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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Que tiro no pé hein...Estácio de Sá (Por Thiago Muniz)

Antes de começar essa coluna, quero deixar bem claro a gratidão que eu devo a Universidade Estácio de Sá, tanto como profissional, pois eu trabalhei lá e deixei grandes colegas e alguns amigos que levo até hoje. E como aluno, pois sem ela eu não teria o meu diploma de ensino superior.

Pois bem...

Mas as épocas eram outras. Eu trabalhei no Recursos Humanos da Estácio durante 2 anos, entre 2005 a 2007. Nesse último ano, a empresa estava se preparando para abrir capital no mercado financeiro, se estruturando para se tornar uma S/A. Não sei detalhes técnicos pois não é minha especialidade, só sei que era isso que aconteceu de fato. Houve até uma auditoria para analisar e redesenhar todos os processos internos da empresa, procedimento que toda uma empresa de porte grande privada está sujeita a acontecer.

Pois é...

Ao final do ano de 2007, por um provável consenso entre dos conselheiros superiores da empresa, foi ordenado a demissão em massa na empresa. Eu fui um deles.

Recebi a carta de demissão, assinei, fiquei chateado obviamente, mas antes de ir embora em definitivo o meu gerente se despediu de mim e pediu para que eu comparecesse numa reunião em janeiro de 2008 em que o patrono da empresa (in memoriam) faria com os demitidos, quem quisesse comparecer pois era facultativo. Fiquei bastante curioso nesta reunião e resolvi ir; afinal nunca tinha visto ele, era para mim quase que uma lenda, tipo uma mula sem cabeça dono de uma empresa.

Pois bem...

Resolvi comparecer a reunião, encontrei com o meu (ex) gerente, ele agradeceu por eu ter comparecido e eu sentei para aguardar. Não sei exatamente o total de demitidos mas acredito que nem 1/3 dos demitidos compareceram. Depois de uns 20 minutos após a hora marcada, o patrono entra na sala, bem quieto e se juntou na frente de todos para falar. Explicou desde a fundação da Estácio até os momentos em que a empresa estava passando. E ao final garantiu que todos os desligados seriam readmitidos da empresa durante o ano de 2008. Sinceramente as palavras dele não me comoveram, teve pessoas que até o aplaudiram; mas um fato eu fiquei surpreso. Antes de ir embora o meu (ex) gerente me pediu para aguardar uma ligação em fevereiro.

Pois é...

Recebi uma ligação do RH em fevereiro, conforme o meu (ex) gerente prometeu, me perguntou se eu tinha interesse numa possível volta a empresa. Como eu ainda não tinha terminado a faculdade, optei que sim e fui para uma entrevista numa das unidades acadêmicas, na época era a unidade Nova América, localizada dentro do shopping de mesmo nome. Fui bem recebido pelo gerente administrativo, tivemos uma conversa ótima, ele não escondeu as realidades que a filial estava passando (inclusive o salário menor que eu tinha, óbvio!) e mesmo assim aceitei o desafio. Era um horário em que daria para me dedicar mais aos estudos, conciliou que eu pudesse fazer mais disciplinas e consegui terminar a faculdade antes da minha previsão. Lá também deixei grandes colegas e alguns amigos que levo até hoje.

Pois bem...

Contou, relatou, e daí?

Quero explicar que o capitalismo é agressivo e cruel, mas as tomadas de decisões não podem ser feitas através de resultados e metas em planilhas sem contar com o aspecto humano, pois são as pessoas que movem a engrenagem das empresas, a mecatrônica está substituindo cada vez mais funções em detrimento dos humanos, talvez daqui a umas décadas a inteligência artificial assuma tomadas de decisões, o que na minha opinião será o caos mundial.

Pois é...

A Estácio em âmbito nacional, demitiu de maneira inadvertida, aproximadamente 1.200 professores, cerca de 12% de todo seu corpo docente, em favor da nova Reforma Trabalhista é um desastre sem tamanho. Foram centenas de profissionais competentes, dedicados e muito qualificados, que foram dispensados da forma mais cruel possível. Essa Reforma Trabalhista é uma semi-escravidão institucionalizada, praticamente o Congresso Nacional rasgou a Consolidação das Leis Trabalhistas. Isso está sendo inadmissível, uma afronta contra os direitos trabalhistas; e o que a sociedade faz? Nada! A sociedade está anestesiada, me dá a impressão que está chancelando todas as reformas que estão prejudicando a nós mesmos.

Pois bem...

Não estou surpreso com a quantidade de amigos que estão sendo DEMITIDOS nesta reta final de ano. Parabéns aos paneleiros e depreciadores da democracia, a Reforma Trabalhista ainda poderá bater na sua porta.

Pois é... Universidade Estácio de Sá.

Pelo menos na minha época o patrono (in memoriam) deu a cara a tapa, como empresário ele não tinha a menor obrigação de fazer aquilo, correria o risco até de tomar uns tapas, mas saiu aplaudido. Desta vez com a variação de resultados, planilhas, metas, Kpi´s, atribuições; acredito que até o telegrama de desligamento foi suspenso por contenção de despesas. Na minha época eu recebi todas as verbas rescisórias e FGTS sem problemas. Desta vez não podemos garantir aos atuais desligados.

Pois bem... Universidade Estácio de Sá.

De acordo com nota da assessoria de imprensa da companhia, "todos os profissionais que vierem a integrar o quadro da Estácio serão contratados pelo regime CLT, conforme é padrão no grupo". A nova lei trabalhista formalizou o trabalho intermitente, permitindo que as empresas criem um banco de funcionários que podem ser acionados quando houver demanda.

Pois é... Universidade Estácio de Sá.

Que tiro no pé hein...





























BIO


Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama Tricolor, Eliane de Lacerda, blog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.





sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O Rio de Janeiro tomado pela violência (Por Thiago Muniz)

"Os verdadeiros traficantes estão no Congresso Nacional atuando para atrasar o avanço de leis e pautas que possam de fato interromper o fluxo financeiro que o tráfico de drogas gera! Os milhões de dólares de receita econômica que recebem sem pagar um centavo qualquer ao Estado. Lavando dinheiro em bancos, em igrejas, em todo tipo de instituição legal. Tendo seus aviões e helicópteros com pasta de cocaína presos diante do cinismo de uma sociedade que se recusa a debater de forma honesta a questão da regulamentação das drogas." (Tico Santa Cruz)

"O "caos" em questão não é a instauração de um governo ilegal e brutalizado saído dos porões das casernas. Ao que parece, "caos" seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?" (Vladimir Saflate)

O Rio de Janeiro está jogado as moscas. A violência toma conta da cidade; assaltos, latrocínios, arrastões, tiros, guerra de facções. O que mais precisa pra detectarmos que estamos numa guerra civil?

