terça-feira, 11 de agosto de 2015

#RIP TV Cultura (Por Thiago Muniz)

Emissora dos Diários Associados inaugurada em 1960, a Cultura passou por um grande incêndio em 1965 e foi comprada dois anos depois pelo governo do Estado, transformando-se em TV educativa. Mas engana-se quem imagina que ela tenha sido usada apenas para telecursos ou para veicular programas chatos e laudatórios dos vários governos estaduais que a sustentaram.

Contrariando todas as expectativas, a Cultura passou por cima da previsível tutela oficial para se transformar numa emissora de vanguarda com programação de altíssima qualidade. Quem aqui não se divertiu com o “Castelo Rá-Tim-Bum”, “Bambalalão” ou “Vila Sésamo”? Quem não se lembra do “Roda Viva” quando era o principal programa de entrevistas do país, conduzido por gente do naipe de Rodolfo Gamberini, Lilian Witte Fibe e Paulo Markun? Hoje é uma piada, apresentada por um fóssil do jornalismo cujo nome me reservo o direito de sequer mencionar. E o “Cartão Verde”, com Trajano, Juca Kfouri e Armando Nogueira? O que dizer do “Vitrine”, do “Metrópolis”, da “Fabrica do Som”, do “Provocações”, do “Viola, Minha Viola”? E das transmissões esportivas com Luiz Noriega, Orlando Duarte, José Góes?

A TV Cultura (ou apenas Cultura) é uma rede de televisão brasileira com sede em São Paulo, capital do estado homônimo. Emissora de televisão pública e comercial de caráter educativo e cultural, foi fundada em 20 de setembro de 1960 pelos Diários Associados e reinaugurada em 15 de junho de 1969 pela Fundação Padre Anchieta, sediada na capital paulista, gerando programas de televisão educativos que são transmitidos para todo o Brasil via satélite e através de suas afiliadas e retransmissoras em diversas regiões do Brasil.

Em 28 de abril de 1965, um curto-circuito no 15º andar do Edifício Guilherme Guinle, na Rua 7 de Abril, 230, provocou um incêndio onde era o estúdio da TV Cultura dos Diários Associados. Pouco se salvou deste incêndio, onde inclusive perdeu-se a primeira câmera de TV do Brasil da Rede Tupi. Em decorrência deste incêndio, Assis Chateaubriand acabou mais tarde vendendo a emissora para o Governo do estado de São Paulo. No dia 28 de fevereiro de 1986 outro incêndio atingiu a sede da TV Cultura, na cidade de São Paulo. O fogo destruiu 90% dos equipamentos da emissora, fazendo com que ela ficasse três horas fora do ar.

É mantida pela Fundação Padre Anchieta, uma fundação sem fins lucrativos que recebe recursos públicos, através do governo do estado de São Paulo, e privados, através de propagandas, apoios culturais e doações de grandes corporações.

No dia 30 de janeiro de 2015, o instituto de pesquisa britânico Populus divulgou que a TV Cultura é o segundo canal de maior qualidade do mundo, atrás apenas da BBC One.

De 1980 a 2007, a TV Cultura tornou-se uma forte rede de televisão educativa, sendo que várias emissoras educativas de todo o país passaram a se afiliar a com rede. No ano de 1998, a TVE Brasil do Rio de Janeiro se juntou a TV Cultura e juntas elas formaram a Rede Pública de Televisão, hoje ABEPEC (Associação Brasileira das Emissoras Públicas e Educativas). Em 2007, com a criação da TV Brasil, a parceria com a TV Cultura é desfeita. Em um período de 2008 a 2012, mais da metade das afiliadas da TV Cultura a deixam pela TV Brasil, gerando um rápido encolhimento da rede.

Em 2013, com os recentes resultados obtidos pelo Ibope, que demonstravam uma queda de audiência da RedeTV! e um crescimento de audiência da TV Cultura na média diária de audiência da Grande São Paulo (as emissoras ficaram tecnicamente empatadas no 5º lugar), a emissora começou a buscar novas emissoras pelo Brasil nos mercados onde perdeu afiliadas para a TV Brasil nos últimos anos, promovendo um re-expansão do seu sinal.

