domingo, 19 de julho de 2015

Coréia do Norte: o país mais fechado do mundo (Por Thiago Muniz)

Brasileiros contam as dificuldades de se fazer turismo na Coreia do Norte e explicam por que decidiram conhecer Pyongyang, uma brecha no país mais fechado do mundo.

Quando o escritor português José Luís Peixoto esteve pela primeira vez na Coreia do Norte, em 2012, precisou deixar o celular no aeroporto. Também estava terminantemente proibido de fotografar ou filmar o que via. Nos últimos três anos, as regras para os turistas mudaram um pouco — há duas semanas foi anunciada a expansão do aeroporto internacional de Pyongyang, o que pode indicar uma abertura maior. Mesmo assim, quem visita o país mais fechado do mundo é obrigado a seguir certas regras: viajar com agências de específicas, deixar o passaporte no aeroporto e fazer passeios predeterminados em grupos e sempre com guias.

A jornalista Fernanda Morena, 31 anos, morou por seis na China. Quando resolveu voltar para o Brasil, decidiu que sua última viagem seria para a Coreia do Norte — outra alternativa para cruzar a fronteira é pela Rússia. Meses antes, já havia tentado um visto de jornalista para cobrir a Crise dos Mísseis, sem sucesso. Dessa vez, como turista, escolheu a agência Koryo Tours, mais antiga a fazer o roteiro, fundada por um britânico. O pacote fechado, por cerca de US$ 600, incluía sete dias de visitas, dois deles praticamente na estrada até a cidade chinesa que faz fronteira com o país. Depois, mais seis horas de trem, que parava muitas vezes para checagem, onde policiais revistavam as malas.

— Fui de trem, com chineses, porque falava mandarim. Além de ser mais barato que a viagem de avião, cruzei o país inteiro e pude ver o interior, muito pobre, que não teria visto se fosse de outra maneira — relembra. — Na estação de trem recolheram meu passaporte e eu fiquei apenas com um carta de visto. É o único documento que fica com você durante a viagem. Quando você recebe de volta seu passaporte, não tem qualquer carimbo, é como se eu nunca estivesse estado lá.

Os passeios são todos programados com detalhes e horários rígidos, e exigem a companhia constante — e atenta — de um guia da agência e outro norte-coreano. Mesmo no dia considerado livre para visitas, os turistas são vigiados de longe. Fernanda relembra que, no primeiro dia de viagem, um casal de turistas chineses de cerca de 18 anos decidiu não fazer os passeios, pois não se sentia bem. Por volta do meio-dia, atravessaram a ponte que ligava o hotel ao centro da cidade, a pé, e foram a um café.

— Uma pessoa que estava lá ligou para o Ministério do Turismo e acabaram recolhendo o casal. Os guias temiam ser prejudicados e os dois tiveram que assinar um termo de compromisso pedindo desculpas — conta a jornalista, que apelidou o local de “Alcatraz”, em referência à lendária prisão americana. — Uma vez, uma senhora saiu de casa quando me viu tirando fotos e reclamou com o guia, que foi me buscar. As pessoas são treinadas para não falar com os turistas. Só interagi com os norte-coreanos em dois momentos: num parque de diversões, que não estava no roteiro e conseguimos ir depois de muito insistir com um dos nossos guias; e às margens de um rio, onde um senhor pediu para tirar uma foto com ele. Rapidamente o guia me chamou.

Para quem sai do Brasil, o visto não é difícil — a não ser que o visitante seja jornalista — e custa em média US$ 55. O passaporte também fica retido com os guias até o retorno do grupo. O pacote custa em média de US$ 3.500, incluindo deslocamentos, hospedagem e alimentação. No Brasil, a agência Happy Way oferece a viagem desde 2012.

— Geralmente tentamos mandar um guia que fale português e espanhol para facilitar a comunicação — explica Danielle Schumaker, gerente comercial da empresa. — O público brasileiro ainda é limitado: a procura até ano passado não chegou a sete pessoas. Mas agora, com a embaixada do Brasil na Coreia do Norte, o turismo no país está um pouco mais facilitado, embora continue rígido.

