terça-feira, 5 de julho de 2016

Lagoa de Araruama: nas devidas calamidades ambientais (Por Thiago Muniz)

A Lagoa de Araruama é o maior Ecossistema lagunar hipersalino do mundo.

Muitos dos moradores e visitantes da Região dos Lagos no Estado do Rio de Janeiro já devem ter se perguntado: Porque que a Lagoa de Araruama é tão salgada? A hipersalinidade ou super salinidade é causada pela combinação de alguns fenômenos naturais da região.

A Lagoa tem grande quantidade de sal dissolvido devido aos seguintes fatores naturais da região:
  • Clima: a região entre a Lagoa de Araruama e Armação dos Búzios apresenta um clima semiárido, com presença de cactos, vegetação característica de locais desérticos. Segundo estudos pluviométricos a precipitação média varia entre 600 a 700 mm/ano, enquanto a taxa de evaporação está compreendida entre 1.300 a 1.400 mm/ano. Especialistas apontam a condição de poucas chuvas ao fenômeno de ressurgência, que ocorre na costa de Arraial do Cabo e já foi explicado no post anterior “Porque a água das praias da Região dos Lagos é tão gelada?”.
  • Ventos: a grande e forte ocorrência dos ventos na região atua sobre o espelho d´água da lagoa, o que aumenta a evaporação, tornando-a ainda mais salina.
  • Contribuição de água doce: os poucos rios afluentes à lagoa são de pequeno porte e, assim, não contribuem muito para a entrada de água doce no sistema.

Portanto, a pequena contribuição de água doce do sistema, seja pelo baixo índice de precipitação e de vazão dos rios afluentes, aliada à grande taxa evaporação, causa esse fenômeno de hipersalinidade da Lagoa de Araruama.

Com os seus, aproximadamente, 220 km² de espelho d’água, a Lagoa de Araruama é o maior ecossistema lagunar hipersalino em estado permanente do mundo. Mesmo havendo no planeta outras lagoas hipersalinas, como a Lagoa de Coorong na Austrália, o Lago Enriquillo na República Dominicana e a Laguna Ojo de Liebre no México, nenhuma delas tem superfície d’água grande e constante nas diferentes épocas do ano.

Esse gigantesco sistema lagunar do estado do Rio de Janeiro foi fundamental para o crescimento econômico e social da região. Pois, além de incentivar o turismo e a pesca nos municípios que são banhados pela lagoa (Araruama, Iguaba Grande, Saquarema, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo), sua elevada salinidade favoreceu à histórica atividade de extração de sal.

A Lagoa de Araruama é separada do oceano Atlântico por uma comprida linha de costa, que compõem a Restinga de Massambaba, tendo uma única ligação com o mar através do Canal de Itajurú, em Cabo Frio.

O Canal do Itajuru tem importância especial por ser a única ligação da lagoa com o mar. Nesse canal existem pontos críticos de poluição e assoreamento, como no Boqueirão, em São Pedro D´Aldeia, e também em Ponta do Ambrósio, Ilha do Anjo, Mercado do Peixe, Boca da Barra e Ilha do Japonês, todos em Cabo Frio. Como um dos principais problemas da lagoa é a falta de renovação da água, todos esses pontos precisam ser dragados.

Ainda há muito a ser feito, mas o presidente da ONG Viva Lagoa, Arnaldo Villa Nova, é otimista e enxerga melhoras. Ele garante ser constante a redução do teor de nutrientes prejudiciais às condições da água, como fósforo e nitrogênio. Segundo ele, os maiores gargalos de assoreamento são a Boca da Barra e a Ilha Palmer. O problema da falta de dragagem, acrescenta, começará a ser resolvido com R$ 5 milhões que serão investidos com esse fim (valor de uma licitação aberta recentemente pelo Instituto Estadual do Ambiente, o Inea).

Percorrer o entorno da Lagoa de Araruama, passando pelos municípios de Cabo Frio, São Pedro D’Aldeia, Iguaba Grande, Arraial do Cabo e Araruama, torna possível observar que, apesar de todos os investimentos, o despejo de esgoto in natura ainda é prática comum na região, onde vivem — somando a população das cinco cidades — cerca de 460 mil habitantes.

Ligações clandestinas em galerias pluviais que desembocam diretamente na lagoa, além de línguas negras e valas, ainda são facilmente encontradas nesses municípios. Em frente ao bar da Jaqueline, por exemplo, é despejado quase todo o esgoto do bairro Peró, que desce o Canal da Ogiva sem tratamento algum e deságua no Canal do Itajuru.

A lagoa é uma obra prima da natureza, um fenômeno geológico e hidráulico, constatado pelo renomado geógrafo Alberto Lamego. Mas infelizmente, se antes tínhamos um grande mar interior, original e encantador, fonte de inspiração de poetas, escritores e pintores, hoje a sua atual imagem paisagística nos causa profunda tristeza e constrangimento.

