Para quem gosta de música e acompanha os acontecimentos, sabemos quem é Serguei, seja por alguma história que alguém contou para você ou pelo que o próprio Serguei contou em alguma rara entrevista que ele concedeu.
Pois você não conhece de fato a história desse artista lendário.
Esse enigma será desvendado pelos escritores Rodrigo Barros e Paulo-Roberto Andel, em "As alucinações de Serguei - a biografia.".
Nele conheceremos mais sobre a sua origem, o início como artista, as histórias emblemáticas com diversos artistas, a sua sexualidade um tanto ortodoxa e seu refúgio na pacata e épica Saquarema.
O livro será lançado em breve, nas melhores livrarias do Brasil, em breve anunciaremos o lançamento.
Um bate e pronto com o escritor Paulo-Roberto Andel, em entrevista ao colunista Thiago Muniz.
1) Como você conheceu o Serguei?
Paulo Roberto Andel: Desde criança. Minha mãe era amiga dele. Serguei era uma espécie de mito de Copacabana nos anos 1960 e 1970. As garotas eram loucas por ele. Enfim, um personagem riquíssimo.
2) Quais foram as etapas e os motivos que você e o Rodrigo Barros tiveram para a concepção deste livro?
Paulo Roberto Andel: Por ocasião dos problemas financeiros que Serguei enfrentava ano passado, tive a ideia de fazer um livro sobre ele numa conversa com Rodrigo, cuja renda seria integralmente revertida para o cantor. Ele abraçou a parceria no ato e começamos um enorme trabalho de pesquisas, depoimentos, entrevistas e outros elementos do universo Serguei. Finalmente estamos no processo final: em poucas semanas, a biografia estará na gráfica.
3) Com toda a repercussão e polêmicas sobre a publicação de biografias, vocês em algum momento ficaram preocupados que não gerassem algum transtorno?
Paulo Roberto Andel: O projeto tem a renda 100% revertida para o Serguei, ele foi amabilíssimo conosco e não tivemos qualquer problema. Ele é uma criatura liberta, longe das amarras de alguns biografados que só querem uma edição positiva de suas vidas. Serguei é 100% um artista de verdade, o tempo inteiro.
4) Você acredita que com a publicação da biografia a sociedade passe a olhar com mais generosidade pelo Serguei?
Paulo Roberto Andel: Serguei é uma figura importantíssima para se entender a MPB do fim dos anos 1960 em diante. Um cantor fantástico e um artista que merece a devida valorização. Uma pessoa que deveria ser mais ouvida em muita coisa quando o assunto é rock brasileiro.
5) Podemos nos surpreender com a verdade sobre Serguei?
Paulo Roberto Andel: Muito. Há situações a respeito de Serguei que beiram o inacreditável mas são absolutamente reais.
BIO
Thiago Muniz é roteirista, colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama Tricolor, Eliane de Lacerda, blog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.
Se você
gosta de um lugar pacato mas com muita tranquilidade e boa música, recomendo
que você vá a Conservatória.
Conservatória
é o sexto distrito do município de Valença, no estado do Rio de Janeiro. A 370
quilômetros de São Paulo, 142 quilômetros do Rio de Janeiro, 28 quilômetros de
Barra do Piraí e a 34 quilômetros da sede municipal.
O
distrito tem uma população de 4.182 habitantes, de acordo com o Censo 2010 do
IBGE.
Anteriormente
denominado Santo Antônio do Rio Bonito, situa-se em um vale da Serra do Rio
Bonito, com área aproximada de 240 km². Faz divisa com o estado de Minas
Gerais, com os distritos de Santa Isabel do Rio Preto, Parapeúna, Pentagna,
Valença (sede do município de mesmo nome) e com o município de Barra do Piraí.
Famoso
por suas serenatas, tradição conservada pelo turismo, e pela observação de
OVNIs na Serra da Beleza.
Conservatória
cresceu e prosperou durante o ciclo do café da economia brasileira, a partir do
século XIX. A cidade, hoje distrito do município de Valença, foi um importante
elo na produção e circulação do produto, abrigando mais de 100 fazendas que
plantavam o café e o escoavam pelo antigo caminho ferroviário que vinha das
Minas Gerais e ia para a Corte, na cidade do Rio de Janeiro, de onde seguia
para o porto e outras cidades do país.
O
primeiro registro da localidade data do final do século XVIII, a partir de um
relato de 1789, em que Conservatória era reserva dos índios Araris,
"elegantes e desembaraçados", segundo o naturista Saint Adolph, um
dos primeiros historiadores a registrar o fato.
Diversas
histórias justificam a origem do nome, sendo que a mais corriqueira diz que o
lugar era conhecido como "Conservatório dos índios", um lugar de
excelente clima e protegido por montanhas, onde os Araris se recolhiam para se
recuperar de doenças que dizimavam as tribos e local no qual resolveram se
instalar definitivamente.
Em 1826,
existiam cerca de 1.400 índios aldeados na reserva, vivendo felizes no lugar de
onde seriam exterminados pelos desbravadores colonialistas. Vestígios dos
Araris, como artefatos em cerâmica e algumas ossadas, já foram encontrados em
escavações feitas em diversos locais da região.
Segundo
Saint Adolphe, cientista botânico francês, os índios "Araris"
"eram quase" brancos, elegantes e desembaraçados e, ainda, segundo
Saint Hilaire, outro cientista francês que andou por estas plagas, "esses
índios, pela aparência, costumes e desenvoltura, deviam ser descententes dos
"Goitacás de Campos". E. Rugendas: "Os Araris eram, sem dúvida,
resultantes do cruzamento dos "Coropós" com os temíveis
"Goitacás" de Campos, que os venceram em batalha e os assimilaram.
Com a
colonização, o povoado ganhou inicialmente o nome de Santo Antônio do Rio
Bonito, em homenagem ao padroeiro da cidade e ao rio que atravessa a região.
Mas a tradição dos índios falou mais alto, e o nome Conservatória ficou marcado
para sempre.
A
prosperidade e riqueza vieram com a expansão da cultura do café, que utilizou
largamente o trabalho escravo. As centenárias construções da vila, em estilo
colonial, algumas do século XVIII, até hoje preservadas, evidenciam sua origem
e algumas, inclusive, ainda ostentam telhas de época, feitas na coxa dos
escravos. As ruas principais mantêm as pedras de pé-de-moleque originais da
construção.