Em 2013, a emissora universitária Ulbra TV passou a ser afiliada a TV Cultura em Porto Alegre, RS, pelo canal 48, além de gerar programas locais. Antes, o sinal da TV Cultura era transmitido em Porto Alegre pela emissora pública TVE RS, desde 1990 até 2011. No final de 2013, a TV Nova Nordeste também passou a ser afiliada da TV Cultura em Recife, PE, levando sua programação para toda Região Metropolitana do Recife e algumas cidades do interior pernambucano.

Em 2014, a emissora paulista ganhou três afiliadas. A TV Aldeia, de Rio Branco, Acre (deixando a TV Brasil sem sinal no estado), a TV Baiana, de Salvador, BA e a TV Farol, de Maceió, AL.

Em fevereiro de 2015, a TV Brasil Oeste de Cuiabá, MT passa a ser afiliada da TV Cultura. Com isso, a emissora paulista está presente em todas as principais regiões do estado do Mato Grosso. Antes, era exibida apenas na capital mato-grossense, Cuiabá. Em maio do mesmo ano, a TVE RS voltou a transmitir alguns programas da TV Cultura, no entanto, transmitindo a maioria da programação da TV Brasil.

Com a expansão do seu sinal dentro de Mato Grosso, a TV Cultura passa a ter um alcance de 102 milhões de pessoas em todo o Brasil. Atualmente, a emissora está presente em 352 municípios de São Paulo e em 20 estados.

TV Cultura - Diários Associados (1960-1969)

Em 1958, os Diários Associados recebem do governo a concessão do canal 2 com o atual prefixo ZYB 851 de São Paulo. No dia 20 de setembro de 1960, entra no ar a TV Cultura, com o slogan "um verdadeiro presente de cultura para o povo" e com o logotipo C2 Cultura e uma indiazinha desenhada no centro. A implantação da emissora, para evitar interferências técnicas, fez a TV Tupi mudar do canal 3 para o 4.

A TV Cultura iniciou suas operações com um estúdio de 30 m² instalado no décimo-quinto andar do Edifício Guilherme Guinle, na Rua 7 de Abril, 230, que foi o mesmo estúdio onde a TV Tupi iniciou suas transmissões. Os técnicos e os atores eram da TV Tupi e, além disso, sua antena no alto do Banespa (Edifício Altino Arantes), também era a antiga antena da TV Tupi, pois a mesma já transmitia seu sinal pela Torre Assis Chateaubriand, no bairro do Sumaré. Os Diários Associados colocaram o canal 2 no ar com pouca divulgação, de forma que muitos nem souberam de seu lançamento.

No início das transmissões da TV Cultura, José Duarte Jr. era o seu diretor artístico e comercial da emissora, sendo que depois foi substituído por Mário Fanucchi. Fanucchi foi um dos primeiros "vinheteiros" do Brasil e o inventor do indiozinho da TV Tupi. Na época ainda não existia o videotape, de forma que a programação da TV Cultura nunca foi a mesma da TV Tupi como muitos imaginam, pois na verdade tinha seus próprios estúdios e profissionais.

Entre os profissionais da TV Cultura estiveram Ney Gonçalves Dias, Fausto Rocha, Xênia Bier, Carlos Spera e Jacinto Figueira Júnior - que criou o Homem do Sapato Branco, primeiro programa popular da TV Cultura.

Em 1963, os Diários Associados formam parceria com o Governo do estado de São Paulo e com o SERTE (Serviços de Educação de Rádio e Televisão), que dariam origem a dez horas de programação educativa na emissora.

Em 28 de abril de 1965, um curto-circuito provoca um grande incêndio no estúdio da TV Cultura. Infelizmente neste incêndio se perdeu a "Câmera 1" (câmera TK-30 de 80 quilos) que registrou a inauguração da TV Tupi e da Televisão no Brasil.

