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domingo, 7 de maio de 2017

O desastre da espanholização no futebol brasileiro (por Thiago Muniz)

Nas últimas rodadas, vimos acompanhando o desempenho esdrúxulo e ridículo dos árbitros e dirigentes em favor de certos clubes, afora a total inércia da grande mídia econômica que, aos poucos, está favorecendo financeiramente alguns clubes e assassinando outros, tão importantes no cenário nacional.

“Espanholização” é o termo cunhado pelo especialista em marketing esportivo Amir Somoggi e que, após a implosão do Clube dos 13, ganhou força entre os times nacionais que passaram a negociar os seus próprios contratos com a detentora dos direitos televisivos – Rede Globo- que, segundo o site Futebol Business, pagou pelo triênio 2012 -2015 R$ 2,7 bilhões pelas partidas da série A, no canal aberto e nos fechados, sem contar o pay-per-view.

O futebol brasileiro caminha em passos largos em direção à espanholização.

O principal motor desse processo é a distribuição das cotas de TV, segundo levantamento do Itaú BBA.

O termo se refere à situação da Liga BBVA (Espanha), na qual Real Madrid e Barcelona abocanham 55% da receita total do campeonato e boa parte dos títulos nacionais.

Em 2011, o Grupo 1, formado por Corinthians, Flamengo, São Paulo, Internacional e Atlético-MG teve receitas de R$ 980 milhões no total, R$ 257 milhões a mais do que recebeu o Grupo 2 (R$ 722 milhões), formado por Santos, Cruzeiro, Palmeiras, Grêmio e Vasco. Em apenas dois anos essa distância dobrou, alcançando R$ 577 milhões.

Isto ocorre porque a emissora carioca aumentou o repasse ao Grupo 1 em um ritmo muito superior ao do pelo Grupo 2. Entre 2011 e 2013, o repasse ao primeiro escalão aumentou 43%, enquanto o segundo cresceu apenas 22%.

A distância para o grupo 3, formado por Fluminense, Botafogo, Coritiba, Atlético-PR e Bahia é ainda maior: de R$ 679 milhões, em 2011, para R$ 877 milhões em 2013. Na média, cada clube do primeiro escalão teve receitas de R$ 281 milhões, contra R$ 106 milhões do terceiro.

Segundo números do consultor Amir Somoggi, com os dados dos balanços financeiros dos clubes de 2014, o Flamengo faturou R$ 115,1 milhões com direitos de TV e o Corinthians R$ 108,7 milhões.

O abismo entre o clube que mais recebeu, Flamengo e o que menos recebeu, Ponte Preta, é de 5,8 vezes. Para o banco, os clubes brasileiros deveriam mirar a Bundesliga alemã, onde o Bayern de Munique recebe apenas o dobro do clube pior colocado da liga, o Greuther Fürth.

Os clubes precisam se unir.

Basta de notas oficiais patéticas quando são beneficiados.

É hora de exigir uma profissionalização capacitada. A partir de quem a comanda.

Não podemos ficar inertes com a futura falência dos grandes do futebol brasileiro.

A partir de 2016, haverá um aumento na cota de TV do Brasileiro, que deve fazer crescer um pouco a diferença entre Corinthians e Flamengo e os demais clubes, mas que ainda ficará longe da perversa realidade do Campeonato Espanhol.

É um absurdo essa diferença de valores e os clubes serem coniventes com isso. É justo que o time com mais torcedores inscritos no pay per view receba valores maiores por isso. Agora, dar de largada uma vantagem de R$ 110 milhões de reais para Corinthians e Flamengo em relação a clubes de fora do Eixo, apenas vai tornar o campeonato cada vez mais desigual. Se continuar assim, chegará o tempo em que apenas Corinthians e Flamengo terão chances de titulo. A continuar esse caminho nefasto, os outros clubes deveriam sair fora e criar um outro campeonato paralelo.

Na minha opinião, o modelo ideal no Brasil seria parecido com a da Premiere League: 70% dividido, e os outros 30% de acordo com audiência e posição na tabela. É um modelo que não gera desequilíbrio e nem injustiça, já que no fim das contas o campeão receberia mais que o último colocado, porém o ultimo colocado não receberia uma quantia pífia.