O braço
escravo também está presente em outros monumentos da cidade, como a Ponte dos
Arcos - construída para dar passagem a um dos trechos da antiga Rede Mineira de
Viação, Conservatória-Santa Isabel do Rio Preto (e daí até Santa Rita de
Jacutinga, em Minas Gerais) -, exemplo histórico da engenharia da época, com
traços perfeitos e utilização de óleo de baleia nas ligas das pedras. Ou o
Túnel Que Chora - assim conhecido por conta das gotas vindas da nascente sobre ele,
com 100 metros de extensão, cavado na pedra bruta a mão pelos escravos e por
onde trafegava a Maria Fumaça.
A
prosperidade econômica do final do século XIX deu início a outra tradição na
vila: a das serenatas - a música cantada sob o sereno.
Um dos
grandes motivadores da tradição da música na cidade é o Museu da Seresta, que
tem acervo de músicas de serestas, criado pelos irmãos Joubert de Freitas e
José Borges Neto, já falecido, e reunindo os seresteiros às sextas-feiras e
sábados à noite, que de lá saem para cultivar o hábito, raramente quebrado, de
cantar pelas ruas da cidade.
Em 1998,
Conservatória comemorou 120 anos de serenatas. Conta a história que a tradição
nasceu com um romântico professor de música e tocador de violino, Andreas Schmidt,
que, em uma noite enluarada no silêncio do vilarejo, atraiu espectadores, e o
professor Andreas passou a ter como rotina tocar seu violino na praça, nas
noites estreladas.
Música e
grandes paixões sempre estiveram de mãos dadas em Conservatória e geraram
muitas histórias de amor. Certa vez, em 1938, Antonio Castello Branco, um
abastado fazendeiro de Santa Isabel, distrito vizinho, que vivia uma paixão não
correspondida por uma moça de Conservatória, resolveu demonstrar seu amor
conforme a tradição. Colocou seu piano de cauda em cima de um caminhão e
percorreu mais de 20 quilômetros em estrada de terra esburacada, só para tocar
e cantar sob a janela da amada. Consta que o gesto deu resultado, e a moça
aceitou o fazendeiro como esposo.
Conservatória
exprime uma das formas de reação contra as consequências da urbanização
acelerada, que caracteriza nossa etapa de desenvolvimento como país
capitalista, mantendo suas características bucólicas de arraial, pacata e
tranquila, cujos moradores de fala branda, afáveis e educados preservam seus
costumes e se reúnem, vez por outra, para manter a tradição das festas juninas,
da dança, da música, das quadrilhas, e das serestas que tornam seu pequeno
vilarejo um pólo de atração turística no estado do Rio de Janeiro.
O fim do
ciclo da agropecuária, nos anos 80, resultou na decadência da agricultura na
região, e de algumas das centenárias fazendas da região. Algumas estão
preservadas, outras mudaram sua atividade produtiva, mas a beleza do lugar, sua
deslumbrante paisagem, composta por vales e cachoeiras, as relíquias históricas
preservadas no tempo abriram outros caminhos de sucesso para Conservatória.
Um dos
símbolos da história do lugar que está logo na entrada na cidade: a antiga
"Maria Fumaça", da Rede Mineira de Viação, que puxava os vagões de
passageiros e também o trem com a produção de café, hoje estacionada em frente
à antiga Estação Ferroviária de Conservatória, atual rodoviária. A linha
ferroviária e a estação, inauguradas por D. Pedro II em 21 de novembro de 1883,
foram extintas após a instalação da indústria automobilística no Brasil e da
política de construção de rodovias para privilegiar o transporte rodoviário de
cargas, nos anos 1960. Por aquela ferrovia, o vilarejo se interligava com o Rio
e Minas, partindo de Barra do Piraí - município do qual Conservatória foi
distrito de 1943 a 1948, quando passou a pertencer a Valença - e chegando até
Baependi, após Santa Rita do Jacutinga, em Minas.
Com o fim
da ferrovia, Conservatória ficou isolada dos grandes centros. O acesso, por
Barra do Piraí, Santa Isabel, Valença ou São José do Turvo, era precário, por
estradas de terra, com cerca de 30 quilômetros, que muitas vezes ficavam
interditadas na época das chuvas. Nem mesmo essas dificuldades, no entanto,
afastaram os amantes das serestas e da cidade, que permaneceram fiéis à
tradição, frequentando e divulgando o lugar.
Nos anos
1980, teve início a pavimentação do trecho de estrada ligando Barra do Piraí à
Ipiabas, facilitando o trajeto até a cidade. Em 1998, finalmente, foi
inaugurada a pavimentação por asfalto do trecho de 15 quilômetros entre Ipiabas
e Conservatória, reforçando o desenvolvimento turístico da cidade e abrindo
novas perspectivas econômicas para a região.
Conservatória
sofre, como outras localidades do Estado do Rio de Janeiro, o problema do êxodo
rural. Mas esse fenômeno não lhe traz grande abatimento econômico devido ao
fluxo turístico, 90% do Rio de Janeiro e de São Paulo, atraído pela
tranquilidade bucólica.
A
história conta que, no período de 1860 a 1880, com o desenvolvimento de
Conservatória, devido às grandes lavouras de café e ao escoamento das produções
de Minas Gerais, a influência da côrte trouxe para a nossa Vila alguns
professores de música, principalmente de piano e violino, instrumentos que a
alta sociedade desfrutava àquela época. Daí, sabe-se que professores de música:
Venâncio da Rocha Lima Soares, Carlos Janin, Geth Jansen e Andréas Schimdt
ficaram famosos, principalmente este último, que era virtuoso no violino. Os
artistas da côrte vinham periodicamente a Conservatória fazer saraus, quando
alegravam as famílias dos nobres que habitavam estas paragens. Esses artistas,
em noites enluaradas se reuniam na Praça da Matriz, ao lado do chafariz, do
poste de luz a querosene e dos bancos da praça e faziam uma verdadeira serenata
aos fazendeiros, barões e suas famílias e o povo se postava à distância
assistindo e aplaudindo.
