quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O longo dia seguinte

A escassez de água em São Paulo é o rei nu das eleições de 2014. No momento em que a maior cidade do país se transforma num cenário de distopia, o processo eleitoral chegou ao fim sem nenhum debate sério sobre o meio ambiente e o modelo de desenvolvimento para o Brasil.

Chegamos ao dia seguinte sem que o futuro tenha sido de fato disputado. Se a eleição de 2014 foi a mais acirrada das últimas décadas, não só pelos candidatos, mas pelos eleitores, terminou sem debate. Não havia adversários nem nos estúdios de TV, onde os candidatos rolavam ora na lama, ora na retórica mais medíocre, nem nas redes sociais, elas que se tornaram as ruas realmente tomadas pela militância. Havia apenas inimigos a serem destruídos. As fraturas do país dizem respeito bem menos à pequena diferença entre a vencedora e o derrotado – e bem mais a uma fissura entre o país que vivemos e o país inventado. Não como uma fabulação, que é a matéria de qualquer vida. Não como uma utopia, que é onde se sonha chegar. Mas como um deslocamento perverso da realidade, uma cisão. Só essa desconexão pode explicar como a maior cidade do país transformava-se num cenário de distopia durante o primeiro e o segundo turnos eleitorais sem que em nenhum momento o meio ambiente e o modelo de desenvolvimento tenham entrado na pauta com a seriedade necessária. Chegamos ao dia seguinte como parte dos moradores de São Paulo: olhando para o céu à espera de que uma chuva venha nos salvar. E é com essa verdade profunda que temos de lidar.
Se a eleição pareceu interminável, o dia seguinte poderá ser muito mais longo. E seria, qualquer que fosse o vencedor. Com qualquer um deles, o que se disputou foi o poder, não um projeto de país. São Paulo talvez seja a expressão hiper-real desse momento, seja nossa escultura de Ron Mueck, o artista australiano que cria figuras humanas em dimensões superlativas. É como se o futuro tivesse chegado antes na cidade expandida, mais próximo da sombria ficção científica de Philip K. Dick do que da megalópole de comercial de TV onde os novos modelos de carros deslizam céleres por ruas sem trânsito.
Nesse cenário, Geraldo Alckmin, o governador do partido que há 20 anos está no poder foi reeleito no primeiro turno. Confrontados com a crise da água, Aécio Neves (PSDB) disse: “Vivemos a maior estiagem dos últimos 80 anos, e a meu ver o Estado fez algo absolutamente adequado, que foi propor bônus para aqueles que economizassem. Talvez o que tenha faltado foi uma parceria maior do governo federal”. E Dilma Rousseff (PT) rebateu: “Eu disse a ele (Alckmin): governador, pela minha experiência, acho que o senhor deveria fazer obras emergenciais. Porque tudo indica que essa seca se prolongará, e vocês não têm capacidade de abastecimento suficiente”.
Pode existir exibição maior de mediocridade do que essas respostas dadas por aquela que queria continuar presidente e por aquele que desejava se tornar presidente? É de chorar sentado em um dos reservatórios do sistema Cantareira, mas a maioria dos eleitores não pareceu se importar. Um sugere que basta chover ou dar bônus aos consumidores, a outra que obras emergenciais teriam solucionado todo o problema. Nenhum demonstrou nem capacidade nem vontade de fazer relações com o modelo de desenvolvimento, o esgotamento dos recursos, o desmatamento e o modo de vida.

O monstro bafejava na sala, mas os presidenciáveis disputavam quem tinha dado o nó no rabo do gato
Assim, enquanto São Paulo se transformava numa vitrine do cotidiano corroído pela degradação ambiental, o máximo de discussão que se conseguiu foi sobre de quem é a culpa. Isso num momento global em que as mudanças climáticas e suas consequências são consideradas por alguns dos pensadores mais relevantes do planeta, em todas as áreas, o tema de maior importância desse período, talvez de toda história humana. A cisão com a realidade é total. O monstro bafejava na sala, mas os presidenciáveis disputavam quem tinha dado o nó no rabo do gato.
Mesmo Marina Silva muito pouco tocou nesses temas ao disputar o primeiro turno, desassemelhando-se a si mesma. Ela, de quem se esperava que fizesse a diferença fazendo diferente, preferiu falar sobre a autonomia do Banco Central. No máximo escaparam, ela e todos, pela bandeira fácil do “desenvolvimento sustentável”, como se algum candidato fosse dizer que não quer desenvolvimento sustentável e como se este fosse um conceito já dado. Mas tocar nos temas cruciais do presente e do futuro, disputar a escolha do modelo de desenvolvimento em pontos concretos, com a seriedade que o momento histórico exige, não. O meio ambiente ficou fora da pauta dos presidenciáveis por escolha de conveniência, já que esse é o debate difícil, ao implicar mudanças no modo de vida dos eleitores, mas também porque a população têm escasso ou nenhum interesse no tema, apesar de a degradação ambiental roer o cotidiano. Essa é a fratura da negação.
A escassez de água na maior cidade brasileira é o rei nu destas eleições de 2014. E é por isso que vale a pena revisitar a reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB). A seca acentua a nuvem de poluição que envolve a capital, o nariz sangra, a tosse se instala, o recorde de calor fora de época esgarça os nervos dentro de carros e ônibus que se movem lentamente num gigantesco labirinto de concreto. A crise tem produzido cenas como a de caminhões-pipa com escolta policial, prontos para dominar a população desesperada de um interior pintado como bucólico. A polícia que massacrou os manifestantes, agora se prepara para reprimir os sem-água. A imagem dos reservatórios remete ao repertório de geografias historicamente calcinadas. A vida torna-se pior, bem pior. E torna-se bem pior em ritmo acelerado.
Era de se esperar que a experiência cotidiana concreta tivesse um impacto nas urnas. Mas, neste cenário, o governador reelegeu-se ainda no primeiro turno, repetindo: “Não vai faltar água”. E a água já faltava. Se as pessoas votam de forma pragmática, votam pelo retorno imediato, votam naquele que acreditam que vai melhorar a vida delas, por que a crise da água teve pouco ou nenhum impacto na eleição? Seria porque a educação, a saúde, a segurança estiveram excelentes nesses 20 anos de governo do PSDB em São Paulo, o que compensaria a escassez de água? Não é o que a realidade mostra. A crise da água tampouco atingiu o desempenho de Aécio Neves, que no segundo turno conquistou 64% dos votos válidos no estado de São Paulo. Que cisão, então, ocorreu nesse momento? E o que ela diz? Ou como a escassez de água não colou na eleição, ou de que forma se colou?

A polícia que massacrou os manifestantes de junho de 2013 agora se prepara para reprimir os sem-água de 2014
Não tenho respostas, só hipóteses. Uma hipótese possível seria a mesma pela qual a candidatura de Marina Silva erodiu. Marina cometeu vários erros nessa campanha, alguns deles primários. Mas há um deles, que para muitos soa como erro, mas que não me parece que seja. Seu discurso era menos afirmativo do que os eleitores estão acostumados. Ela propunha a construção de soluções, mais do que propostas acabadas (ainda que tenha sido a única entre os três candidatos com chances no primeiro turno a apresentar um programa de governo). Propunha escuta.
Seu discurso foi classificado como “difuso” e “vago”. Às vezes, ser difuso e ser vago são as únicas verdades possíveis em determinado momento histórico, como mostraram as manifestações de junho de 2013. Mas logo essas características, também nela decodificadas como defeitos, foram transformadas em “fraqueza”. E, na sequência, em identidade. Assim, a mulher que nasceu num seringal do Acre, trabalhou desde criança em condições brutais, passou fome, alfabetizou-se aos 16 anos, foi empregada doméstica, sobreviveu a três hepatites, cinco malárias e uma leishmaniose, além de sofrer contaminação por mercúrio, e ainda assim tornou-se professora com pós-graduação, senadora, ministra, uma das maiores lideranças ambientais do planeta e por fim uma candidata à presidência com chances de vencer, foi considerada “fraca”. Mais uma fratura entre imagem e realidade.
As afirmações peremptórias, com pontos de exclamação, assim como as certezas, são mercadorias valorizadas. Em geral ordinárias, mas valorizadas mesmo assim. Num momento em que a falta de controle parece se expressar em toda a sua assustadora grandiosidade, como na escassez de água em São Paulo, assim como na corrosão das condições de vida pela degradação ambiental, talvez as certezas, mesmo que falsas e irresponsáveis, tornem-se ainda mais valorizadas. Talvez a virtude encontrada em Alckmin por parte dos eleitores seja a da negação da realidade: “Tudo sob controle. Não vai faltar água”.
Uma garantia expressada sem hesitação ou titubeio, em voz firme, quando a água se esvai das torneiras e a vida converte-se literalmente em cinza, uma garantia falsa, parece ainda soar como uma garantia. E logo é decodificada como força, como a expressão de alguém que sabe liderar e sabe o que fazer e, principalmente, nos libera de ter de fazer algo. Sua vantagem é manter viva a ilusão mais cara, a ilusão do controle. Esta seria uma cisão para encobrir a fratura maior, a de que os responsáveis não têm responsabilidade. E a de que cada um, que também é responsável pela destruição ambiental, tampouco quer ser responsável, porque isso implicaria mudar de posição e alterar radicalmente seu modo de vida.