Esse critério de mensurar o tamanho da torcida tem de ser discutido.

No Brasil nunca houve uma pesquisa séria e de qualidade.

Todas são encomendadas e, por isso, muito suspeitas. Ninguém sabe o real tamanho das torcidas. E quem afirmar o contrário estará mentindo.

As mídias oligárquicas paulistanas e cariocas endossam falácias sobre esses dois times (Corinthians e Flamengo) há mais de 40 anos. E não me venham com essa conversa fiada de audiência que é outra mentira. O que determina maior ou menor audiência é a importância do jogo, independente de quem joga.

Não bastasse a diferença financeira administrada com a parcialidade de um torcedor (flamenguista ou corintiano), teremos que aturar e conviver por muitos anos com a parcialidade casuística do STJD.

Como convencer o torcedor descrente a continuar torcendo? Mas ninguém é obrigado a torcer, a ver jogos, a acompanhar o esporte, os ortodoxos me responderão. Se o cidadão colocar na cabeça que aquilo não é sério, ele larga. É um fato.

Cartolas e empresários, acordem! Isso não pode continuar assim.

Pelo bem do futebol brasileiro.























Imagem: portal mídia esporte




Publicado em 12/09/2015 no site Panorama Tricolor


BIO


Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama Tricolor, Eliane de Lacerda, blog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


quarta-feira, 29 de março de 2017

Paneleiros, onde estão? (Por Thiago Muniz)

"O povo assistiu àquilo bestializado" (artigo de Aristides Lobo, publicado no Rio de Janeiro, em 1889, no dia da Proclamação da República).

Esse texto é para você, Paneleiro; que se vislumbra em ter apoiado o impeachment da presidente Dilma, sinta-se envergonhado pois você não representa o país em que vive.

Bater panelas é válido, desde que as pessoas tenham consciência da luta que estão travando. As panelas de 2016 foi ao contrário disso.

As panelas foram batidas em favor de suas classes, olharam para os próprios umbigos sim. Não tiveram uma visão macro do estrago que estavam perpetuando para a nação.

E agora com as Reformas Trabalhistas e Previdenciárias próximas a aleijarem o país, os paneleiros ficam calados?

Sociedade paneleira vive de conveniências, nunca se arriscou para nenhuma melhoria de nosso país, sempre em suas zonas de conforto.

Sociedade paneleira que ajudou a derrubar a primeira mulher eleita democraticamente no Brasil, e ajudou a derrubar por puro preconceito. Pedalada fiscal? Nem sabem o que seja isso, só se preocuparam em abraçar um motivo e gritaram abruptamente como ogros. Talvez nem os ogros gritassem tanto como os paneleiros.

Agora, porém, ficou claro que a gritaria da elite, da grande imprensa e de partidos políticos oposicionistas contra os governos do PT, sob alegação de que aquele comportamento era “combate à corrupção”, nunca passou de charlatanismo.

Desde a madrugada de segunda-feira 23 de maio de 2016, os fatos desmascararam hipócritas que, ao longo de uma trinca de anos, com suas manifestações desavergonhadas vinham vendendo a teoria de que não toleravam nenhum tipo de corrupção. Balela. Não toleram corrupção – ou suposta corrupção – dos outros, mas amam a dos amigos, sócios, parentes, aliados ou mesmo dos políticos que vociferam “ideias” e “ideais” com os quais concordam

O fato é que, com liberdade de informação e opinião, é muito difícil, se não impossível, sustentar a versão de que um golpe não é golpe.

Não foi só o golpe que foi desmascarado, foram desmascarados os grupos que pregaram o impeachment e, assim, foram cúmplices de um crime. E você paneleiro golpista está dentro dele, por mais que negue sob tortura, você fez parte dele.

Paneleiros, onde estão?















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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama Tricolor, Eliane de Lacerda, blog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A morte na calada da noite (Por Tom Valença)

A morte é a referência em torno da qual a vida é construída.

