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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A lógica de capitanear o caos (Por Thiago Muniz)

A lógica de capitanear o caos, por Valdemiro Santiago.


Pessoas criaram invenções religiosas.
Para dar as suas vidas um lampejo de esperança.
E para amenizar o seu medo de morrer.
E pessoas criaram ascensões religiosas.
Para subjugar os outros e para escravizar apenas para enriquecer ainda mais a si mesmos.


Charge: Vini Oliveira











































BIO


Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do blog do Drummond. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O plano de poder dos evangélicos (Por Thiago Muniz)

A vitória do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, na eleição municipal do Rio é um passo fundamental na estratégia do segmento evangélico de ocupar o Executivo para chegar ao Judiciário.

Há uma tensão diante do crescimento do PRB. A Igreja Universal do Reino de Deus, ligada ao partido, vem comprando horários em outras emissoras, não só na Record, encarecendo-os, fazendo uma gentrificação do espaço público.

Muitas lideranças da Assembleia de Deus e outras denominações veem com apreensão o crescimento de uma corrente que não lhes representa e é avassaladora em termos econômicos e de ocupação do espaço público.

Mas, por outro lado, desde pelo menos 2014, há um investimento de importantes lideranças evangélicas em torno de unidade para ocupação dos Executivos. No Legislativo, é mais fácil, você fala para um núcleo. Para o Executivo, tem de conciliar a fala para a base religiosa com a fala para a sociedade em geral.

A imunidade tributária dessas igrejas evangélicas deveria passar por controle da Receita Federal, com controle dos fluxos de dinheiro e só aquilo que fosse comprovadamente arrecadação de doações seria isento. Deve haver muita lavagem de dinheiro nesse meio. Sonegações de empresas que "viram" doações anônimas e vão abastecer campanhas políticas.

O crescimento do PRB, partido ligado à Igreja Universal, porém, causa tensão entre outras denominações, que se veem ameaçadas por seu poderio político e econômico.

Os resultados municipais de 2016 evidenciam uma mudança na estratégia, eles adotaram um jogo de visibilidade e ocultação da identidade evangélica dos candidatos. Crivella não se registrou na Justiça como bispo Crivella, diferente do que fez o pastor Everaldo [candidato presidencial do PSC em 2014], que, no registro, já ativou o lugar dele na hierarquia religiosa.

Em uma candidatura majoritária, não se pode ter referência apenas em uma base, você tem de falar para um público mais geral. E aí eles ativam elementos que não são evidentemente religiosos, como a forte inclinação para falar do cuidado com as pessoas, da atenção, e motivação da individualidade.

Em 2011, Marcello Crivella disse que Lula ajudou a Universal a se expandir dentro e fora do Brasil. Além disso, dirigentes do PSDB o apoiaram no segundo turno. Os evangélicos estão na política há muitos anos, tiveram papel importante na Constituinte e foram ganhando espaço desde então. Mas, a partir do primeiro mandato do ex-presidente Lula, os evangélicos que, de modo geral, apresentavam-se como minoria em termos percentuais e mesmo do seu lugar na agenda pública, crescem. Coincidência ou não, em 2003, a frente parlamentar evangélica passa por uma reestruturação. Os partidos e todo candidato têm interesse em números de massa. E as organizações religiosas são em estatística de associativismo das poucas que continuam crescendo.

O pastor Everaldo falou claramente na estratégia de assumir a 'cabeça', falou exatamente a palavra 'cabeça', em uma referência à importância da ocupação da Presidência, que é por onde passa a indicação para o Supremo Tribunal Federal.

A gente acompanha o crescimento de mobilização de juízes evangélicos ou sensíveis à causa evangélica na Associação de Juristas Evangélicos, que se espelha na Associação de Juristas Católicos, da qual Ives Gandra Martins é o grande representante.