A preocupação da imprensa e governo é com o Leblon ou com o morador da Rocinha? Essa histeria busca a melhoria de vida do morador da favela ou é você que não vai poder ir no Rock in Rio?

Por isso que quando pega um morro próximo a Zona Sul, se alardeia todo esse processo que estamos vendo. Só ganha visibilidade quando chega perto dos mais ricos.

Quando é Zona Sul é o CAOS.
Quando é Subúrbio é uma DOCE ROTINA.

"Operação Inteligente", é avisar os bandidos cada passo da invasão policial com transmissão ao vivo no Globocop.

Essa guerra na Rocinha por exemplo está apenas descortinando quão hipócrita é boa parte de nossa sociedade. Vários mortos, alguns queimados vivos, moradores baleados, moradores tendo seus carros roubados, casas invadidas, tendo seus bens destruídos Mas... ninguém, absolutamente ninguém fala nada.

Onde estão os demagogos para fazerem grandes textos nas redes sociais? Os problemas são muito profundos para serem tratados de forma simplificada e com discursos rasos que são adotados por figuras midiáticas e populistas, com seus jargões que na prática não oferecem nenhuma real condição de estabelecer uma ordem social e econômica para a questão da violência.

Onde estão as manifestações, ônibus queimados, moradores desocupados pedindo justiça?

Onde está aquele advogado de porta de cadeia que só aparece se a vítima for morta por agentes do estado? Onde ele está, para ajudar as famílias dos mortos nessa guerra?

Onde estão os policiólogos, sociólogos, maconhólogos com suas teses cretinas e estapafúrdias, falando daquilo que não sabe e não conhece?

Agora vemos todos atônitos verem mais de 60 vagabundos armados de fuzis patrulhando as ruas da favela, um absurdo! Mas quando colocaram alguém lá que barrou essa putaria, armaram para ele é o tiraram de lá! Agora paguem o preço! E aguardem que vai ficar pior, em breve quando eles vierem para o asfalto! Quem sobreviver, verá!

Tem que acabar com essa entrada imoral e ilegal de fuzis, enquanto esse esquema imundo das forças policiais, forças armadas e política continuar o ciclo vicioso da violência e venda de drogas continuará, não mudará. Nossas fronteiras não estão sendo cuidadas, nosso litoral também não. Entram toneladas de armamento todos os dias com anuência desse mesmo Estado que falido, não consegue dar conta do básico.

A ameaça a soberania do país não vem mais de nações vizinhas e sim do tráfico e do crime organizado que impõem a população leis e decisões que não pertencem a Constituição do Brasil. O problema não é o Estado como Estado, e sim os grupos que tomam o poder desse Estado para usarem em benefício próprio. Lembrando, muitos deles a serviço das empresas privadas.

O tráfico na favela é a senzala armada, os bois de piranha dos verdadeiros nocivos da sociedade. O verdadeiro traficante não está na favela! Ali estão os soldados, os descartáveis, os que morrerão e serão trocados por outros, numa fila interminável.

Vários fatores são responsáveis por esse quadro no Brasil, a violência está completamente ligada com a desigualdade social, que por sua vez é mantida pela falta de investimentos públicos reais em educação, que por sua vez colocam jovens em situação de vulnerabilidade e falta de oportunidades para conseguir empregos, que por sua vez num país arruinado por uma crise política onde aqueles que deveriam estar trabalhando para nós, estão trabalhando para salvarem suas próprias peles!

O Rio de Janeiro está em guerra sim, mas sempre esteve... E infelizmente quem também acaba sofrendo sempre com essa guerra são os mais pobres, a periferia e a favela!













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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama Tricolor, Eliane de Lacerda, blog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vergonha (Por Thiago Muniz)

Nasci no Brasil. Um país onde não se respeita ninguém.

Tenho VERGONHA.

VERGONHA de assistir uma luta de classes; onde uma classe engoliu a seco durante um certo período de tempo a ascensão da outra classe menos favorecida durante décadas e na primeira oportunidade vestiu uma camisa amarela com as iniciais de uma instituição esportiva corrupta ao lado de um pato chancelado por uma federação esdrúxula das indústrias com um movimento jovem capitaneado por 2 irmãos magnatas norte-americanos.

VERGONHA de conviver numa sociedade hipócrita que comemora a prisão de um político onde foi condenado sem provas cabíveis, numa clara condenação política.

VERGONHA de ver que a política não respeita o patrimônio público, onde se empodera do bem social. Onde a verba pública é esticada aos bens pessoais.

VERGONHA do único país do mundo que tem nome de árvore e que não defende os recursos naturais.
VERGONHA de assistir a um Congresso onde pode ser comparada a uma grande bancada varejista, onde se apóia quem ofereça mais. Onde se legisla a causa própria. Um Congresso onde não se respeita nem os seus próprios eleitores e se gabam por possuírem o tal foro privilegiado.

VERGONHA de ser contribuinte de um Judiciário pagão, onde os interesses políticos subtraem ao interesse social e ao cumprimento claro da justiça.

VERGONHA de conviver com uma Polícia que foi criada para defender aos interesses do Estado e não em prol da sociedade, não que ela mereça, mas não é o correto.

VERGONHA de assistir a degradação educacional de um país onde não respeita e espanca os seus próprios professores. Onde se provoca a alienação educacional e cultural contra a evolução de uma população.

VERGONHA de ver uma sociedade idolatrando um juiz "parcial e partidário" como o "Justiceiro da República" culminando na condenação de uma pessoa sem provas mas com convicções.

VERGONHA de ver que a cultura escravagista continua fortemente enraizada, principalmente nas áreas onde o coronelismo é progressivo. No mesmo coronelismo onde se cria leis próprias e o voto de cabresto.

VERGONHA de assistir a cultura do estupro em favor do machismo absoluto.

VERGONHA de presenciar o crescimento de uma classe que se promulga como religiosa mas na prática é uma classe de poder, com plano de poder.

VERGONHA de ser testemunha de uma classe estatutária federal ser extremamente ingrata com quem lhes concedeu benefícios, depois de anos defasada.

VERGONHA de um país que mais executa pessoas em zona urbana do que em conflitos pelo mundo.

VERGONHA de ter presenciado a uma classe política indignada com um resultado legítimo de uma eleição e simplesmente provocar o caos no país, a tal ponto de impedir o mandato de uma presidente em pleno exercício de seu poder.

