sexta-feira, 31 de julho de 2015

Democracia no Brasil é frágil (Por Thiago Muniz)

É assustadora a fragilidade da democracia brasileira. O atual desequilíbrio entre os três poderes reflete, nada mais que a derrocada institucional da política entre nós.

A crise aberta com os sucessivos escândalos junto à administração pública, privada e de entidades não governamentais parece ter derrubado de vez as poucas convicções políticas da população. Mas, ao invés de ser tomada como necessário e indispensável conserto para algo melhor, ela é vista como um caos, uma desordem sem fim, a certeza de que “esse país não dá certo mesmo”. Urubus e mariposas infestam a mídia, os auditórios, os cultos e sessões plenárias, diuturnamente, para destilarem seu veneno, prognosticando o fim dos tempos.

O que mais se vê são os oportunistas que, faturando sobre a desordem, levam a melhor. Já transitaram ou transitam pelo Congresso inúmeras leis que fazem reserva de mercado para esse ou aquele setor; retiram direitos civis adquiridos; alteram a legislação trabalhista e previdenciária, subtraindo direitos da população; se apropriam de terras indígenas, entre outros. Muitas das conquistas da Constituição de 88 já foram por água abaixo, deixando nossa democracia mais pobre.

Mas o que assusta é a passividade da maioria da população em relação a tais abusos e desmandos. Uma avassaladora onda de “não tenho nada a ver com isso” campeia solta, especialmente nas redes sociais. Parece que todo mundo virou budista, preocupado com a transcendência da alma, a boa alimentação e o lazer saudável, ao lado do incondicional amor aos animais. É sintomático da despolitização que, no momento em que lhe estão roubando direitos, o cidadão faça de conta que não é com ele. E agradeça, agradeça muito pelo fato do terremoto ser no Nepal, do avião ter caído na Malásia, não trabalhar na Saúde, não ser índio nem negro. Ele cuida de sua alma, o resto “que se lixe”.

Mas, e o corpo? Como salvar nossos corpos das atrocidades de todo dia? Linchamentos se avolumam dia a dia. Espancamentos e mortes abarrotam os noticiários. Agressões físicas e verbais se tornaram tão comuns que já mais ninguém liga. Isso o “deixa pra lá” não resolve. O amor incondicional se esfumaça diante da criminalidade à solta. E cria cidadãos passivos, inertes, presas fáceis do desespero e da falta de sentido, facilmente conduzidos por opiniões as mais temerárias. Para não pensar, o sujeito acaba concordando, abrindo espaço para a conivência. E, com a moleza moral, vem a permissividade, ambiente perfeito para que todos os bandoleiros se sintam à vontade para agir, deixando nossa débil democracia mais agonizante.

Está faltando a "revolta" que o Camus já falava: O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva. Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos” (In "O homem revoltado", de Albert Camus, p. 35).

Chega às raias da incompreensão o que vem ocorrendo nesse nosso país. Porém, enquanto imperar a falta de vontade política, a ignorância cultural e a despolitização geral de uma população que aceita passivamente ser enganada e manipulada cotidiamente por toda forma de demagogia política, religiosa e mediática, a situação deverá continuar como está e ainda corre o risco de, infelizmente, vir a piorar muito mais.




"...Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro (brasileiro)*
Eu sou do Rio de Janeiro...
"

(trecho de Partido Alto - Chico Buarque de Hollanda)



BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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