Desde pelo menos 2006, o Judiciário tem sido o Poder que vinha possibilitando a garantia de direitos de algumas minorias, direitos esses ameaçados, digamos assim, pelo comportamento legislativo. Os evangélicos falam de uma judicialização da política e eles estavam se organizando para combatê-la.

A escolha de quadros na igreja para serem lançados passa por escolher pastores que têm importante representação na denominação, têm carisma. Outras vezes, as escolhas são feitas por relações familiares entre a liderança religiosa e o nome proposto, como no caso do Crivella, sobrinho de Edir Macedo, fundador da Universal.

O partido tem um projeto de poder maior que não se sustenta só em torno da religião. Então, a legenda escolhe candidatos com carisma, ampla visibilidade na sociedade, para angariar votos.

As concessões de evangélicos nas negociações políticas passam a ter pragmatismo, porque o universo politico demanda aliança, negociação com diferentes segmentos. E aí não dá para ser uma coisa só intrarreligiosa.

Mesmo esses religiosos no Congresso Nacional não representam todos os evangélicos no Brasil em todas as pautas. Na questão do aborto e LGBT, sim, há correspondência. Mas na pauta da arma e da pena de morte, há enorme descompasso, segundo o Datafolha. Os religiosos no Congresso são mais conservadores. Eles têm interesses para muito além do universo religioso, propriamente, passam por interesses pessoais e partidários.

Os evangélicos no Brasil são, em geral, contra a pena de morte, contra a ampliação do armamento e contra o Estado liberal, defendem o Estado protetor. Enquanto a maior parte dos políticos religiosos no Congresso é a favor do liberalismo. Tem um descompasso aí.

Numa cidade que acaba de passar por grandes transformações para sediar a Olimpíada, o novo prefeito chega ao poder com um discurso tipicamente populista. "Chega de obras, chegou a hora de cuidar das pessoas", diz seu slogan de campanha.

A eleição de Marcelo Crivella é um marco na ascensão dos pastores evangélicos na política brasileira.

Bispo da Igreja Universal, fundada pelo seu tio Edir Macedo, o senador comandará a Prefeitura do Rio, segunda maior cidade do país.

Sua vitória deve abrir uma nova trincheira para a atuação das igrejas neopentecostais, que concentram esforços na eleição de parlamentares desde a década de 1990.

Embora Crivella afirme não misturar política com religião, sua gestão será vista como laboratório de um plano maior. Há cinco anos, ele afirmou a uma plateia de pastores que só virou candidato por ordem da Universal.

Crivella é branco, tem nível superior e se articula melhor que a média dos pastores. Ao mesmo tempo, investiu muito na imagem de conciliador, o que o ajudou a atrair eleitores católicos.

"Os evangélicos ainda vão eleger um presidente da República, que vai trabalhar por nós e nossas igrejas", disse, na ocasião. O orçamento da prefeitura, que o bispo assumirá em janeiro, gira em torno de R$ 30 bilhões anuais.

Fonte: pesquisadora Christina Vital, da Universidade Federal Fluminense.


Acabei de ler o livro "Plano de poder – Deus, os cristãos e a política" (Por Elika Takimoto)

Escrito pelo mais bem-sucedido pastor neopentecostal do Brasil, o bispo Edir Macedo. Para não me acusarem de falta de leitura ou de respeito, procuro ler de tudo e continuo estudando aqui para tentar entender até onde esses líderes evangélicos pretendem tirar a minha paz.

Trago péssimas novidades. O plano é organizado, como vemos já em curso avançado, e claro. O mais esquisito é que ele praticamente confirma todos os vídeos onde vemos pastores arrancando dinheiro de fiéis e incitando o voto. Ele diz que é assim mesmo que tem que ser feito e justifica.

Logo de início, Macedo escreve: ‘Vamos nos aprofundar, através desta leitura, no conhecimento de um grande projeto de nação elaborado e pretendido pelo próprio Deus e descobrir qual é a nossa responsabilidade neste processo."