De 1880 a
1890, havia os tropeiros que traziam as cargas de café de Minas Gerais e que
cantavam suas modinhas acompanhados de violas e violões. Segundo o saudoso
Paulo Tapajós - que foi um grande compositor, cantor e seresteiro - os membros
da alta sociedade criaram a Moda, que era um mito de música clássica, do fado
português e da música crioula. Assim, o povo de classe mais pobre criou a
Modinha, que ficou sendo a música do povão, já estilizada como música
brasileira.
No
período de 1890 a 1900, a música popular brasileira era cantada e divulgada em
todo o país, sendo algumas, até mesmo, de autores desconhecidos e que se
tornaram de domínio público, como é o caso de Casinha Pequenina, destaque nas
serenatas de Conservatória.
De 1900 a
1910 - início do Novo Século - começaram as primeiras serenatas de rua em
Conservatória, principalmente em frente ao casarão (atualmente casa cedida para
a instalação da Casa de Cultura), que foi propriedade de João Ribeiro de
Carvalho, rico proprietário nesta localidade.
De 1910 a
1920, os seresteiros foram aparecendo e as serenatas repercutiam entre o povo
conservatoriense. As serenatas se incorporaram aos costumes do lugar. Novos
seresteiros desfilavam pelas ruas até alta madrugada cantando canções
sentimentais em frente às janelas das casas coloniais em homenagem as pessoas
queridas ou namoradas.
De 1920 a
1930 a serenata se tornou popular. Já havia os seresteiros tradicionais:
Cândido Barra, Florêncio, José Miguel (Indiça) e outros. Naquela época houve
uma fato pitoresco que ficou na história das serenatas de Conservatória. O
fazendeiro Antônio Castelo Branco colocou um piano num pequeno caminhão e fez
serenata para senhorita Lindóca, em frente a sua casa à rua Direita, atual rua
Luiz de Almeida Pinto. Esta serenata, ao som do piano, acordou toda a rua e foi
comentada por muito tempo.
Em 1938
aconteceu a chegada de dois jovens estudantes do Colégio Pedro II no Rio de
Janeiro, José Borges de Freitas Netto e Joubert Cortines de Freitas começaram a
frequentar Conservatória em suas férias. Chegaram de calças curtas, cheios de
ilusões e energia. Começaram a viver e sentir tudo que aqui existia e, sem
planejar coisa alguma, conseguiram, de maneira espontânea e simples, eternizar
as canções cantadas nas serenatas e cultivar o amor. Hoje, Conservatória é o
que é graças a eles e aos seresteiros que compreendem e levam para as ruas esse
amor que não tem limites.
É uma
constante a harmonia e o lirismo que acontecem nas vielas sonoras de
Conservatória.
Quando
aqui chegaram, José Borges e Joubert já encontraram alguns seresteiros, como:
Merito, Zezinho Barra, José Correa, Luiz Gonzaga Magalhães, Antônio Seabra,
Florência, Lenzi (flautista), José Mateus, irineu de Carvalho, Heitor Simões,
José Barra Sobrinho, Braz Luiz e os meninos Helvecio, Toninho Mautoni e Alberto
Palheta que, com suas vozes e instrumentos, já vinham mantendo a tradição da serenata.
As valsas
e canções do "Índio", como era chamado Cândido das Neves, um dos
maiores compositores da música romântica brasileira, já eram cantadas pelas
ruas, onde as noites eram mais bonitas, pois a iluminação elétrica insuficiente
as tornava mais claras com a luz do luar. A partir daí, com muita dedicação e
perseverança, começou a trajetória dos irmãos José Borges de Freitas Netto e
Joubert Cortines de Freitas.
Foi na
década de 50, com a partida do notável seresteiro Emérito Silva
("Merito"), que Joubert e José Borges assumiram, gradualmente, a
liderança da serenata. José Borges formou-se advogado e Joubert em professor de
matemática. Trabalharam nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa época
as serenatas aconteciam apenas no período das férias escolares e nos feriados
prolongados, porém, diariamente.
Foi por
volta da década de 60, na residência de José Borges, na rua Oswaldo Fonseca,
que os amantes da boa música começaram a se reunir antes das serenatas e isso
formou um hábito e as lembranças e fotos antigas começaram a ser colocadas em
suas paredes, tornando-se o ponto de encontro dos seresteiros.
O povo
começou a chamar esse local de "Museu da Seresta" que surgiu por
acaso, não foi planejado, aconteceu. Nessa velha casa de apenas uma porta e
duas janelas, bem altas, construção antiga com seus beirais enormes, telhas
coloniais, é que se encontra todo um mundo de saudades e de recordações com um
completo documentário sobre as serenatas de Conservatória.
Velhos
discos, fotografias, recortes de jornais, livros, pinturas de vários artistas
sobre Conservatória, troféus, mensagens de carinho, formando um acervo
riquíssimo sobre músicas de serenatas. E a serenata foi se tornando cada vez
mais conhecida. As notícias nos jornais sobre o romantismo existente em
Conservatória aumentava sem parar. Novos seresteiros continuaram a despontar.
Na década
de 70 surgiu o projeto das plaquinhas de metal colocadas nas esquinas,
constando além do nome da música, o nome do compositor. O intuito era imortalizá-lo.
Era o início do projeto "em cada esquina uma canção", (frase esta
criada para sentir a opinião da população local com relação às plaquinhas),
idealizado pelos irmãos Freitas. Os moradores se interessaram e quiseram uma
plaquinha com o nome de sua música preferida fixada em suas residências. E cada
vez mais, num crescente constante, Conservatória passou a respirar música, amor
e poesia, tornando-se a "Vila das ruas Sonoras" e, o projeto inicial
"em cada esquina uma canção", transformou-se para "em toda casa
uma canção".
O
substancial número de turistas todos os finais de semana provocou modificações
na serenata, que evoluiu do canto à janela da amada, no silêncio da madrugada,
até a emocionante confraternização musical que acontece atualmente, pelas ruas
do centro urbano, nas noites de sextas e sábados e, mais recentemente, nas
manhãs de domingo.
Fiéis a
tradição, os "cantadores" e "violeiros" apresentam-se sem
qualquer ajuda de equipamento eletrônico, contando exclusivamente com a
participação dos visitantes, seja para acompanhar na cantoria, ou para fazer
silêncio, de forma que todos possam ouvir.