Sendo assim, até pouco tempo atrás era ponto pacífico que a morte deveria ser respeitada com exceção dos tempos de guerra, fosse no Ocidente ou Oriente. 

Mas isso mudou. Muito! 

Por exemplo, desde a semana passada está sendo possível perceber nas redes sociais, com o falecimento de Fidel, que a morte de uns parece ser o gol que outros esperavam acontecer desde sempre para comemorar sobre os que sentem a ausência de quem partiu. 

Ontem (29/11), esse processo se tornou mais claro, pois muitos se tornaram hostis para com os que lamentavam a tragédia da Chapecoense (e aqui não importa se espontaneamente ou se induzidos pelo fervor midiático) já que as únicas questões importantes seriam as votações que aconteceriam em Brasília. 

Nesse sentido, os últimos foram comemorados pelos primeiros como alienados. Pois bem, o dia transcorreu, as votações foram realizadas com seu ápice acontecendo na calada da noite e hoje o país amanheceu mais morto do que vivo. 

Morto em sua integridade imensamente combalida nos últimos tempos, culminando com o resultado dessas duas votações. 

E agora, será que a morte do corpo democrático brasileiro será tratada com o mesmo furor e ou desdém das morte do Comandante cubano e do time brasileiro? 

Se for, esse jogo democrático está irremediavelmente comprometido, talvez perdido por no mínimo algumas décadas. 

Para os dois times e para as duas torcidas, embora um dos times e sua torcida continuem comemorando. 

Mas não por muito tempo...


Tom Valença é Professor Doutor no Centro Universitário Jorge Amado





sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O voto de cabresto enraizado nas eleições (Por Thiago Muniz)

O voto de cabresto representou uma forma eleitoral impositiva e arbitrária, imposta pelos coronéis. Trata-se de um termo dado a partir da superposição de duas palavras:Voto, que é o exercício pleno da democracia; e a palavra Cabresto, do latim capistrum, que significa "mordaça ou freio", assim, temos um conceito quase paradoxal, na medida em que representa a democracia amordaçada e guiada como um animal de carga.

Sem espanto, nas regiões mais carentes do Brasil, especialmente no nordeste, esseclientelismo é uma prática recorrente desde os tempos do Império, e fora lugar comum durante a República Velha - e talvez perdure até os dias de hoje -, posto que nosso sistema eleitoral era frágil e fácil de ser adulterado e manipulado segundo os interesses escusos das elites agrárias, tendo em vista que o eleitor só necessitava entregar pessoalmente um pedaço de papel com o nome do seu candidato, o qual poderia muito bem ser escrito pelo próprio coronel, já que a maioria desses eleitores nem mesmo sabia ler, e depositá-lo numa urna, num saco de pano.

Muito antigamente, ainda na República Velha, os “coronéis”, como eram chamados os oligarcas locais, tinham várias maneiras de obrigar os eleitores a votarem em seus candidatos. Não era incomum que o chefe entregasse ao caboclo metade de uma cédula de dinheiro – e o infeliz só receberia a outra metade se votasse no nome indicado pelo “coronel”, sob a devida supervisão de seus peões. É notável, nesse contexto, a troca de "favores" que constituiu o sistema de "voto em aberto", o qual ficara então conhecido como "voto de cabresto",

A não ingerência de alguma forma de pressão sobre o direito de escolha dos eleitores é a mesma coisa que encontrar a liberdade completa para o ato de votar, o que, por sua vez, é comparável ao sonho de felicidade em toda a sua plenitude terrena. O chamado voto de cabresto ainda existe, apenas passou de forma rudimentar e virulenta para um modelo moderno e sofisticado. Todavia, muitos ‘líderes’ impostos, se pudessem, atuariam de maneira cruel e até cometeriam atrocidades físicas.

Nós não podemos deixar de sonhar. Seria perder a total esperança de melhores dias ou cair no abismo da desilusão.

No sistema político e eleitoral brasileiro, nos dias atuais, é muito difícil controlar o voto das pessoas. Mas há novos mecanismos de pressão que são usados. Por exemplo, anotar as secções em que os eleitores de uma determinada família ou localidade votam, para depois conferir se a votação do candidato correspondeu ao que se esperava dos eleitores, dando dinheiro, lotes e alimentos (cesta básica), assim que funciona a compra de votos. Embora não seja possível se determinar “quem” votou em “quem” por este método, ele é eficaz entre a população mais pobre como instrumento de pressão psicológica.

