terça-feira, 9 de junho de 2015

A “bola” rola nos impérios (Por Thiago Muniz)

Poucos apresentaram uma versão mais crítica e sucinta do episódio FBI-FIFA. Muitos se perguntam como o presidente da Fifa atravessou incólume 17 anos marcados por escândalos. Ele sabe como o poder funciona e o que é necessário para mantê-lo.

Beautiful Game, Dirty Business, proclamou a revista The Economist em edição publicada na semana que antecedeu a abertura da Copa de 2014. Às vésperas do Congresso da FIFA, o FBI comandou o espetáculo das prisões dos cartolas no luxuoso hotel Baur o Lac, de Zurich.

Na posteridade da intervenção policial, a mídia global, quase unanimemente, festejou a força saneadora do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em território estrangeiro. No Brasil, os festejos não poderiam escapar às exuberâncias da alma tropical, sobrando estreita margem para o espírito desconfiado. Não digo crítico, porque este modo de ser da inteligência humana naufragou nas águas babilônicas da cultura de massas contemporânea.

O time majoritário de articulistas e escribas derramou-se em laudatórios à firme disposição dos americanos de “acabar com tudo aquilo e recolocar o futebol no lugar que ele merece”. Na Folha de S.Paulo degustei o artigo da jovem Mariliz Pereira Jorge. Numa rememoração das façanhas do general Custer, Mariliz desmanchou-se em admirações pela justiceira incursão da cavalaria americana no território do jogo da bola, onde habitam os Cheyenne e os Sioux da corrupção.

Há os que ainda guardam reservas quanto à legitimidade e as intenções da cavalaria do desditado Custer, outrora massacrada na batalha de Little Bighorn, hoje disparando tiros a esmo por todas as partes do mundo. Na contramão dos colegas, Juca Kfouri e Ricardo Melo ofereceram ao leitor uma versão mais desconfiada e crítica do episódio FBI-FIFA. 

Os dois tiraram o pé do acelerador maniqueísta e ensaiaram uma narrativa a respeito do jogo estratégico entre os protagonistas do enredo que se desenrola na vida real. Na vida real, contracenam o Império Americano e seu sistema financeiro globalizado, o Império da Bola e os implacáveis Impérios Midiáticos.

Aos interessados nas façanhas da Justiça americana, reproduzo trecho da matéria do Center for Public Integrity: “Desde a crise financeira deflagrada há sete anos, nenhum dos executivos graúdos dos bancos gigantes de Wall Street, os que se beneficiaram da bolha imobiliária, foi instado a prestar contas de suas proezas (e falcatruas, digo eu) financeiras”.

Do Império do Norte chuto a bola para os Reinos do Sul. Lembro, outra vez, a entrevista concedida há tempos ao jornal Lance! pelo ex-jogador Alex, hoje comentarista da ESPN. Indagado sobre quem manda no futebol brasileiro não trepidou em desdenhar a CBF (“uma sala de reuniões”) e botou os senhores da mídia no trono. “Quem manda no futebol brasileiro é a Rede Globo”.

Para bom entendedor, basta relatar a eleição para a presidência do Clube dos Treze em 2010. O Reino da Bola e o Reino Midiático juntaram suas forças em torno da candidatura do empresário Kleber Leite. A Santa Aliança tinha a missão de transformar a “sala de reuniões” no bunker inexpugnável dos generais futebol. O propósito era submeter os ainda recalcitrantes entre os clubes brasileiros a um comando sem fissuras e oposições e, melhor, sem “desperdícios financeiros”, leia-se, sem a adoção de critérios mais igualitários na distribuição das cotas entre os participantes dos campeonatos.

Em 2010, no episódio da negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, os Senhores das Imagens jogaram pesado. O Clube dos 13 teve a ousadia de propor uma licitação com regras adequadas ao complexo de mídias oferecidas pela moderna tecnologia digital. Ataíde Guerreiro, o diretor-técnico da comissão encarregada de definir os termos da negociação, teve a iniciativa de acelerar a supressão do direito de preferência, um filhote do monopólio.

A Santa Aliança fracassou: Kleber Leite perdeu a eleição. Mas como é praxe nos Brasil dos Senhoritos e Paneleiros, quem ganha no voto não leva. Os Donos da Bola implodiram o Clube dos Treze. Andrés Sanchez rezou o epitáfio da associação dos clubes ao declarar em reunião que se aliou aos “gângsteres” da Rede Globo. No carnaval de 2011, dois clubes do Rio de Janeiro chegaram ao ridículo de assinar uma carta de rompimento com o Clube dos 13, certamente escrita no embalo das folias Momo. Em matéria de direitos de transmissão, o futebol brasileiro debate-se nas garras do Senhor das Imagens, acolitado por demônios miúdos que se enriqueceram à custa da intermediação dos direitos que pertencem aos clubes. Isso para não falar do desrespeito ao torcedor brasileiro, obrigado a ver os jogos de seu time às 22 horas, horário apropriado par uma disputa entre lobisomens e mulas sem cabeça.

Aos que ainda guardam humor suficiente para se divertir com hipocrisias, recomendo sintonizar os trejeitos e chiados da jornalista Leilane Neubarth na GloboNews. Ela insiste em indagar quem é mocinho ou bandido nessa história, no ingente esforço Global de ocultar o problema real e jogar areia nos olhos dos incautos.