E diz Macedo que Deus teve como pretensão a formação de uma grande nação:

"Desde o início de tudo Ele nos esclarece de sua intenção de estadista e de formação de uma grande nação."

Macedo fala diretamente com os 40 milhões de cristãos brasileiros, ou melhor, os evangélicos, pois somente estes ele considera cristãos, para verem a bíblia não apenas como um livro religioso, mas também como uma espécie de ‘manual’ de ação política, escrito pelo maior dos estadistas: Deus.

"Insistimos em que a potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer que seja o escalão, municipal, estadual ou federal. Mas essa potencialidade depende de cultura cívica, conscientização, engajamento e mobilização".

Não há capítulo ou página em que ele não estimule e praticamente exija a participação política dos evangélicos:

"Os cristãos não devem apenas discutir, mas principalmente participar de modo a colaborar para a desenvoltura de uma boa política nacional e sobretudo com o projeto de nação idealizado por Deus para o Seu povo".

Não basta votar, tem que convencer aos demais sobre os valores de Deus para que façam uma nação com Seus valores (sic):

"É preciso haver clareza quanto ao fato de que, quando abordamos o tema política, estamos falando de algo complexo e que não se resume a uma ou outra ação sim de ações contínuas."

As promessas de quem fizer o que o mestre mandar permeiam o livro de capa à capa:

"Os resultados da fé, por exemplo, são provenientes de ações inteligentes e mútuas: o ser humano faz a sua parte e Deus cumpre a d´Ele".

Seguem-se a esses trechos orientações práticas de como os ‘cristãos’ devem proceder para eleger os seus, isto é, os representantes de Deus e Macedo ainda coloca medo caso eles ouçam quem pense diferente:

"Não é difícil imaginarmos quantos cristãos podem ter sido captados por técnicas de comunicação e marketing e persuadidos a votar em causas diferentes das suas".

A comparação dos hebreus, sob o governo do faraó do Egito, com os ‘cristãos’ brasileiros, à espera de um ‘libertador’, um novo Moisés, perpassa todo o livro. Eu até ganhei cultura, confesso. Já li o Velho Testamento mas não me lembrava de várias passagens que ele sempre cita:

"Até porque temos percebido, por parte da sociedade, que ser evangélico no Brasil ainda é como ser estrangeiro no Egito nos dias do Faraó."

Um dos capítulos, o que mais me chocou, é dedicado ao ‘agente apropriado’ para assumir o poder e que isso seria o "início do grande intuito divino". Macedo vê a si próprio e seus indicados - e não faz a menor questão de disfarçar - como os "agentes apropriados" para serem o "Moisés" brasileiro.

O plano está claro:

“Somente quando todos ou a maioria dos que a seguem estiverem convictos de que ela é a Palavra de Deus, então ocorrerá a realização do grande sonho Divino”, conclui Macedo colocando-se como canal da realização do “grande sonho Divino”, que é o estabelecimento do Brasil como nação “evangélica”.

Se for estudar um pouco mais e sair comparando discursos, não vamos demorar nada e encontrarmos paralelos com diversos movimentos destrutivos dos EUA e Europa.

O livro afirma categoricamente que os pastores atuam como canais de comunicação de Deus e dão forte ênfase, claro, ao crescimento financeiro de todos os que dela participarem sinal, diz ele, da retribuição divina.

E nem vamos falar dos inúmeros vídeos que temos de pastores arrancando dinheiro dos fiéis que mostram que é assim mesmo na prática. Os pastores seguem o líder maior. E há vídeos mostrando Edir Macedo ensinando pastores como fazer isso de forma funcional.

Olha, eu peço para que os próprios evangélicos leiam isso. Se ainda assim, continuarem seguindo e dando dinheiro para esse cara, pelo menos não será mais de forma tão ingênua assim. Será um trouxa, mas consciente de que está sendo manipulado e poderá esclarecer, assim como eu agora consigo, como a estratégia é bem traçada e funciona para os que não se importam de serem usados.