VERGONHA de ver uma sociedade hipócrita onde olha para uma pessoa negra e julga como suspeito para algo errado.

VERGONHA de ver uma reforma trabalhista, onde a Consolidação das Leis Trabalhistas sendo dilacerada em favor do empresariado, onde se deveria fazer uma reforma tributária.

VERGONHA de ver uma sociedade Anestesiada e Complacente.

VERGONHA de ver que a Prisão Domiciliar só é concedida para quem possui uma extensa conta bancária privilegiada como cortesia jurídica.

VERGONHA de ver a Ignorância e a Intolerância reinando plenas dentro do país.

VERGONHA de assistir a tamanha falta de argumentos numa roda de debates e conversas.

VERGONHA de presenciar o preconceito descarado do Sul com relação ao Norte.

VERGONHA de sentir VERGONHA.

Enfim...VERGONHA!

Tenho mais VERGONHA por ter a consciência de que não tenho perspectivas de grandes mudanças.











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Thiago Muniz é roteirista, colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama Tricolor, Eliane de Lacerda, blog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




sexta-feira, 17 de março de 2017

A face do direitista envergonhado (Por Thiago Muniz)

Existe uma fissura na direita brasileira que está aparecendo: Os direitistas iludidos X os direitistas canalhas.

Os direitistas iludidos, são aqueles que - de boa fé, mas com péssimas fontes de informação - acabaram verdadeiramente pensando que o caminho certo era o impeachment e que isso resolveria o os problemas do Brasil. Para os direitistas iludidos a ficha está começando a cair e a vergonha é muito grande que assola em suas vidas.

O segundo grupo é o que produziu as notícias para aliciar os primeiros. São os políticos calhordas e a nova geração de calhordinhas que está entrando na esteira da "calhordocracia" que está instalada no Brasil desde as capitanias Hereditárias.

Outro componente que ajuda a explicar a vergonha de ser de direita é a culpa, afinal, o Brasil é um país desigual e capitalizar sobre esta desigualdade é a especialidade de alguns políticos. Hoje, o investimento dos pais na educação dos filhos é algo que o Estado busca punir, por exemplo. Se não consegue melhorar a educação pública, se esforça para reduzir as oportunidades dos filhinhos de papai. E os filhinhos de papai se sentem culpados.

A direita tem um grande e poderoso aparato de convencimento que inclui os meios de comunicação de massa que, desinformam e omitem tudo que não lhes é conveniente e informam aquilo que convém à elite. Grande parte das pessoas não é culta e politizada o suficiente para entender que os grandes canais de TV, jornais e revistas agem como partidos políticos com a intenção de defender os interesses econômicos e políticos da classe social à qual pertencem e da qual desejam ter o seu representante a conduzir os destinos do país. O comodismo da classe trabalhadora é outro fator que constitui grande obstáculo para o avanço das ideologias de esquerda de forma tal que Lênin afirmou ser a classe proletária portadora de vocação reformista e não revolucionária, sendo dessa forma necessária uma vanguarda revolucionária, ou seja, um grupo de intelectuais para conduzir os trabalhadores no rumo da revolução.

Em tempos normais, quando o sujeito diz que não existe nem direita, nem esquerda, que tudo isso deixou de fazer sentido depois da queda do muro de Berlim, e que não se prende a rótulos, blábláblá, todos nós sabemos: ele é de direita, mas está com vergonha de dizer.

Em tempos de eleições, é a mesma coisa, mas a pessoa inova.

Quando a gente pergunta em quem ela vai votar, se sai com essa: "o voto é secreto".

Mas a vergonha continua pública.















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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O linchamento dos linchadores da sociedade (Por Thiago Muniz)

Contra linchadores, estimula-se o linchamento

Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido torna ser opressor. Isso não é vontade de justiça e sim de vingança.

Uma parte significativa da imprensa e de páginas de facebook passam a divulgar, à exaustão, os nomes e as fotos dos suspeitos, que são identificados, presos e levados ao distrito policial sob a lente de inúmeras câmeras que mostram o rosto de “monstros”, desumanizados na sua essência, para o trepidar das tochas inquisidores continuarem a esquentar a indignação de um povo, que jamais terá seu desejo de vingança saciado, pois insaciável é.

Expor, incitar, desumanizar são ações típicas do linchamento, justamente a prática que vitimou o Índio Luis Ruas. O ciclo continua e o ditado com ferro fere, com ferro será ferido é adaptado para com linchamento fere, com linchamento será ferido.

Os reflexos dessa postura se não evoluírem para um linchamento físico e morte dos acusados, certamente já terão prejudicado o direito a um julgamento justo, ante a pressão pela condenação na forma mais rigorosa e lícita possível (ou não, quem se importa com isso?). O clamor e a ocasião são os combustíveis mais potentes para a sanha punitivista encontrar seu caminho de volta para o ciclo de linchamento.

Ou seja, se uma notícia não observa o direito a um julgamento justo, e portanto cega também em relação à Constituição, essa mesma notícia tem o condão somente de brutalizar cidadãos que podem ser inocentes, ou ainda que não sejam, merecem como qualquer pessoa o direito a um julgamento justo, imparcial e distante do clamor público.

A presunção de inocência e o devido processo legal, bem como demais garantias constitucionais como a preservação de seus nomes e imagens, além de sua própria integridade física e moral são completamente inobservados por meios de comunicação que deveriam ter responsabilidade ao noticiar um fato grave como o reportado até então.

Não se pode perder de vista que o suspeito é a parte mais vulnerável e frágil desta relação toda na medida em que ela será submetida a um processo penal que nada mais é que o próprio Estado investigando, acusando-o e por que não o condenando à prisão.

A rigor, o Estado de direito não comporta esses tipo de excesso. Aliás, como o próprio excesso pode significar essa atitude é digna de um verdadeiro Estado de exceção. Tudo em prol de um desejo coletivo de vingança.









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sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel Castro, o revolucionário (Por Thiago Muniz)

"Hoje milhões de crianças dormirão na rua, nenhuma delas é cubana." (Fidel Castro)

"Fidel morreu, paz à sua alma. Mas não morreu um humanista ou um democrata, ou sequer um grande estadista, a menos que queiramos considerar dessa forma qualquer vulgar ditador.”
(Crónica de Henrique Monteiro, no dia em que Fidel Castro morreu, aos 90 anos)

Hasta siempre comandante!