Talvez a virtude encontrada em Geraldo Alckmin pelos eleitores seja a da negação da realidade
Ao esforço de mudar o modo de vida poucos aderem, porque dá trabalho e provoca perdas, exige mediação e concessão. Para muitos, já parece um sacrifício excessivo diminuir o tempo do banho, imagina alterar radicalmente o cotidiano. Assim, vale mais a pena escolher não a ficção, mas a mentira – e ficção e mentira jamais podem ser confundidas –, porque dessa maneira se torna possível manter o máximo de tempo possível uma rotina que não apenas é insustentável a longo prazo, como já não se sustenta agora. E também a fantasia sobre si mesmo como um bom cidadão.
Soa mais conveniente, portanto, acreditar nessa versão mágica, a de que não vai faltar água, quando já está faltando água, promovendo uma cisão com a realidade. De novo, portanto, é um voto pragmático, voltado ao bem-estar imediato de não ter de se mover. De não precisar fazer nada ou muito pouco a respeito. Voltado a algo talvez mais caro do que água, a certeza de que há sempre uma saída que não exija comprometimento e mudança real. Uma saída em que apenas os outros façam o sacrifício, como sempre foi no caso do racionamento muito mais antigo e persistente na casa dos pobres.
No fim da semana passada, foi divulgada uma gravação em que Dilma Pena, a presidente da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), dizia numa reunião interna: “A Sabesp tem estado muito pouco na mídia, acho que é um erro. Nós tínhamos que estar mais na mídia, sabe, (...) nas rádios comunitárias, (...) todos falando, com um tema repetido, um monopólio: economia de água. ‘Cidadão, economize água’. Isso que tinha que estar reiteradamente na mídia, mas nós temos de seguir orientação, nós temos superiores, e a orientação não tem sido essa. Mas é um erro”. O diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, fez o seguinte comentário na mesma reunião: “Se repetir o que aconteceu esse ano, do final de 2013, de outubro pra cá, se voltar a repetir em 2014, confesso que eu não sei o que fazer. Essa é uma agonia, uma preocupação. Alguém brincou aqui, mas é uma brincadeira séria. Vamos dar férias para oito milhões e oitocentos mil habitantes e falar: ‘saiam de São Paulo’. Porque aqui não tem água, não vai ter água pra banho, pra limpeza da casa, quem puder compra garrafa, água mineral. Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe lá em Santos, lá em Ubatuba, Águas de São Pedro, sei lá, aqui não vai ter”.
É gravíssimo que a presidente da Sabesp tenha sido impedida, por qualquer motivo e mais ainda por motivos eleitoreiros, de alertar a população sobre a enormidade do problema. É criminoso e deve haver apuração e responsabilização de todos os envolvidos. Mas precisamos ter a honestidade de assumir que dificilmente, em 5 de outubro, data da votação do primeiro turno, algum cidadão pudesse alegar desconhecer a situação e a necessidade de economizar água durante a prolongada seca que enfrenta São Paulo.

É bastante sedutor o dogma de que o homem pode controlar a catástrofe ambiental que provocou
Geraldo Alckmin deu a mentira que a população queria ouvir porque conhece bem seus eleitores. Parodiando o título do livro do escritor Ferrez, não há inocentes em São Paulo. A reeleição de Alckmin talvez seja um daqueles fenômenos sustentados pela expectativa de que, se mentirmos todos, talvez vire verdade. Em parte, o governador pode não ter vencido apesar da crise da água, mas também por causa dela.
A crise da água na maior cidade brasileira, em plena eleição, é fascinante pelo que diz daquilo que não é dito. Se é um fato que faltou planejamento ao governo estadual tucano, que aí está há 20 anos e agora por mais quatro, esta é só a ponta explícita, a mais fácil de enxergar (ainda que deliberadamente a maioria dos eleitores a tenha ignorado nas urnas). Mas, ao colocar a parte no lugar do todo, revela-se essa crença arraigada, e por estes dias também desesperada, de acreditar que teria bastado algumas obras para escapar do que se tornou a vida cotidiana em São Paulo, na qual a água é apenas a ausência mais gritante. É o dogma, quase religioso, de que o homem pode controlar a catástrofe ambiental que provocou.
De novo, a ilusão do controle, mesmo quando a realidade aniquila os dias, mesmo quando no fundo cada um sabe que, fora e dentro, algo de fundamental da vida de cada um se esvai. Quanto mais se sente que o controle escapa, no miúdo e no macro do cotidiano, maior é a recusa em enxergar. O desastre já passou da porta de casa, mas ainda se crê que basta chover para tudo voltar a ser como antes, que já era ruim, mas menos. Ou que se o não planejado for feito, ainda que tarde, o problema de São Paulo está resolvido. Cinde-se de novo – e talvez uma parte significativa da população sequer perceba que a escassez de água tem causas ambientais profundas. Como se as questões do meio ambiente, que aqui estão, estivessem lá, no mundo abstrato dos outros.

A política ambiental de Dilma Rousseff, agora reeleita, foi um retrocesso para o Brasil
Dilma Rousseff foi reeleita. Sua política ambiental, se é que pode se chamar assim, foi um retrocesso. A visão sobre a Amazônia do governo se notabilizou pela semelhança com o projeto da ditadura militar para a região. Em sua gestão, obras como a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, foram impostas aos povos da floresta sem consulta prévia, autoritarismo que levou o Brasil à Comissão Interamericana de Diretos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Seu próximo alvo é barrar o belo rio Tapajós, onde encontra a resistência dos Munduruku e de comunidades agroextrativistas,como a de Montanha e Mangabal. Pressionado pelo processo eleitoral, o governo disse que, desta vez, cumprirá a lei e ouvirá os índios, mas não escutará os ribeirinhos.
A presidente também arrancou um naco do Parque Nacional da Amazônia para facilitar o caminho das hidrelétricas planejadas para o Tapajós. Mas só criou unidades de conservação na Amazônia a 12 dias do segundo turno, na tentativa de minimizar a repercussão de seu péssimo desempenho no setor. O desmatamento na Amazônia voltou a crescer: 191% no bimestre de agosto e setembro deste ano, comparado à 2013. Segundo o Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), porque o governo adiou a divulgação dos dados oficiais para depois das eleições. Dilma foi também a presidente que menos demarcou terras indígenas desde a redemocratização do país.
Pessoas respeitáveis defenderam nestas eleições que o susto de quase perder o poder fará Dilma Rousseff e o PT retomarem algumas lutas históricas, também no horizonte socioambiental. Veremos. Em seu discurso da vitória, neste domingo (26/10), Dilma falou em “diálogo”. E em “pontes”. Num pronunciamento bem pensado, em que a presidente reeleita podia colar tudo, já que o cargo estava garantido por mais quatro anos, vale a pena prestar atenção nas ausências. Dilma Rousseff não mencionou nem “índios” – e nem “meio ambiente”.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

O ódio à democracia

O antidemocratismo manifestado em ano eleitoral não é resultado de um sistema ainda imaturo, mas de um processo que se consolida e começa a incomodar.

