domingo, 15 de novembro de 2015

Mulheres Curdas: A resistência é a vida (Por Thiago Muniz)

Recentemente surgiram notícias nos meios de comunicação sobre o que está a ocorrer em Kobane, sobre a resistência curda contra o Estado Islâmico (EI). Vemos imagens de mulheres das Unidades de Defesa de Mulheres (YPJ) a lutar nesta região.

Apesar da surpresa que suscitaram as fotografias, não se deu muita atenção à análise de como ou de onde surgem estes grupos. Dilar Dirik é ativista no Movimento de Mulheres Curdas e investigadora sobre Curdistão e o movimento de mulheres.

Depois da ascensão do Estado Islâmico, o mundo deu-se conta de que há mulheres a lutar no Curdistão. Muitas pessoas que desconheciam o que ocorria nesta região surpreenderam-se ao saberem que as mulheres de uma sociedade que é vista como conservadora e dominada pelos homens lutem e até derrotem esta organização brutal. 

Os média capitalistas, e até as suas revistas de moda, apressaram-se a apropriar-se e a instrumentalizar a luta legítima destas mulheres como se fossem uma espécie de fantasia “sexy” ao estilo ocidental. 

Têm centrado o seu interesse em elementos muito superficiais como “os combatentes do Estado Islâmico temem as mulheres curdas porque se uma mulher os mata não vão para o céu”. Mas ignoram que este é um tema profundamente complexo e que há algo mais do que a luta armada neste conflito. O que há é um projeto político de emancipação radical.

As YPJ são as forças de defesa das mulheres, mas há uma luta bem mais ampla que vai para além do campo de batalha. Yekîtiya Star é a organização guarda-chuva do movimento de mulheres em Rojava (Curdistão ocidental / norte da Síria). 

Nos três cantoẽs de Rojava “no meio da guerra” são cumpridas as normas de copresidência [todos os cargos são compostos por uma mulher e um homem], de quotas, e criaram-se unidades de defesa das mulheres, conselhos de mulheres, academias, tribunais e cooperativas. As leis têm como objetivo eliminar a discriminação de género. 

Por exemplo, os homens que exercem violência contra as mulheres não podem ser parte da administração. Um dos primeiros atos do governo foi a criminalização dos casamentos forçados, a violência doméstica, os assassinatos por honra, a poligamia, o casal infantil, e o “preço da noiva”. 

Não surpreende que muitas mulheres árabes, turcas, arménias e assírias se unam às fileiras das organizações armadas e às administrações em Rojava. O objetivo é assegurar-se de que a sociedade interiorize o facto de que a libertação das mulheres é um princípio básico para a libertação e a democracia, em lugar de ser de exclusiva responsabilidade das mulheres. A revolução tem de mudar a mentalidade patriarcal da sociedade. 

Caso contrário, a história repetir-se-á e as mulheres, que participaram ativamente na revolução, irão perder todo uma vez se consiga a “libertação”. Foi isto que aconteceu a muitas mulheres noutros lugares do mundo. Por isto, o conceito de revolução deve incluir ativamente 50% da população, se pretende conseguir uma liberdade verdadeira.

O YPJ (Unidades de Defesa das Mulheres) não se subordina ao YPG (Unidades de Defesa do Povo); é um grupo só de mulheres que se organiza de forma autónoma e leva a cabo operações militares e treinos de forma independente. Mas nem todas as mulheres devem aderir ao YPJ, já que os grupos não são segregados por géneros. 

Ambos centram-se na educação ideológica e política, mas o YPJ põe muita ênfase na educação e no empoderamento das mulheres. Ambos grupos são forças de defesa legítima de Rojava e estão vinculados entre si.

Infelizmente, devido à intensidade da guerra, muitos dos projetos não podem funcionar como deveriam. A revolução em Rojava é ideologicamente próxima ao PKK e o sistema que está a ser estabelecido ali baseia-se no conceito de “Confederalismo Democrático”, que promove um autogoverno local radical e de base, com igualdade de género e ecológico, que questiona as fronteiras arbitrárias existentes. Mas agora em Kobane toda a cidade está mobilizada para a guerra.