Apesar da melhora na balneabilidade, não importa, o preço que foi pago foi alto e lamentável, pois seu espelho d’água foi desfigurado. Suas águas, outrora, verdes ou azuis (de acordo com a direção do vento reinante) e transparentes, hoje se encontram marrons. Houve um dano paisagístico e um desequilíbrio sem igual, pois toda a laguna está tomada por águas escuras, do início ao fim de seus limites. Ela perdeu o seu encanto, a sua magia, deixou de ser aquele mar interior que extasiavam a todos que a conheciam. Em outras palavras, o delicado ecossistema lagunar da Araruama foi atingido por um aumento acelerado da poluição por nutrientes, o que acarretou impactos sobre a sua estrutura ecológica e paisagística.

Ora, através de estudos científicos, a exemplo da tese “profética” do oceanógrafo pesquisador, André Luiz Costa Moreira (A Eutrofização na Lagoa de Araruama e o Impacto Ambiental das Estações de Tratamento Secundário), que o fator preponderante que acarretou a alteração da cor das águas da Laguna de Araruama, é decorrente das águas despejadas pelas estações de tratamento de esgoto (em especial da Prolagos), ricas em nutrientes. Afirma o referido pesquisador, que ao invés de conter a poluição, essas estações fazem disparar a eutrofização e o crescimento de macros e microalgas, acelerando ainda mais a impactação ambiental.

Não adianta despoluir se não houver controle urbanístico do esgotamento sanitário por parte dos Municípios. Os municípios continuam licenciando obras sem o devido esgotamento sanitário. Não poderiam, pois isto contraria frontalmente o disposto no Estatuto da Cidade – Lei 10.257, art. 2º, VI, g. E cabe ao Estado também esta fiscalização ambiental.

Estatuto da Cidade – lei 10257/2001

art.2º: A política urbana tem por objetivo …. mediante as seguintes diretrizes gerais: (…)

VI – ordenação e controle do uso do solo, de modo a evitar: (…)

g) a poluição e a degradação ambiental

Mais de R$ 100 milhões já foram gastos em estações de tratamento de esgoto ineficazes à recuperação da Lagoa de Araruama.

De volta à estaca zero. As estações de tratamento de esgoto construídas em Iguaba, Araruama, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio estão longe de evitar o fim da poluição na Lagoa de Araruama. Os 520 litros de resíduos tratados e lançados no espelho d' água, por segundo, continuam alimentando a lagoa com fósforo e nitrogênio - principais nutrientes das microalgas que se reproduzem em ritmo acelerado, alterando a coloração da água. Mais de R$ 100 milhões foram gastos pelas concessionárias Prolagos e Águas de Juturnaíba na construção das estações, segundo Luiz Firmino, secretário executivo do Consórcio Intermunicipal Lagos São João. O grupo foi criado há sete anos para executar ações de controle ambiental na região.

A concentração de fósforo na lagoa está 200% acima dos padrões considerados normais, segundo Firmino. No terceiro capítulo da série sobre o drama ambiental da Lagoa de Araruama, o JB mostra a ineficácia dos planos emergenciais de despoluição do ecossistema local.

Apontado como principal vilão do drama ambiental ancorado na Lagoa de Araruama, - a maior de água salgada do mundo - o esgoto modificou o curso de vida de centenas de pescadores. O sumiço de espécies como a carapeba e a diminuição do tamanho de outras, como a tainha, já obrigam os comerciantes a importar pescado de outros estados brasileiros.

Com o aumento populacional das cidades às margens da Lagoa e a falta de esgotamento sanitário nestas cidades, a Lagoa de Araruama tornou-se o principal corpo receptor dos detritos produzidos por elas. Após a construção da Ponte Rio Niterói, o crescimento das cidades foi explosivo. Em 1998 as empresas Prolagos e Águas de Juturnaíba assinaram com o Governo do Estado um Contrato de Concessão dos serviços de água e esgoto para estas cidades, se responsabilizando pelo fornecimento de água e a coleta e tratamento do esgoto.

Como o fornecimento de água era, na época, o principal problema para um maior desenvolvimento da região, os contratos de concessão deram prioridade a ele deixando a questão do esgotamento sanitário em segundo plano. Para se ter idéia, a obrigatoriedade de pequeno tratamento de esgoto foi estabelecida somente a partir de 2006 para as Águas de Juturnaíba e 2001 para Prolagos.

Se a situação antes era ruim, com a melhoria do abastecimento de água nas cidades, a produção de esgoto lançado nas águas pluviais aumentou. O esgoto, ao atingir as águas da lagoa, degradou várias partes da mesma, pois estimulou o crescimento explosivo das algas, além de provocar mal cheiro, turvar a água e ajudar a diminuir a salinidade da lagoa, favorecendo a multiplicação de microorganismos.

Com isso, algumas praias em Araruama, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio ficaram impossibilitadas para o banho, o que afugentou os turistas, causou o fechamento de bares e restaurantes, prejudicou a pesca e acarretou a desvalorização de imóveis, provocando desemprego.
































BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blogs "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



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