"Nordestino não sabe votar". "Pobres merecem o que têm". "Abaixo o Bolsa Esmola". "Vão pra Cuba". "Muda para Miami". "Os empregados deveriam ser proibidos de participar". "Paulista é uma raça egoísta". "Deveríamos nos separar do resto do país". Não, não é por acaso que as manifestações de ojeriza à política, ao contraditório e ao voto das populações mais pobres tenham se intensificado ao longo desta eleição, a sétima desde a reabertura democrática. A democracia brasileira é jovem, mas não é uma criança. Parte do ódio que ela provoca é antes o resultado de sua maturidade do que de seu ineditismo: quem vocifera não são os que desconhecem seu funcionamento, mas os que o conhecem muito bem – a ponto de, em pleno 2014, falarem em golpeimpeachment ou cegueira coletiva para deslegitimar um resultado adverso.
A polarização, cada vez mais acentuada entre os dois principais partidos do País, levou candidatos, eleitores-internautas, internautas-eleitores e parte da mídia a se comportar como torcedores de arquibancada nas últimas semanas, em especial no último domingo, 26 de outubro, quando a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita. A tônica variava, mas tinha uma mesma base: não bastava expressar o voto, era preciso eliminar o concorrente e quem vota no concorrente – principalmente se ele não tem o mesmo repertório, a mesma escolaridade, a mesma (e suposta) independência material. Daí as agressividades identificadas tanto no submundo da internet quanto nas vozes de autoridades, personalidades e celebridades – que se engajaram na campanha atual, com apoio de um lado a outro, como nunca antes na história.
A essa altura, atribuir a um ou a outro a primazia do primeiro tacape será inútil. É preciso entender por que a agressividade se avoluma à medida que o sistema democrático se constrói – pois sua construção é um exercício permanente. Não é um fenômeno local: na Europa, onde o sistema é vigente há mais tempo, os intelectuais se batem há tempos sobre as contradições do chamado “reino do excesso” e das demandas pulverizadas (“mesquinhas”, segundo muitos) de um conjunto de indivíduos, muitos representantes de minorias – e não, para desespero das velhas oligarquias, de uma multidão uniforme.
Em um país como o Brasil, onde privilégio ao nascer e hegemonia política e econômica foram sinônimos ao longo da história, a ascensão de determinados grupos antes subjugados têm produzido todo tipo de ofensa ao chamado “individualismo democrático”. Sobram patadas sobre pobres, gays, lésbicas, negros, "comunistas", mulheres. Um exemplo foram as manifestações de ódio contra a população nordestina, onde o PT conquistou muitos votos. A repulsa chega com todos os disfarces, mas pode ser identificada, por exemplo, quando um ex-presidente da República atribui um resultado adverso (para ele e os seus) à cegueira coletiva dos “menos instruídos”.
No livro Ódio à Democracia, recém-publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, o filósofo franco-argelino Jacques Rancière deixa pistas para entender este fenômeno. Um fenômeno que, a se fiar pela experiência europeia e pelos últimos embates, será cada vez mais comum por esses lados. A obra é uma crítica contundente à denúncia do “individualismo democrático” – que, segundo ele, cobre, com pouco esforço, duas teses: a clássica dos favorecidos (os pobres querem sempre mais) e das elites refinadas (há indivíduos demais, gente demais reivindicando o privilégio da individualidade). “O discurso intelectual dominante une-se ao pensamento das elites censitárias e cultas do século XIX: a individualidade é uma coisa boa para as elites; torna-se um desastre para a civilização se a ela todos têm acesso”, escreve. Para o autor, não é o individualismo que esse discurso rejeita, mas a possibilidade de qualquer um partilhar de suas prerrogativas. “A crítica ao ‘individualismo democrático’ é simplesmente o ódio à igualdade pelo qual uma intelligentsia dominante confirma que é a elite qualificada para dirigir o cedo rebanho”.
Qualquer semelhança com os últimos capítulos da eleição não é mera coincidência. No prefácio da mesma obra, o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de ética da USP, lembra que um número expressivo de membros da classe média ainda desqualifica os programas sociais consolidados nos últimos anos. “Para eles, o Brasil era bom quando pertencia a poucos. Assim, quando a multidão ocupa espaços antes reservados às pessoas 'de boa aparência', uma gritaria se alastra em sinal de protesto. O que é isso, senão o enorme mal-estar dos privilegiados?”, questiona. “A expansão da democracia incomoda. Daí um ódio que domina nossa política, tal como não se via desde as vésperas de um golpe de 1964, condenando as medidas que favoreciam os mais pobres como populistas e demagógicas”.
Em coro com Rancière, Janine Ribeiro lembra que a democracia não é um Estado acabado nem um estado acabado das coisas; ela vive constante e conflitiva expansão. “Porque a ideia de separação social continua presente e forte”.
Ao menos nas últimas semanas, esta ideia parece ter tomado proporções graves nas manifestações de ódio pelas ruas e redes sociais. Como se o mesmo país fosse pequeno demais para dois (para não dizer muitos) tipos de eleitores: um deve ser enviado a Cuba, o outro, a Miami; um deve ter o direito de voto cassado, o outro tem o direito apenas de calar. O não-diálogo é escancarado, sobretudo por quem costumava observar o espaço público como sua propriedade e hoje se rebela contra o "Estado protetor" e o voto "mesquinho" dos indivíduos. Mas a democracia, prossegue Rancière, longe de ser a forma de vida dos indivíduos empenhados em sua felicidade privada, é o processo de luta contra essa privatização, o processo de ampliação dessa esfera. "Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade. Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominação da oligarquia no Estado e na sociedade”.

O povo brasileiro não existe

Fechadas as urnas e proclamado o resultado das últimas eleições, as primeiras palavras foram em direção à reconstrução da união nacional. Afinal, esta eleição teria levado o país a um ponto perigoso no qual parecem aflorar inimizades, preconceitos e outras coisas que gostaríamos de acreditar ultrapassadas. 

Vamos então esquecer um pouco tudo isso, voltar à vida normal, reintegrar os expulsos do Facebook. Mas, e se isso não for mais possível?



Desde as manifestações de 2013 o discurso da união nacional havia entrado em colapso. Quando massas foram às ruas, descobrimos que alguns gritavam pelo fim da PM enquanto outros queriam a expulsão de médicos cubanos do país. Daí as leituras díspares sobre o sentido ideológico daquela explosão de descontentamento: de classe média golpista nas ruas à situação pré-revolucionária. No entanto, talvez lá havíamos simplesmente descoberto que não haveria mais união, nem mesmo o silêncio complacente de sempre. Placas tectônicas se moveram.

O Brasil que conhecemos até agora acabou. Os amigos perdidos talvez não voltem mais. Por isso, arriscaria dizer que o maior saldo dessas eleições foi mostrar que não somos algo parecido a um povo dotado de identidade coletiva. Não há nada, absolutamente nada que me una a pessoas que tomam a avenida Faria Lima para gritar: "Viva a PM". Apenas ocupamos o mesmo espaço e tentamos politizar nosso desencontro absoluto, mas não fazemos parte de identidade coletiva alguma. Por isso, nosso encontro político sempre será violento.

Esta divisão não é apenas expressão de um conflito de classe. Desde que Lula ganhou sua primeira eleição, o PSDB tem, em média, 40% dos votos, chegando agora a 48%. Não há 40% de classe média no Brasil. A classe média e a classe pobre sempre estiveram ideologicamente divididas, com algo como um terço de seus eleitores oscilando entre dois polos.