No entanto, no cantão de Cizîre, que é o maior e mais estável dos três cantões, apesar da guerra foram criadas muitas cooperativas, escolas, conselhos, academias e estruturas autónomas de mulheres. Por exemplo, em setembro de 2014, em Qamishlo foi criada a Academia de Ciências Sociais da Mesopotâmia.

Os embargos económicos e políticos da guerra puseram em perigo alguns elementos sociais da revolução. Mas isso obriga as pessoas a encontrarem soluções criativas para os seus problemas. Quando sofremos os embargos, as pessoas dedicam-se ainda mais à agricultura e às cooperativas e comunas de trabalho. Mas, evidentemente, a crise dos refugiados, a guerra, os deslocamentos, o trauma e os embargos fazem que seja muito difícil implementar as ações de autonomia democrática como se pretendia.

Este ataque a Kobane é na realidade o último de vários ataques deste ano. O EI atacou Kobane várias vezes devido à importância estratégica e simbólica que tem. Durante dois anos, os curdos em Rojava têm lutado tanto contra o regime de Assad [Presidente de Síria] quanto contra as forças radicais islamistas, como a al-Nusra ou o EI. Mas a sua luta foi completamente ignorada até agora.

Os curdos há anos que advertem o mundo sobre o perigo do EI e acusam a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar de apoiar os jihadistas na Síria. O filho de Salih Muslim, o copresidente do Partido da União Democrática (PYD) em Rojava, morreu a lutar contra o EI em 2013. E isto foi um ano antes de o mundo tomar conhecimento da existência do EI. Muslim tentou falar com diferentes atores internacionais, mas rejeitaram as reuniões e até de lhe conceder os vistos. 

Apesar destes ataques, os curdos também foram excluídos da conferência de paz de Genebra II. Mas os mesmos estados que antes apoiavam os jihadistas são agora parte da coligação contra eles. E, uma vez mais, foram os curdos que lutaram sozinhos em Kobane. 

Durante um mês, o mundo previu que “Kobane cairá a qualquer momento.” Mas Kobane continua de pé graças a uma resistência extraordinária e graças à politização das pessoas. Os últimos ataques aéreos ajudaram, mas não teria sido possível resistir sem as pessoas que ficaram ali lutando.

Foi dito em várias ocasiões que a Turquia, com o fim de derrubar Bashar al-Assad e enfraquecer a autonomia curda na Síria, apoiou os jihadistas na Síria de forma económica, militar, logística e política. E se pôde fazer isto é porque é um importante aliado da NATO na região.

O mundo surpreendeu-se ao ver como o exército turco na fronteira podia literalmente ver os combatentes do Estado Islâmico mas não fazia nada. O Presidente de Turquia, Recep Tayyip Erdogan, estabeleceu mesmo condições para o apoio a Kobane: deveria criar-se uma zona neutra no norte de Síria “basicamente uma ocupação turca em Rojava. 

Além disso, os curdos deveriam unir-se à oposição sírio-árabe, e o Partido da União Democrática deveria distanciar-se do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, PKK.

Evidentemente, estas condições são inaceitáveis para os curdos, que têm lutado durante dois anos por criar e defender a região. Estas condições eram também um abuso imoral da situação de desespero em Kobane. 

Salih Muslim respondeu afirmando que os curdos lutavam contra o regime sírio em Rojava e que se tinham oposto a ele desde o ano 2004: “Estávamos a ser torturados enquanto vocês jantavam com Assad”.

A Turquia sempre quis mostrar-se como vítima, recusando-se a participar na luta contra o EI. Mas, nesta guerra, a Turquia não é uma vítima e sim um agente ativo. Erdogan impulsionou esta zona neutra durante muito tempo. Antes, queria-a “para lutar contra Assad”. O que está claro é que a sua prioridade é destruir Rojava e não o Estado Islâmico.

