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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Por onde anda Angelo Assumpção? (Por Thiago Muniz)

Qual é a diferença entre brincadeira e racismo?

Até que ponto a intenção de brincar ultrapassa o ato de ofender?

Um dos melhores atletas da seleção brasileira de ginástica – o único negro da equipe – viajou junto com a delegação para o Rio de Janeiro, para a disputa da Olimpíada Rio-2016, mas teve que se contentar em torcer pelos companheiros das arquibancadas.

Arthur Nory Mariano gravou um Snapchat, com outros dois ginastas brancos, fazendo duas piadas racistas contra Angelo, que estava no mesmo ambiente. Ele disse, gargalhando, que o saco do supermercado é branco, e o de lixo, preto; e que a tela do celular quando quebra fica da cor preta. Angelo ficou abalado. Como qualquer negro ficaria. Como qualquer branco também deveria ficar. Ou, no mínimo, constrangido.

Por coincidências que sempre se repetem em casos de racismo no Brasil, quando racistas são apanhados em flagrante, a vítima do racismo, Ângelo Assumpção, foi quem acabou não participando das olimpíadas de 2016, devido às mudanças das regras para escolha dos participantes, dizem as autoridades esportivas.

Desde então, a Confederação Brasileira de Ginástica decidiu punir. Decidiu punir a vítima, como sempre. Armou um vídeo com pedido de desculpas, com os quatro ginastas no quadro. Decidiu apaziguar. Angelo foi quase coagido a não registrar Boletim de Ocorrência contra Arthur, que praticou o crime inafiançável de racismo.

Houve todo um trabalho de mídia para mudar a imagem do atleta racista. Primeiro, Arthur não é mais Nory, é Mariano. Saiu em todas os jornais, portais e emissoras de televisão como o galã brasileiro. E, mais patético ainda, foi o suposto affair dele com uma atleta americana negra. Com entrevistas dizendo que são “crush”. Um trabalho global digno de Oscar, daqueles que se faz com ator galã da emissora carioca, praticamente uma força-tarefa de valorização (falsa) da imagem.

Apesar de tudo isso. Depois de sofrer crime de racismo, ser pressionado para calar a boca e ser cortado da Olimpíada realizada no seu próprio país, Angelo nos dá uma lição. Em uma foto postada em seu Instagram, ele diz: “Foi um ano muito difícil pra mim , um ano que tive que superar várias dificuldades e aceitá-las. Tudo passa… Ontem fui assistir [sic] a ginástica que continua crescendo e sempre dando orgulho para todos os brasileiros. Parabéns pra todos os atletas e continue com o trabalho duro.”

Sangue frio e classe contra o racismo. Mas, ao mesmo tempo, é possível ver em seu olhar a vontade de, um dia, quem sabe, talvez, ainda representar bem – como sempre representou – o Brasil na Ginástica artística.

O que Arthur (Nory) Mariano já fez pelo Brasil? O que ele fez pra merecer disputar as olimpíadas, além de ser branco?

Em tempo, Nory (Mariano) ganhou a medalha de bronze no solo individual na Rio 2016. Esportivamente falando foi merecido, mas tenho certeza que o Ângelo brigaria pelo ouro, uma pena, uma lástima.




















BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blogs "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O discurso da xenofobia em alta (Por Thiago Muniz)

Xenofobia significa aversão a pessoas ou coisas estrangeiras.

O termo é de origem grega e se forma a partir das palavras “xénos” (estrangeiro) e “phóbos” (medo). A xenofobia pode se caracterizar como uma forma de preconceito ou como uma doença, um transtorno psiquiátrico.

O preconceito gerado pela xenofobia é algo controverso. Geralmente se manifesta através de ações discriminatórias e ódio por indivíduos estrangeiros. Há intolerância e aversão por aqueles que vêm de outros países ou diferentes culturas, desencadeando diversas reações entre os xenófobos.