Creio que é importante dizer isso porque as reconciliações nacionais na história brasileira foram sempre reconciliações extorquidas, na qual os mais vulneráveis são obrigados a engolir discursos conciliatórios enquanto as desigualdades e os comportamentos medievais de certas parcelas da população continuam a circular sem culpa. 

Não há razão alguma para continuar esta compulsão de repetição.

Seria bom para o país que os atores políticos estivessem à altura deste novo cenário.

domingo, 26 de outubro de 2014

E o futuro?

Bastante preocupado com o futuro...

Estaria assim com a vitória de ambos os candidatos, mas confesso que o PT tem me preocupado mais a cada dia, seja nos acordos e parcerias com o atraso (Venezuela, Cuba, Bolívia, Argentina, FARC, Irã etc.), seja com a defesa do seu modelo de aparelhamento do Estado e desvios de recursos para financiamento do projeto de poder (mensalão, Petrobras, Correios, etc.), seja na tal contabilidade criativa e crescente instabilidade regulatória e econômica que ameaça nosso presente e compromete nosso futuro.

Porém, algumas verdades e fatos precisam vir à tona, ante o preconceito absurdo e à ignorância alimentada por ódio e desinformação:

- tivemos nestas eleições 143 milhões de eleitores aptos, porém apenas 106 milhões de votos válidos (37 milhões de abstenções, brancos e nulos);

- a presidente foi reeleita com 54,5 milhões dos votos, contra 51 milhões do oponente;

- o Brasil possui cerca de 50 milhões de beneficiários do bolsa-família no total (idosos, adultos, crianças) em uma população total de 200 milhões;

- na média, as famílias que recebem bolsa família possuem 5 membros, sendo dois adultos 3 crianças, logo apenas 40% dos 50 milhões podem votar = 20 milhões de pessoas;

- considerando que todos eles votassem na candidata da situação (sem brancos, nulos ou abstenções), o que seria difícil dada a dificuldade de transporte da maioria deles pois muitos destes moram em locais ermos e miseráveis no sertão, no pantanal e nas florestas amazônicas, estes votos responderiam por menos da metade dos votos que a reelegeram;

- logo, não procede a falácia de que os eleitores do bolsa-família decidem a eleição a favor do PT;

- a presidente foi reeleita com grande ajuda de MG (reduto do outro candidato, o que explica isso?!) e do RJ - ondr venceu - e de SP também, pois mesmo sendo minoria foram milhões de votos.

Portanto, é necessário entender minimamente das coisas, e gastar tempo pesquisando e debatendo antes de vir ao facebook dar uma de expert em política e despejar veneno na forma de preconceito contra nordestinos e pobres do país.

Precisamos respeitar a porra da democracia, que é um péssimo modelo político porém melhor que todos os outros que existem por aí, como dizia Churchill.

Agora é hora de estarmos ainda mais atentos com tudo que acontece no país, todos ligados nos desdobramentos das operações da polícia federal sobre a Petrobras, atentos às próximas nomeações ao STF, atentos ao próximo ministro da Fazenda e aos rumos da equipe econômica, etc.

Enfim, quatro anos em nossas vidas passam rápido, lembro como se fosse hoje do Plano Real (ainda era pré adolescente), e já completou 20 anos...uma eleição não pode ser ignorada mas também não pode significar vida ou morte, fim de amizades e retrocesso ao autoritarismo contra o qual tantos brasileiros lutaram!

Vamos trabalhar, e chega de brigar e ofender!

Por Lucas Costa


Dilma Rousseff é reeleita presidente do Brasil

No próximo mandato, ela terá desafio de unir o país após disputa acirrada e marcada por ataques. Dilma vence com uma forte oposição. Aécio perder em Minas é um sinal a ser considerado.

Todos que votaram contra o PT que agora mantenham suas máquinas atentas e acompanhem de perto cobrando o Governo as reformas e promessas que foram feitas. Fiquemos todos entendidos sobre a importância da política em nossas vidas.

Democracia é isso.

Permanecerei cobrando e atento como sempre estive. Quero saber qual o número de Votos e nulos. A Imprensa nunca divulga.

O Brasil foi às urnas neste domingo dividido. Depois de mais de 100 dias de uma campanha eleitoral marcada por reviravoltas nas pesquisas e uma tragédia, a morte de Eduardo Campos, Dilma Rousseff (PT) foi reeleita com 53,3 milhões de votos, ou 51,45% dos votos válidos (com 98% das urnas apuradas). A presidente é reconduzida ao cargo com a vitória mais apertada desde a redemocratização.

Agora, Dilma terá pela frente como uma das principais e imediatas tarefas desarmar os espíritos radicalizados nesta eleição. Dilma terá também em seu novo mandato o desafio de responder às demandas da sociedade, como a melhora da prestação de serviços públicos em educação, saúde, transporte e segurança.


CAMPANHA ELEITORAL

Por volta das 22h do último dia 5, a presidente Dilma Rousseff surgiu no palco do teatro de um hotel em Brasília ostentando bom humor. Sua expressão não combinava com o clima nos bastidores de sua campanha. Horas antes, os petistas foram pegos de surpresa com o resultado do 1º turno. Esperavam não só um desempenho melhor de Dilma, como previam uma votação menor do candidato do PSDB, Aécio Neves. Foi naquele momento que Dilma deu a largada no segundo turno invocando, em seu discurso, os “fantasmas do passado” do governo Fernando Henrique, tratado ali como sinônimo de arrocho salarial, desemprego e recessão. Foi só tirar da gaveta o “script” que já estava pronto e tivera de ser engavetado quando a candidata do PSB, Marina Silva, ultrapassou Aécio nas pesquisas.

Essa fórmula, usada com sucesso nas duas eleições anteriores — na de Dilma contra José Serra, em 2010, e na reeleição de Lula contra Geraldo Alckmin, em 2006 —, desta vez não foi suficiente. Uma preocupação dos petistas eram os jovens, que não viveram o governo FH e não se sensibilizavam com esse discurso. Essa faixa do eleitorado, que em grande parte votou em Marina no primeiro turno, era um dos alvos da campanha de Dilma.

Assim, três dias depois, a campanha petista já tinha uma nova aposta: desconstruir a imagem de bom gestor de Aécio, contestando os indicadores sociais e econômicos de Minas Gerais, estado governado pelo tucano e seu grupo durante 12 anos. A nova estratégia foi exposta no dia 8 pelo presidente do PT e coordenador-geral da campanha de Dilma, Rui Falcão, em reunião da Executiva Nacional do partido com coordenadores estaduais da campanha, em Brasília.

No dia anterior, após reunião com presidentes de partidos aliados, governadores e senadores eleitos, a própria Dilma deu a deixa. Ela ironizou o fato de ter derrotado Aécio em Minas, seu reduto eleitoral, no primeiro turno:

— Quem me conhece votou em mim — afirmou a presidente, referindo-se ao fato de ter ganho em Minas, estado em que nasceu, e no Rio Grande do Sul, onde fez carreira política.

Mesmo com essa artilharia, durante os primeiros 15 dias do segundo turno Aécio e Dilma permaneceram tecnicamente empatados, com o tucano numericamente na frente. A campanha de Dilma subiu o tom com ataques pessoais, e o candidato do PSDB respondeu na mesma moeda, tornando essa a campanha mais virulenta desde 1989. Os dois acabaram recuando diante da rejeição do eleitorado ao grau de agressividade reinante.

A campanha petista, no entanto, só pisou no freio depois de conseguir o que queria: disseminar informações como a que lembrava que Aécio se recusou a fazer o teste do bafômetro, em uma blitz da Lei Seca, em 2011. Dilma também saiu chamuscada. Foi acusada pelo tucano de nepotismo cruzado. Segundo Aécio, o irmão de Dilma, Igor Rousseff, ganhava sem trabalhar na prefeitura de Belo Horizonte, na gestão de Fernando Pimentel (PT), amigo da presidente. Foi um revide à acusação de Dilma de que Aécio, quando governador de Minas, empregou parentes.