Mediante o apoio a Kobane, ou pelo menos sem atacar aqueles que querem defendê-la, Erdogan tinha a oportunidade de demonstrar que era sincero a respeito do processo de paz com o PKK. Mas, pelo contrário, autorizou ataques contra os curdos que cruzavam a fronteira para defender Kobane, e bombardeou o PKK, que está vinculado às forças curdas na Síria, as quais ganharam reputação internacional ao serem o inimigo mais forte do Estado Islâmico. 







Com estas ações, Erdogan não só ajudou indiretamente e facilitou mais ataques do EI a Kobane, como também utilizou o estado de sítio como a sua oportunidade de ouro para enfraquecer o povo curdo, mostrando de maneira dramática a completa falta de interesse na paz com o PKK.

Representantes do governo da Turquia afirmaram que o PKK e o Estado Islâmico são o mesmo. Com as suas ações, Erdogan dá a entender que o projeto democrático de base, com igualdade de género e inclusivo da região é uma ameaça “terrorista” maior que o EI – que decapita, crucifica, e viola sistematicamente a mulheres e as vende como escravas sexuais.

Os confrontos entre os curdos e os grupos racistas e islamistas, bem como com a polícia na Turquia, mataram já muitas pessoas. Os curdos não querem que o exército turco intervenha. Querem que a Turquia deixe de apoiar o Estado Islâmico, que abandone o plano da zona neutra e que permita que os ativistas e as ajudas possam cruzar a fronteira e ir para Kobane.

Se o processo de paz terminar, se o Estado Islâmico cometer um massacre em Kobane, se mais pessoas morrerem em confrontos nas ruas de Turquia, os curdos, com razão, culparão Erdogan e o seu governo – mas também a inação da comunidade internacional, que evita o conflito com o Estado turco num momento em que apoia os jihadistas.

É muito difícil fazer uma previsão já que, há um ano, ninguém teria dito que o EI se converteria numa preocupação mundial, que os yazidis viveriam outro genocídio ou que Kobane entraria na história pela sua heroica luta. Mas acho que nas últimas semanas o mundo deu-se conta de várias coisas, como da verdadeira face da Turquia. Assim, não posso prever nada, mas posso dizer o que espero.

Espero que a administração de Rojava seja reconhecida sem ser cooptada pelas potências hegemónicas. Espero que as comunidades étnicas e religiosas, após esta guerra, ainda sejam capazes de se olhar nos olhos. Espero que as mulheres continuem a levar a bandeira da revolução sem pôr em perigo a libertação das mulheres. Mas para que isto ocorra, todos temos de nos esforçar mais para apoiar esta revolução.

Não quero falar “em nome” das valentes mulheres que lutam em Kobane, porque justamente agora muita gente está a tentar falar em nome delas. Em vez disso, posso resumir o que muitas delas estão a dizer:

Que a sua luta vai bem mais além da guerra contra o Estado Islâmico. Que estão a lutar por uma sociedade livre na qual as diferentes comunidades étnicas ou religiosas cooperem, na qual as mulheres sejam livres. Elas estão a defender os direitos das mulheres em todos os lados.

Durante a nossa greve de fome, recebemos um telefonema de Kobane. Em lugar de sermos nós a dar ânimo a elas, foram elas que reagiram primeiro e tentaram animar-nos, enviando-nos as suas saudações e solidariedade!

Assim, para além das palavras, o povo de Kobane e especialmente as mulheres, com as suas ações e a sua valentia, já nos disseram muitas coisas. Mostraram-nos o verdadeiro significado de um lema popular curdo: “Berxwedan Jiyan e” – “A resistência é a vida”.


Referência: Dilar Dirik é ativista no Movimento de Mulheres Curdas e pesquisadora sobre o Curdistão e o movimento de mulheres.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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