domingo, 28 de junho de 2015

Era uma vez uma certa seleção brasileira de futebol... (Por Thiago Muniz)

There once was a Brazilian soccer team... S.O.S!


Aqueles que eram exemplo do prazer de jogar futebol, hoje chutam a bola com angústia e correm pedindo clemência ao cronômetro.

Este atestado de óbito não tem data nem lugar, porque existiram muitos. Penso no célebre obituário publicado pelo jornal britânico The Sporting Times quando a Inglaterra caiu diante da Austrália no críquete e deu origem ao troféu denominado The Ashes (as cinzas), disputado a cada dois anos por Inglaterra e Austrália: “Em memória afetuosa do críquete inglês, falecido no The Oval em 29 de agosto de 1882, profundamente lamentado por um amplo círculo de amigos e conhecidos. Descanse em paz. O corpo será cremado e as cinzas, levadas à Austrália”.

No entanto, com a seleção brasileira a urna misturaria diversas cinzas, com um epitáfio de efemérides. Três Copas do Mundo e duas Copas América consecutivas fora da final, mais a quase nula presença de jogadores verde-amarelos em papeis determinantes dentro dos gigantes da Europa e, principalmente, o regresso de Dunga ao banco da seleção dizem muito. É como se um ex-presidente que deixou péssimas recordações voltasse a ser eleito não por amnésia dos votantes, mas sim por mera resignação.

A doutrina de Dunga parece dever obediência aos preceitos positivistas impressos na bandeira brasileira: ordem e progresso. Segundo essa colocação, é impossível buscar o segundo sem ter o primeiro. À custa de quê? De um Brasil confuso, agachado, paranoico, tímido. A única coisa mais grave que deixar de jogar respeitando uma essência é insistir na traição, mesmo com a constatação de que esta também não funciona. Colocada para morrer, a seleção verde-amarela prefere fazer isso renunciando às suas raízes.

É um futebol que sobreviveu a várias crises. Logo de início, o regionalismo que empobrecia o elenco (na Copa de 1930 no Uruguai jogaram cariocas e não paulistas). Depois, o trauma do Maracanaço (o escritor Nelson Rodrigues suplicava pela presença de apoio psicológico: “Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador”). Passada a era dourada, a nostalgia com clímax na Copa da Espanha em 1982 (“jogando assim, é válido perder”, dizia Sócrates). Mais tarde, a mercantilização (Ronaldo e sua insólita final na França em 1998) justificada pelos troféus. Embora nenhuma tão prolongada e existencial como a insensatez atual: nem ser nem fazer; de tanto negar a si mesma, esquecer o que é buscar a si mesma.

Aqueles que eram exemplo do prazer de jogar futebol, que eram mestres na volta à infância que pode ocorrer em um campo, que sublimaram essa atividade às máximas proporções estéticas, hoje chutam a bola com angústia, hoje correm pedindo clemência ao cronômetro, hoje se enredam em recordações do que existiu e desapareceu.

Era uma vez a seleção brasileira, versão futebolística e contemporânea daquela equipe inglesa de críquete. As cinzas serão levadas ao Mineirão.

Alarmado pela impunidade com a qual apanhava, Lionel Messi conta que durante a partida contra a Colômbia se dirigiu ao árbitro mexicano Roberto García Orozco e lhe pediu explicações. “Isso é a América e aqui é assim que se joga”, disse o juiz. O homem cuja responsabilidade é velar pela pureza do espetáculo não só peca pela ignorância como se gaba dela. Orozco desautorizou a si mesmo e expôs o caráter atroz da organização que o banca, essa Conmebol em frangalhos, que lança o futebol sul-americano na mediocridade. Não, o que acontece em campo não é imune à corrupção. Ficou evidente na miserável partida do Brasil, merecidamente eliminado da Copa América pelos voluntariosos paraguaios na segunda partida das quartas-de-final que terminou em disputa de pênaltis.

O Brasil é e continuará sendo a maior fábrica de talento natural do futebol. Nenhum país reúne mais indivíduos com melhores condições físicas, técnicas e culturais para praticar esse esporte. O patrimônio, entretanto, há 30 anos é continuamente dilapidado por uma entidade, a Confederação Brasileira de Futebol, que funciona cada vez pior em relação à quantidade de dinheiro que arrecada. Com a conivência de políticos oportunistas e com a perversa cumplicidade de veículos de comunicação sem senso crítico, a CBF gira em um redemoinho de autocomplacência, ineficácia, desvio de verbas e estupidez. Seu ex-presidente, José Maria Marin, permanece na prisão na Suíça sob acusações de corrupção; e seu sucessor, Marco Polo del Nero, é objeto de uma investigação judicial que não promete ser edificante. Os dois são os responsáveis pelo vexame apresentado no Chile.


Ainda não se passou um ano desde o histórico fracasso da Copa do Mundo, aquele 7x1 aplicado no anfitrião pela Alemanha em Belo Horizonte, e os resultados ratificam o que parecia uma evidência. Que Dunga não é o homem indicado para sair de uma crise que ele mesmo ajudou a criar. Os ciclos de Parreira, Scolari e Dunga, superexpostos e redundantes, simplificaram o jogo da equipe até o empobrecimento. No sábado a involução seguiu seu curso. A perplexidade dos jogadores coincide com um desconhecimento profundo do que devem ser como nação futebolística.