Ao
visitar Conservatória, descobre-se a diferença entre seresta e serenata: a
primeira refere-se ao canto em ambiente fechado, a segunda, ao canto sob o
sereno, à luz das estrelas e do luar. É a serenata que diferencia Conservatória
de qualquer outro lugar do país. No entanto, divulgações equivocadas,
referem-se a Conservatória como "Cidade das Serestas" quando o mais
correto seria "Cidade das Serestas e Serenatas", ou simplesmente
"Capital da Serenata", no dizer do jornalista Gianni Carta, em
publicação na Inglaterra.
A
tradicional serenata, realizada toda sexta-feira e sábado, partindo às 23h do
Museu do Seresteiro e seguindo noite adentro, é o elemento nuclear das atrações
musicais, que também incluem a Solarata (realizada nas manhãs de domingo) e as
serestas (canto em espaços fechados) realizados em diferentes hotéis e
pousadas.
Os
turistas são atraídos pela atmosfera romântico-musical das diferentes
apresentações, hospedando-se nos hotéis e pousadas para poderem acompanhá-las.
Geram, dessa forma fluxo de renda e consequente emprego de mão-de-obra local.
Conservatória conta atualmente com mais de 2 mil leitos para atender os
turistas, e esse fluxo exige uma qualificação maior de seus técnicos nas
fazendas, hotéis, pousadas e restaurantes.
Hoje em
dia, Conservatória tem um calendário anual de eventos e vida cultural bem
definida. Existe um certo fetiche pela época colonial, algumas lojas inclusive
vendem trajes de época, em boa parte porque algumas novelas de época globais
foram gravadas em Fazendas da região como a Florença. Pra uma cidade do
interior é surpreendente ter 3 museus, uma casa de cultura e um cinema
especializado em filmes da década de 50/60.
O que fazer em Conservatória?
Casa
da Cultura
– O casarão em estilo neoclássico preserva o patrimônio cultural e as tradições
de Conservatória e promove diversas exposições e festivais com artistas locais.
Museu
da Serenata
– A tradição da música cantada sob o sereno vem desde o século XIX e é
preservada por este museu. História de amores embalados pelas serenatas são
contos conhecidos por lá. Sextas e sábados, a partir das 23h, tem serenata
noite adentro.
Cachoeira
da Índia
– a pequena queda d’agua fica no Balneário Municipal João Raposo. Lá existe uma
escultura em bronze de Vilma Noel. A obra, que na verdade retrata uma entidade
marinha, é carinhosamente chamada de “Índia”.
Ponte
dos Arcos
– Na estrada que liga Conservatória a Santa Isabel do Rio Preto fica uma das
únicas pontes da antiga rota do café. Foi construída no final do século XIX por
escravos à maneira egípcia. Dizem que é assombrada.
Serra
da Beleza
– lugar perfeito para repousar e admirar a natureza ou se aventurar. O Pico de
Cavalo Russo tem 1.295 metros de altura e o Pico do Pires tem 1.300 meros. É
muito procurada por caçadores de OVNI’s.
Fazenda
Florença
– Volte ao passado visitando esta bela fazenda colonial. A construção é de 1852
e em seu interior você pode ver o mobiliário original que foi preservado. Lá
funciona hoje um hotel, mas também está aberta a visitação.
Cine
Centímetro
– Outro jeito de voltar ao passado é aproveitar a sessão de sábado que leva à
tela filmes antigos americanos dos anos 50 e 60. O cinema tem todo um charme
por ser uma réplica do extinto Cine Metro Tijuca da década de 1940 e expor
objetos originais dele.
Locomotiva
206 –
A antiga locomotiva de 1910, fabricada nos EUA, chegou a Conservatória em clima
de festa. Funcionou de até a década de 1940, quando foi substituída por um
modelo mais atual. Quase foi destruída, mas moradores locais a salvaram e
transformaram um monumento.
Vídeos
Conservatória:
Carnaval Antigo - Seresta na Praça (22/10/2016)
Conservatória:
Carnaval Antigo - Serenata na Praça (22/10/2016)
Conservatória:
Carnaval Antigo - Marchinhas na Praça (22/10/2016)
Conservatória,
pedacinho do céu (TV Brasil)
Tour por
Conservatória – RJ
BIO
Thiago
Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do blog do Drummond. Apaixonado por
literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele,
basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter
em @thwrestler.
Rogério Skylab, nome artístico de Rogerio Tolomei Teixeira (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1956), é um cantor, músico, compositor e poeta brasileiro, formado em letras e filosofia pela UFRJ, não exercendo. O músico e poeta Rogério Skylab é dono de um vasto repertório literário e filosófico, constituído em meio a um ambiente nada inspirador.
Rogério é casado com a fotógrafa Solange Venturi.
Quem só conhece Rogério Skylab “por alto” não imagina o que há por trás de sua excentricidade, humor negro e gosto pelotrash. Autor de clássicos do underground como “Eu tô sempre dopado” e “Amo muito tudo isso?”, o músico, poeta e agora apresentador do Canal Brasil (onde comanda o talk show “Matador de passarinho”) é um leitor obsessivo e autodidata, dono de uma erudição rara no universo da cultura pop brasileira.
Skylab tem uma estética punk aliada a uma postura lírica, um dos alicerces do seu trabalho.
Iniciou sua carreira musical em 1991 e ganhou notoriedade nacional ao aparecer repetidas vezes no programa de entrevistas de Jô Soares. Ele é ex-funcionário do Banco do Brasil, onde trabalhou por 27 anos. Durante seus shows é comum uma grande interação com a plateia, de modo a performizar e enfatizar as letras de suas músicas.
Suas letras tendem normalmente ao pessimismo e minimalismo. Apesar de ser considerado como humor negro por terceiros, ele renega veementemente essa característica e não considera sua obra ligada ao humor. Musicalmente se assemelha a gêneros diversos como garage rock, seresta, bossa nova e punk rock dos anos 1980.
Em 2012, tornou-se entrevistador do programa Matador de Passarinho, no Canal Brasil.
Ele já foi caçador de passarinhos, cantou sobre o desejo escuso de apagar uma velhinha --daquelas que atravancam o caminho-- e já construiu uma versão Frankenstein e cheia de podres da apresentadora Fátima Bernardes. Hoje, Rogerio Tolomei Teixeira, o Rogério Skylab, quer apenas ser levado a sério.