Se há evangélicos que não compactuam esse comportamento, desconsidere essa postagem. Não é nada pessoal e acho que dá para entender isso. Se me manifesto é porque estou sentindo minha vida invadida por valores e leis impostas por esse tipo de gente.

Falo somente em cima do que leio, vejo e com as pessoas ditas cristãs com as quais interajo. Se quiserem que eu veja algo que não esteja vendo, mostrem-me, por favor.

Está tudo aí por ora sobre esse livro e o Plano de Edir Macedo. Gostaria eu de ter inventado alguma coisa.

O medo de Cuba nos levará ao Irã

1 – O projeto de poder da Igreja Universal foi anunciado há duas décadas em um livro escrito por Edir Macedo e Carlos Oliveira. O título é auto-explicativo: "Planos de Poder". Onde estavam os defensores do estado laico nessa época?

2 – Há três décadas a Universal vem formando sua própria milícia, chamada de "Gladiadores do Altar". Os registros policiais indicam que a igreja é a maior compradora não estatal de armas automáticas do Brasil. Quem fiscaliza os gladiadores?

3 – A bancada da bala vota junto com a bancada do boi e da bíblia no congresso. Juntos, os deputados dessas três bancadas têm maioria no congresso. Quem irá detê-los?

4 – Hoje, na Folha de S. Paulo, há uma entrevista com a pesquisadora Christina Vital, da UFF, que há 15 anos investiga a relação de evangélicos com a política. Entre as suas conclusões está a de que, por trás da intenção de assumir a presidência da república, está um objetivo maior: indicar ministros do STF para barrar pautas das minorias e impor sua própria agenda religiosa. Isso vai significar o fim do estado laico?

5 – A pergunta quatro pode ser respondida pelas três anteriores. O dado novo é a eleição de Crivella ontem. Ele foi escolhido pelo tio, líder máximo da Universal, para ser o braço político do grupo. Conseguirá chegar à presidência da república?

6 – O discurso do antipetismo colou na sociedade e, junto com ele, trouxe o discurso anti-esquerda, como se todas as forças progressistas fossem iguais. Boa parte dos brasileiros foi convencida de que, em pleno ano de 2016, há comunistas planejando a invasão do país a partir da Venezuela e de Cuba. O discurso é bizarro, mas serve perfeitamente aos propósitos políticos da Universal, que se apresenta como a salvação dos valores tradicionais e a encarnação do antipetismo. Conseguiremos reverter esse raciocínio tosco ou o medo de Cuba pode nos transformar numa república teocrática, como o Irã?

7 – Vamos orar ou agir?





















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Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do blog do Drummond. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O que os Evangélicos querem de fato na política? (Por Thiago Muniz)

Se o Brasil continuar permitindo esse tipo de coisa em breve teremos apedrejamento de mulheres adulteras e execução pública de homossexuais. A bancada evangélica é insana! Qualidade que é imposta não é qualidade (dependendo do seu conceito de qualidade), mas qualquer que seja, ela só é consistente quando é um valor interior, constituído pela vontade do próprio sujeito que a possui. Existem ainda essas pessoas que pensam assim, essas pessoas tem suas razões, pois estamos convivendo hoje no Brasil um cristianismo-político contrário as leis de Deus, porque falam assim, por que a maioria são corruptos e ser corrupto é ser contrário a Deus.

Qual é a missão da bancada evangélica nesse sentido? Ao meu ver, é de preservação, não de criação. Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas, eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manutenção de uma ordem do que de transformação. É uma ação mais combativa, defender uma ordem social hegemônica. 

Os projetos que estão surgindo são pra fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo, com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização da homofobia – criminalização da heterofobia. São projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer tipo de discriminação de gênero, sexual.