Devido ao incêndio, os programas da emissora foram provisoriamente produzidos em um estúdio da TV Tupi no Sumaré. Em 1966 a TV Cultura se instala em um bosque próximo a Freguesia do Ó, ao lado da Lagoa Santa Marina - ambos no bairro de Água Branca. Ali criaram a competição Acqua-Ringue, que era uma luta de boxe que fazia vencedor aquele que jogava o outro na água.

Com a mudança para a nova sede, mais despesas acabaram se acumulando, sendo que o incêndio de abril de 1965 foi o pivô de toda esta situação, colaborando desta forma para a venda da TV Cultura. Assis Chateaubriand decide então vender a TV Cultura para o Governo do Estado de São Paulo e também as suas novas instalações na Água Branca.

Transição Associados-Fundação Padre Anchieta

Em setembro de 1967, o governador de São Paulo, Roberto Costa de Abreu Sodré, cria a Fundação Padre Anchieta (Centro Paulista de Rádio e TV Educativa). Esta fundação era composta por diversos profissionais, faculdades (USP, Unicamp, PUC, Mackenzie, entre outras), sociedades privadas e públicas (ABI, UBE, etc.) e com setenta centavos de cada paulista. A Fundação Padre Anchieta adquire então dos Diários Associados a TV Cultura Canal 2 e a Rádio Cultura AM.

A TV Cultura torna-se então a segunda emissora de TV educativa do Brasil (a primeira foi a TV Universitária, da Universidade Federal de Pernambuco). A Fundação Padre Anchieta procurou dar um novo nome para a emissora como: TV Escolar, TV Educativa, etc. Como a TV Cultura já tinha uma programação educativa, a Fundação manteve este nome, mesmo porque todos os funcionários da antiga emissora nesta fase de transição foram mantidos, já que seus profissionais lidavam com programas educacionais.

O governo começa então a aterrar a Lagoa Santa Marina na Água Branca, criando ruas, fábricas e prédios a sua volta. É construída então a nova sede da TV Cultura na Rua Carlos Spera, 179 (nome do jornalista da TV Cultura em sua fase nos Diários Associados e também da TV Tupi), e com saídas laterais pela Rua Cenno Sbrighi, 378 e Rua Vladimir Herzog,

TV Cultura - Fundação Padre Anchieta (1969-presente)

Após quatro meses de transmissões experimentais que iniciaram no dia 4 de abril, foi reinaugurada a TV Cultura às 19h30 do dia 15 de junho, com a apresentação dos discursos do então governador, indicado pela ditadura militar, Roberto Costa de Abreu Sodré e do presidente da Fundação Padre Anchieta, José Bonifácio Coutinho Nogueira (que posteriormente veio a fundar a EPTV, rede de quatro emissoras afiliadas à Globo no interior de São Paulo e no Sul de Minas Gerais). Em seguida, foi exibido um clipe mostrando o surgimento da emissora, os planos para o futuro e uma descrição dos programas que passariam a ser apresentados a partir do dia seguinte. Além disso foi exibida uma fita com o Papa Paulo VI dando bênção à TV Cultura.

O primeiro a ser exibido pela Cultura foi o documentário Planeta Terra no dia 16 de junho, às 19h30, que trazia como tema terremotos, vulcões e fenômenos que ocorrem nas profundezas do planeta. Em seguida, às 19h55, foi levado ao ar um boletim meteorológico chamado A Moça do Tempo, apresentado por Albina Mosqueiro. Às 20h iniciava uma série chamada de Curso de Madureza Ginasial (onde Ruth Cardoso, ex-primeira-dama presidencial era uma das professoras que dava aula pela televisão), sendo um dos seus maiores desafios o de provar que uma aula transmitida por televisão poderia ser, ao mesmo tempo, eficiente e agradável. Estiveram entre os primeiros programas da emissora, a peça O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa; Quem Faz o Quê, sobre profissões; Sonatas de Beethoven, com o pianista Fritz Jank; e O Ator na Arena, com Ziembinski. O primeiro logotipo da TV Cultura em sua fase na Fundação Padre Anchieta foi o seu "bonequinho" - como apelidaram seu símbolo, que inicialmente era acompanhado da assinatura "TV-2 Cultura". O verde desde sua fundação é tido como a cor oficial da instituição.

