era isso. É isso. Essa é a intervenção que o pobre e preto conhece.

Eu poderia perguntar a alguns colegas da Zona Sul onde eles compram suas droguinhas (sem fazer julgamento do uso). Eu receberia alguns endereços nobres da cidade. Tem no Leblon, Ipanema, Copacabana. Será que o Fraga Netto vai se interessar? Mando a planilha pra ele. Vai rolar uma apreensão em massa de “jovens de classe média” ou vão continuar prendendo e matando só o “traficante fulano”?

Em breve a classe média vai se sentir em paz, andar com seu Iphone 8 de boa no Arpoador, comer seu açaí com guaraná e proteinato na casa de sucos e jogar futevôlei numa manhã de terça-feira na Barra. Aquela sensação de segurança. Soldados em fardas camufladas nas ruas. O Rio Maravilha! O Rio exportação! O Rio fitness!

O pretinho da favela vai correr de bala perdida, vai abrir a mochila toda vez que entrar ou sair do bairro, vai ter toque de recolher, vai ter enterro de familiar, de amigo, de conhecido. Mas o carioca-zona-sul-classe-média-nariz-em-pé estará vendo maratona de “La Casa de Papel” comendo snacks de mandioca comprada no Hortifruti, bebendo suco verde.

A intervenção vai sair uma hora. Os problemas continuarão aqui. As armas seguirão passando pela fronteira. A cocaína também. A pobreza na favela vai piorar. Muitas famílias vão chorar. Não tem mal necessário nesse caso. Vai morrer inocente. E não me venha com o discurso de que é inevitável, porque se fosse a sua família em risco, você não aceitaria nenhuma margem de risco. Essa margem só serve pra quem você não se importa.

Alguém aí tá se importando com o filho da dona Tereza, que sonhava jogar futebol e ainda estava no 7° ano, apesar da falta de professor na escola? Ou o bicho só pega quando o aluno do Santo Agostinho perde o celular na porta do colégio?

Quer intervir no Rio? Cria máquina do tempo e dá dignidade pro povo preto.

O resto é enxugar gelo.


Ernesto Xavier é ator, jornalista e escritor. Autor do livro "Senti na pele".