Diante das dúvidas existenciais alheias, o Paraguai se reafirma no que sempre foi. Em Concepción apresentou-se com seu manual de sempre. Solidariedade fraternal, espírito de sacrifício, habilidade pelos lados do campo e contundência nas duas áreas. Víctor Cáceres comandou o jogo duro do meio campo e ninguém fez prisioneiros. Pressionaram no campo de defesa, as faltas foram se acumulando, e o Brasil teve dificuldades em passar pelas linhas dos paraguaios.

O gol de Robinho aos quinze minutos do primeiro tempo foi um brilho casual. Elias lançou Daniel Alves, o lateral cruzou e Robinho concluiu aparecendo de trás para surpreender os zagueiros. Ao contrário das impressões do público, feliz diante da expectativa de agitação, o 1x0 não representou o início de um glorioso intercâmbio, mas o ponto de partida de uma penosa estabilidade tática. Foi a primeira e última vez em todo o primeiro tempo que o Brasil tocou na bola dentro da área de Villar. Recolhido em seu campo, preferiu esperar aferrado a uma ineficaz ideia de fortificação.

Armada para formar uma barreira de seis defensores, a seleção de Dunga é o retrato de uma equipe velha. Há décadas os planos de jogo que não permitem a liberação dos laterais são incompatíveis com a eficiência e o jogo bem disputado. Elias e Fernandinho tornaram-se dois pivôs no sentido mais arcaico do termo. Ficando muito próximos aos zagueiros, alargaram a equipe, não participaram das jogadas de ataque, e por não terem serventia, não foram úteis nem para trazer segurança. Ninguém cobriu os laterais, talvez porque o modelo não prevê sua utilização sistemática. Quando a equipe precisou de Daniel Alves e Filipe Luís não os encontrou.

Com a ajuda de seus incansáveis atacantes, Benítez pela esquerda e Derlis pela direita, o Paraguai provocou uma chuva incessante de cruzamentos, faltas laterais e escanteios que quase sempre eram concluídos a gol. A incompetência defensiva do Brasil só foi igual a sua incapacidade de dar três passes seguidos. Os zagueiros, Miranda e Thiago Silva, pareciam juniores. Thiago Silva sofre de um ataque de nervos desde que a devastadora experiência da Copa triturou sua fé. Ele é um conjunto de excelentes capacidades. Mas não consegue deixar de sofrer. O futebol virou um sofrimento. Sua depressão contagia e comete erros graves, como o que provocou o pênalti a favor do Paraguai. Foi um toque de mão. Semelhante ao que quase o condenou nas quarta-de-final da última Liga dos Campeões. Tocou na bola para desviar um cruzamento em uma disputa com Santa Cruz e o árbitro não teve outro remédio a não ser marcar a penalidade. Derlis converteu o gol de empate.

O Brasil não conseguiu mais se recuperar porque já não entende nada sobre sua própria identidade. São muitos anos sem uma ideia de jogo que concilie sua tradição e sua natureza. Os jogadores não encontraram o fio da partida e não souberam como agir contra um adversário que sobe como a maré no segundo tempo. Infatigáveis, os guaranis comemoraram a decisão por pênaltis efusivamente enquanto Dunga sussurrava coisas no lado do campo, no meio de um círculo de brasileiros suplicantes, abraçados, como se tentasse confortar com mentiras.

A disputa de pênaltis teve dez cobranças. Jefferson e Villar, dois goleiros especialistas, não defenderam nenhuma. Douglas Costa e Everton Ribeiro, ambos reservas, chutaram para fora e aceleram o processo. 

Nem o erro de Santa Cruz tirou a convicção dos paraguaios. Há muito tempo o Brasil já não sabia mais nem o seu próprio nome.

Pelo crime de um péssimo jogo em Concepción, Brasil e Paraguai mereceram, depois do 1x1 no tempo normal, o castigo de decidir nos pênaltis a vaga nas semifinais da Copa América.

Como na última edição do torneio, deu o time guarany de novo, por 4x3. Só restou a este cronista tomar um uísque paraguaio, ouvir uma guarânia e blasfemar em “portunhol selvagem”, a língua que falamos na nossa tríplice fronteira com “los hermanos” paraguaios e argentinos.

A seleção canarinho até ensaiou um bom futebol coletivo nos minutos iniciais, com um Philippe Coutinho beatlemaníaco e aventureiro qual atua no Liverpool, um Elias ao estilo do jogador que conhecemos do Corinthians e Daniel Alves respirando Barcelona. Dessa forma, veio o gol de um refeito Robinho, aos 24 do primeiro tempo.

E por aí ficou a ilusão tingida de verde e amarelo. Em vez de tentar o segundo gol, o Brasil, aos poucos, adotou um joguinho cartorial, precavido e burocrático. Um Elias quase proibido de ir mais adiante, acompanhando o ataque, era o retrato do resto da jornada.

