segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Inferno Berlim-Atenas (Por Thiago Muniz)

Há várias maneiras de cobrar dívidas além da ortodoxia assassina de Angela Merkel, mais preocupada com a saúde dos bancos credores do que com a saúde de populações inteiras. Merkel endurece, impõe privatização e corte de gastos à Grécia, vence o embate, humilha o esquerdista Tsipras e, na prática, o destitui do governo grego. A questão agora é saber o que fará Berlim. Angela Merkel vai ter de quebrar o silêncio.

O economista francês Thomas Piketty deu uma entrevista à revista alemã “Die Zeit” em que disse, entre outras coisas, que antes de exigir o pagamento a qualquer custo da dívida grega os alemães deveriam lembrar seu passado de devedores. Segundo Piketty, a Alemanha nunca pagou suas dívidas. Cobrou, com a mesma intransigência de agora, a dívida de outros, como a reparação paga pela França com muito sacrifício depois da guerra franco-prussiana de 1870, mas não pagou sua própria reparação depois da Primeira Guerra Mundial. Esta dívida foi perdoada em 1934, o que desmente a tese de que foram as exigências dos vencedores da guerra que levaram a Alemanha, ressentida, a seguir Hitler.

Em 34 a Alemanha não foi humilhada, como diz a tese. Foi perdoada. Em 1953, depois da Segunda Guerra Mundial, numa conferência realizada em Londres, decidiu-se perdoar 60% da dívida alemã, uma generosidade muito maior do que a que os gregos estão pedindo agora. Foi este presente que possibilitou à Alemanha derrotada na guerra iniciar o “milagre” que a transformou na potência econômica que é hoje, na posição de mandar na economia de toda a Europa e pregar a austeridade e a “responsabilidade” que ela mesmo exemplifica. Uma superioridade moral conquistada de calote em calote.

Na entrevista, Piketty faz um histórico de dívidas nacionais através dos tempos, mostrando como há várias maneiras de cobrá-las ou equacioná-las além da ortodoxia assassina receitada por Angela Merkel, mais preocupada com a saúde dos bancos credores do que com a saúde de populações inteiras privadas de assistência social pela tal austeridade. O que a Alemanha desmemoriada não admite é que façam como ela fez, e não como ela manda.

O primeiro-ministro da Grécia não tem idade suficiente para conhecer um bolero chamado “Hipocrita”, do tempo em que havia boleros. Se soubesse, poderia serenar a sra. Merkel com ele, na próxima vez em que se encontrassem. O bolero começa assim:

Hipocrita... Secilamente hipocrita...

E termina assim:

Escuchame e comprendeme, no puedo ya vivir como hiendra del mal tu me enredaste y como no me queires me voy a morir”.

Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, venceu o embate e, na prática, destituiu do governo da Grécia Alexis Tsipras, o primeiro-ministro porra-louca da frente esquerdista Syriza, que achou que poderia dar um calote e propor um referendo para endossá-lo, o que foi saudado por idiotas, mundo afora, inclusive na imprensa e na política brasileiras, como a vitória da soberania contra o capitalismo. Merkel disse um “tudo bem se é assim, mas a Grécia deixa a Zona do Euro até se reestruturar”. Tsipras não tinha mais o que fazer. Capitulou e decidiu aceitar condições ainda mais duras do que aquelas que havia recusado.

Depois de 17 horas de negociação, foi anunciado nesta segunda o acordo de resgate da Grécia. Não se fala mais em “Grexit” — trocadilho em inglês para “Greek” (grego) e “exit” (saída) —, que se referia à saída da Grécia da Zona do Euro, mas a “aGreekment”, aí fundindo “Greek” com “agreement”, acordo. Sim, o acordo saiu, e o país receberá imediatamente um terceiro socorro, de 86 bilhões de euros. Mas o preço será altíssimo.

Em 48 horas, o país se compromete a votar leis que vão aplicar um severo corte de gastos, especialmente na área da previdência e do mercado de trabalho. Mais do que isso: vai ser criado no país um fundo de gestão para a privatização de empresas públicas que objetiva arrecadar 50 bilhões de euros. É com esse dinheiro que se pretende recuperar os bancos.

Atenção! Embora este fundo vá ficar na Grécia, a sua gestão é internacional — isto é, não estará subordinado ao governo. Até o anúncio do acordo não estava claro se também os bancos ficariam sob gestão de um comitê europeu.

Para quem se elegeu com a plataforma de ultraesquerda, Tsipras passa por uma humilhação e tanto: não apenas terá de aplicar as medidas de austeridade como, na prática, perde a gestão sobre o centro do programa de reestruturação da economia. Era justamente esse fundo de privatização que estava atrasando a formalização do acordo.

A França ainda tentou demover a Alemanha da exigência, mas Merkel foi irredutível. Ou por outra: Tsipras foi eleito prometendo mais estado na economia e terá de assistir ao processo de desestatização, no qual nem poderá interferir. Ou isso ou um caos ainda pior.

A Alemanha deixou claro que, na Zona do Euro, não há espaço para pistoleiros como Tsipras. A negociação evidencia também que é melhor não fazer chicana. Para primeiro-ministro grego, a emenda sai bem pior do que o soneto.

“O importante agora é pôr em prática rapidamente o acordo. É preciso recuperar a confiança e, para isso, a Grécia tem de assumir como seu esse acordo”, disse Merkel. A Alemanha exigiu que seja o FMI a supervisionar essa terceira fase, impondo a Tsipras uma derrota adicional, já que ele rejeitava esse papel ao Fundo.