Em 22 de agosto de 1992, a emissora inaugurou no bairro do Sumaré a Torre Cultura, que passava a ser usada para emitir os sinais da TV Cultura e da Rádio Cultura FM, além das demais emissoras públicas de São Paulo. A nova torre substituiu a antiga utilizada pela emissora desde a década de 1970 no Pico do Jaraguá, que passou a ser utilizada pela Rádio USP FM.

A Rede Pública de Televisão, formada pela união da TVE Brasil (RJ) com a TV Cultura (SP), foi extinta no dia 2 de Dezembro de 2007, data da inauguração da TV Brasil, a TV pública do Governo Federal. Com isso, São Paulo e outros estados brasileiros passaram a transmitir apenas o sinal da TV Cultura. Depois, muitas emissoras públicas em todo o território nacional deixaram de transmitir a programação da TV Cultura para transmitirem a programação da TV Brasil, gerando o rápido encolhimento da rede desde 2008.

No dia 18 de março de 2015, depois de mais de 20 anos em sinal analógico captado nas parabólicas, a TV Cultura deixou de ter sinal no satélite StarOne C2, passando a utilizar o StarOne C3.

Slogans

1960 - 1968: Um verdadeiro presente de cultura para o povo (fase nos Diários Associados)
1979 - 1986: A imagem de São Paulo
2002 - 2003: Cultura, mais perto de você
2003 - 2004: Apenas o coral Cultura
2004 - 2006: Cultura, respeito por você. Qualidade em 1º Lugar
2006 - 2007: Mais que televisão, é Cultura
2007: TV Cultura, modelo de TV pública no Brasil
2007 - 2008: Cada vez mais pública
2008 - 2009: A TV que faz bem
2009 - 2010: Cultura 40 Anos - a TV que faz bem
2010: Está surgindo uma TV diferente
2010 - 2013: Uma TV diferente
2013 - 2014: Abrace o novo, abrace Cultura
2014: 45 anos de história, 45 anos de Cultura
2015: Muito mais Cultura para você

Conto tudo isso depois de ler que a Cultura, sem dinheiro e apoio do governo do Estado, está morrendo aos poucos. Alguns ex-apresentadores do canal gravaram um vídeo que é um grito de socorro, apelo que, receio, não será ouvido. Voltei à Cultura há dois anos, a convite de um amigo, para fazer uma participação breve num telejornal da hora do almoço. Quando terminou, pedi para dar uma voltinha pelos estúdios da rádio. São outros, não reconheci quase nada. Vi o piano de cauda, porém. E notei a meia-luz, que persiste. Mas já não havia ninguém, nem ao piano, nem atrás dos botões, os microfones transmitindo apenas silêncio.






BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

4 comentários:

  1. Estava na internet pesquisando sobre o Antigo Telecurso 2º Grau e acabei descobrindo seu blog.
    Fiquei sinceramente emocionado ao constatar aqui o que eu já suspeitava: a TV Cultura está se acabando aos poucos. Essa emissora fez parte da minha infância e também da minha adolescência. "O Professor", "X Tudo", "Castelo Rá tim bum", sem falar em programas estrangeiros mas de ótima qualidade como "Olho Vivo", "Didavision: A Enciclopédia Eletrônica", "O Gato Zap", "Mundo de Beakman" e outras inúmeras series de documentários e divulgação científica... Só tenho boas recordações desse canal...

    Sebastião

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    1. Obrigado pelo comentário Sebastião!

      Volte sempre !!!

      Abraços !!!

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  2. Queria muito rever programas como Didavision, mas infelizmente acho que nunca mais verei. Triste. Politicos corruptos roubando e destruindo a educação.

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