Se, no 1º turno, Dilma — a ex-guerrilheira que lutou contra a ditadura, apresentada nesta campanha como “coração valente” — afirmou que para ser presidente era preciso “aguentar pressão” e ter “coluna vertebral”, para aventar uma suposta fragilidade Marina, no 2º turno ela tentou se vitimizar e tachar Aécio de agressivo com mulheres, por tê-la chamado de “mentirosa” e “leviana”. A estratégia surtiu efeito, e Dilma cresceu entre o eleitorado feminino.

Até o último dia, a presidente andou na corda bamba com o escândalo de corrupção na Petrobras. A oito dias da eleição, ela reconheceu pela primeira vez que houve desvios na estatal durante seu governo. A inflexão no discurso foi uma vacina para tentar evitar que as acusações colassem em sua imagem pessoal.

Ironicamente, as acusações de pagamento de propina a partidos políticos na Petrobras, que foram o calcanhar de aquiles de Dilma, também lhe renderam um dos pontos altos de sua campanha no segundo turno: o surgimento do nome do então presidente do PSDB Sérgio Guerra como suposto beneficiário do esquema, em 2009. A petista explorou essa informação para tirar de Aécio a bandeira da ética.

Apesar de o tucano ter sido, desde o início, o adversário desejado pelo PT, com o intuito de repetir a polarização com o PSDB, a disputa foi considerada “renhida” por coordenadores da campanha à reeleição. Os petistas respiraram aliviados no início da semana, quando o Datafolha mostrou pela primeira vez Dilma à frente de Aécio, embora ainda empatados tecnicamente, devido à margem de erro.

A ordem na cúpula da campanha, no entanto, foi não cantar vitória antes do tempo e manter a militância mobilizada. Os petistas acreditavam na vitória, mas estavam preocupados com as abstenções. Atribuíram o crescimento na reta final ao fato de o escândalo da Petrobras ter resvalado para o PSDB; ao aumento da aprovação do governo; à estratégia de desconstrução de Aécio; e ao equilíbrio entre os dois candidatos nos debates na TV. Escaldados, porém, depois dos erros das pesquisas no 1º turno, que previram uma votação menor de Aécio, e depois de tantas reviravoltas, alguns mantinham um otimismo contido, demonstravam cansaço e se preparavam para qualquer resultado.

— Estou preparado para as duas coisas. Se o Aécio ganhar, não vou ficar chocado. E, se Dilma ganhar, também não ficarei muito eufórico — disse um militante que trabalha no partido.

Integrantes do comitê eleitoral ressaltam que nem nos momentos mais difíceis ela “se escondeu embaixo da saia do Lula”. Embora trocasse ideias com o ex-presidente, Dilma não aceitou apenas o papel de “criatura” proclamado pelo ex-presidente na convenção nacional do PT, em junho. Ela aprovou diretamente peças de propaganda com o marqueteiro João Santana, e foi a mentora de parte dos ataques tanto a Marina Silva (PSB) quanto a Aécio.

A campanha, à imagem e semelhança de seu governo, foi marcada pela centralização de Dilma. A “tia”, como se referem a ela os petistas ligados a Lula, fez questão de dar a palavra final em tudo, desde a agenda de compromissos até as propagandas de rádio e TV. Integrantes do comitê eleitoral afirmam que a presidente exigia saber detalhes, como o local exato onde daria entrevistas à imprensa durante agendas de campanha e em que momento. Muitas vezes mudava o roteiro traçado.

Durante o 2º turno, a presidente se permitiu poucos momentos de descontração. O mais marcante deles foi em evento em São Paulo, na última segunda-feira. Na janela do Tuca, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a presidente pulou ao som do coro “quem não pula é tucano”, entoado por militantes na rua. Ironicamente, após uma campanha em que se consagrou pelos ataques que desferiu, se reeleita, Dilma terá entre seus principais desafios pacificar o país.

A presidente Dilma Rousseff, que disputou pelo PT as eleições deste ano, terá mais quatro anos de mandato como presidente do país. Após 111 dia de campanha e uma disputa acirrada com Aécio Neves (PSDB) em segundo turno marcado por ataques e acusações, Dilma obteve vitória apertada sobre Aécio: 51,45% contra 48,55%. Com a população e o Congresso divididos, um dos desafios da presidente será, em seu governo, conseguir unir o Brasil.

O resultado marca a eleição mais acirrada da história da redemocratização do Brasil.Os ex-presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e a própria Dilma não ganharam de seus adversários por uma diferença tão pequena em pleitos anteriores. Antes de 2014, a menor diferença havia sido registrada em 1989, na disputa entre Collor e Lula. Na ocasião, Collor venceu com 42,75% dos votos, contra 37,86% obtidos pelo então candidato do PT.

O horário de verão atrasou a divulgação do resultado da eleição presidencial, que só ocorreu depois das 20h por causa da votação no Acre, que só acabou às 17h do horário local. Já nos estados onde houve segundo turno (Acre, Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal), a apuração começou logo após o término da votação, às 17h, pelo horário local.




ATAQUES MARCARAM SEGUNDO TURNO

Após ataques durante o horário eleitoral no rádio e na TV e a troca de acusações em debate do SBT, com denúncias de nepotismo entre Dilma e Aécio, o TSE proibiu a veiculação de gravações que não fossem propositivas.

— O tribunal muda sua jurisprudência para estabelecer que, em programas eleitorais gratuitos, as propagandas devem ser programáticas e propositivas, mesmo com embates duros, em relação às candidaturas do segundo turno — disse o presidente da Corte, Dias Toffoli, no dia 16 de outubro.

Embora o TSE tenha levantado a questão e adiantado julgamentos para não prejudicar a igualdade de condições entre as candidaturas, o clima eleitoral não arrefeceu. Nas ruas, foram registrados tumultos entre partidários de ambas as campanhas. Nas redes sociais, a baixaria também teve vez. O Fla x Flu eleitoral abalou amizades, e gerou discussões com troca de ofensas.


DISPUTA ACIRRADA

A disputa mais acirrada desde 1989 teve a primeira reviravolta no dia 13 de agosto, quando o jato que partiu do Rio de Janeiro e levava o então candidato do PSB, Eduardo Campos, caiu em Santos após arremeter ao tentar pousar no aeroporto. (Confira todas as pesquisas Ibope e Datafolha). Após a morte do então candidato e a comoção causada pela tragédia, Marina Silva assumiu a cabeça de chapa e passou a liderar as pesquisas de intenção de voto. Desidratada após campanha de desconstrução do PT e recuos em relação ao programa de governo, Marina entrou em queda livre.



No primeiro turno, a decisão dos brasileiros contrariou as pesquisas eleitorais das semanas anteriores ao dia 5 de outubro, que indicavam uma disputa entre a candidata do PSB e Dilma Rousseff. No início do segundo turno, Aécio aparecia numericamente à frente nos levantamentos de Ibope e Datafolha. Dilma, no entanto, recuperou a dianteira e descolou-se do candidato do PSDB.

No primeiro turno, excluindo os votos brancos e nulos, a candidata petista teve 41,6% da preferência (43,2 milhões de votos), contra 33,6% do tucano (34,8 milhões de votos). A votação surpreendeu, já que a candidata do PSB, Marina Silva, que aparecia empatada tecnicamente com Aécio, ficou em terceiro lugar, com 21,3% da preferência (22,1 milhões de votos).


CANDIDATOS VOTARAM EM MG E RS

Pela manhã, Aécio Neves votou em escola de Belo Horizonte ao lado da mulher, Letícia Weber, às 10h30m. O tucano conseguiu amplo arco de alianças para enfrentar Dilma no segundo turno e comparou a união de candidatos derrotados no primeiro turno com a frente liderada por seu avô, Tancredo Neves, durante a redemocratização do país. Além dos nanicos, como Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Jorge (PV) e Levy Fidelix (PRTB), também ganhou o apoio de Marina Silva (PSB).