O destino costuma ser procurado por turistas que preferem destinos mais exóticos, segundo Danielle. Muitos deles, ficam curiosos com o isolamento do povo da Coreia do Norte, e sentem a necessidade de ver de perto, para descobrir se aquilo realmente é real.

— Queríamos ver com nossos próprios olhos o país mais fechado do mundo. E realmente uma viagem para lá só é realizada dentro dos moldes da agência de turismo norte-coreana, acompanhado por dois guias e dentro de um roteiro pré-determinado. Não há liberdade nenhuma. Nós fomos com visto de turista, e não de jornalista. Justamente porque queríamos ver como um turista tradicional pode conhecer (e o que ele pode conhecer) da Coreia do Norte — conta André Fran, apresentador do programa “Não conta lá em casa”, do canal Multishow.

Ele esteve no país há cinco anos, quando as regras eram ainda mais severas. Um dos momentos mais surreais, relembra, foi quando lhe apresentaram a “última novidade da música na Europa: os Beatles”.

— Eles não têm a mínima noção de como o país é visto aos olhos do mundo, daí a curiosidade e as constantes perguntas sobre que achávamos, pensávamos e como víamos a Coreia do Norte e suas principais ações no cenário geopolítico mundial. Mas tudo era feito meio que entre sussurros.

Viajar é o grande hobby da gerente de informação e mídia digital Glaucimara Silva: foram 40 países na última década — “e quanto mais exótico o destino, melhor”. Exatamente por isso, a Coreia do Norte sempre esteve na lista:

— Quando um amigo mudou-se para Pyongyang, para morar seis meses a trabalho, percebi que era a hora de tentar ir mesmo sabendo que talvez não pudéssemos nos encontrar, caso as restrições turísticas fossem de fato rígidas. No entanto, com o suporte dele, as coisas se mostraram bem mais fáceis — conta ela, que esteve no país no ano passado, com um visto diferente do tradicional, o que abriu muitas portas. — Não fui como turista, mas como convidada da empresa onde meu amigo trabalha, que assumiu as responsabilidades por mim.

Graças a isso, a experiência acabou sendo bem diferente da convencional. Como convidados, Glaucimara e outro brasileiro, Marcel Stenner, não precisaram se hospedar nos hotéis destinados aos turistas. Também não tiveram que ser acompanhados por nenhum guia em Pyongyang, onde andaram — a pé ou de bicicleta — à vontade.

— Fizemos fotos, vídeos, vimos a vida passar e nos surpreendemos com a normalidade da cidade. Nossa única restrição foi quanto ao transporte público e à moeda (usamos dólar e euro). Até andamos de metrô, mas o passeio fez parte de um pacote de um dia que contratamos lá para visitar locais em que só pode ir com autorização do governo e com alguém de confiança.

Neste dia, a dupla pode conversar bastante com dois guias norte-coreanos sobre todos os tipos de assunto.

— Fomos até zoados pela Copa do Mundo (a notícia do 7x1 contra a Alemanha chegou lá sem ser deturpada) e perguntados se o Rio de Janeiro era como apresentado na animação “Rio”. Também conversamos sobre o fato de o Brasil ter uma presidenta e, à época, outra candidata mulher concorrendo ao cargo mais importante do país — conta. — Acredito que, por termos respeitado o país e nos mostrado dispostos a formar a nossa própria opinião, uma opinião sem ser tendenciosa e preconceituosa, acabamos passando confiança aos norte-coreanos comuns. Não estávamos lá para julgar ninguém e nem comprovar nenhuma teoria, mas para conhecermos e aprendermos. É aquela coisa da gentileza gera gentileza. Não fomos hostis nem fomos hostilizados.

A experiência no país vivida pelo português José Luís Peixoto acabou virando um livro “Dentro do segredo” (Companhia das Letras). A viagem começou a ser concebida quase um ano e meio antes. E calhou de ser durante um megaevento, o aniversário de 100 anos Kim Il-sung, avô do atual presidente, Kim Jong-il.