Mas há também o uso de poder das milícias, nas comunidades pobres, que obrigam os moradores locais a votar em quem eles querem, ou não permitem o voto em candidatos que a milícia não aceita; se a população não cumpre a milícia pode abusar do poder e causar mortes ou parar de “ajudar” os moradores.

Um governo formado a partir desse tipo de conchavo condenaria o Brasil a um retrocesso sem paralelo na história recente. Executivo e Legislativo estariam se associando não para fazer respeitar a democracia, mas para solapá-la, em favor de sombrios negócios. Se esse processo não for interrompido, os coronéis e seus aspones terão corrompido totalmente a política, empreendimento em que estão empenhados desde que República chegou ao poder.













 
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Thiago Muniz é colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



quarta-feira, 20 de abril de 2016

O sul-realismo fantástico toma conta do Brasil (Por Thiago Muniz)

E quem conta são os jornalistas estrangeiros.

O golpe parlamentar em curso no Brasil está sendo tratado por grande parte da imprensa internacional como uma grave ruptura das instituições democráticas do país. Tendo em vista que, internamente, um dos pilares dessa situação é a predileção da maior parte da chamada grande imprensa pelo lado que apoia o impeachment da presidente Dilma Rousseff, as versões publicadas por correspondentes e enviados especiais diferem fortemente dos enquadramentos vistos pelas bandas de cá. 

Várias são as matérias divulgadas nos últimos dias por meios alternativos ou de menor alcance no cenário brasileiro acerca da questão. Assim, como o tema está sendo bastante comentado, enfoco apenas algumas das muitas matérias sobre o assunto.

A votação sobre a admissão do processo de destituição de Dilma no último domingo, na Câmara dos Deputados (que terminou com 367 votos para o sime 137 pelo não) foi um show de horrores. Indo de votos em “nome de Deus” a deputados federais cantando paródias e soltando confetes, o circo do dia 17 de abril foi bem definido pela manchete do irlandês Irish Times: “Brasil envia os palhaços para votar impeachment de Rousseff”. No texto, o enviado especial Tim Hennigan comenta que, mesmo tendo Tiririca, um dos palhaços mais amados do país, como congressista, outros políticos se mostraram como piadistas ainda maiores. “Na mais importante sessão do Legislativo do país em quase um quarto de século, muitos de seus membros se comportaram com o decoro dos fãs de futebol bêbados em um clássico local”. 

O jornalista comenta que, com o passar do tempo, era difícil não simpatizar com o lado contrário ao impeachment — mesmo porque, do outro lado, se posicionam o extremista Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a “aranha no centro da teia”, denunciado por envolvimento em diversos casos de corrupção.

O New York Times, na semana passada, havia publicado texto no qual afirma que os políticos que tentam tirar Dilma Rousseff da presidência enfrentam eles próprios acusações de corrupção, apresentando a situação como exemplo de hipocrisia, já que a presidente não responde a nenhuma acusação. 

Na segunda (18/04), o periódico norte-americano noticia que, apesar da empolgação dos oposicionistas, o resultado da votação não termina com a crise brasileira. O NYT aproveita para apresentar o vice-presidente Michel Temer como um “cavaleiro cuja armadura não é muito brilhante”, já que ele foi denunciado em irregularidades.

“Deus derruba a presidenta do Brasil” é a irônica manchete do periódico espanhol El País sobre o desfile da alegada “religiosidade” dos congressistas ao microfone da Câmara. O bizarro cabedal de dedicatórias de votos é relembrado pela jornalista María Martín, que observa, porém, que as chamadas pedaladas fiscais foram completamente esquecidas como razão de voto pelo sim. 

María diz que a Casa legislativa se vê repleta de fundamentalistas religiosos e que possui uma clara tradição de nepotismo. Ao final do texto, além do Todo-Poderoso, a jornalista espanhola acrescenta os netos dos deputados como responsáveis pelo resultado da votação.