O carioca, famoso por suas entrevistas extravagantes no programa de Jô Soares, atualmente divulga seu novo trabalho, "Melancolia e Carnaval", segundo capítulo de uma trilogia carnavalesca. Um álbum independente --como todos de sua carreira-- lançado em plena Copa do Mundo, cinco meses depois da Quarta-feira de Cinzas.
Distante da estética low-fi da série "Skylab", o novo trabalho se entrega à canção brasileira, num resgate aos velhos sambas orquestrados da boemia carioca. Um tipo de música que, segundo Rogério, se perdeu no curso da história, entre os batuques e rodas da geração pós-Zeca Pagodinho.
"Eu faço uma conexão entre o samba e a melancolia, que são coisas que se entrelaçam na nossa cultura, com depressão absoluta e sofrimento. E, musicalmente, ele vai muito na contramão do que se valoriza hoje aqui no Rio, do samba do bloco Cacique de Ramos, que enfoca muito mais a percussão", diz Skylab, com propriedade no território onde agora pisa.
Como atestam faixas como "Tudo é Tão Deprê" e "Aqui Todo Mundo é Preto", o universo poético do músico continua o mesmo. Mas as influências musicais agora passeiam por Ataulfo Alves, Baden Powell e Jards Macalé, que participa do álbum na faixa "Cogito", enquanto a Velha Guarda da Mangueira brilha em "Vamos Esquecer" e o guitarrista Rômulo Fróes toca em "Elegante, Decadente".
Nunca os arranjos de Skylab surgiram tão sofisticados. Nada parecido com suas antigas incursões punk-experimentais, que ganharam contornos cômicos nas entrevistas na televisão. Uma inclinação da qual Skylab foge como o diabo da cruz. E o mesmo vale para rótulos: escatológico ou terrorista poético, nem em sonho.
"Minha imagem artística está muito ligada à minha participação no Jô. E ele sempre leva as entrevistas para um tom de humor. Então, entendo que o público de um modo geral, aquele que não conhece o meu trabalho, acaba comprando essa imagem do humor, que eu sempre fui contra", afirma. "Mas não fico com raiva dele, de forma nenhuma. Isso foi importantíssimo para divulgar meu trabalho."
No reduto da psicanálise, as letras explícitas de Skylab representariam uma espécie de "ID" da música brasileira, a estrutura responsável pelos instintos e impulsos mais urgentes. Niilista, ele faz rimas com assassinatos, sexo e mutilações --a vida como um roteiro de filme trash. Mas, prestando atenção em sua fala calma e reflexiva, é perceptível que sua figura está mais para um "outsider", alguém que simplesmente está fora dos eixos consensuais, com uma consciência exemplar.
"Fiz questão de lançar meu disco e fazer shows durante a Copa. Sempre fui um pouco crítico em relação a ela. E eu nem falo isso para reforçar o coro do 'não vai ter Copa'. Tenho uma relação profunda com o futebol. Sou Fluminense doente, mas minha bronca hoje não é com Felipão nem com os jogadores. É com parte da mídia, vários jornalistas, que tentaram vender um peixe que a gente sabia que estava estragado."
Para o futuro, o ex-bancário planeja tocar e completar sua trilogia, com "Desterro e Carnaval", previsto para sair em 2015. O próximo álbum terá também participações especiais, ainda mantidas em segredo. "Tenho ouvido muita música brasileira, Itamar Assumpção, Baden Powell, aquele disco dos orixás ['Os Afro-sambas', de 1966]. Já tenho um novo repertório e estou produzindo. Vou continuar divulgando o meu trabalho. Tenho mais de 15 discos, o que é raro para alguém do underground, e não pretendo parar."
“Eu dava pra Rogéria”, encerra o cantor, músico, escritor e entusiasta das travestis Rogério Skylab, um dos mais provocativos e indefiníveis sujeitos dentro da música brasileira, ou fora dela. “sou um sobrevivente. Todavia, me defino como um cadáver dentro da MPB”, afirma paradoxal em texto de caráter biográfico publicado no site oficial. Embora fuja de definições e aplauda “Qualquer tentativa de eliminação do discurso”, Skylab é, sobretudo, um artista conceitual. E se esbalda com perspicácia na hora de teorizar suas incursões. No mais recente trabalho “Melancolia e Carnaval”, segundo da trilogia iniciada com “Abismo e Carnaval”, que já prenuncia os desdobramentos da obsessão por séries, o entrevistado, outra vez, já que não assusta, desta vez surpreende. “Eu sou um tipo de compositor que sempre vai buscar caminhos ainda não explorados. Isto é, inexplorados ainda por mim. Se você der uma examinada no conjunto do meu trabalho, vai chegar a essa conclusão”, garante.
Bem mais lírico e palatável que vários trabalhos da carreira de Skylab, e com a participação da Velha Guarda da Mangueira, Rômulo Fróes e Jards Macalé, o compositor costura e destrincha os caminhos que o levaram até esse disco. “A concepção dessa trilogia dos carnavais é o mergulho no coração da MPB, com uma espécie de linguagem muito própria a esse estilo.
Ao mesmo tempo, eu dou andamento a um trabalho experimental que comecei com ‘Rogerio Skylab e Orquestra Zé Felipe’, e que deve redundar num novo disco. Por outro lado, tem o projeto ‘SKYGIRLS’, ligado ao eletrônico e que bebe na fonte de bandas como ‘Stereolab’. E tem a série dos Skylabs, que é um som com o qual eu fui mais reconhecido em função também dos dez discos lançados dessa série, um deles inclusive ganhou o Prêmio Claro de Música Independente, o SKYLAB V”, demarca. Além das já citadas participações, o álbum também conta com release de peso, escrito por um dos ídolos de Skylab, a lenda Fausto Fawcett.