Nem todas as formas de discriminação contra minorias étnicas, diferentes culturas, subculturas ou crenças podem ser consideradas xenofobia. Em muitos casos são atitudes associadas a conflitos ideológicos, choque de culturas ou mesmo motivações políticas.

Há vários motivos para se lamentar a saída do Reino Unido (mais desunido do que nunca) da União Européia. O menor continente do planeta é historicamente o mais salpicado de guerras e litígios por metro quadrado. Quando o Tratado de Maastricht instituiu a União Européia em 1993, a Humanidade experimentava a utopia da paz entre 27 países distintos, desiguais, porém sujeitos desde então às mesmas regras gerais (que extrapolam apenas a unidade monetária).

A onda de intolerância fez com o Papa Francisco, recém ungido à condição de líder espiritual dos católicos, escolhesse como destino da primeira viagem oficial de seu pontificado (em julho de 2013) a Ilha de Lampedusa, na Itália, porta de entrada de centenas de milhares de imigrantes na Europa.

"Tende a coragem de acolher aqueles que procuram uma vida melhor”, pediu o Papa. O apelo continua ecoando sem efeito no velho continente.

A luz vermelha já está acesa. Antes as pessoas tinham pudor de expressar a rejeição aos imigrantes e estrangeiros residentes, mas agora tudo é falado abertamente, sobretudo na Inglaterra, Áustria e nos países do norte da Europa. Os franceses das "grandes cidades" sao sempre mais diplomatas com relação a imigração, porém basta ir um pouco mais para o interior do pais e ver que realmente o sinal vermelho já está bem aceso.

Xenofobia em alta. Curiosamente, na 2ª Guerra Mundial, navios abarrotados de europeus (especialmente franceses) desembarcaram milhares de refugiados do velho continente no norte da África (especialmente Argélia) que acolheu essa gente toda.

O êxito dos separatistas britânicos parece ter origem na aversão à chegada maciça de imigrantes (que hoje somam mais de 8 milhões no Reino de Sua Majestade). A vitória do "Brexit" ocorreu apenas 3 dias depois de a ONU anunciar que o número de refugiados no mundo inteiro alcançou a impressionante marca de 65 milhões de pessoas fugindo de guerras, perseguições e torturas. Isso dá uma média de 24 novos refugiados a cada minuto, algo parecido com o que houve durante a 2a Guerra Mundial. Uma gigantesca crise humanitária.

Há vários motivos para se lamentar a saída do Reino Unido (mais desunido do que nunca) da União Européia. O menor continente do planeta é historicamente o mais salpicado de guerras e litígios por metro quadrado. Quando o Tratado de Maastricht instituiu a União Européia em 1993, a Humanidade experimentava a utopia da paz entre 27 países distintos, desiguais, porém sujeitos desde então às mesmas regras gerais (que extrapolam apenas a unidade monetária).

Mais que o tratado de Maastricht, o acordo de Schengen aproximou a UE da utopia. A livre circulação entre os Estados membros é uma demonstração de maturidade, responsabilidade e segurança na escolha feita. Parece que a Grã-Bretanha não consegue entender a importância dessa maturidade.

O discurso da direita britânica é cópia mal feita do discurso xenófobo do Trump. Elege-se como inimigo comum o "estrangeiro". É uma receita infalível para obter rápida popularidade, assim como declarar guerra a um outro país. Londres é a capital mais cosmopolita do planeta graças a essa caprichosa combinação de culturas e etnias. O que seria dos Estados Unidos sem os mexicanos? Fizeram até um filme bem humorado sobre isso anos atrás ("Um dia sem mexicanos / 2004"). A crise climática vai agravar a questão dos imigrantes. São outros tempos que exigem outras políticas. Gente mais qualificada, a altura dos novos desafios.