Ele foi o herói da minha geração de latino-americanos: tanto como líder de revolução, quanto como líder da resistência às forças dos Estados Unidos, e sobretudo como líder de um governo comprometido com a justiça social, sem perder o vigor transformador.

Aliados e adversários concordam que ele foi um dos raríssimos latino-americanos que ficarão na história da humanidade.

Ele foi o herói da minha geração de latino-americanos: tanto como líder de revolução, quanto como líder da resistência às forças dos Estados Unidos, e sobretudo como líder de um governo comprometido com a justiça social, sem perder o vigor transformador.

Líder autoritário ou simplesmente um tirano para meia humanidade, lenda revolucionária e flagelo do “imperialismo ianque” para os mais despossuídos e para a esquerda militante, Fidel Castro era o último sobrevivente da Guerra Fria e certamente o ator político do século XX que mais manchetes de jornal acumulou ao longo de seus 47 anos de domínio absoluto em Cuba, um poder caudilhista que começou no dia 1º. de janeiro de 1959, após derrotar pelas armas o regime de Batista.

Um de seus bons amigos, o prêmio Nobel colombiano Gabriel García Márquez, escreveu certa vez sobre ele que “sua devoção pela palavra” era “quase mágica”. “Três horas são para ele uma boa média para uma conversa comum. E, de três horas em três horas, os dias passam para ele como sopros”, afirmou Gabo. A descrição parece exagerada, mas não é, nem de longe. Qualquer político estrangeiro que tenha tratado com ele pode testemunhar isso, para não falarmos dos milhões cubanos, de qualquer idade, que precisaram deveram dedicar milhares ou dezenas de milhares de horas da sua vida a escutar os discursos e arengas do comandante.

Ditador irresponsável para muitos, último revolucionário do século XX para seus admiradores do Terceiro Mundo, fazia tempo que Fidel não participava das decisões de governo, embora, por seu caráter de símbolo, tenha influído até o último momento nos rumos políticos do regime cubano, demarcando os limites que não deveriam ser ultrapassados. Agora ele já não existe. E desta vez é de verdade.
























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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Foro Privilegiado: um dos grandes males do país (Por Thiago Muniz)

Foro privilegiado é um direito adquirido por algumas autoridades públicas, de acordo com o ordenamento jurídico brasileiro, garantindo que possam ter um julgamento especial e particular quando são alvos de processos penais.

Formalmente chamado de “Foro por prerrogativa de função”, o foro privilegiado é atribuído aos indivíduos que ocupam cargos de alta responsabilidade pública, como: Presidente da República, Vice-Presidente, o Procurador-Geral da República, os ministros e os membros do Congresso Nacional.

Conforme consta na Constituição Brasileira de 1988, a investigação e o julgamento das infrações penais das autoridades com foro privilegiado passa a ser competência do Supremo Tribunal Federal – STF. Normalmente, entre os indivíduos sem foro privilegiado, as ações penais costumam tramitar nos Juízos de primeira instância.

Existem críticas a respeito da eficiência do foro privilegiado no Brasil, pois seria um “privilégio” que afronta diretamente o artigo 5º da Constituição Federal.

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

No entanto, ao contrário do que muitas pessoas pensam, o intuito do foro privilegiado é proteger a atividade do cargo público (a chamada “coisa pública”) ocupado pela pessoa sob acusação penal, e não a pessoa em si.

O fim do foro privilegiado é garantido quando a pessoa sob determinada acusação penal deixa de assumir o cargo público que lhe garantia este privilégio. Neste caso, o seu julgamento não compete mais ao STF.

Estima-se que existem aproximadamente 22 mil pessoas com foro privilegiado no Brasil, um número considerado exagerado para os padrões mundiais, segundo alguns especialistas jurídicos.

É JUSTO EXISTIR O FORO PRIVILEGIADO?

O Brasil é um país que adota de forma ampla o foro privilegiado às suas autoridades, estendendo esta regra a milhares de agentes políticos. As ações penais originárias, propostas em Tribunais contra aqueles que detêm o privilégio de foro, são de uma ineficiência absoluta, e as estatísticas (regra geral, inexistentes) podem provar que as decisões de mérito não chegam a 5% dos casos. Estender o foro privilegiado a aposentados ou parlamentares não reeleitos é aumentar a falta de efetividade, sem qualquer justificativa teórica ou prática. Estender o foro privilegiado às ações por improbidade administrativa é passar a elas a falta de efetividade que caracteriza as ações penais. Reduzir a prerrogativa de foro aos crimes de responsabilidade, excluindo os crimes comuns e manter a competência da Justiça de primeira instância para os demais casos (aposentados, não reeleitos e acusados de improbidade administrativa) é dar um passo à frente para que o Poder Judiciário cumpra o seu papel de distribuir Justiça em tempo razoável.

Nunca se deu ─ e nem se dá ─ maior atenção às ações penais originárias no Brasil. O mundo acadêmico não se preocupa com os temas de política judiciária e administração da Justiça. Raríssimas são as dissertações de mestrado ou teses de doutorado. Todavia, agora a questão do foro privilegiado está na ordem do dia, tendo, inclusive, sido objeto de manifestação contrária da Associação dos Juízes Federais do Brasil – AJUFE, no dia 1º de junho passado. E não é sem razão, pois este é um dos maiores problemas da impunidade na esfera criminal.

No passado, o número de autoridades que gozavam do direito ao foro privilegiado era pequeno. Apenas para dar-se um exemplo, no início da década de setenta havia 33 Desembargadores no Tribunal de Justiça de São Paulo, enquanto hoje são 360. Calcula-se que, ao todo, o número de magistrados de segunda instância, incluindo todas as Justiças, aproxime-se de 1.300. Por outro lado, até 1988 os Prefeitos respondiam ações penais na primeira instância e, depois da Constituição, no Tribunal de Justiça. No âmbito do Ministério Público, para falar apenas do Federal, o número que era irrisório nos anos oitenta, atingiu agora centenas. Pois bem, todas estas autoridades e mais outras tantas (só juízes são cerca de 13.000) têm foro privilegiado. Não é, pois, de surpreender, que nos Tribunais existam denúncias desde fatos graves, como homicídio ou corrupção passiva, até as mais banais práticas contravencionais.

Entretanto, apesar da mudança e do acréscimo de ações penais originárias nos Tribunais, a estrutura destes continua a mesma, preparada apenas para receber recursos. O único Tribunal brasileiro que se adaptou ao novo modelo foi o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que criou uma Câmara especializada no julgamento de Prefeitos (4ª. Câmara Criminal). Os demais continuaram como antes, sem providência alguma, com funcionários que não tinham e ainda não têm a prática de processar uma ação penal, sem salas próprias para audiências e com dificuldades para as medidas mais corriqueiras, como o recolhimento de fiança.