Já a presidente Dilma Rousseff manteve o apoio de nove partidos da coligação feita antes do primeiro turno e votou na manhã deste domingo em Porto Alegre, acompanhada do governador Tarso Genro, candidato à reeleição ao governo do Rio Grande do Sul. Antes, Dilma fez um pronunciamento rápido, que durou pouco mais de três minutos, e reconheceu que a campanha que se encerrou às 22h de sábado teve “momentos lamentáveis”.


VOTAÇÃO TAMBÉM EM 88 PAÍSES

Ao todo, 354.184 eleitores brasileiros residentes no exterior também votaram para escolher o novo presidente neste domingo. Há eleitores domiciliados em 135 cidades de 88 países. Os Estados Unidos são o país com o maior número de eleitores (112,2 mil), seguido por Japão (30,6 mil), Portugal (30,4 mil), Itália (20,9 mil) e Alemanha (17,5 mil). Neste ano, foram utilizadas 916 urnas no exterior.



PSDB é o partido mais sujo do Brasil, revela ranking da justiça eleitoral

Análise dos 317 políticos brasileiros que foram impedidos de se candidatar pela lei Ficha Limpa traz uma descoberta interessante: o PSDB é o partido político mais sujo do Brasil. Veja o ranking.

Os TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) barraram até agora a candidatura a prefeito de 317 políticos com base na Lei da Ficha Limpa, de acordo com levantamento feito nos 26 Estados do país.
O número deve aumentar, já que em 16 tribunais ainda há casos a serem julgados. Entre esses fichas-sujas, 53 estão no Estado de SP.
Na divisão por partido, o PSDB é o que possui a maior “bancada” de barrados, com 56 candidatos –o equivalente a 3,5% dos tucanos que disputam uma prefeitura. O PMDB vem logo atrás (49). O PT aparece na oitava posição, com 18 –1% do total de seus postulantes a prefeito.
psdb ranking corrupção ficha suja



















































Todos os candidatos barrados pelos tribunais regionais podem recorrer ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A presidente do tribunal, Cármen Lúcia, já disse que não será possível julgar todos os casos antes das eleições, mas sim até o final do ano, antes da diplomação dos eleitos.


Os nomes barrados pelos TREs irão aparecer nas urnas eletrônicas, mas todos os seus votos serão considerados sub judice até uma eventual decisão no TSE.
Exemplo: se o ficha-suja tiver mais votos, mas seu recurso for rejeitado, assume o segundo colocado na eleição.
Entre os barrados, destacam-se o ex-presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti (PP-PE) e a ex-governadora Rosinha Garotinho (PR-RJ).
Severino tenta se reeleger prefeito de João Alfredo (PE) e foi enquadrado na lei por ter renunciado ao mandato de deputado federal, em 2005, sob a acusação de ter recebido propina de um concessionário da Câmara.
Já Rosinha Garotinho, atual prefeita de Campos (RJ), teve o registro negado sob a acusação de abuso de poder econômico e uso indevido de meios de comunicação durante as eleições de 2008.
A maioria dos barrados foi enquadrada no item da Lei da Ficha Limpa que torna inelegível aqueles que tiveram contas públicas rejeitadas por tribunais de contas.
De iniciativa popular, a lei foi sancionada em 2010, mas só passa a valer na eleição deste ano. A lei ampliou o número de casos em que um candidato fica inelegível –cassados, condenados criminalmente por colegiado ou que renunciaram ao cargo para evitar a cassação.
“A lei anterior era permissiva demais”, disse Márlon Reis, juiz eleitoral e um dos autores da minuta da Ficha Limpa. Para André de Carvalho Ramos, procurador regional eleitoral de São Paulo, os próprios partidos vão evitar lançar fichas-sujas.

Paulo Moreira Leite: Folha e justiça informam que ‘Petralha’ é lenda

A liberdade de expressão permite que cada um fale o que quer e escreva como quiser mas às vezes a literatura deve ceder seus direitos a matemática.
Trazida ao mundo político durante o governo Lula, o termo “petralha” é uma falsificação, revela um levantamento da Folha de S. Paulo.
Ao juntar PETista com metRALHA, dos irmãos Metralha, de Disney, aquele que tinha simpatias pelo fascismo, o que se pretende é sugerir que o Partido dos Trabalhados é, como diz o procurador-geral da República, uma “organização criminosa.”
Será?
Analisando os 317 políticos brasileiros que foram impedidos de se candidatar pela lei Ficha Limpa, a Folha de S. Paulo fez uma descoberta fantástica.
Os petistas tem 18 candidatos que a Justiça impediu de candidatar-se em função daquilo que em outros tempos se chamava de folha corrida. Não é pouco, certamente.
Homens públicos devem ter uma reputação sem manchas e seria preferível que nenhum candidato – do PT ou de qualquer outro partido – tivesse uma condenação nas costas.
O problema é que os supostos petralhas são apenas o 8o. partido em condenações. Se houvesse um campeonato nacional de ficha-suja, estariam desclassificados nas quartas-de-final e voltariam para casa sob vaias da torcida, que iria até o aeroporto jogar casta de laranja no desembarque da delegação.
E se você pensa que o primeiro colocado é o PMDB, tão associado às más práticas da política, símbolo do atraso, da fisiologia e da corrupção – em especial depois que se aliou a Lula, nunca antes — enganou-se. O líder é o PSDB.
Está lá, na Folha. Os tucanos tiveram 56 candidatos rejeitados pela Lei dos Ficha Suja. Isso dá três vezes mais do que os petistas. Para falar em termos relativos: a porcentagem de ficha suja tucana entre seus candidatos é de 3,5%. Dos petistas, 1%.
Em sua entrevista em Paris, logo depois da entrevista de Roberto Jefferson onde ele denunciou o mensalão, Lula disse que o PT apenas fazia “o que os outros partidos sempre fizeram.”
Lula foi muito criticado por isso, na época. Vê-se que Lula errou, mas por outro motivo: o PT fazia menos do que os outros partidos.
O levamento mostra, por exemplo, que até o PSD de Gilberto Kassab tem mais condenados do que os petistas. O PPS, que é infinitamente menor do que o PT, tem 9 condenados. O PMDB, tem 46.
E agora?

Ataque da Revista Veja forçará democratização da mídia

A tentativa criminosa da revista Veja de solapar a democracia brasileira, a 48 horas do segundo turno da disputa presidencial, merece uma resposta institucional: a democratização dos meios de comunicação no Brasil.

Golpe midiático do doleiro Yousseff, que admite que não pode provar o que diz, dará mais argumentos à regulamentação da mídia.