O problema é que todos hipocritamente atacam a consequência (o êxodo de refugiados) e não a causa (tirania, fome, guerras). Os próprios refugiados que correm das perseguições nos seus países, querem aplicar suas leis próprias nos países que os acolhem, e condenam os comportamentos dos cidadãos que os recebem... Enquanto durar essa epidemia politicamente correta de não dar nome aos bois e punir quem não respeita regras (de ambos os lados), não há saída verde para esse sinal.

Lei de Sociedade; Essa decisão sem sombra de dúvidas terá consequências negativas para o Reino Unido. Os reflexos psíquicos da egolatria e do orgulho monárquico e imperialista sempre se sobrepôs contra a fraternidade, a solidariedade e o amor universais. Numa dimensão maior que se distancia da nossa, as rédeas da condução dos destinos da nossa Humanidade não está nas nossas mãos (nas mãos do Reino Unido ou dos EUA). Pois, ir contra as Leis que nos regem é contrair dívidas para depois ter que pagá-las a juros compostos. Cedo ou tarde eles terão uma retomada de consciência.

Tomar decisões como esta do Reino Unido, sob influência mais emocional (egoísta eu me atrevo a dizer) do que racional, é sempre perigoso. A União Europeia, apesar de alguns equívocos, é o maior projeto integracionista da humanidade, em todos os tempos. Alexandre, o Grande; o império romano; Napoleão, tiveram a oportunidade de semear a união de forças, e fracassaram. A UE avançou neste sentido, não sem errar, mas avançou. O momento atual do planeta pede união de forças, e não a desintegração. Lamentável. Triste. Sinais amarelos todos piscando e berrando no painel de controle.

O que vemos acontecer em escala planetária é o mais do mesmo, inclusive no Brasil. A indiferença dos que têm muito aos que nada ou quase nada têm é grave e, talvez, a nossa omissão diante daquilo que presenciamos pode nos tornar tão indiferentes quanto aos que assim pensam e agem. É uma questão de escolha. Ou empoderamos os despossuídos, alimentando seus corpos, suas ideias e ideais, ou a omissão nos coloca do lado dos opressores.













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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




terça-feira, 7 de junho de 2016

O Brasil nasceu de um Estupro (Por Thiago Muniz)

Nos navios, nas senzalas e nos becos...

Sempre escutei desde de criança a história de uma tia de origem indígena que sempre foi muito arredia, de que ela havia sido "pega no laço", esse era o termo usado por familiares. Índia pega no laço por isso não tem afeto pela família, hoje entendo, sequestro, cárcere privado, abuso e violência sexual, assédio moral e muito mais; tudo visto como "normal".

Com quantos séculos de estupro se constrói o país da miscigenação?

Com quantos açoites nas costas se fundamenta a economia da nação?

De quantos metros de terra é preciso para mais um genocídio indígena?

Somos a favela que queima em meio a expansão imobiliária assassina, Somos o adolescente que empunha o fuzil de 30 mil e tem o crânio esfacelado.

O país do jogador negro do milênio e do racismo velado,

Com qual mentira devo dormir para me sentir em paz com esse mundo?

A hipocrisia que bebo no café e que sustenta minha fé, às vezes me deixa mudo. Batemos palmas para mais um espetáculo da Tevê, mais uma farsa, fingir e acreditarem tudo que dizem para ser parte dessa massa.

Estava discutindo isso por aqui. tem sempre um "gênio" querendo puxar a cartinha da miscigenação na tentativa de minimizar o racismo estrutural que ainda impera em todos os segmentos no brasil. perguntei para esse defensor de "mitos" como uma miscigenação que se deu por meio da captura, escravidão e do estupro de corpos negros, onde o filho dessa união forçada era arrancado dos braços da mãe para ser vendido e estuprado, num ciclo que perdurou mesmo depois da abolição, podia ser isenta de racismo. Ainda estou esperando a resposta.