“Fausto é um grande amigo, ainda que sejamos completamente diferentes no que fazemos. Quando o levei ao programa ‘Matador de Passarinho’, que apresento no Canal Brasil toda segunda-feira à meia-noite, fiz questão de sublinhar o seu caráter solitário no cenário do rock brasileiro, que foi aonde ele apareceu. É curioso que hoje em dia quando ouvimos todas as grandes nacionais que fizeram sucesso naquela década de 1980, nos dá a sensação de envelhecimento precoce, ao contrário do que acontece se ouvimos hoje os primeiros discos de Fawcett: continuam vigorosos. Fiquei muito feliz de ele ter escrito o release. Sou tão solitário quanto ele”, apresenta o entrevistado de maneira a dispensar acréscimos. Da mesma maneira Fausto retribuiu no release, ao dizer: “Depois de estrangular freiras, matar passarinhos, acordar a sua irmã Silvia Maria, ver ratos entrando pelo grande cu do mundo, (…), Rogério Skylab nos desconcerta mais uma vez com ‘Melancolia e Carnaval’”.
Sobre esse desconcerto, essa mudança sempre busca de direção, Skylab arredonda: “Então, quando você me pergunta, baseando-se no ‘Melancolia e Carnaval’, se foi uma rendição ou um enfastiamento, eu te respondo que não foi nem uma coisa nem outra. Foi apenas a busca de um caminho que eu ainda não tinha explorado: um tipo de arranjo, um tipo de gravação, certa maneira de cantar, de compor e de escrever que é muito própria da MPB, apesar de todo leque de variações que esse gênero comporta. Eu diria que é mais um exercício de linguagem, quase uma paródia”, assinala. A presença de alguns gêneros é assim explicada. “Samba é o coração da MPB. Bossa Nova é uma estilização, quase uma variante desse modelo original que é o samba. Jards Macalé, por sua vez é também uma variante do modelo original – não é bossa nova nem tropicália; é uma exacerbação dos sentidos, que bebe muito na fonte de Baden Powell e tem em Wally Salomão o seu grande companheiro”, diz.
Vivente do universo independente desde antes de 1992, quando lançou o seu primeiro vinil, um dos assuntos que mais despertam o interesse de Skylab é o tropicalismo. “Dessa salada de coisas que você tá me perguntando, me interesso mesmo é pelo tropicalismo, assunto do qual venho estudando já faz um bom tempo”, e aproveita para indicar um texto escrito em seu blog “A História Viva do Tropicalismo”, onde também desfia preferências ligadas ao mundo da literatura, dos quadrinhos, da música, das artes plásticas e outras mais, no endereço eletrônico www.godardcity.blogspot.com. “Mas esse é um assunto pra mim palpitante”, retoma a questão anterior. “É a guerra da interpretação, uma guerra que se trava lentamente, porque tudo é narrativa, já dizia Pablo Capilé, o futuro ministro da cultura da presidenta Marina. Ai que dor de barriga”, ironiza. No mais recente disco, inclusive, Skylab estreia parceria com Torquato Neto, morto em 1972, ao musicar um de seus famosos poemas.
“Foi Jards quem me iniciou em Torquato Neto, esse sim um tropicalista. Caetano Veloso chega a chamá-lo de ‘tropicalista ortodoxo’. E foi Macalé quem mais cantou Torquato. O seu suicídio é um enigma simbólico. O meu mergulho na MPB é radical. Por que tudo isso que te falei, samba, bossa nova, tropicália e pós-tropicália, é o fundamento da MPB”, considera. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição, apesar da evidente presença performática nas apresentações, desdenha: “nenhuma importância”. Ao contrário do que tem a dizer de outros carnavais. “Devoto grande interesse às redes sociais. Todos esses espaços são oportunidades para me manifestar e mostrar minhas preferências. O que posso dizer, de modo geral, é que a interdisciplinaridade é o meu espaço. Nesse sentido faço música, artes plásticas, teatro, literatura, história em quadrinhos”, enumera. “A questão da improvisação na música é o grande tema do meu próximo trabalho”, anuncia.
Rogério Skylab tornou-se nome de alcance nacional a partir de aparições no programa de Jô Soares. Em suas músicas Roberto Carlos, Chico Xavier, Glória Maria, Fátima Bernardes, Maria Bethânia já foram citados, quase sempre com sarcasmo. Ao mesmo tempo Arrigo Barnabé, Jorge Mautner, Walter Franco, Chacal e Arnaldo Antunes, tratados com reverência. Skylab, inclusive, orgulha-se da parceria com Mautner, “Palmeira Brasileira”, do disco “Abismo e Carnaval”, e da presença de Barnabé na canção “Cântico dos Cânticos”, em SKYLAB III. Então explica com sinceridade ausências na música “Eu Quero Saber Quem Matou”. “Maria Alcina eu adoro, entrevistei agora no meu programa. Luís Capucho eu não conheço o trabalho ainda. Carlos Careqa é o seguinte, anos atrás fui ao JAZZMANIA, antiga casa de shows do Rio de Janeiro, assistir ao Arrigo, do qual sou fã de carteirinha, e quem abria era o Careqa. As pessoas riam muito, eu detestei. Essa má impressão a gente carrega o resto da vida”.
Porém, assim como os admirados, embora de forma diversa, Skylab transita em faixa de espaço reduzida do ponto de vista mercadológico, mas ampla quando se trata de liberdade artística. “Depois de tudo que eu já te respondi, posso te dizer muito tranquilamente que eu me identifico mesmo é com a música independente e experimental. Até quando estou traçando a MPB mais careta – meu terceiro disco, completando a trilogia dos carnavais, vai se chamar ‘Desterro e Carnaval’ – ainda assim estou sendo experimental”, aponta. Reconhecido pela série de discos assumidamente inspirada nos modos operandi dos serial killers, o músico faz ressalvas quanto a associações. “Quanto à questão da ‘estética do absurdo’, eu sinceramente não sei o que você quer dizer, e esse tema também é tão vasto. Por exemplo, eu não me interesso pelo realismo fantástico, que foi o boom da literatura latino americana, mas me interesso pelo absurdo de Kafka”, diferencia.
Com capas de disco que versam sobre morte, violência, asco e estranhamento, Skylab dá prosseguimento à resposta. “São duas maneiras de tratar o tema do absurdo que se diferenciam muito. Gosto também do nonsense ligado à linguagem e que passa por Beckett, Joyce e Lewis Carroll. Enfim isso dá pano pra manga”, sublinha utilizando-se do popular ditado transformado em música por Macalé e Xico Chaves. Já sobre outra polêmica, o autor é enfático. “Djavan é muito maior que Lobão e Thunderbird, vamos combinar. Lobão é um bom compositor e acho que seus discos independentes são infinitamente maiores que a sua discografia feita a partir da década de 1980 ligada às majors. Quanto ao Lobão político e escritor, eu não vou perder meu tempo”, esclarece sobre as críticas que os outros dois fizeram a Djavan no programa de entrevistas que Lobão comandava na MTV, e que Rogério rebateu frente a Thunderbird quando este foi o entrevistado de “Matador de Passarinho”.