— Decidi ir porque precisava de um desafio novo na escrita, que fosse completamente diferente de mim. Queria escrever sobre algo que fosse bem distante — conta. — Foi uma viagem bem fora do habitual, de quase um mês, que não era restrita à capital. E numa ocasião bem especial.

De lá para cá, Peixoto voltou duas vezes ao país, dessa vez como guia, parte de um projeto chamado de “Viagens de autor” — onde escritores são convidados para acompanhar grupos de turistas a lugares que estão referidos nos seus livros. A próxima viagem, com brasileiros e portugueses, acontece em outubro.

—Todas as visitas foram diferentes. Sinto que sei mais e menos, ao mesmo tempo. É uma complexidade enorme. Além de todas as questões politicas, existem as questões civilizatórias. As pessoas têm valores muito diferentes do nossos e veem o mundo de forma completamente diferente.

O que vi quando visitei a Coreia do Norte (por Marcel Cartier)

Jornalista dos EUA visita a Coreia do Norte e “corrige” alguns equívocos que a mídia ocidental propaga sobre o país. Confira mitos, verdades e episódios que podem surpreendê-lo.
Tive a oportunidade única de pas­sar vários dias em três partes diferentes da República Popular Democrática da Coreia, mais comumente referida apenas como Coreia do Norte. Aqui estão algu­mas coisas sobre o país que podem sur­preendê-lo.

1. Os americanos não são odiados, mas bem-vindos

O alto nível de consciência de classe dos coreanos faz com que eles não con­fundam o povo estadunidense com o seu governo. Os coreanos não fazem segredo quanto ao seu desprezo pelo imperialis­mo dos EUA, mas se você diz que é um estadunidense, a conversa geralmente gira muito mais em torno de temas cul­turais ou relacionados a esportes do que de política. Na biblioteca The Grand Pe­ople’s Study House, localizada em Pyon­gyang, o CD mais popular é o Greatest Hits, dos Beatles, embora Linkin Park também seja bastante solicitado entre a juventude local. Os jovens parecem fasci­nados pela NBA e sabem muito mais so­bre a liga de basquete e seu campeonato do que apenas sobre o ex-jogador Den­nis Rodman.

2. Fronteira e alfândega

Muitos dos ocidentais que viajaram de Pequim para Pyongyang comigo es­tavam preocupados que o procedimen­to de imigração seria longo e intenso. Todos pareciam muito surpresos que os passaportes foram carimbados, sem perguntas, e que apenas um punhado de passageiros teve alguns itens de su­as malas olhados.

Antes de viajar, é al­tamente recomendável por empresas de turismo que as pessoas não tragam qualquer livro sobre a Guerra da Coreia ou itens que estampem bandeiras dos Estados Unidos. Este pode ser um con­selho sólido, mas a imigração realmente não parece muito preocupada com o que é trazido para o país.

3. Pyongyang é bonita, limpa e colorida

Provavelmente uma das cidades mais lindas do mundo, Pyongyang está incrivel­mente bem conservada. Considerando­-se que toda a cidade foi bombardeada pelas forças dos EUA na Guerra da Co­reia (que eles chamam de Guerra de Li­bertação Pátria) e que apenas dois edi­fícios permaneceram em pé em 1953, é uma realização impressionante. As es­tátuas e grandes edifícios são inspira­dores, assim como são os grandes espa­ços verdes, onde você pode ver as pesso­as relaxando. Há muitos novos prédios surgindo em toda a cidade, mas mesmo os que são evidentemente mais antigos são bem mantidos. Costuma-se dizer que Pyongyang durante a noite é escura, e embora possa ser comparada a uma ci­dade ocidental, ela tem belas luzes que iluminam muito o centro da cidade.

4. Cabelo a la Kim Jong-Un

Quando eu estava a caminho do aero­porto para o centro da cidade, vi apenas um homem usando o “corte de cabelo a la Kim”, que, aliás, não me pareceu na­da bom. Os rumores quanto à obrigato­riedade de todos os homens da Coreia do Norte em idade universitária terem de usar o mesmo corte do líder norte-core­ano surgiram após a BBC e a Time vei­cularem a história de um tabloide sul-co­reano. Essa história não só não é verda­de, assim como também não é a alegação de que os homens no país só teriam um número seleto de cortes para escolher na barbearia, sancionado pelo Estado.