Da mesma forma, Ministros e Desembargadores não estão habituados a interrogar réus, ouvir testemunhas e conduzir a prova. A complementar a ineficiência, a maioria das provas são produzidas por cartas de ordem, em locais distantes do julgamento. A própria investigação do crime é feita com maior dificuldade. No caso dos Juízes, por força da LC 35/79, art. 33, par. único, aquilo que deveria ser apenas uma apuração preliminar, tal qual um inquérito policial, torna-se um procedimento com contraditório, ora mais, ora menos, conforme entender o Relator.

Quando a autoridade investigada é um parlamentar ou um chefe do Poder Executivo, simplesmente não há previsão para a condução das investigações, como e quem deve fazê-las. Os Regimentos Internos dos Tribunais não costumam disciplinar o assunto. Mas, depois de concluída a apuração, a denúncia só pode ser recebida por órgão colegiado (Lei 8.038/90, art. 6º), o que motiva pedidos de vista que podem retardar o ato em meses ou anos. E uma vez instaurada a ação penal, entra-se em um emaranhado burocrático de delegação de colheita de provas, já que um Ministro ou Desembargador não costuma viajar e ouvir testemunhas em ouras cidades e, se o fizer, seus processos no Tribunal ficarão parados.

Mais poderia ser dito. Inclusive, da desdita por que passam os acusados inocentes, já que as ações penais não terminam. Mas um só fato é suficiente para dispensar maiores considerações. No Supremo Tribunal Federal, há muitos anos ninguém é condenado em ações penais originárias. Talvez o último réu condenado tenha sido o Deputado Francisco Pinto, da Bahia, que na década de setenta protestou contra a visita do General Augusto Pinochet ao Brasil. Preso por crime contra a segurança nacional, acabou condenado por crime contra a honra.

O mesmo sucede, regra geral, nos demais Tribunais, exceto em casos de maior simplicidade na apuração da prova. É necessário, contudo, registrar que esta ineficiência não pode ser atribuída aos Ministros ou Desembargadores, sabidamente envolvidos com milhares de processos a exigir-lhes dedicação absoluta. A falha é do sistema. Mas, por ser grave e por estar hoje mais do que nunca visível, precisa ser ressaltada.

Um país que pretende colocar-se entre as principais nações do planeta não pode arrastar a pecha da corrupção ou da ineficiência no seu combate (com grande colaboração das ações penais originárias). No ano de 2002, o Brasil colocou-se em 45º lugar no indicador anual de corrupção da “Transparência Internacional” (Gazeta Mercantil, 29.8.2002, A-12). Em 2006, todavia, na lista de 206 países pesquisados pelo Banco Mundial, caiu de posição assumindo o 106º lugar (O Estado de São Paulo, 16.9.2006, B8). Diante de tal quadro, merecem reflexão as seguintes medidas:

1) Restringir a competência por prerrogativa de função aos crimes de responsabilidade. Com efeito, ainda que seja compreensível levar um Juiz Federal a julgamento perante o Tribunal Regional Federal, pela prática de um crime de responsabilidade (p. ex., prevaricação), é absolutamente sem sentido que se proceda da mesma forma no caso de crime comum, como um acidente de trânsito que resulte em lesões corporais culposas. Restringindo a competência dos Tribunais aos crimes de responsabilidade, estar-se-ia dando maior importância aos Juízes de primeira instância e desobstruindo-se a pauta dos Tribunais, que ficariam com mais tempo para os casos de maior gravidade. Esta alteração dependeria de Emenda à Constituição.

2) Afastar-se a possibilidade de foro privilegiado para os agentes políticos aposentados ou sem mandato. Se a ação penal originária dos Tribunais já é exceção, a inclusão de aposentados nesta categoria é, ainda, mais excepcional. Inexistente em toda parte, dela só se tem notícia na Constituição da Colômbia, art. 174. Evidentemente, nada justifica este tratamento especial pois, se o foro privilegiado é uma forma de evitar acusações sem fundamento, por motivos pessoais (p. ex., ódio, inveja, divergências políticas), uma vez fora do cargo o agente político, nada justifica que se perpetue esta deferência. Imagine-se um Juiz de um Tribunal Regional do Trabalho que, por discussões envolvendo questões de vizinhança, sofra uma representação por crime de ameaça (Cód. Penal, art. 147) A adotar-se o foro privilegiado, responderá perante o Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.

3) Evitar o foro privilegiado para as ações de improbidade administrativa (Lei 8.429/92). Inexiste previsão constitucional para que se reconheça tal benefício às autoridades que gozam, na área criminal, de foro privilegiado. Mas os que são favoráveis a tal posição, argumentam que as autoridades não podem se ver expostas a ações precipitadas, por vezes propostas com finalidade política ou por sentimentos pessoais menos nobres. Realmente, este é um risco. Tal procedimento pode ocorrer e, regra geral, sem controle por parte das Corregedorias do Ministério Público. Em outras palavras, qualquer autoridade dos Poderes da República e do próprio Ministério Público podem ver-se envolvidas em uma ação civil pública que tramitará por 10 ou mais anos e que não pode ser trancada por uma instância superior. Mas, se esta é uma situação de risco, maior ainda será o estabelecimento de foro privilegiado para as ações de improbidade administrativa, posto que, em tal hipótese, elas não terão a menor previsibilidade de desfecho. Exatamente como as ações criminais originárias. O correto, então, será o próprio Ministério Público promover cursos de capacitação aos seus agentes, mostrando as conseqüências de uma ação proposta de forma impensada, bem como apurar faltas funcionais quando se evidencie abuso ou desvio de poder (o Conselho Nacional do Ministério Público tem um papel importante nesta busca de equilíbrio). Por outro lado, os Juízes de primeira instância precisam conscientizar-se da importância desses pedidos e evitar que se instaurem ações precipitadas, inclusive, se for o caso, indeferindo a inicial ou excluindo a parte no despacho saneador. Ainda, o art. 17, § 5º da Lei 8.429/92, que declara preventa a jurisdição para todas as outras ações eventualmente propostas, deve ser observado com rigor, a fim de evitar que o réu tenha que se defender em diferentes (e eventualmente distantes) comarcas. No entanto, o que não se justifica é acabar com este instrumento poderoso de controle dos atos administrativos, por um ou outro excesso que tenham ou venham a ser cometidos.