Mas Skylab também guarda boas recordações da convivência com Lobão, com o qual, além de se apresentar junto, teve a oportunidade de lançar um álbum na revista que o autor de “Me Chama” comandava. “Quanto à ‘Revista Outra Coisa’, pra mim foi muito importante, não tenho nada a reclamar. Inclusive, faturei o prêmio ‘Claro de Música Independente’ com o SKYLAB V que saiu pela revista”, rememora. Já a poesia simbolista, utilizada por Skylab para defender as letras ditas “incompreensíveis” por Lobão e Thunder na polêmica com Djavan, também é comentada com considerações pelo entrevistado. “Quanto à poesia simbolista, eu não sei o que você exatamente quer dizer. Cruz e Souza não teve nenhuma importância pra mim, mas Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, François Villon, tiveram e são a base da poesia moderna”, exalta. Rogério Skylab lançou livro de sonetos em 2006, pela editora Rocco, “Debaixo das Rodas de um Automóvel”, com seu peculiar acento.
Um dos motins que sempre chamaram a atenção e diferenciaram ainda mais a já pouco usual prosódia de Skylab é a abordagem da escatologia na música brasileira. Sobre esse assunto, o intérprete procura distinguir bem os poemas. “Não sei, mas se você fala de escatologia como os Titãs – tem, aliás, uma histórica música deles composta por Nando Reis, salvo engano – se é essa escatologia a que você se refere, estou fora.
De qualquer maneira, a nossa MPB, seja por seu lado xenófobo, seja por sua paródia contida e raramente debochada, capitaneada pelo Sr. Caetano Veloso, sempre me pareceu movida com o freio de mão puxado. Quando você fala, na sua primeira pergunta, de possíveis excessos que eu teria cortado com a minha trilogia dos carnavais, quero entender que você via excessos, quando na verdade era apenas uma tentativa de soltar o freio”, abaliza Skylab que, mais solto que passarinho no mato, não roga contra o cano de caçadores.
“Que isso! Tenho o maior orgulho dessa música por todos os motivos. Não sou ‘Los Hermanos’ que evitava cantar ‘Anna Júlia’. Eu canto sempre ‘Matador de Passarinho’ nos meus shows. E tenho o maior orgulho”, alfineta e compara. E sobre o futuro recorre à saudade e insinua uma possível volta aos cantos das Minas Gerais. “Cara, você fala de BH, eu tenho uma puta saudade do tempo em que fazia shows na ‘OBRA’. Pequenininho, porãozinho… Mas os meus melhores shows se dão nesses redutos. Estou começando a trabalhar no meu próximo disco, o terceiro da trilogia dos carnavais, ao mesmo tempo, trabalhando num outro disco, esse com uma linguagem completamente experimental – aqui a minha grande referência é John Zorn. E, claro, estou divulgando o ‘Melancolia’ e fazendo shows com a minha banda”, alinhava. Skylab rejeita “humor negro”, dispensa o riso, e expõe na internet e na entrevista a insatisfação com o Fluminense. “Me irritam profundamente”, diz sobre a associação América e Natal, time que eliminou sua equipe na Copa do Brasil.
Mas o futebol é cíclico, e Rogério Skylab, com mais de 20 anos de carreira e 18 álbuns, entre autorais e participações, ainda é moço, soa como tal, vigoroso, incansável, disposto a mudar de rumo, a não ser que ele me desminta de novo. “Ih, comecei velho. Sou como o Tom Zé, eu não tenho nenhum dom e isso é bom. Nunca se esqueça que, no meu caso, tudo é exercício. Nada é natural”. Talvez até a retórica.
Nesse ambiente familiar pouco inspirador, o primeiro livro que leu foi uma tradução de Monteiro Lobato paraRobin Hood, presenteada por uma tia quando ele tinha entre 9 e 10 anos. “Lia todo dia. No último dia, no último capítulo, chorei, pressentindo o fim”, lembra. Ainda assim, o contato com a literatura só foi retomado na adolescência, quando sua irmã mais velha, então recém-aprovada no vestibular para o curso de Letras, apareceu em casa com livros de Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto (“Que eu achei chatíssimos, horríveis”).
O ponto de virada aconteceu pouco depois, quando Skylab passou no concurso para estudar no Aplicação, considerado um melhores dos colégios do Rio de Janeiro. Ali, ele se apaixonou por uma professora de português, filha do famoso gramático Celso Cunha. Para impressioná-la, e passar de ano sem maiores problemas, levou de casa um texto pronto para usar na prova final de redação, que deveria ser feita em sala de aula. “Foi nessa ocasião que eu agi de má fé pela primeira vez. Aliás, o Sartre dizia que todo escritor age de má fé, pois nunca é absolutamente sincero”, afirma.
Cola à parte, o fato é que a professora ficou tão encantada com a produção do aluno que o presentou, no Natal, com um livro de Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. “Eu já gostava do Drummond e escrevia alguns poemas. Mas foi a partir da leitura da Clarice que eu mergulhei definitivamente na literatura”, revela.
Corta para a vida adulta. Matriculado no curso de Direito, Skylab ignorava a bibliografia recomendada pelos professores e se aprofundava em livros de filosofia. Até ser aprovado num concurso para o Banco do Brasil, trancar a faculdade e iniciar a carreira de bancário numa agência de Maracaju, no interior do Mato Grosso do Sul. “Era como seu estivesse servindo o Exército naquele fim de mundo com uma única rua asfaltada. O único livro que consegui comprar, pelo correio, foi sobre socratismo cristão.”
Depois de dois anos dividido entre a agência, a quadra de futebol de salão e o bar de Maracaju, o artista foi transferido para o Rio de Janeiro. Abandonou o Direito, ingressou em Letras e finalmente entrou em contato com o universo literário. Mas o autodidatismo falou mais alto. “Isso me persegue até hoje. Não consegui ficar refém dos professores e resolvi largar Letras também. Meu processo de leitura, como diz o Borges, é labiríntico. Preciso descobrir os meus próprios caminhos”, justifica.