Uma farsa óbvia e mal ensaida




"O mais novo vazamento de trechos dos múltiplos depoimentos do doleiro Alberto Yousseff  expressa uma  tradição vergonhosa pela finalidade política, antidemocrática pela substância.  Não, meus amigos. Não se quer informar a população a partir de dados confiáveis. Também não se quer contribuir com um único grama para se avançar no esclarecimento de qualquer fato comprometedor na Petrobrás. Sequer o advogado de Yousseff reconhece os termos do depoimento. Tampouco atesta sua veracidade sobre a afirmação de que Lula e Dilma sabiam das “tenebrosas transações” que ocorriam na empresa, o que está dito na capa da revista.
Para você ter uma ideia do nível da barbaridade, basta saber que, logo no início,  admite-se que só muito mais tarde, através de uma investigação completa,que ninguém sabe quando irá ocorrer, nem quando irá terminar,  “se poderá ter certeza jurídica de que as pessoas acusadas são culpadas.”
Não é só. Também se admite que Yousseff “não apresentou provas do que disse.”
Precisa mais? Tem mais.
Não se ouviu o outro lado com a atenção devida, nem se considerou os argumentos contrários com o cuidado indispensável numa investigação isenta.
O que se quer é corromper a eleição, através de um escândalo sob encomenda, uma farsa óbvia e mal ensaiada. Insinua o que não pode dizer, fala o que não pode demonstrar, afirma o que não conferiu nem pode comprovar."
Detalhe importante: o "depoimento" do doleiro já foi desmentido por seu próprio advogado (leia mais aqui). Diante do crime eleitoral cometido pela revista Veja, que representa um atentado à própria democracia, o que fazer? O único caminho é discutir, a sério, a regulamentação dos meios de comunicação. Eis mais um trecho do texto de Paulo Moreira Leite:
"Com esse comportamento, a mídia brasileira prepara o caminho de sua destruição na forma que existe hoje.  Como se não bastasse os números vergonhosos do Manchetômetro, que demonstram uma postura parcial e tendenciosa, o golpe da semana só fará aumentar o número de cidadãos e de instituições convencidos de que a sobrevivência da democracia brasileira depende, entre outras coisas, que se cumpra a legislação que regula o funcionamento econômico da mídia. Está claro que este será um debate urgente a partir de 2015.
Numa tradição que confirma a hipocrisia das conversas de palanque sobre alternância de poder, os escândalos eleitorais costumam ocorrer no país sempre que uma candidatura identificada com os interesses da maioria dos brasileiros ameaça ganhar uma eleição.
Não tivemos “balas de prata” — nome que procura dar ares românticos a manobras que são apenas sujas e vergonhosas — para impedir as duas eleições de Fernando Henrique Cardoso nem a vitória de Fernando Collor. Mas tivemos tentativas de golpes midiáticos na denúncia de uma ex-namorada de Lula em 1989; no terror financeiro contra Lula em 2002; na divulgação ilegal de imagens de reais e dólares clandestinos dos aloprados; e numa denúncia na véspera da votação, em 2010, para tentar comprometer Dilma Rousseff com dossiês sobre adversários do governo.
Em outubro de 2014, quando a candidatura de Dilma Rousseff avança em direção às urnas com uma vantagem acima da margem de erro nas pesquisas de intenção de voto, VEJA chega às bancas com uma acusação de última hora contra a presidente e contra Lula. Comentando o teor da reportagem, Lula declarou ao 247:
— A VEJA é a maior fábrica de mentiras do mundo. Assim como a Disney produz diversão para as crianças, a VEJA produz mentiras. Os brinquedos da Disney querem produzir sonhos. As mentiras da VEJA querem produzir ódio, disse ao 247.
O mais novo vazamento de trechos dos múltiplos depoimentos do doleiro Alberto Yousseff  expressa uma  tradição vergonhosa pela finalidade política, antidemocrática pela substância.  Não, meus amigos. Não se quer informar a população a partir de dados confiáveis. Também não se quer contribuir com um único grama para se avançar no esclarecimento de qualquer fato comprometedor na Petrobrás. Sequer o advogado de Yousseff reconhece os termos do depoimento. Tampouco atesta sua veracidade sobre a afirmação de que Lula e Dilma sabiam das “tenebrosas transações” que ocorriam na empresa, o que está dito na capa da revista.
Para você ter uma ideia do nível da barbaridade, basta saber que, logo no início,  admite-se que só muito mais tarde, através de uma investigação completa,que ninguém sabe quando irá ocorrer, se irá ocorrer, nem quando irá terminar,  “se poderá ter certeza jurídica de que as pessoas acusadas são culpadas.”
Não é só. Também se admite que Yousseff “não apresentou provas do que disse.”
Precisa mais? Tem mais.
Não se ouviu o outro lado com a atenção devida, nem se considerou os argumentos contrários com o cuidado indispensável numa investigação isenta.
O que se quer é corromper a eleição, através de um escândalo sob encomenda, uma farsa óbvia e mal ensaiada. Insinua o que não pode dizer, fala o que não pode demonstrar, afirma o que não conferiu nem pode comprovar.
Só o mais descarado interesse pelos serviços políticos-eleitorais que poderia prestar na campanha presidencial permitiu a recuperação de um personagem como Alberto Yousseff. Recapitulando: há uma década ele traiu um acordo de delação premiada numa investigação sobre crimes financeiros, e jamais poderia ter sido levado a sério em qualquer repartição policial, muito menos numa redação de jornalistas, antes que cada uma de suas frases, cada parágrafo, cada palavra, fosse submetida a um trabalho demorado de investigação. Até lá, deveria ser colocada sob suspeita. Mas não. Um depoimento feito há 48 horas, contestado pelo advogado,  por um cidadão que não é conhecido por falar a verdade, virou capa de revista. Que piada.
Isso ocorre porque vivemos num país onde, 30 anos depois do fim da ditadura militar, os inimigos do povo conquistaram direito a impunidade. Esse é o dado real.
Sabemos, por exemplo, que se houvesse interesse real para investigar e punir os casos de corrupção seria possível começar pelo mensalão do PSDB-MG, pelo propinoduto do metrô paulista, pela compra de votos da reeleição.
As vítimas daquilo que se pode chamar de erros da imprensa, mesmo quando se trata de fabricações, não merecem sequer direito de resposta — no caso mais recente, o ministro Gilmar Mendes segurou uma sentença contra a mesma VEJA com base numa decisão liminar. Olha só.
  Num país onde as instituições são respeitadas e os funcionários públicos cumprem deveres e obrigações, a Polícia Federal não poderia deixar-se usar políticamente dessa maneira, num comportamento que compromete os direitos de cada cidadão e ordem republicana.
Diante da incapacidade absoluta de enfrentar um debate político real, com propostas e projetos para o país, o que se pretende é usar uma investigação policial para ganhar pelo tapetão aquilo que não se consegue alcançar pelas urnas — o único caminho honesto para a defesa de interesses num regime democrático. Num país onde a alternância no poder nunca passou do revezamento entre legendas cosméticas, em 2014 os conservadores brasileiros são obrigados a encarar o horizonte de sua quarta derrota eleitoral consecutiva, a mais dolorosa entre todas. Depois de falar de alternância no poder, talvez fosse o caso de falar em alternância de métodos, não é mesmo?
Imaginando que estavam diante de uma campanha próxima de um passeio, com uma adversária enfraquecida e sem maiores talentos oratórias, salvaram-se, por um triz, do vexame de ficar de fora do segundo turno.
A verdade é que não há salvação, numa democracia, fora do voto. Toda vez que se procura interferir na vontade do eleitor através de atalhos, o que se produz são situações de anormalidade democrática, onde o prejudicado é o cidadão.
Essas distorções oportunistas cobram um preço alto para a soberania popular. Não há almoço grátis — também na política.
O exercício de superpoderes políticos tem levado a Polícia Federal a se mobilizar para se transformar numa força autônoma, que escolhe seu diretor-geral que não presta contas a ninguém a não a ser a seus próprios quadros.
O melhor exemplo de uma organização capaz de funcionar dessa maneira foi o FBI norte-americano, nos tempos de John Edgar Hoover. Instalado durante longos 49 anos no comando da organização, Hoover colecionava dossiês, fazia chantagens e perseguições a políticos à direita e à esquerda. Agia por conta própria e também atendia pedidos que tinha interesse em atender — mas recusava aqueles que não lhe convinham. Era o chefe de uma pequena ditadura policial. Lembra de quem usava essa palavra?
Da mesma forma, os golpes midiáticos só podem ocorrer em países onde os meios de comunicação têm direito a atirar primeiro para perguntar depois, atingindo cidadãos e autoridades que não tem sequer o clássico direito de resposta para recompor as migalhas de uma reputação destruída pela invencionice e falta de escrúpulos. Não custa lembrar. Graças a um pedido de vistas providencial do ministro do STF Gilmar Mendes, VEJA deixou de cumprir um direito de resposta em função da publicação de “fato sabidamente inverídico.”
A imprensa erra e fabrica erros sem risco algum, o que só estimula uma postura arrogância e desprezo pelos direitos do eleitor. Imagine você que hoje, quando a própria revista admite que publicou uma denúncia que não pode provar, é possível encontrar colunistas que já falam em impeachment de Dilma.  Está na cara que eles já perderam a esperança de eleger Aécio.