Não obstante suas profundas raízes históricas no constitucionalismo brasileiro, o foro especial por prerrogativa de função sofre críticas na doutrina e mesmo da parte de membros do Poder Judiciário. Um de seus mais veementes opositores tem sido o Ministro Luiz Roberto Barroso, que recentemente declarou à imprensa: “foro por prerrogativa de função é um desastre para o país, minha posição é extremamente contra. É um péssimo modelo brasileiro e estimula fraude de jurisdição, na qual, quando nós julgamos, o sujeito renuncia, ou quando o processo avança, ele se candidata e muda a jurisdição. O sistema é feito para não funcionar”.

O juiz federal Sérgio Moro, antes de comandar a Operação Lava Jato, expressou a posição de parcela do Poder Judiciário contrária ao foro privilegiado. Segundo Moro, “na avaliação da magistratura federal, o foro privilegiado é instrumento de impunidade. É um resquício aristocrático e acaba tornando o sistema penal ineficiente. (...) Os juízes federais, por meio da Ajufe, são absolutamente contra qualquer tentativa de ampliação do foro privilegiado. Se houvesse algum movimento no sentido de modificar o foro privilegiado, deveria ser no sentido ou de eliminá-lo ou de extingui-lo, mas jamais de ampliá-lo”.

Em conclusão, vê-se que o foro especial por prerrogativa de função é um instituto complexo que comporta tanto críticas quanto elogios. Concretamente, entretanto, constata-se que seus resultados tem sido sobretudo deletérios para o regime republicano, impedindo que as autoridades acusadas de delitos sejam responsabilizadas pelos seus atos de forma eficaz e a impunidade seja combatida. Cabe ao Congresso Nacional juntamente com o Supremo Tribunal Federal equacionar o problema, mediante a apresentação de propostas legislativas que reduzam o número de autoridades beneficiárias do foro especial e agilizem a tramitação dos processos nas altas instâncias judiciárias nacionais.

Foro Privilegiado é legislar em FAVOR PRÓPRIO.
















Fontes: OAB, STF, Câmara dos Deputados, Portal da Justiça



BIO

Thiago Muniz é colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do site Jornal Correio Eletrônico. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O enigma da classe média no Brasil (Por Thiago Muniz)

"Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.

– É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Esse caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior – tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria essa confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como se fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável...
" (Luiz Fernando Veríssimo)

O brasileiro classe média, ano-base 2013, tem um pet. Não um gato, não um cachorro. Um pet. O brasileiro classe média puxa conversa sobre o pet com donos de outros pets: "Dois dão o mesmo trabalho que um. Só gasto mais em ração". Esse é um momento importante na vida do brasileiro classe média, pois pressupõe uma interação social que se desenvolve na calçada, ainda que estimulada pelas necessidades fisiológicas do pet. O brasileiro classe média quase nunca é visto na calçada, salvo quando entra e sai de seu carro.

O brasileiro classe média vai para a academia de carro. O brasileiro classe média tem um carro com insulfilme, "dá mais segurança, não se consegue ver direito quem tá dentro", pois bandidos costumam roubar carros com uma pessoa, mas não com duas, preferem carecas aos homens de bigode, e jamais se meteriam com alguém vestindo uma camisa havaiana. O brasileiro classe média pode ter um rosário pendurado no retrovisor do carro, mas ninguém lá do Céu emitiu uma opinião muito clara sobre ser errado usar a vaga do deficiente físico quando se está com pressa e parece muito complicado encontrar lugares nessa droga de estacionamento. O brasileiro classe média fura o sinal no domingo à tarde porque "não tá vindo ninguém".

O brasileiro classe média acredita em bairro planejado, brigadeiro gourmet e bufê-de-saladas-pratos-quentes-sushi-churrasco-ilha-de-massas-por-R$ 42,90. O brasileiro classe média nunca nega os caramelos e amendoins que a companhia aérea lhe oferece. Durante o voo, o brasileiro classe média não lê, dorme. Em solo estrangeiro, será reconhecido menos pelos maus modos do que pelos ostentosos e deslocados tênis de corrida, os quais, a seus olhos de brasileiro classe média, parecem adequados para qualquer ocasião.

O brasileiro classe média não faz, compra pronto. O brasileiro classe média não recebe em casa, mas no salão de festas do condomínio. A mulher brasileira classe média tem cabelo longo, liso e loiro. Ela é casada com o cara que gosta muito de camisas de times de polo e se acha 20 anos mais jovem do que realmente é (às vezes pelo simples fato de estar usando tênis de corrida). A mulher brasileira classe média vai ao salão fazer as unhas, ou chama a manicure em casa. E as manicures são obviamente as novas empregadas domésticas.

O brasileiro classe média pedindo pão no supermercado: "Me dá cinco. Bem clarinhos". O brasileiro classe média flagrado enquanto conduzia em alta velocidade: "Essa indústria da multa, vou te contar". O brasileiro classe média atendendo ao celular no meio do filme: "Alô? Tô no cinema! Me liga depois!" Senhoras e senhores, é muita jequice.

Vejamos: até o final de 2001, o Brasil estava acostumado com uma pirâmide social que segregava de direitos e oportunidades milhares de cidadãos. Frequentar restaurantes e cinemas não estavam previstos nos acordos coletivos destes brasileiros. Serviços como salões de beleza, petshops e celular eram observados com frequência apenas nas cenas das novelas globais, nas quais o mordomo fala mais de uma língua e sabe usar com muita desenvoltura o “hashi”.

Estes brasileiros sempre sonharam com a possibilidade de ascensão social, mas não uma ascensão que segrega seus vizinhos. Sonhavam com tempos melhores onde ele e sua família pudessem absorver um pouco daquilo que apenas os “mais abastados” estavam habituados: jantar em restaurantes, churrascarias, temakerias, sorveterias, caminhar com os seus “pet’s” pelos parques e calçadas das cidades sem constrangimento.

Comentar com os colegas sobre a peça nova que assistiu no Teatro ou mesmo sobre o filme que aguçou os comentários dos críticos de cinema viraram realidade neste Brasil com “data base 2013”. Mas o brasileiro desta nova e “emergente” classe média ousou ainda mais. Ousou em disputar espaços em aviões viajando com a sua família para destinos onde o português não é utilizado e as camisetas de clubes que circundam as ruas não são as do Internacional, do Grêmio ou de outros clubes, mas sim do “Bulls, Celtics, Yankes, Red Sox, etc…”.