A despedida brasileira, na primeira partida de mata-mata depois da tragédia dos 7x1 para a Alemanha, revela, neste aniversário de um ano do Mineirazo, cabalísticos sete erros:

1) Fora de campo, o técnico Dunga pisou na bola, na véspera da partida, ao misturar na mesma frase a intenção do politicamente correto e um gesto de racismo: “Acho que sou afrodescendente, gosto de apanhar”. Em um país com forte herança escravagista e de uma seleção brasileira historicamente negra, a frase foi um desastre, para dizer o mínimo. O que diria o cronista Mario Filho, autor do clássico nacional “O negro no futebol brasileiro”?

2) Dentro da cancha, um treinador sem imaginação ou capacidade de sair da sinuca paraguaia. Quem pensa mal, treina mal. É preciso sim saber usar as palavras. Não pode ser um “sem noção”, como dizemos aqui nos trópicos.

3) A CBF não quis aprender nada com o 7x1. Simplesmente ignorou, sob a ilusão de que o fracasso na Copa 2014 teria sido um fato surreal e isolado.

4) Se o futebol canarinho perdeu relevância no mundo, é triste saber que está abaixo também das seleções da América Latina. O fim de um “império”. Ninguém teme mais a camisa amarela.

5) Em nome da falsa mística que temos que jogar “sério”, o Brasil não sorrir mais em campo. Tudo bem não ser um time de chorões, mas essa cara dura, com exceção de Robinho, revela que a garotada não se diverte mais com o jogo. Oswald de Andrade, um dos maiores escritores brasileiros, em seu manifesto antropofágico, já dizia: “A alegria é a prova dos nove”.

6) José Maria Marin, ex-presidente da CBF está preso na Suíça; Del Nero, o atual, teme até sair de casa, e manteve distância da equipe na Copa América, com medo de ser detido. A turma do “Bom Senso F.C.”, grupo de atletas que repensa o futebol brasileiro, precisa ser ouvida mais seriamente.

7) O 7x1 não serviu de quase nada. Que esta melancólica despedida de hoje, com um técnico sem imaginação que serve apenas para tolher o pouco talento que nos resta e a ideia de se divertir em campo, sirva para alguma coisa. O samba está no divã. Que volte no melhor dos rebolados.






O torcedor acordou 11 dias antes, na folga de um sábado de inverno, logo depois que o Brasil deixou prematuramente a Copa América do Chile. Não precisará despertar no dia 8 de julho de 2015 para constatar que o futebol brasileiro perdeu um ano inteiro, contado. Mas quem se importa com a Seleção da CBF no país do 7 a 1?

A camisa amarela era um símbolo. Não é mais. A CBF é o problema. A cúpula está mais preocupada em medir os passos do FBI do que monitorar as decisões de um ultrapassado Dunga. Torcedores cobrem com adesivo o símbolo da CBF em camisas, mantas, chapéus e abrigos. Vergonha pura.

Na rua, o fã, assim como parte da imprensa esportiva, ainda está iludida com o futebol brasileiro. Acha que o país é celeiro de craques. Não vê a evolução do futebol, olha os vizinhos ou observa o progresso de outras seleções. Entende que o DNA do futebol bonito é só do Brasil.

O torcedor, como a mídia, ainda acredita em centroavante aipim e camisa 10 que “pensa o jogo” – só para ficar em duas posições. São jogadores em rápido processo de extinção. Não há um só time competitivo no planeta futebol que guarde lugar à dupla. O futebol que ganha dispensou os dois dinossauros. Os atrasados, como nós, os cultuam, pedem, imploram, acham que um time não funciona sem eles.

A CBF tem culpa por travar o progresso, mas é hora de avançar. Entender, pelo menos, que o futebol mudou e que nós ficamos para trás, mesmo no Cone Sul.

Não somos mais referência de chuteiras. Quem somos nós mesmo?

O futebol da Seleção eliminada pelo Paraguai, lanterna das Eliminatórias e cheio de refugos de clubes brasileiros, foi uma vergonha. Nada justifica atuação tão ruim contra um time cujo centroavante é o mesmo há 15 anos.

Roque Santa Cruz estará nas próximas duas edições da Copa América, aos 40 e tantos anos, podem apostar. Não tem virose, cansaço de férias ou apagão (outro?) que sirva de desculpa.

O Brasil não teve organização. Fernandinho e Filipe Luís abusaram dos chutões na direção que seus narizes apontassem. Jogador de Seleção não pode usar tantas vezes este recurso. Se os usa demais é porque não tem outros. E daí não pode ser convocado.

Daniel Alves subia e ninguém cobria. A jogada do gol de Robinho foi de aniversário. No segundo tempo, a produção ofensiva da Seleção se resume a um arremate de Fernandinho.

É preciso mecânica também para atacar, e não só para defender. Triangulações pelos lados, o falso 9 recuando para abrir espaço, um dos volantes se somando aos homens de frente. Nada. Sem Neymar, a Seleção foi medonha.

Pode piorar: é só chegar em 6º nas Eliminatórias e ficar fora de uma Copa pela primeira vez. Você duvida? Eu, não.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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