terça-feira, 14 de julho de 2015

A ironia da vida: o ex- cara pintada e o ex-presidente juntos (Por Thiago Muniz)

Em dezembro de 1992, o então líder dos "caras-pintadas" Lindbergh Farias celebrava com os colegas a renúncia do presidente da República Fernando Collor, alvo de um processo de impeachment por suspeitas de corrupção. Agora, pouco mais de duas décadas depois, os antigos rivais e hoje senadores Lindbergh (PT) e Collor (PTB) partilham o mesmo escândalo, citados na lista dos investigados políticos da Operação Lava Jato.

Aos 22 anos, em 1992, Lindbergh Farias percorria o país convocando milhares de pessoas para exigir o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Ex-cara pintada e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), construiu sua carreira política como jovem líder dos protestos.

Vinte e três anos depois, ironia do destino, ambos estão enredados no mesmo caso que é investigado com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje aliados, ambos estão incluídos na apuração de desvios de recursos da Petrobras. Lindbergh e Collor estão na “Lista de Janot”, entregue pelo procurador-geral da República, fruto da análise de depoimentos de acusados de saquear a estatal.

O petista Lindbergh Farias aparece na lista como suspeito dos crimes de de corrupção passiva qualificada e de lavagem de dinheiro. O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa disse em depoimento na âmbito de seu acordo de delação premiada que Lindbergh solicitou e recebeu 2 milhões de reais para sua campanha ao Senado, em 2010.

Já Collor é suspeito de lavagem de dinheiro e evasão de dividas, baseado na suposta entrega de dinheiro pelo doleiro Alberto Youssef a ao senador do PTB, de acordo com o pedido de abertura de inquérito apresentado pela Procuradoria-Geral da República e divulgado nesta sexta-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Dois anos depois da queda de Collor, em 1995, Lindbergh se valeu do capital político conseguido durante o processo de impeachment para se eleger deputado federal, cargo para o qual foi reeleito antes de comandar a prefeitura de Nova Iguaçu (RJ) por dois mandatos. Na sequência, o petista emendou se candidatou e foi eleito senador, graças, segundo o depoimento de Costa, a dinheiro proveniente da Petrobras.

Enquanto Lindbergh ascendia no mundo do poder, Collor amargava um exílio político que se encerraria apenas em 2007, quando conseguiu se eleger senador — feito que repetiu no último pleito, ao ser reeleito para representar Alagoas no Senado. foi em 2014 também que o Supremo Tribunal Federal absolveu o senador das acusações de peculato, corrupção passiva e falsidade ideológica que o levaram a renunciar à presidência da República em 1992.

Hoje do mesmo lado, tanto como base do Governo Dilma Rousseffquanto como investigados, Collor e Lindbergh, que se acostumaram nos últimos anos a conviver juntos no Parlamento e já foram até fotografados trocando amabilidades no plenário do Senado, agiram de forma parecida e preferiram o silêncio na noite de sexta-feira após a revelação dos nomes contidos na lista de Janot. Por enquanto, a defesa pública de Lindbergh coube seu partido. Em nota, o PT reafirmou apoio ao "prosseguimento das investigações" e reiterou que "todas as doações que recebe são legais e devidamente declaradas à Justiça Eleitoral".

Hoje, no momento em que uma aguda crise política recai sobre Brasília, o senador Lindbergh vê um possível cenário de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff como uma tentativa de “golpe das elites”, como já denunciou em plenário. No Parlamento, atua ao lado do antigo algoz, Fernando Collor (PTB), na defesa do governo petista.

Em trecho que constaria da delação premiada, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto teria mencionado reuniões com o senador petista no início de 2014. Lindbergh o teria procurado para auxiliar no programa de sua candidatura para o governo de estado do Rio de Janeiro e buscar doadores de campanha. Paulo Roberto Costa foi preso pela primeira vez em março de 2014.

Hoje, Collor é suspeito de ter recebido dinheiro sujo da Petrobras no governo do seu ex-desafeto Luiz Inácio Lula da Silva. Depoimentos de Alberto Youssef detalham como, segundo o doleiro, o senador e ex-presidente da República recebeu propina de R$ 3 milhões resultante de um negócio da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras.

Em 1989, na primeira eleição presidencial pelo voto direto depois do fim da ditadura, Collor derrotou o grande ídolo de Lindbergh, o então candidato Lula. Hoje, o ex-cara pintada está do mesmo lado do ex-presidente impichado, ambos investigados no mesmo escândalo.

Collor foi o primeiro presidente eleito pelo voto popular em 1989, depois de redemocratização do País. Mas depois de diversas acusações sofreu um processo de impeachment, ficando inelegível por oito anos.

O Supremo Tribunal Federal, no entanto, absolveu Collor das acusações de corrupção, citando falta de provas que o ligassem ao esquema de PC Farias.

Depois de um longo exílio político, elegeu-se senador por Alagoas em 2006. Foi reeleito em 2014 a mais oito anos de mandato pelo mesmo Estado.

Lindberg Farias, depois de participar do movimento que o deixou conhecido nacionalmente, elegeu-se deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) nas eleições de 1994.

Em 1996, foi eleito presidente nacional da União da Juventude Socialista (UJS). Aderiu ao trotskismo em 1997 e ingressou no Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Na Câmara dos Deputados, pautou seu primeiro mandato pela oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso.

Nas eleições de 1998, não conseguiu se reeleger porque o PSTU – legenda pela qual concorreu – não atingiu coeficiente eleitoral.

Pelo mesmo motivo, em 2000 não pôde assumir o cargo de vereador, embora fosse o quarto mais votado do Rio de Janeiro, com 47 mil votos. Decidiu, então, filiar-se em 2001 ao Partido dos Trabalhadores (PT) para apoiar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência. Retornou novamente à Câmara dos Deputados em 2002 com mais de 83 mil votos.

Em 2004, candidatou-se à prefeitura de Nova Iguaçu - uma das principais cidades da Baixada Fluminense - pela coligação "Hora da mudança", composta por PSB, PCdoB, PSDB e PFL. Venceu a disputa no segundo turno com 57,74% dos votos.

Nas eleições municipais de 2008, Lindberg se reelege prefeito de Nova Iguaçu no primeiro turno com com cerca de 260 mil votos (cerca de 65%) pela coligação “A Mudança não pode parar”, composta por PT, PDT, PSB, PV, PCdoB, PTdoB, PR, PTB, PTN, PRB e DEM.

Em 3 de outubro de 2010, Lindberg foi eleito senador pelo Estado do Rio de Janeiro. Nas eleições deste ano, foi candidato derrotado ao governo do Estado do Rio de Janeiro pelo PT.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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