O brasileiro classe média “data base 2013” deixou de ir no parque de diversões da sua vila, para frequentar a “Disney”, às vezes até indo com os pacotes da “Tia Iara” que ainda hoje continua parcelando no cartão de crédito as passagens dos filhos deste novo Brasil assim como fazia com os da “classe média com data base até 2010”.

Só que o que estes brasileiros da “nova classe média” não esperavam ter de lidar com velhos hábitos e preconceitos da velha classe média brasileira, incomodada por ter que dividir espaços antes “exclusivos” com estes moradores periféricos que vão à shoppings com tênis de caminhada e/ou ginástica e frequentam suas academias.

Há poucos anos, outro jornalista desta mesma empresa destilava todo o seu rancor com esta nova classe média brasileira acusando-os de serem os responsáveis pelos crescentes engarrafamentos das grandes cidades, neste caso a cidade era Florianópolis, tendo em vista que, segundo palavras do comentarista local, “agora todo o pobre tem o seu carro e divide as ruas das cidades com seu símbolo de ascensão social”.

Mas a velha classe média brasileira ainda pode se vangloriar e considerar-se exclusiva numa coisa: o “brasileiro data base 2013” não veem com o preconceito social incluso de fábrica.





















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Thiago Muniz é colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do site Jornal Correio Eletrônico. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




sexta-feira, 27 de maio de 2016

A cultura do Estupro (Por Thiago Muniz)

A cultura da normalidade num Estupro é simplesmente Nojenta e Obtusa.

Pior que uma pessoa que comete o estupro é a sociedade inverter os valores e achar normal o ato. 

Retrocesso!

Só para colocarmos os pingos nos I´s: ESTUPRO É CRIME!

Mulher não é objeto! Basta respeitar!

Cada um que faça o que quiser com as suas escolhas de vida, desde que se respeite e respeite ao próximo. O problema é justamente esse, NÃO há mais RESPEITO na sociedade e existe muita HIPOCRISIA entre os grupos que formam a sociedade. A verdade é que há a choque da cultura do machismo com a expansão feminina, há o conflito da inversão de valores em que um quer dominar mais que o outro. Enquanto uma classe quiser dominar a outra não existirá o RESPEITO.

#‎Estupro‬ é crime. Veicular imagens dele também. Se você recebe uma dessas imagens e vê, justificando que é só curiosidade, está sendo cúmplice.

Há uma tendência asquerosa em todo caso onde a vitima é uma mulher ou um mesmo um gay, travesti ou trans, a colocar a culpa na vitima. A dizer que de alguma maneira ela "provocou".

Isso é ensinado desde cedo, desde que uma garota com saia curta atrai alguém e sofre estupro. Dizem que é a forma dela se vestir, de se comportar.

A culpa nunca é da vítima. O estupro é crime. Mas acontece todos os dias no país. É preciso lutar contra ele. Os homens tem que tomar consciência.

As vítimas tem que denunciar. Os culpados presos. Não podemos mais admitir esse crime.

Uma garota de 16 anos! São monstros os que a estupraram.

Como é que ainda acontece esse tipo de crime?

Estupro coletivo, com vídeo da barbaridade pra "tirar onda" era o que faltava na nossa imensa lista de horrores e selvageria?

Na cidade onde tudo pode, no país onde nada vale, quais atrocidades ainda vão surgir para revirar nossos estômagos?

Não bastavam as epidemias, as insalubridades, o hiperbólico desvalor da vida, a gigantesca ignorância pátria e tudo, tudo mais?

VERGONHA ! VERGONHA! VERGONHA ! NOJO! NOJO! NOJO!

O quarto mundo é aqui!

Aqui nunca será lugar nenhum! Vamos sempre correr céleres em direção ao nosso imenso atraso, deitados eternamente no berço dos nossos esplêndidos fracassos.

Ninguém educa um filho para ser um estuprador, mas criamos meninos imbuídos de um sentimento de superioridade em relação às mulheres. Não atentamos para aquilo que cotidianamente pode transforma-los em pessoas que praticam ou compactuam com a violência contra a mulher. Esses detalhes do dia a dia também reforçam nosso hábito de culpar a vítima: a saia curta, o batom vermelho, o decote. 

O estupro é a expressão mais radical e mais dramática desse sentimento de superioridade.

Como se ainda restasse alguma dúvida, como se tudo não estivesse fartamente comprovado, surge mais um vídeo. E todo mundo que relativizou o estupro, que criminalizou a vítima, que usou os argumentos mais imundos para diminuir o óbvio, agora vai ficar caladinho e fazer a egípcia.

A minha vontade é marcar um por um no post e dizer: e agora, fulano, beltrana, siclano: vocês vão admitir que estão errados ou vão continuar inventando gambiarra pra condenar a vítima por ser pobre, mulher e 'afrontar a moral e os bons costumes?









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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

12 Romances que explicam o BRASIL (Por Thiago Muniz)

"O Brasil não é para principiantes", costumam dizer (cada vez mais). Entender as identidades que atravessam o país diz respeito, mesmo para quem vive nele, a um exercício constante de leitura, pesquisa e, sobretudo, empatia pelo lugar de memória do outro. A literatura brasileira, como todas as demais produzidas nas demais nações, é documento essencial para buscar pistas do material afetivo que nos forma. Buscamos aqui trechos de romances que, de alguma forma, possam ser coletados por antropólogos do futuro, ou desavisados do presente, e usados como provas de que, verdade, este país não é para principiantes e nunca conseguirá ser reduzido à rivalidade de uma partida de futebol. Como também não será reduzido aos trechos ou romances abaixo, lançamos apenas a faísca, tal como Debret o fez em sua famosa tela,"

O jantar, na imagem abaixo.











"Quando percebi que nem São Benedito, nem o arco-íris, nem as cruzes não faziam eu virar homem, fui me resignando e conformando: eu deveria ser sempre mulher. Mas mesmo semiconformada, eu invejava o meu irmão que era homem. E o meu irmão me invejava por eu ser mulher. Dizia que a vida das mulheres é menos sacrificada. Não necessita levantar cedo para ir trabalhar. Mulher ganha dinheiro deitada na cama. Eu ia correndo deitar na cama de minha mãe, pensando no dinheiro que ia ganhar para comprar pé-de-moleque. Depois levantava, desfazia a cama com ansiedade, procurando o dinheiro.Quando a minha mãe via a cama desfeita, dirigia-me um olhar duro, e perguntava:
– O que está fazendo, cadela?

– Estou procurando o dinheiro, o Jerônimo disse-me que as mulheres ganham dinheiro na cama, eu deitei e vou ver quanto é que ganhei. Quero comprar doces. 

