quarta-feira, 1 de julho de 2015

Eduardo Cunha e o conservadorismo ambulante (Por Thiago Muniz)

Eduardo Cunha é o presidente ideal para o pior congresso que o país elegeu em cinco décadas. Evangélico fundamentalista que permite cultos em um espaço que deveria preservar a laicidade do Estado, o sueito não só pertence à bancada da Bíblia (que busca legislar a partir da religião), mas encontra-se alinhadíssimo às bancadas da Bala e do Boi, que sonham em destruir direitos civis e movimentos sociais a fim de permitirem a expansão desenfreada do lucro de quem prospera a partir da miséria alheia.

Mas o que é ainda pior: como é visto pela grande mídia como alguém capaz de atrapalhar - e muito - o governo federal, Cunha ganha voz, espaço e poder graças ao apoio de jornais, revistas e emissoras de televisão. 

O fato de ter sido listado por Janot na denúncia formal da Lava-Jato é ignorado com o mesmo descaso com que um helicóptero contendo 500 kg de cocaína é descartado por não estar ligado a ninguém do PT ou com que seu passado - associado às piores figuras de nossa História - é convenientemente esquecido por todos.

E, com isso, Cunha demole a Constituição cláusula por cláusula.

Depois que o financiamento empresarial de campanhas - o PRINCIPAL FATOR CORRUPTOR DA POLÍTICA - foi aprovado em uma segunda votação ocorrida a menos de 24 horas da derrota sofrida na primeira votação, Cunha resolveu repetir a estratégia esta noite após ver o sonho da bancada BBB de redução da maioridade penal ruir na derrota de ontem.

Aliás, bastava acompanhar os discursos dos líderes de partido na sessão de ontem para sentir uma profunda desesperança: o despreparo intelectual e moral daqueles homens e mulheres era patente. No lugar de argumentos, bradavam uma retórica rasa e fascista sobre "cidadãos de bem", "direitos humanos para humanos direitos" e acusavam de "cumplicidade em assassinato" aqueles que votavam contra a redução.

Enquanto isso, estes últimos apontavam centenas de estudos e estatísticas colhidos ao redor de todo o planeta que apontavam não só a ineficácia da redução da maioridade para coibir o crime, como indicavam um efeito CONTRÁRIO ao sobrecarregar ainda mais um sistema penitenciário superlotado e ao transformar adolescentes em criminosos profissionais graças à escola de crime que são as cadeias. Quando a OAB, a Unicef e entidades de direitos civis de todo o planeta apontam algo a partir de vastos estudos, ignorá-los e simplesmente insistir em caminhar na contramão deixa de ser uma questão ideológica e se transforma em pura estupidez.

Mas aprovar a redução é essencial para uma bancada vendida a interesses privados que, a seguir, tentarão emplacar a legalização da venda de armas e a privatização das penitenciárias - e basta assistir a reverenciados documentários como Kids for Cash para perceber como este tipo de sistema é repugnante.

No entanto, a questão nem é mais esta, mas o atropelo da Constituição - pois o projeto da redução foi DERROTADO no plenário ontem e, portanto, a discussão deveria estar encerrada. O que deveria ocorrer a seguir seria a votação do projeto original (o derrotado continha modificações) que, por ser ainda mais absurdo, dificilmente passaria, enterrando as pretensões de Cunha e seus comparsas.

E é por isso que o sujeito, numa afronta clara à própria Constituição que o congresso deveria defender, costurou um acordo ILEGAL para votar uma nova versão da PEC em vez de colocar em votação a original. E isso, repito, é INCONSTITUCIONAL.

Ora, onde estão os protestos? As denúncias por parte da imprensa? Os panelaços?

Mudos. Pois vivemos hoje num país em que ideologia cedeu lugar ao ódio - e o que importa é vencer, não importa como. Rasgar a Constituição resultante da luta, esforço e sacrifícios de milhares de pessoas? Sem problema. Esconder informações relevantes para que a população pudesse ser melhor informada sobre o desastre da redução da maioridade? Claro, por que não?

E assim seguimos caminhando rumo ao passado e a um país governado por interesses de fundamentalistas religiosos, comerciantes de armas e latifundiários. Um país que pertence ao século 17, não ao 21. 

Um país que, muito em breve, terá cidadãos armados em todas as cidades (e sabemos muito bem como isso deu certo nos EUA, com seus massacres regulares), tratará críticas religiosas como CRIMES HEDIONDOS, praticará a censura regular (impedindo que qualquer obra artística discordante chegue aqui) e devolverá as milhões de famílias que melhoraram de vida nos últimos anos à miséria que a elite considera como sendo seu lugar.

Um país de Cunhas, Malafaias, Felicianos e Bolsonaros.

Uma distopia teocrática que trata a Bíblia como Constituição e a Constituição como um inconveniente a ser tratado como algo descartável.

Uma nação de panelaços contra direitos civis e a favor do atraso, do golpismo e da intolerância.

E se acham que estou exagerando, testemunhem o que está acontecendo no congresso nacional ESTA NOITE.

Em seguida, preparem-se, pois a coisa ficará pior. Criaturas como Cunha só se tornam mais abusivas a cada nova vitória.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.




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