Antes da década de 1990, já existiam vários parlamentares evangélicos, mesmo antes da Constituinte – muitos protestantes históricos e alguns pentecostais, mas não existia uma organização institucional da campanha desse grupo específico. Eram evangélicos que decidiam se candidatar e eventualmente recebiam o apoio de suas igrejas. Claro que, embora independentes, havia na Câmara uma certa articulação em nome sobretudo da manutenção dos interesses e valores morais próprios desse grupo. Mas no início da década de 1990 a Universal passou a protagonizar a participação política entre os evangélicos e já começou atuando com um plano político. Ela criou uma forma de fazer política no sentido de quase atuar como partido.

Funciona assim: A cúpula da igreja, formada por um conselho de bispos da confiança de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade. Os critérios para a escolha desses candidatos geralmente têm base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada região, tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual. 

Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribuição geográfica dos candidatos e a partir de uma distribuição partidária dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe um partido que é da Universal, o PRB, que fica cada vez mais forte no Congresso. Na época, havia uma distribuição por vários partidos para garantir a eleição. E são escolhidos bispos com um carisma midiático, que conduziram programas, radialistas e mesmo não bispos, mas figuras que se destacavam como comunicadores. Porque existe uma interface da mídia religiosa com a igreja e a política.

Não são parlamentares que se destacam na questão litúrgica como grandes estudiosos da Bíblia – até porque a tradição pentecostal está mais na produção de emoções e de momentos afetivos do que de fato na liturgia. Então os bispos e líderes religiosos que promovem essas catarses coletivas e demonstram esse carisma institucional são normalmente os escolhidos para candidatos. A Universal se tornou um modelo para outras igrejas porque a cada novo mandato havia um aumento significativo dos parlamentares da Universal. 

A Assembleia de Deus, que hoje tem a maioria dos deputados, mas que não funcionava assim, passou a ter a Universal como modelo. Não atuando da mesma forma porque o funcionamento institucional é outro. A Assembleia é uma igreja com muitas dissidências e muitas divisões internas, por isso não é possível estabelecer hierarquicamente os candidatos oficiais. As igrejas têm fortes lideranças regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede não tem tanta força e, por isso, eles criam prévias eleitorais. As pessoas se apresentam voluntariamente ou são levadas pela própria igreja e ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões, ou contagiam, como dizia Freud, também termina sendo um critério.

Então tem uma lista, depois uma pré-seleção que passa por um conselho de pastores – isso em cada ministério [a Assembleia de Deus é uma igreja com muitas ramificações]. É interessante que os que pretendem se candidatar assinam um documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele não seja escolhido. Na Universal, como o poder é nacional, tem uma sede hierarquizada que consegue controlar a instituição, candidaturas independentes não acontecem. Até porque os parlamentares que foram eleitos com esse apoio institucional e que na segunda legislatura tentaram se candidatar de forma independente não ganharam as eleições. 

A vitória está totalmente atrelada à instituição. Existe uma estratégia bem construída porque eles preveem uma fidelidade de 20%, que não é alta. A Assembleia de Deus está tentando construir essa fidelidade e essa unidade política que são extremamente difíceis devido a essa fragmentação interna. E faz as prévias nacionais com a participação de pastores e obreiros, novamente sem a participação da comunidade – não é um processo transparente. No Congresso então você tem essas lideranças religiosas que demonstram uma maior habilidade na interlocução com o sujeito, um carisma que gera catarse, contágio, impacto afetivo e as lideranças que foram identificadas e constituídas pela igreja como nomes importantes para ocupar o cenário nacional.