Essa é uma história bem complexa...claro que, como se tratava de uma relação entre senhor e escravo, estupro era ocorrência comum, porém os escravos e indígenas libertos procuravam espontaneamente os europeus e eram procurados pelos colonizadores portugueses. A história da colonização do Brasil tem muito mais nuances do que essa simplificação que é vendida por aí no ensino médio e nos meios de comunicação de massa faz mostrar.

Não é improvável que essa mulher que carrega esse cartaz não tenha lido, ou talvez não saiba quem foi, Gilberto Freyre, por exemplo...porque se soubesse, não o carregaria!

Muito real e comum sendo ainda praticado por muitos nas escondidas dos lares de famílias e nos pontos de trabalho não sendo divulgado pelo medo,preconceito e tantos outros adjetivos comum em uma sociedade hipócrita.

Fico sempre perguntando o que falta para nós?

O Brasil nasceu do estupro, assim como os Estados Unidos nasceram da chacina dos indígenas. Todos os indígenas comeram o pão que o diabo amassou.

Primeiro foram as mulheres indígenas. Depois as mulheres negras, que muitas vezes tinham seus filhos tomados ou eram mutiladas (os seios) pelas senhoras para que não fossem objeto de cobiça de seus maridos. Tem momento que é difícil acreditar que estes horrores aconteceram. Um tapa de realidade na cara dos alienados.











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quinta-feira, 14 de maio de 2015

O pseudo-fim da escravidão: o dia seguinte (Por Thiago Muniz)

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16), faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de 4 séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.

Mas enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a amiga Globo nos lembrou.

E no dia seguinte tudo seria diferente.

Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, dizem outros, é o dia que não terminou.
Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.

Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece São Paulo na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. 

Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui, tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.

O dia seguinte, a década seguinte, os 127 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dirigiram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado agronegócio. 

Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. Com isso garantem o poderio econômico a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.

Nada diferente do que tem sido os últimos 127 anos. Ou os últimos 515?

E nesse dia seguinte ao 13 de maio, nesse dia depois do “fim da escravidão”, resistimos! E em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.

E sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!

Ouvi em um trecho de uma música dos racionais: ”Se você é negro tem de fazer duas vezes melhor…”Pela historia, pelo passado, e a herança preconceituoso que nos restou", eu vejo que esta afirmação da música, infelizmente, é uma realidade, (mais uma vez lamento, não não deveria ser assim). Só nos resta lutar por dias melhores, por melhores condições de vida para nós e nossa família. Interessa a elite que nos continuemos inferiores,vamos a luta!

Infelizmente vivemos em uma sociedade onde o dinheiro e a ganância estão acima de quaisquer direitos, somos explorados e escravizados até hoje, a única diferença é que hoje como escravos ”modernos” somos nós quem escolhemos os senhores a quem vamos servir; somos ludibriados por um sistema, que nos traz uma falsa sensação de liberdade.

E ainda por cima, após o "fim" da escravidão, você é jogado na rua com uma mão na frente e a outra atrás, enquanto quem te explorou a vida inteira ainda ganha indenização. Pouco mais de cem anos depois, o governo tenta amenizar a injustiça reservando cotas nas universidades e no serviço público para você, mas uma massa de coxinhas te humilha e diz que isso é racismo reverso.

A resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico. No entanto, Job, que estudou a resiliência em organizações, argumenta que a ela se trata de uma tomada de decisão quando alguém depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças na pessoa para enfrentar a adversidade. Assim entendido, Barbosa propôs que se pode considerar a resiliência como uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.

Em crônica publicada no dia 19 em maio de 1888 – mês em que foi abolida a escravatura no país –, Machado de Assis descreve um cenário bem atual e ironiza a “liberdade” que negros e negras passaram a ter com o fim da escravidão.

Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a abolição da escravatura.

"Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

– Oh! meu senhô! fico.

– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

– Artura não qué dizê nada, não, senhô…

– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites."

Texto extraído do livro Assis, Machado de. Obra Completa, Vol III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 – 491.





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Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.