5. Norte-coreanos sorriem muito

A pergunta que você deve estar se per­guntando é: “Mas eles não sorriem por­que são forçados a isso?”. Isso seria um grande feito se para todos os risos genu­ínos que eu compartilhei com os corea­nos, eles estiverem apenas rindo “para inglês ver”.

6. Ideologia monolítica não significa personalidade monolítica

Este é um bom lembrete quanto ao fato de individualismo e individualidade não serem a mesma coisa. Na realidade, ob­servando as pessoas interagirem umas com as outras me deu a impressão que a diversidade de tipos de personalidade é tão forte quanto o é no “liberado” Oci­dente. As pessoas têm uma divergência de interesses, desde esportes à cultura, e são livres para escolher o que eles gostam e desgostam.

7. As pessoas se vestem incrivelmente bem no país todo

Até mesmo no campo, os coreanos se vestem de maneira muito digna. Não houve um só lugar que viajei onde as pes­soas parecessem malvestidas ou vestindo roupas que parecessem ser velhas. Ho­mens e mulheres também não vestem o mesmo estilo de roupa, como somos con­dicionados a pensar. É comum ver mu­lheres usando roupas bem brilhantes, in­cluindo ternos e vestidos tradicionais co­reanos de cor pink. Os homens usam gra­vata, camisas de cola e ternos, mas tam­bém não é incomum vê-los em roupas mais casuais, como moletons, dependen­do da ocasião.

8. As crianças começam a aprender inglês aos 7 anos

O domínio da língua inglesa, particu­larmente pela geração mais nova, im­pressiona. Nas décadas anteriores, a época de aprender inglês era no cole­gial. Mas isso foi mudado para a tercei­ra série do ginásio agora. Embora muitas crianças sejam tímidas (no final das con­tas, elas não veem muitos estrangeiros), muitas delas apertaram minhas mãos e até mesmo trocaram poucas palavras em inglês comigo. Entre as línguas popula­res estudadas no colegial estão o chinês e o alemão.

9. O turismo será incentivado num futuro próximo

Um dos aspectos da economia que se­rão priorizados no futuro parece ser o tu­rismo. No momento, todo o aeroporto de Pyongyang está em obras – e sendo ex­pandido. Os coreanos estão dispostos a se abrir para o mundo, mas também es­tão certos de fazerem isso de maneira di­ferente da dos chineses (após ter estado em Pequim e visto a onipotência de al­guns dos piores aspectos da cultural oci­dental, isso os dá toda a razão para te­rem cuidado a esse respeito). A compa­nhia Air Koryo, a qual foi concedida ape­nas 1-estrela pela companhia SkyTrax, na realidade, foi muito melhor em ter­mos de serviço e conforto do que ao me­nos um dúzia de outras companhias aé­reas que já voei. Eles têm uma nova fro­ta de aviões russos que voam entre Pyon­gyang e Pequim, proveem entretenimen­to a bordo ao longo de toda a viagem (o desenho para crianças Clever Raccoon Dog é hilário) e servem um “hambúr­guer” (que não é muito bom, mas comí­vel) e uma variedade de bebidas (café, chá, cerveja e suco). Toda a experiência valeria no mínimo 3 estrelas se tivésse­mos que avaliá-la para valer.

10. Coreanos estão dispostos a falar sobre seu país de maneira aberta

As pessoas estão bem abertas para fa­lar a respeito dos problemas que o país enfrenta e não se furtam em discutir al­guns dos mais difíceis aspectos da vida. Por exemplo, eles falam sobre a “Marcha Árdua” (pense no “Período Especial” em Cuba) quando seca, fome e enchentes so­madas à perda da maioria dos parceiros comerciais do país causaram grandes re­trocessos ao país que até os anos de 1980 tinha uma qualidade de vida mais alta do que a da sua vizinha Coreia do Sul. Eles também discutem as narrativas em rela­ção à Guerra da Coreia e estão dispostos a um melhor relacionamento com a Co­reia do Sul na esperança que aconteça a reunificação. Entretanto, também são bem firmes quanto ao fato de que nunca irão renunciar seus princípios socialistas para facilitar essa reunificação.