Nessa época, Skylab iniciou um hábito que mantém até hoje: o de estudar em bibliotecas. “Vou morrer com isso. É uma coisa neurótica, autoimposta. Às vezes, passo seis horas por dia lendo numa biblioteca. Comecei na Biblioteca Nacional, migrei para a do Centro Cultural do Banco do Brasil e agora estou na da PUC”, conta.
Enquanto isso, ele já militava no underground musical carioca, fazendo shows no esquema de voz e violão. Ao completar dez anos de banco, no início da década de 1990, usou a licença prêmio para produzir seu primeiro álbum, Fora da Grei. “Enquanto meus colegas de trabalho iam para Miami fazer compras, eu me tranquei no estúdio e gravei um disco.”
Ter um emprego “comum” foi fundamental para sua carreira artística. Graças à estabilidade profissional, Skylab conseguiu produzir música sem precisar se envolver com guetos de artistas que, segundo ele, priorizam laços afetivos e misturam amizade com trabalho. Hoje, aposentado do Banco do Brasil, dedica-se em tempo integral à criação. E idolatra Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto. “Machado virou a minha bíblia, o meu Deus. Quanto ao João Cabral, acho que é o maior poeta brasileiro de todos os tempos.”
Questionado sobre a literatura brasileira contemporânea, o músico cita Rubens Figueiredo, Milton Hatoum e Cristovão Tezza como os seus autores preferidos — exceções, de acordo com ele, num cenário tomado pela influência de escritores beat e pop. “As experiências que eu tenho com autores mais jovens não são muito boas. Principalmente a partir dos anos 1990, essa corrente que não diferencia a literatura da vida, virou uma praga no Brasil. A escrita como um sopro, como um fluxo de consciência, deve ser apenas um elemento da produção literária. Não pode ser tudo.”
Skylab só alivia a barra do paulista Marcelo Mirisola. Para ele, o autor de Joana a Contragosto e Proibidão, entre outros, passa uma falsa impressão de que se limita a narrar a própria vida — mas, na verdade, forja um universo bastante particular. “Isso é uma coisa muito sutil e discreta no trabalho dele, que deveria ser lido com mais atenção.”
Com um único livro de poesia publicado, Debaixo das rodas de um automóvel, o artista acredita que tem material suficiente para, pelo menos, outros quatro volumes. Sua produção, que também inclui contos, resenhas e ensaios, está disponível no blog godardcity.blogspot.com, frequentemente atualizado. Nada mal para quem se formou intelectualmente aos trancos e barrancos, como ele mesmo diz. “Nunca fui precoce em nada e não acredito em filhinho de músico, filhinho de escritor. Valorizo muito mais as condições adversas”, afirma.
VITRINES DE DOMINGO
Moro entre coisas extremas
num quarto de pensão impossível.
Ontem cedo matei dois ratos.
Aí está minha metafísica.
Sou um poeta errado.
Consumi muito de minha vida
deitado na cama e me masturbando.
Escrevo só para fazer de conta que vivi.
Olho pela janela do quarto
as vitrines fechadas da cidade.
Amanhã estarão repleta de luzes,
mas hoje adormecem como se ninguém as visse.
E mostram-se taciturnas, absurdas,
essas vitrines de domingo que eu olho tanto.
FERIADO NACIONAL
Eis mais um feriado.
O comércio fechou as portas,
as escolas interromperam as aulas,
e os pequeno-burgueses foram a suas casas de veraneio.
Aqui fiquei eu.
Cara a cara com o feriado.
Sem vitrines coloridas
e sem a rotina de mais um dia de trabalho.
Inapelavelmente nu e só.
Não pude ir à biblioteca
porque estava fechada.
Não pude ouvir buzina
e nem cheirar fumaça de óleo diesel.
Olhei para mim e achei horrível.
UMA DIVINDADE
Saio pelas ruas exalando charme.
Muitas pessoas me olham.
Faço de conta que não as vejo.
Desprezo todos os Homens.
Estou usando uma camisa Yes Brasil,
óculos Ray-Ban e mochila da Company.
Brilho no sol da manhã.
Tornei-me uma divindade.
Fui para o Rio Sul.
Olhei as vitrines, as vendedoras,
e subi, desci várias vezes.
Cheguei a sorrir pra uma passante
— mas isso foi uma extravagância.
Pudesse perpetuar esse instante.
RIO SUL
Caminho pelo Rio Sul.
Essas são as minha trilhas.
Não passo por paisagens bucólicas
nem ando mais entre multidões na rua.
Estaciono o carro na garagem.
Desço as escadas rolantes.
Vou comprar um videocacete.
Por que não Por que não?
Estou hoje sem pensamento.
Tenho estado sempre assim.
Agora passa uma jovem.
Olhamo-nos sem nenhum calor.
Somos puros fantasmas.
Nada mais nos atinge.
CAFÉ DA MANHÃ
Esperávamos tanto um do outro.
Imaginávamos até uma chuva eterna..
Dessa vez tudo há de ser diferente
— foi o que tacitamente nos dissemos.
Cheguei a balbuciar algumas palavras
— todas elas dispensáveis —
na vã esperança de fixar
o volátil e o sem nome.
Terminado o gozo, porém,
viramos cada um pro lado
e dormimos o sono dos justos.
De manhã, acordamos com os passarinhos,
não trocamos uma palavra,
tomamos café e nunca mais nos vimos.
DISCOGRAFIA
1992 – Fora da Grei 1999 – SKYLAB 2000 – SKYLAB II (Ao Vivo) 2002 – SKYLAB III 2002 – Tributo ao Inédito (participação) 2003 – SKYLAB IV 2005 – SKYLAB V 2006 – SKYLAB VI 2007 – SKYLAB VII 2008 – SKYLAB VIII 2008 – Tributo ao Álbum Branco (participação) 2009 – SKYLAB IX (Ao Vivo e em DVD) 2009 – Rogério Skylab em Skygirls 2009 – Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe 2010 – The Best of Rogério Skylab (coletânea) 2011 – SKYLAB X 2012 – Abismo e Carnaval 2014 – Melancolia e Carnaval
BIO
Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.