Mas cabe respeitar o funcionamento da Justiça, o prazo de investigações e tudo mais. Ou vamos assumir desde já que o golpe midiático é golpe mesmo?
Com esse comportamento, a mídia brasileira prepara o caminho de sua destruição na forma que existe hoje.  Como se não bastassem os números vergonhosos do Manchetômetro, que demonstram uma postura parcial e tendenciosa, o golpe da semana só fará aumentar o número de cidadãos e de instituições convencidos de que a sobrevivência da democracia brasileira depende, entre outras coisas, que se cumpra a legislação que regula o funcionamento da mídia. Está claro que este será um debate urgente a partir de 2015.

Próximo presidente assume Brasil ‘rachado’ pelas urnas


Quem quer que seja eleito terá o difícil desafio de reconciliar o país. Brasil escolhe entre dois modelos de país quase opostos.

Qualquer que seja o resultado das urnas neste domingo, metade do país sairá insatisfeita. Desde 1989 o Brasil não via uma disputa tão acirrada pela presidência da República e, dificilmente, o vencedor destas eleições ganhará de ‘lavada’. Na véspera da votação, o Instituto Datafolha apresentava um empate técnico entre apresidenta Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves, que segundo o instituto chegam ao segundo turno com, respectivamente, 52% e 48% dos votos válidos.



Para o Partido dos Trabalhadores (PT), da candidata à reeleição, a oposição – amparada por parte da mídia tradicional – é a culpada por esse ‘racha’, devido à agressividade imputada na campanha. Já para o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do presidenciável da oposição, foram os petistas quem dividiram o país, ao apostarem em uma campanha inspirada na luta de classes, no discurso do “nós contra eles”. Nas redes sociais, o clima de 'fla-flu' eleitoral virou até piada, com eleitores combinando de se unirem para passar o Natal e o Réveillon após brigar de família por conta da política. É provável que as relações familiares e as amizades sobrevivam a 2014, mas afinal, como governar pelos próximos quatro anos em um cenário tão belicoso?
A oposição, com certeza, se fortaleceu nessa divisão
Maria do Socorro, cientista política
Não se via uma eleição tão aberta desde 1989, quando o entãosindicalista Luiz Inácio Lula da Silva(PT) disputou o Governo com o hojesenador alagoano Fernando Collor(à época, do nanico PRN). Na semana que antecedeu o segundo turno, Collor tinha 46% das intenções dos votos válidos contra 45% atribuídos a Lula, segundo o Datafolha. Nas urnas, o resultado não foi muito diferente: Collor foi eleito com 53% dos votos, enquanto o metalúrgico deixou as urnas derrotado, embora tenha sido escolhido por 46%.
De lá pra cá, a conjuntura política mudou muito. Uma semelhança, porém, entre 1989 e 2014 é a insatisfação do eleitorado em relação à política como um todo. É comum ouvir eleitores relatando que estão optando por um ou outro candidato por “falta de opção” ou “para não deixar o outro ganhar”. Nesse clima de final de Brasileirão, para muitos, a expressão “se correr o bicho pega e se ficar o bicho come” nunca se encaixou tão bem em uma eleição como na deste ano. Não à toa, em 2010 e 2014, a candidata de terceira via, Marina Silva (atualmente no Partido Socialista Brasileiro), obteve cerca de 20% dos votos nos primeiros turnos.
É mais fácil o PSDB conseguir atrair essas alianças que o próprio PT manter esse apoio nos próximos quatro anos
Alberto Goldman, vice-presidente do PSDB
“O setor que hoje grita por mudanças é a classe média tradicional, que viu seu poder diminuir ao longo dos anos e são muito críticos às políticas sociais de distribuição de renda do país. Na visão deles, eles são os mais desprivilegiados por esse tipo de política, porque pagam muitos impostos, sustentam grande parte desses programas, mas não se utilizam desses serviços e ainda pagam por saúde e educação. Se soma à isso as denúncias de corrupção, os gastos com a Copa do Mundo, as manifestações de 2013 e a desaceleração da economia... Seja o vitorioso o PT ou o PSDB, eles vão ter que se debruçar para pensar em novas formas de fazer com que esse eleitor se sinta mais representado”, avalia a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).
Para ela, as próprias campanhas estimularam essa polarização. “Foi uma campanha marcada pela agressividade, embora pesquisa do Datafolha tenha apontado que a maioria do eleitorado (71%) reprovou essa postura. A consequência? Quem quer que pilote o Brasil até 2018 encontrará um caminho duro pela frente, principalmente no Congresso. Amparado pela insatisfação de quase metade do eleitorado, a oposição – que será conhecida também com o resultado das urnas –, chega mais forte. "A oposição, com certeza, se fortaleceu nessa divisão”, conclui.
A classe média alta e os ricos vão ter que se conformar que é preciso governar para os mais pobres sim
Emídio de Souza, presidente do PT-SP
“Essa divisão do país é fruto da campanha de ódio, preconceito e mentiras que a oposição fez, apoiada por parte da mídia, que tentou levar à uma separação entre ricos e pobres, nordestinos e paulistas. Mas (se a presidenta Dilma for reeleita) a classe média alta e os ricos vão ter que se conformar que é preciso governar para os mais pobres sim”, afirmou o presidente do PT paulista, Emídio de Souza, um dos coordenadores da campanha à reeleição.
É provável que as relações familiares e as amizades sobrevivam a 2014, mas afinal, como governar pelos próximos quatro anos em um cenário tão belicoso?
“O ‘racha’ no Brasil ocorre porque você tem uma parcela da população, no qual o PT se apoia, que é extremamente dependente do Estado. Eu acredito que, se a Dilma se reeleger, ela terá um governo bem mais difícil, porque a parcela do país que não depende do Estado está muito insatisfeita”, disse o ex-governador paulista Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB, que também coordena a campanha de Aécio.

Diálogo conciliatório com o Congresso
Apesar de petistas e tucanos reconhecerem que o país sai dividido das urnas, ambos acreditam ter em mãos os ingredientes necessários para trazer a conciliação ao país. Para Goldman, o PSDB tem mais chances de compor maioria no Congresso Nacional – embora hoje a maioria esteja com Dilma –, devido à “fragilidade ideológica” das alianças firmadas pelo partido adversário – em uma referência velada ao PMDB, partido do vice-presidente e candidato à reeleição Michel Temer, que conta com um forte segmento pró-tucano no Sudeste.
“No Congresso, o PSDB teria mais facilidade. Porque as alianças do PT são frágeis do ponto de vista ideológicos. Não existe uma aliança por ideologia hoje É mais fácil o PSDB conseguir atrair essas alianças que o próprio PT manter esse apoio nos próximos quatro anos”, afirma Goldman.
Já para o líder do PT em São Paulo, a divisão nacional é um processo “absolutamente comum” das democracias fortalecidas. Entretanto, 2014 demonstra a urgência de levar ao Congresso – que saiu das urnas bem mais conservador –, a proposta de uma reforma política."


De 1989 a 2014

Se por um lado a eleição de 1989 foi extremamente polarizada, nas eleições seguintes a situação foi bem diferente. Fernando Henrique Cardoso, correligionário de Aécio Neves, ganhou com folga no primeiro turno: em 1994 o tucano obteve 54% dos votos válidos e, em 1998, foi eleito por 53% da população, confirmando as sondagens dos institutos de pesquisa.
Em 2002 e 2006, foi a vez de Lula chegar ao poder. Em ambas as eleições, a disputa foi a segundo turno contra os tucanos José Serra (2002) e Geraldo Alckmin (2006), mas o ex-presidente ganhou com relativo conforto: 61% contra 38%, na primeira eleição que o levou à presidência, e 60% contra 39%, no pleito seguinte.
Mesmo Dilma enfrentou uma disputa mais “fácil”, do ponto de vista numérico, em sua primeira disputa: a ex-ministra-chefe da Casa Civil foi eleita com apoio de 56% da população, enquanto Serra obteve 43,9% dos votos válidos – números que também estavam em sintonia com as pesquisas das vésperas.