11. Cerveja e microcervejarias

Quase todos os distritos do país agora têm uma cervejaria local que provê cer­veja para os arredores. Há uma varieda­de de diferentes tipos que são bebidas por todo o país e a maioria das refeições são servidas com uma pequena quantidade de cerveja. No Kim Il Sung Stadium, on­de a maratona de Pyongyang começou e terminou não era incomum ver locais be­bendo cerveja enquanto observavam as partidas-exibição entre os times de fute­bol do país. Pense no estádio dos Yanke­es, sem a agressividade do público.

12. Tabloides

Havia ao menos 100 estaduniden­ses ao mesmo tempo que eu em Pyon­gyang, em grande parte devido aos cor­redores amadores estrangeiros que tive­ram a permissão de competir pela pri­meira vez na maratona. Um casal disse ser esta sua segunda visita ao país, após o terem visitado no ano passado. Eles mencionaram como estavam um pou­co asssustados quando vieram pela pri­meira vez porque isso foi bem depois de uma história que tinha ganhado as man­chetes sobre Kim Jong – um ter mata­do sua namorada e outras pessoas por terem aparecido em uma fita pornô. O casal falou de como eles entraram em uma ópera em Pyongyang e assim que sentaram perceberam que a mesma mu­lher que devia estar morta estava sen­tada bem na frente deles. De fato, uma walking dead. Outras histórias recentes que saíram na mídia ocidental via tab­lóides sul-coreanos em relação a execu­ções em massa em estádios ou ao tio de Kim Jong – um ter servido de alimen­to para um bando de cachorros famin­tos também são ditas como sem senti­do por ocidentais que viajam frequente­mente para lá e conhecem bem a situa­ção do país. Isto não é para nada dizer sobre a existência de campos de reedu­cação política ou prisões, mas para fa­lar sobre uma campanha de demoniza­ção contra o país que o distorce comple­tamente e que não ajuda em nada o po­vo coreano

13. Os coreanos não hesitaram em fazer com que você se divirta com eles

Aconteceu uma série de eventos orga­nizados em Pyongyang por ocasião do aniversário de Kim Il Sung, que é um fe­riado nacional quando as pessoas ficam dois dias sem trabalhar. Alguns foram or­ganizados publicamente, como as mass dances, em que centenas de pessoas dan­çam em grandes praças ao som de mú­sicas populares coreanas. Outros even­tos envolveram famílias no parque fazen­do piquenique enquanto crianças com­pravam sorvete e vovós bêbadas dança­vam de forma hilária porque tinham tido muito soju caseiro. Mas, como em qual­quer outro Estado autoritário, você tem que participar! Intimidar-se não é uma opção, já que eles vão te puxar pelo bra­ço e te ensinar a dançar todos os passos mesmo que eles próprios não os estejam fazendo de maneira correta.

Em resumo, eu achei os coreanos do Norte uns dos mais acolhedores e mais autênticos seres humanos que já tive a chance de interagir. Seria tolo referir-se ao país como um “paraíso dos trabalha­dores” devido à profundidade de pro­blemas que enfrenta. Como em todas as sociedades, existem aspectos positi­vos e negativos. Entretanto, consideran­do que eles têm superado séculos de do­minação imperial, a perca de quase um quarto de sua população na Guerra da Coreia e continuam a manter seu siste­ma social diante de um continuado esta­do de guerra, eles têm se dado tremen­damente bem. Os sucessos em educa­ção gratuita por meio da Universidade, a não existência de sem-teto e um po­vo orgulhoso e digno deveriam ser apre­sentados no sentido de se ganhar uma imagem do país mais completa e com mais nuances.

Tenho de dizer que a Coreia do Norte pintada pela mídia ocidental na verdade fala mais sobre a eficiência de nosso aparato de propaganda e de téc­nicas de lavagem cerebral do que do de­les. O fato que eu até tenho que escrever sobre as coisas surpreendentes que tes­temunhei é a evidência da séria falta de compreensão que temos sobre o país. Os problemas enfrentados pela Coreia nun­ca são contextualizados como deveriam ser – como uma nação oprimida com o objetivo de libertar-se da servidão das grandes potências que têm a intenção de devorar cada Estado restante livre de uma unipolaridade que morre.