O grotesco pronunciamento de Jair Bolsonaro, que dedicou seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — torturador de centenas de pessoas e da presidente Dilma e seu ex-marido — causou espanto e revolta ao comentarista político Miguel Sousa Tavares, da rede portuguesa SIC:

“Nunca vi o Brasil descer tão baixo”, disse. “Chegar a essa grau de indignidade ultrapassa tudo que é respeitável”. Tavares atacou também o processo levado a cabo na Câmara, desqualificando a tentativa de derrubada do governo. “Foi uma assembleia-geral de bandidos, comandada por um bandido chamado Eduardo Cunha”. 

O jornal britânico The Guardian comenta que a figura de Bolsonaro é extremamente controversa, principalmente em assuntos relacionados a mulheres (é citada sua agressão verbal à também deputada federal Maria do Rosário), e que, apesar de suas demonstrações de machismo, ele é o terceiro político com mais “likes” no Facebook. A matéria do Guardian observa que a deplorável fala de Bolsonaro acabou sendo um “dedo” nas feridas da ditadura, pois o tema foi colocado para a presidente em seu encontro com a imprensa internacional na terça-feira (19/04). Na ocasião, Dilma não citou o nome do parlamentar, mas disse ser deplorável que o momento no país tenha aberto espaço para a intolerância, o ódio e esse tipo de declaração.

Na segunda-feira (18/04), a mandatária havia feito um pronunciamento em Brasília sobre a votação. É necessário dizer que o pronunciamento de Dilma foi transmitido ao vivo pelo canal de TV argentino Todo Noticias, enquanto, no Brasil, nenhuma rede colocou a presidente no ar. Isso é um indicativo forte de duas coisas: a grande importância que os argentinos estão dando ao tema; o absurdo posicionamento da chamada grande imprensa brasileira, que, em um momento de ebulição como o atual, resolve não dar visibilidade à mandatária. 

Por quê? Por qual razão Dilma não podia ter sido ouvida naquele momento? 

Não há justificativa plausível — em se levando em conta as prerrogativas de um jornalismo minimamente responsável, obviamente.

O jornalista norte-americano baseado no Brasil Glenn Greenwald, vencedor do prêmio Pulitzer e editor do The Intercept — que, há duas semanas, havia entrevistado o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva –, deu uma excelente entrevista entrevistado pela veterana Christine Amanpour, da CNN.

Ao citar as acusações contra figuras como Paulo Maluf, Eduardo Cunha e outros políticos que julgam Dilma, Amanpour pergunta, assombrada: “O que está acontecendo?!?”. Ele responde que Dilma não é acusada por nenhum crime e que o processo de impeachment é antidemocrático e que a elite empresarial e as grandes empresas de mídia do país empurram o processo. 

Greenwald comenta que o impeachment ser liderado por Cunha, político que comprovadamente possui contas não-declaradas na Suíça e está envolvido em uma diversidade de escândalos, é a situação mais absurda que ele já cobriu como jornalista. Ao ser perguntado se Dilma deverá renunciar ou ser tirada do poder, Greenwald sustenta que é pouquíssimo provável que ela deixe a presidência por renúncia, pois é uma mulher forte, que sobreviveu aos horrores da tortura durante o período militar.

Ao contrário do velho jargão jornalístico que diz que “só nos resta esperar”, é urgente defender a democracia brasileira antes que seja tarde. O processo de impeachment teve seu estrondoso início com o espetáculo das trevas na Câmara, mas ainda há um complexo caminho a ser percorrido. O que mais espanta nessa situação é que a imprensa internacional, com simplicidade, faz o trabalho que grande parte do jornalismo brasileiro não quer. 