“Eu disse que a situação ficaria mais difícil depois do referendo, e ficou demonstrando que sim. Mas saiu o acordo. Não há ganhadores nem perdedores. Não creio que os gregos se sintam humilhados nem que os outros sócios tenham perdido a fé. É um típico compromisso europeu”, afirmou Jean-Claude Junker, presidente da Comissão Europeia.

Mais ou menos. A Grécia, de fato, não foi humilhada porque sair da Zona do Euro teria sido muito pior. Tivesse Alexis Tsipras, no entanto, um mínimo de coerência, só lhe restaria o caminho da renúncia. A essa altura, suas promessas de campanha valem ligeiramente menos do que as de Dilma Rousseff no Brasil. Mas esquerdistas, como sabemos, não largam o osso de jeito nenhum.

Seja qual for a decisão do Eurogrupo e do Conselho Europeu, a crise grega não acaba hoje. Haverá apenas um intervalo para que toda a gente possa respirar fundo.

Seguir-se-á a negociação (a proposta grega é apenas uma base negocial) e os próximos dias serão marcados pelos debates em alguns parlamentos nacionais, incluindo o Bundestag, que têm de aprovar um novo resgate, se os líderes derem hoje luz verde às negociações.

Será um retrato quase perfeito do estado em que se encontra a União Europeia, os estragos que sofreu nos últimos cinco anos e quão longe ainda está de encontrar uma forma de vencer a crise, não apenas a da Grécia ou da dívida, mas dos efeitos políticos que ela provocou.

No seu último artigo no Guardian, Timothy Garton Ash dizia que, “com 28 versões da Europa” não admira que haja “visões nacionais incompatíveis.” Na maioria dos casos, alimentadas pelos líderes políticos nacionais.

Quando tudo começou há cinco anos, precisamente na Grécia, a Europa não encontrou uma resposta “europeia” para os desafios que tinha pela frente, muitos deles diretamente resultantes da crise financeira mundial seguida da Grande Recessão, outros da crescente desordem internacional.

Porquê?

Por mais voltas que se dêem, a Alemanha está no centro desta indefinição. Tergiversou entre a tentação hegemónica, aproveitando a crise para reconstituir uma união monetária muito mais alemã, e o interesse em preservar a Europa, que lhe serviu sempre bem desde o início da integração. Fez um longo percurso mas ainda não chegou ao fim da estrada.

Os silêncios de Merkel, as opiniões de Wolfgang Schäuble e, sobretudo, a crença dos alemães de que os países do Sul não merecem qualquer ajuda, criam agora um clima adverso a qualquer decisão mais “europeia” que a chanceler queira tomar. A sua liderança será definitivamente posta à prova.

Os alemães vão ter de perceber um dia destes que uma Europa totalmente alemã é uma impossibilidade: a História já lhe ensinou isso por duas vezes com custos trágicos.

Os países do Norte, mais ricos e mais “alemães”, alimentaram uma versão preconceituosa da Europa, que agora está a ser explorada pelos partidos nacionalistas. Quando os Bálticos olham para a Grécia e rejeitam qualquer ajuda, alegando que são mais pobres, ninguém lhes diz que a Grécia é fundamental para enfrentar a ameaça que mais temem: a Rússia.

A Sul, o Governo português exige, no mínimo, o mesmo grau de dureza que lhe foi imposto pela troika. Não é uma questão de justiça, é apenas uma questão de eleições. Não há um sentimento comum de pertença. Apenas desconfiança mútua. Recomeçar a partir daqui vai ser muito difícil.

Quando hoje os líderes decidirem da sorte da Grécia, a França quer estar de regresso ao centro político da Europa. François Hollande descolou da chanceler, discretamente entenda-se, para assumir o papel de garante da integridade do euro.

Quer ser o salvador da Grécia. O Eliseu não confirma, mas toda a gente sabe que pôs à disposição dos gregos os recursos humanos necessários para elaborar uma boa proposta. É ele quem tem insistido nos últimos dias que se trata também da credibilidade europeia perante os seus grandes parceiros internacionais.

Para a França, a austeridade falhou rotundamente na Grécia, não apenas por culpa dos gregos mas porque o modelo desenhado em Bruxelas, Frankfurt e Washington esqueceu-se de levar em atenção a realidade de cada país. As reformas ficaram por fazer, os cortes cegos resolveram pouco, a ausência de um Estado moderno impediu a colecta de impostos.

É bom lembrar que a culpa não foi do Syriza. Foi, em primeiro lugar, da Nova Democracia, partido irmão da CDU de Merkel, que arrastou os pés quando os interesses da sua clientela foram postos em causa. É sua a responsabilidade de ter alterado as contas enviadas para Bruxelas. O Pasok andou lá perto.

Os gregos votaram Syriza porque já não tinham alternativa. É legítimo perguntar em que Alexis Tsipras se deve acreditar. No que mudou de opinião como quem muda de camisa e que convocou um referendo para rejeitar as últimas propostas da troika? Ou aquele que entregou a Bruxelas uma proposta negocial que é basicamente igual à que o referendo rejeitou?

Depois de cinco meses a “empatar” e a radicalizar, Alexis Tsipras terá percebido que, ou consegue governar de forma a melhorar as expectativas dos gregos ou os mesmos que agora votaram nele votarão contra ele. É esta primeira regra da democracia e não a realização de um referendo, que convocou apenas para melhorar a sua margem de manobra, não em Bruxelas mas no seu próprio partido.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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