Ah, e eu quase estava esquecendo so­bre as armas nucleares! Bem, vamos considerar se os militares norte-core­anos estivessem realizando exercícios militares anualmente ao largo da cos­ta de Nova Iorque, simulando o bom­bardeio de Manhattan e a ocupação da totalidade do país, o qual já controla a metade ocidental.

Não seria sensato dado o contexto pa­ra os estadunidenses desenvolverem um arsenal nuclear? Os coreanos não são fa­mintos por guerra ou até mesmo “obce­cados” com o exército ou forças militares. No entanto, dado a forma como a situa­ção na Líbia foi jogada, eles ainda estão mais convencidos – com razão – de que a única razão pela qual o seu Estado inde­pendente continua a existir é devido ao Songun (a política “militares em primei­ro lugar”) e a existência de capacidades nucleares. Para ter certeza, eles não têm a intenção de usá-lo a menos que os colo­quem na posição de ter de fazê-lo.

É meu desejo sincero que exista um continuado intercâmbio cultural e inter­pessoal no futuro próximo entre as pes­soas da Coreia do Norte e os países oci­dentais. Praticamente todas as pessoas que viajaram comigo de volta a Pequim estavam em êxtase de quão diferente sua experiência foi, comparado ao que eles esperavam. Eles – como eu – ganharam muito com a experiência humanizado­ra de interagir com os coreanos. Embora os ocidentais sejam relativamente livres para viajar muito mais do que os cida­dãos da Coreia do Norte, é irônico como os coreanos aparentemente sabem muito mais sobre nós do que nós sabemos so­bre eles. Isso terá que mudar nos próxi­mos anos.

Conheça 13 coisas que você faz todo dia e são ilegais na Coreia do Norte

A Coreia do Norte é um dos países mais isolados do mundo. Comandado desde 2011 por Kim Jong-un, o terceiro "líder supremo", o país tem uma legislação rigorosa sobre atitudes consideradas simples e corriqueiras em países democráticos.

As atividades consideradas ilegais podem ser punidas com trabalhos forçados, prisão e pena de morte. Muitas das execuções são públicas. Os campos de detenção do país --muitas vezes com trabalhos forçados-- são secretos, porém alguns desertores já relataram à ONU (Organização das Nações Unidas) os horrores do que ocorre por lá.

Veja abaixo 13 atividades simples que são consideradas ilegais no país liderado por Kim Jong-un:

1) Dormir durante uma reunião: dormir enquanto o chefe fala? Nada disso. O ministro da Defesa da Coreia do Norte foi executado com um tiro de bateria antiaérea em frente a centenas de pessoas por ter mostrado deslealdade ao presidente. Segundo o serviço secreto sul-coreano, Hyon teria adormecido durante um evento com Kim Jong-un e não cumpriu ordens.

2) Ter o mesmo nome do líder da nação: chamar-se Dilma aqui no Brasil é permitido, por lá ter o nome Kim não pode. A proibição foi emitida há mais de 3 anos --um ano antes de que o ditador assumisse o poder no lugar do pai, Kim Jong-il. O regime totalitário, caracterizado pelo extremo culto à personalidade dos líderes da dinastia Kim, exigiu que todos os cidadãos que se chamam "Kim Jong-un" mudem de nome "voluntariamente", segundo o decreto, para destacar a personalidade única do "líder supremo".

3) Ter uma Bíblia: em 2014, o americano Jeffrey Fowle, ficou preso por cinco meses na Coreia do Norte depois de deixar uma Bíblia no banheiro de um restaurante. Fowle, 56, foi preso por violar as regras de pregação religiosa do regime. Embora haja igrejas na Coreia do Norte, elas estão todas sob controle do Estado e o regime totalitário proíbe manifestações independentes de religiosidade.