Apanhava."

Diário de Bitita, Carolina Maria de Jesus


"Marisol, Daniel e Rodriguinho eram os únicos cocotas que andavam juntos. Insistiam em tatuar o corpo, andar com calça abaixo da cintura e cabelos encaracolados mesmo com a onda dos cocotas chegando ao fim; a coisa agora era a discoteca. Eles não entraram na guerra, preocupavam-se somente com os assaltos e para isso arrumaram vários tipos de chave de fenda, alicates, pé de cabra, serrote, facas, pistolas, para facilitar o arrombamento de casas e automóveis. Colocavam as ferramentas e armas dentro de uma capa dura de violão e saíam para os assaltos como se estivessem indo a uma festa.

O negócio deu certo porque eram brancos, não atraíam a atenção da polícia e nem causavam desconfiança nos lugares frequentados pelos ricos. Marisol não gastava o dinheiro que conseguia, fez obra na casa e em seguida comprou um carro. E foi assim até abrirem uma birosca e abandonarem o crime."

Cidade de Deus, Paulo Lins


"O tenente montou outra vez e chouteou de volta a seu grupo emoldurado de poeira. Perilo Ambrósio ficou contente em verificar que tudo resultara muito bem até o último pormenor, embora já antes estivesse seguro de que o tenente encontraria Inocêncio morto. Afinal, quando o sangrara à faca para lambuzar-se de seu sangue e assim apresentar-se ao tenente, terminara por dar-lhe mais cuteladas do que planejara, já que os braços e as mãos lhe fugiram do controle e golpeou o negro como se estivesse tendo espasmos. Melhor que haja morrido logo e não se pode negar que de um modo ou de outro deu sangue ao Brasil, pensou Perilo Ambrósio, voltando as costas e cutucando mansamente as ilhargas do cavalo para tomar de vez a estrada."

Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro


"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutandoo murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:

— Ai! que preguiça!…
e não dizia mais nada."

Macunaíma, Mário de Andrade


"Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiram como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?"

A hora da estrela, Clarice Lispector


"Inconformados com a crônica medíocre da nossa trajetória para o Brasil, sem heróis nem bravatas no além-mar, nós romanceamos as vidas comuns da família, inventamos personagens e remendamos neles pedaços de narrativas, dramas e farsas da tradição oral e dos livros clássicos. Os parentes letrados e genealogistas muito contribuíram com as suas leituras. Sempre fomos uma família de mentirosos e fabuladores"

Galileia, Ronaldo Correia de Brito


"Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem."

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis


"A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati. E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a pátria? Não teria levado toda sua vida norteado por uma ilusão, por uma ideia a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa ideia nascera da amplificação da crendice dos povos greco-romanos, de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges... Lembrou-se de que essa noção nada é para os Menenanã, para tantas pessoas... Pareceu-lhe que essa ideia como fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas, no intuito de servir às suas próprias ambições. Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia sentir a pátria? [...] Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista."

O triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto


"Se eram livres, por que continuavam ali? Por que, então, tantos e tantas negras na senzala? Por que todos não se arribavam à procura de trabalhos? Um dia perguntou isto ao pai, com jeito, muito jeito. (...) Perguntou e a resposta do pai foi uma gargalhada rouca de meio riso e de meio pranto. O homem não encarou o menino. Olhou o tempo como se buscasse no passado, no presente e no futuro uma resposta precisa, mas que estava a lhe fugir sempre."

Ponciá Vicêncio, Conceição Evaristo


"O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte."

Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa


"ficou sócio numa assessoria de comunicação
estou pensando seriamente em tirar o passaporte italiano e ir trabalhar
na comunidade europeia fazer qualquer coisa entende
casou-se de novo
virou pau-mandado na prefeitura as coisas que têm saído nos jornais
tudo mentira sua mãe que é jornalista sabe é tudo sacanagem é sujeira
dá nojo
separou-se e juntou-se com uma menina uns vinte e poucos anos muita
celulite não não vi mas imagino hoje são todas assim até as modelos
não vê
está construindo uma mansão em alphaville
está morando numa mansão em alphaville
e ela passando dificuldades para quitar as prestações do apartamentinho
no jabaquara
(nunca quis brigar na justiça não queria atrapalhar a relação do menino
com o pai)
e ele necessitando colocar aparelho-nos-dentes
e aprendia tanta coisa meu deus liam a veja e a folha de são paulo e
discutiam os assuntos quando pequenininho ele fazia cada pergunta e
agora era ela quem se espantava ante um mundo cada vez mais estapafúrdio
e queria engajar-se na luta pela preservação da natureza se associar
ao greenpeace e naquele dia que chegou mais cedo tendinite o
diagnóstico ele tomando banho o computador ligado entrou no quarto
para recolher a roupa espalhada ê maloqueiro e os olhos relancearam o
descanso-de-tela uma enorme bu vagina a bolsa desabou no carpete de
madeira o molho de chaves desabou no carpete de madeira seu rosto
corado emurcheceu seu coração e pensou deixar o cômodo fingir que
nada mas os pés plantados o filho cruzou a soleira assustados os olhos
o corpo escorrendo toalha à cintura a algazarra dos periquitos nos ipês
da rua a bolsa o molho de chaves espalhados no carpete de madeira o
pôster ozzy osbourne colado na porta do armário você já lanchou meu
filho mãe balbuciou eu e ela já sei vamos sair e comer uma pizza que
tal e a madrugada se dissipa os amigos do colégio do prédio amontoam-se
entorpecidos o fumo a parafina colegas conhecidos parentes
vozes velórias a cadeira à cabeceira coroa de flores saudades é um jesuscristinho
assim deitado estampa comprada num domingo de sol na
feira da praça da república dezessete anos em agosto
tão feliz tão lindo tão companheiro tão querido tão inteligente tão
amoroso
meu deus por quê que ele foi fazer isso meu deus por quê"

Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato


"Aos domingos e nos dias santos, todos os escravos tinham folga certa, menos nós, os da casa-grande, que precisávamos trabalhar se os senhores assim quisessem. E sempre queriam, pois falavam que a nossa vida era bem melhor que a vida dos escravos que viviam na senzala grande, e que, portanto, não fazíamos favor algum abrindo mão de certas regalias. De fato, eu já tinha percebido que a nossa vida era melhor mesmo, apesar do pouco contato com os outros, de quem o sinhô José Carlos fazia questão de nos manter afastados."

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves



Fontes: Biblioteca Nacional, Suplemento Pernambuco, Arquivo Nacional


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.