Na bancada evangélica no Congresso e também nas bancadas estaduais e municipais, você tem uma diversidade tão grande de integrantes que não dá pra pensar esse grupo como um bloco coeso, homogêneo. Muitos vêm representando a Assembleia de Deus e a Universal e algumas neopentecostais que tentam imitar essa estratégia, como, por exemplo, Sara Nossa Terra, de onde saiu o Cunha. Você tem muitos parlamentares das chamadas protestantes históricas [batistas, presbiterianas, luteranas, metodistas] que têm uma candidatura totalmente independente porque não há um plano político já estabelecido dentro das igrejas. Eles simplesmente são evangélicos, mas a trajetória política geralmente não se dá dentro da igreja e não há uma vinculação direta ao exercício da fé. Esses parlamentares gostam de dizer que separam bem a fé no âmbito privado da política na esfera pública. Mas é uma distinção contraditória porque eles tomam, sim, como referência algumas crenças e valores para orientar suas práticas parlamentares e votações como quando se discute aborto e homofobia,a por exemplo.

A pentecostal, que traz consigo a teologia da prosperidade, que tem a presença do neoliberalismo, do conservadorismo institucional e moral, já tem essa coisa de práticas políticas fisiológicas e clientelistas. É um grupo heterogêneo, mas os parlamentares pentecostais têm uma posição mais orientada pelas instituições religiosas. O mandato não é do parlamentar; é pouco do partido, é mais da instituição.

No começo, a gente tem a impressão de que a igreja interfere totalmente em tudo. Mas o Edir Macedo, por exemplo, é um líder muito complexo. Alguns parlamentares me contaram que ele determinou que eles precisavam ter uma formação política. Então eles frequentam cursos de formação política na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns outros cursos são dirigidos para bispos e parlamentares da Igreja Universal. Eles disseram isso explicando que não iam totalmente despreparados. “A gente tem uma formação, antes de vir tenta entender e conhecer.” O grande paradoxo da Universal é que no período eleitoral há uma mistura entre religião e política que é clara, não é velada. Ela se dá dentro do templo, o templo vira palco, o púlpito vira palanque político e as discussões pragmáticas sobre as eleições acontecem no púlpito. 

Tem toda uma pedagogia eleitoral que acontece dentro do templo. E no Parlamento eles tentam separar o discurso político do discurso religioso. Na verdade, isso começou a ser exigido pela cúpula da Universal depois de aparecerem escândalos e irregularidades envolvendo parlamentares evangélicos. Na época, quem era o grande líder político era o Bispo Rodrigues, que era o braço-direito do Edir Macedo. Depois dos escândalos do caso Waldomiro e do mensalão [que o levou à condenação a seis anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro], ele renunciou em 2005, perdeu o título de bispo e retiraram todas as candidaturas dos parlamentares justamente para não arranhar a imagem da igreja. Dizem que o Edir Macedo tem o privilégio de não participar desses momentos.

Tem até um líder de outra igreja, o Robson Rodovalho, que é da Sara Nossa Terra, que se candidatou e se elegeu, que dizia que era muito difícil para ele como líder estar ali. Que para o Edir Macedo era muito mais fácil porque, se algum parlamentar fosse citado ou cometesse alguma irregularidade, ele simplesmente diria que não sabia de nada. No caso dele, a igreja correria o risco de se enfraquecer. O que me chamou atenção quando fiz as entrevistas foi que nenhum tinha mais o título de bispo. Com os outros, eu começava sem perguntar nada sobre a religião, e eles mesmos em algum momento entravam nessa parte da fé. 

Já os parlamentares da Universal não falavam de Deus, era um discurso totalmente parlamentar. Não mais progressista, mas eles queriam separar os processos. E, segundo um deles, o próprio Edir Macedo orienta os parlamentares a seguir as orientações do partido nas votações exatamente para que eles não tenham divergências e eventualmente percam as verbas públicas destinadas às emendas parlamentares.

Quando as temáticas são institucionais, relacionadas a isenção fiscal, alvará de funcionamentos das igrejas, doações de terrenos, distribuição de concessão de rádios e TV, a transformação de eventos evangélicos em eventos culturais pra receber financiamento da Lei Rouanet, questões relacionadas à lei do silêncio. Aí eles atuam de forma articulada, como um bloco, convergem em nome desses interesses, como em relação a questões morais. Com algumas diferenças, mas muitas aproximações. Alguns cargos dos gabinetes têm que ficar à disposição da igreja, que indica quem vai ocupar. É uma igreja pragmática, tem muito mais interesses institucionais do que morais. 