4) Ter um parente criminoso: segundo a lei norte-coreana, os familiares de alguém acusado por um crime são automaticamente considerados corresponsáveis. Como no conceito de Sippenhaft da Alemanha nazista, a argumentação é que em suas veias corre o sangue do criminoso.

5) Escolher sua profissão: após concluir o estudo secundário e o serviço militar, com apenas 18 anos, Ahn Myeong Cheol, atualmente morando na Coreia do Sul, foi designado guarda de um campo de prisioneiros políticos, onde as regras eram extremamente rígidas.

6) Usar biquíni: as mulheres são proibidas de mostrar o umbigo no país de Kim Jong-un, mostrando o profundo conservadorismo que impregna esta sociedade comunista na qual a retidão moral é tão sagrada quanto a revolução.

7) Assistir filme ou ouvir música: na Coreia do Norte, assistir ou ouvir mídia estrangeira é considerado crime contra o Estado, passível de trabalhos forçados, prisão e até morte. A despeito disso, a popularidade dos filmes e programas de TV internacionais --contrabandeados para o país em pendrives e CDs e vendidos no mercado negro-- não para de crescer. Existem níveis diferentes de punição. Se você for apanhado com um filme russo ou de Bollywood [Índia], é enviado para a prisão por três anos, mas, se o filme for sul-coreano ou americano, você é executado.

8) Sorrir, beber e falar alto em datas específicas: desde 1994, quando os norte-coreanos perderam seu primeiro líder, a cada 8 de julho está proibido sorrir, levantar a voz na rua, beber álcool ou dançar, embora ninguém cogite fazê-lo "porque todo o país está de luto".

9) Pornografia: pessoas são executadas publicamente por distribuir material pornográfico ou se prostituir. As execuções públicas são usadas como medida extrema do governo para suprimir as chamadas desordens públicas ou "formas aceleradas de capitalismo" no país.

10) Dirigir: só funcionários do governo têm permissão para ter um carro. É estimado que apenas uma a cada 100 pessoas no país tenha carro. As mulheres também são proibidas de dirigir, apesar de serem as guardas de trânsito.

11) Ligar para fora do país: fazer uma ligação para alguém fora do Coreia do Norte pode levar à morte. Em 2007, um homem foi morto a tiros dentro de um estádio por fazer inúmeras chamadas internacionais.

12) Deixar o país: os norte-coreanos são proibidos de deixar o país sem permissão. Nem sequer passar um feriado na vizinha Coreia do Sul: certamente você será caçado.

13) Entrar na internet: Facebook? Mandar um inocente e-mail? Tuítar? Nada disso é possível no país de Kim Jong-un, que não tem internet livre, apenas um portal de propaganda estatal. Somente o governo, a elite, estrangeiros e jornalistas a trabalho têm acesso a conteúdo online, mas em uma rede com velocidade bem baixa.

O pianista que fugiu da Coreia do Norte por tocar uma canção de amor proibida

Kim Cheol-woong sentou-se em seu piano em 2001 para praticar uma música que estava planejando tocar quando ele pedisse sua namorada em casamento. Eles se conheciam desde que tinham oito anos; começaram a tocar piano juntos.

Era uma balada, A Comme Amour, de Richard Clayderman. Normalmente, o risco de tocá-la é que talvez não agrade a quem não goste de melodias excessivamente açucaradas. Mas na Coreia do Norte, o perigo de tocar essa música, ainda que seja dentro de sua própria casa, é bem maior.

Alguém ouviu Kim tocando a canção francesa e o denunciou para o Departamento de Segurança.

"Eu não tinha me dado conta de que tocar uma música banida podia ser algo tão perigoso", disse Kim. "Onde você ouviu essa música pela primeira vez? Quem a ensinou?", questionaram agentes do governo, em um interrogatório que durou horas.

O pianista explicou que aprendeu a canção quando estudava na Rússia e que ele havia a decorado, para tocar para sua namorada quando ele voltasse para casa.

Seu talento como pianista foi identificado muito cedo e logo após sua graduação em uma universidade de elite em Pyongyang, ele foi enviado para estudar em um conservatório famoso em Moscou.