Ou, como sabemos em muitos casos, não pode. Urge pensar sobre a responsabilidade que o campo midiático-jornalístico carrega em todo o imbróglio atual e, nesse sentido, é obsceno o posicionamento de vozes como Eliane Cantanhêde, do Estadão, que afirma que a narrativa estrangeira está sendo comandada por uma imagem vendida pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

Além da vergonha alheia quando se vê que a coluna da articulista é definida como “um olhar crítico no poder e nos poderosos”, dá pena observar que análises tão rasteiras e superficiais são as que marcam espaço na imprensa tradicional — para não ser injusto e comentar apenas Cantanhêde, pode-se relatara que analistas como Merval Pereira, do canal GloboNews, também chiaram contra os meios estrangeiros, afirmando que eles não conseguem “compreender” o cenário nacional.

Política e socialmente, pouco parece ter mudado na orientação dos meios jornalísticos desde 1964. Mas há uma grande dificuldade de essas empresas imporem uma versão única dos fatos, seja pela concorrência com periódicos alternativos, seja pelas expressões individuais e coletivas de grupos que não são profissionais da notícia, mas que divulgam informações e são compartilhados e retuitados.

Afora isso, as empresas jornalísticas externas tentam entender o que acontece nessas terras, e apesar da complexidade da situação, os jogadores e seus interesses vão ficando cada vez mais claros, especialmente sob os discursos de honra a Deus, aos filhos, netos, sobrinhos, corretores de seguros e à paz de Jerusalém. Por essa razão, é cada vez mais importante ver, ler e ouvir o que profissionais do exterior têm a dizer sobre o realismo fantástico que tomou conta do Brasil.











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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Demissões até no jornal O Globo: É a crise... (Por Thiago Muniz)

O "sinhô, bilionário nunca perde. O comodista, enquanto ganha altos salários, está tudo bem. Esse filme é um plágio de muitos que já assistimos e é também a dura realidade.

O Infoglobo está demitindo jornalistas, hoje, em número ainda não conhecido, mas que deve passar de 30, cota do último corte nas redações de O Globo, Extra e Expresso, há seis meses, quando mandou para a rua 160 funcionários de diversos setores.

Ontem, alguns já receberam o “bilhete azul”, entre eles o excelente Marceu Vieira, bom amigo a quem não vejo talvez há uma década, um dos mais gentis profissionais com quem convivi.

Ao ler a informação no site Conexão Jornalismo, um dos comentários, de Cláudio Cordovil, chamou-me tristemente a atenção:

“O que me parece mais triste e perverso é que O Globo demandou destes profissionais que cavassem , lentamente, as covas nas quais seriam enterrados , ao defenderem e representarem uma linha editorial que contribuiu determinantemente para levar esse país à recessão como profecia auto-cumprida.

Que possam aprender esta amarga lição para reinventarem se sim como seres políticos, que não vão como plácidos cordeiros para o forno crematório. A maior das reinvencoes, na terra do ‘Sim, Sinhô’ , é saber dizer não. É se unir como categoria, e fugir de Sobibor, quando possível.

O problema é que é dificílimo fugir de Sobibor.

Bons salários são emolientes de consciências. Desejo sorte aos demitidos. É que possam pensar na cova que sistematicamente cavaram a cada dia. Alfabetização política eh necessária quando vamos ficando grandinhos.

O que me parece mais grave é ver que no Brasil estão conseguindo destruir uma profissão altamente valorizada em países verdadeiramente desenvolvidos. Agradeçam ao Aécio, e a Joaquim Barbosa, e a Moro.”

A alternativa de outras mídias, como os blogs que cresceram em audiência mas são cada vez mais malditos, vivendo à míngua de publicidade – que jorra de cofres públicos e privados para os jornalões – não existe, porque não temos como contratar colegas que nos permitam ser maiores e melhores.

Vivemos, como se diz nas Alagoas de meus avós paternos, “da mão para a boca”.

Somos “sujos”, “vira-latas” e o pouquinho que a um ou outro se concede anunciar vira, pelas mão de quem está ou se acha bem aboletado numa grande redação, resultado de “favoritismos políticos” que merecem, até, a fúria de gente mais que bem aquinhoada de privilégios, como o Ministro Gilmar Mendes.

Ainda assim, somos solidários. E a derrocada dos grandes jornais, caindo pelo abismo que cavaram com seus pés, deixa triste quem ama o jornalismo, feito por jornalistas, ainda que controlado pelas corporações.


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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.