Joseph "Sepp" Blatter também já jogou futebol: como centroavante, nos anos 60 fez gols para o FC Visp na primeira liga amadora da Suíça. Também foi treinador do clube de sua cidade natal. Na época, ninguém diria que um dia ele seria o mais poderoso dirigente do esporte no mundo.

Ele nasceu em 1936 na localidade de Visp, no cantão suíço de Wallis, não muito longe da montanha Matterhorn, como o segundo entre os três filhos de um mecânico de automóveis. Após concluir o curso médio, foi estudar economia e administração de empresas em Lausanne. Inicialmente perseguindo carreira em relações públicas, trabalhou para a Associação de Turismo de Wallis e depois para uma fábrica multinacional de relógios.

Aos 39 anos, Blatter começou sua trajetória como dirigente de futebol. O então presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), o brasileiro João Havelange, o levou para a organização. Na qualidade de diretor dos programas de desenvolvimento, o suíço era responsável pelos campeonatos de juniores, entre outras atividades.

Ele contava também com a proteção de Horst Dassler, filho de Adolf Dassler, o fundador da Adidas. Consta que, durante alguns meses, Blatter teve até mesmo seu salário pago pelo conglomerado de artigos esportivos. Além disso, Dassler disponibilizou para Blatter um escritório na Alsácia.

O empresário alemão teria igualmente "mexido os pauzinhos" dentro da Fifa quando, em 1981, Blatter foi escolhido para ser o secretário-geral, o segundo cargo mais importante da federação internacional. Ele ficou encarregado de negociar os direitos de transmissão televisiva dos Mundiais de futebol e de gerir os contatos com os patrocinadores.

Além disso, participou de algumas mudanças nos regulamentos, como a adoção da "regra dos três pontos", segundo a qual uma vitória vale três pontos, e o empate, apenas um. Blatter tinha fama de competente e comunicativo.

"Crise? Que crise?"

Em 1998, por fim, chegou ao topo. Na sucessão de Havelange à frente da Fifa, conseguiu se impor contra o então presidente da Uefa, o sueco Lennart Johansson. Várias fontes acusam Blatter de ter comprado os votos dos delegados africanos por 1 milhão de dólares. Ele nega a acusação, falando em "ajuda ao desenvolvimento".

Desde então, o presidente da Fifa tem se mostrado extremamente resistente a escândalos. Por mais sérias que fossem as circunstâncias, ele sempre conseguiu sair ileso. E o que não faltou foi escândalo em seus 17 anos de gestão.

O mais crítico para ele foi provavelmente o que envolveu a ISL, parceira de marketing da Fifa, que pagava suborno aos dirigentes do esporte. Isso foi confirmado em juízo, assim como o fato de que, como secretário-geral, o cartola suíço sabia das propinas – descritas por ele como "comissões". Em 2010, finalmente, a Fifa escapou do processo pagando uma soma milionária e declarou Blatter inocente.

Em sua terceira reeleição, em 2011, o dirigente se beneficiou da corrupção no interior da própria federação. Seu adversário, Mohamed bin Hammam, retirou a candidatura ao ser divulgado que ele tentara subornar delegados do Caribe.

Embora o catariano tenha revelado que Blatter sabia das negociações de suborno, a comissão de ética da Fifa exonerou de culpa o presidente, que comentou na época: "Crise? Como assim, crise? A Fifa não está em nenhuma crise. Temos apenas dificuldades."

A comissão de ética também cuidou para que Blatter atravessasse incólume as controvérsias sobre a concessão das Copas do Mundo de 2018 e 2022 à Rússia e ao Catar, respectivamente. Ao contrário do investigador-chefe da Fifa, Michael Garcia, a comissão não constatou qualquer irregularidade nos procedimentos.

Futebol acima de países e religiões

Muitos se perguntam como é que Blatter consegue repetidamente se manter fora de todos os apuros. Ele sabe como o poder funciona e o que é necessário para mantê-lo, descarta as críticas externas com um sorriso, esmaga os levantes que acontecem em seu próprio campo, neutraliza os competidores, espera até que os problemas passem sozinhos.

Tudo isso é possível por ele saber que pode confiar quase cegamente em seus seguidores, por contar inteiramente com o respaldo dos cartolas da Ásia, da África e da América Latina. Há 17 anos ele cultiva relações com essas regiões seguindo o princípio do "é dando que se recebe".

"Sou o presidente daqueles que têm que se esforçar mais para conseguir tocar no concerto internacional", disse, certa vez, numa entrevista. "Então sou, por assim dizer, o presidente dos pequenos."

Em muitos países da Ásia, da África e da América Latina, Blatter é cultuado como um "Messias do Futebol", que não só se empenha pelos clubes locais como ainda consegue dinheiro para eles – seja como "ajuda para o desenvolvimento", seja sob outros pretextos.

Assim, por mais que a União das Federações Europeias de Futebol (Uefa) o demonize, os clubes do continente só somam um quarto dos quadros de membros da Fifa – bem menos que a maioria necessária para eventualmente derrubar o polêmico presidente.

Se há algo que o cartola de 79 anos não tem, são dúvidas. Ele não se cansa de proclamar que se encontra em meio a uma missão: "Devido às emoções positivas que o futebol desencadeia, a Fifa é mais influente do que qualquer país da Terra ou qualquer religião" – essa é a crença de Sepp Blatter.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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