Nos cafés da Rússia, ele ouviu jazz pela primeira vez - e ficou encantado.

Desculpas

O governo ordenou que ele enviasse um pedido de desculpas de 10 páginas por tocar o tipo errado de música - o que o deixou chocado.

Ele disse que pelo fato de pertencer a uma família poderosa, foi poupado de punições. Mas conta que a experiência o fez pensar profundamente sobre o tipo de país onde ele vivia.

"Em Moscou, muita gente criticava a Coreia do Norte, mas eu me sentia mais patriota do que nunca. Pensava 'não importa o que eles dizem, não vou me preocupar, vou apenas fazer o meu melhor, ser leal e servir meu país com minha música'", disse.

"Mas eu comecei a perceber que teria de sacrificar muitas coisas para viver como um pianista na Coreia do Norte, e eu me senti desiludido. Passei três anos em agonia, tentando decidir se eu deveria ou não fugir do meu país."

No fim, ele decidiu fugir. Apesar de se preocupar com sua família, ele acreditava que eles apoiariam sua decisão.

E então ele deixou um bilhete para a namorada: "Não espere por mim". E partiu sem se despedir.

"Não havia como falar com ninguém sobre minha fuga. Eu tentei atravessar o rio Tumen para chegar à China."

Carregando US$ 2 mil, ele chegou ao rio no meio da noite. "Estava com muito medo e quando comecei a atravessar, um policial me apontou uma arma e disse: 'Mãos para cima'. "

"Então eu ergui minhas mãos e me lembrei do dinheiro. Dei tudo para ele, e ele me ajudou a atravessar até a China."

Fome e frio

Kim chegou em um vilarejo e disse que sabia tocar piano. "Se você toca piano ou não, não importa, você tem de trabalhar". E então ele trabalhou em fazendas e cortando árvores nas montanhas. "Foi uma época terrível. Eu estava exausto, passei fome e frio."

Foi então que ele conheceu uma outra desertora norte-coreana, que lhe contou que uma igreja próxima tinha um piano. Era um piano velho que não tocava direito, mas que fez seu coração bater.

"Quando eu toquei, fiquei extremamente emocionado e comovido."

Ele então se tornou o pianista da igreja, impressionando os fieis - e fingindo ser um sul-coreano que não havia aprendido a falar chinês fluentemente.

Um ano depois de ter saído de Pyongyang, ele conseguiu um passaporte falso da Coreia do Sul e foi para Seul começar uma vida nova.

Ele se casou, construiu uma família e uma carreira sólida como pianista de concertos, tocando no mundo todo. Ele também criou uma ONG que ajuda a educar crianças que fugiram da Coreia do Norte.

Kim conta que há cerca de 5 mil jovens norte-coreano vivendo na Coreia do Sul e que muitos são marginalizados.

Recentemente, ele também criou sua própria orquestra, que tem o nome temporária de Orquestra Jovem de Arirang.

Arirang é uma antiga canção coreana sobre amor e perda. Segundo ele, é a única música que tanto coreanos do sul como do norte conhecem.

Futuro unificado

"Eu quero ajudar essas crianças por meio da educação musical. Mais importante que isso, eu quero mostrar por meio deles que há um futuro unificado. É por isso que há adolescentes sul-coreanos tocando junto com norte-coreanos na orquestra", conta.

"Quando eu apresentei uns para os outros, algo mágico aconteceu. Primeiro, havia um silêncio estranho entre eles. Mas depois de 10 minutos, eles começaram a tocar juntos e viraram amigos. Por meio da música e do trabalho em grupo, vi essas crianças a ajudarem umas as outras."

O sonho de Kim agora é tocar na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, em 2018.

"Esses jovens já vivenciaram a unificação, eles se tornaram apenas um. Então, é possível imaginar o futuro de uma Coreia unificada por meio desses jovens. Mais do que isso, essa orquestra pode mostrar uma mensagem de harmonia musical para os adultos que estão lutando uns contra os outros mundo afora."

Ele ainda toca A Comme Amour, de Richard Clayderman. Sua antiga namorada, ele ficou sabendo depois, se casou com um ator.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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