Se for analisar do ponto de vista moral, é muito mais flexível e aberta do que igrejas como a Assembleia de Deus. Essa, sim, tem um discurso de natureza moral além do institucional, de manutenção da ordem. Quando há convergência nesses temas institucionais e morais, a bancada se articula. É importante salientar que poucas vezes você verifica a articulação desse bloco de forma totalmente coesa. Eles excluem a política nessa discussão de pauta dos parlamentares evangélicos para criar uma falsa aparência de unidade. Muitas vezes a imprensa anuncia a bancada evangélica como um ser único, e para a bancada é muito interessante aparecer assim como um corpo único, um bloco suprapartidário.

Exatamente, uma entidade com um poder e as divisões não aparecem. Mas no discurso desses parlamentares que estão à frente e que normalmente são os das igrejas pentecostais apresentam a bancada dessa forma. “A bancada decidiu”.

A mídia faz parecer que os evangélicos se reúnem sim, mas não. Porque eles estão filiados a partidos e a movimentação na Câmara se dá por partidos. Eles ficam muito indignados com a falta de poder que têm, porque têm poder na igreja, mas a divisão por partido privilegia o alto clero. Você tem alguns líderes partidários que definem as orientações e eles tem que seguir ou são punidos de alguma forma, principalmente não tendo as verbas públicas para realização das emendas parlamentares. 

O interessante é a atuação dos assessores. Eles acompanham os projetos diariamente, em uma tentativa de mapeamento dos projetos em tramitação e seleção dos mais importantes, projetos “anticristãos”. Você também tem uma distribuição dos parlamentares pelas comissões que eles consideram mais importantes como a de Seguridade Social, de Direitos Humanos, de Constituição Justiça e Cidadania. Aí eles vão tentando barrar a tramitação dos projetos. Alguns mais ativos tentam conseguir posto de presidente ou relator. Você tem uma estratégia bem elaborada, mas não conta com uma participação tão ativa quanto parece. É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão. Acho que também é uma estratégia de parecer maior do que é pelo grito. Que é o que acontece nas próprias igrejas. As igrejas têm esse discurso de guerra, de combate. 

O exército da Universal que deixou todo mundo perplexo, mas isso sempre aconteceu, é o discurso de todas as igrejas. A convocação nas igrejas tem todo esse ritual bélico mesmo. E o soldado é aquele que está ali para obedecer e para combater. A bancada usa isso também. Você valoriza o tamanho do adversário para convocar os integrantes. Mas eu ouvi muitos relatos de parlamentares que estavam acompanhando votações e que tinham poucos para impedir a continuação da votação. Aí o assessor ligava para a lista da FPE: “Esse é pró-vida, vou chamar”. Aí liga: “Deputado, vem aqui, pede vista”. Eles têm uma assessoria que conhece os procedimentos regimentais e que orienta os parlamentares que muitas vezes não sabem nem o que está acontecendo ali. Tem uma disponibilidade em participar quando convocados e uma entrega total de alguns pela causa.

Antes do Eduardo Cunha, eles estavam caminhando para um discurso mais coerente com aquele espaço. No fim de 1980, os discursos condenavam o aborto e justificavam trazendo passagens bíblicas, dizendo que Deus não permite. Depois a bancada amadureceu um pouco nesse sentido, entendeu que não dava pra usar esse discurso porque não tinha coerência e começaram a argumentar de forma mais legislativa, aderir a um discurso que tinha mais ressonância naquele contexto. Toda moral é um sistema de controle. 

A sexualidade é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então, você tem um sistema normativo de controle. É genuíno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína de posições morais que eles querem transferir para a realidade social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não é legítimo é trazer esse discurso para a esfera pública de um Estado laico.





























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Thiago Muniz é colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.