quarta-feira, 20 de maio de 2015

Os motivos da China para investir no Brasil (Por Thiago Muniz)

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, e uma missão de empresários de seu país desembarcam nesta segunda-feira em Brasília com a promessa de investir dezenas de bilhões de dólares em diversos setores da economia – de ferrovias a hidrelétricas, passando por autopeças, agronegócios, mineração, siderurgia e TI (tecnologia da informação).

O momento é visto como especialmente favorável a esses investimentos. De um lado, o governo tem sido obrigado a cortar gastos em infraestrutura devido às restrições orçamentárias. De outro, os setores de construção e óleo e gás passam por um cenário difícil por causa da Operação Lava Jato, que investiga esquemas de corrupção envolvendo Petrobras, grandes obras públicas e empreiteiras nacionais.

O contexto complicado acaba sendo uma oportunidade para o capital chinês, nota Maria Luisa Cravo, gerente Executiva de Investimentos da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

“Com certeza, cria uma oportunidade. Empresas estrangeiras, quando estão avaliando um país para investir, levam em conta todo tipo de fator.

Certamente, empresas de óleo e gás que não estavam atuando no Brasil, não eram fornecedores da Petrobras, têm interesse e sabem que há uma oportunidade (agora)”.

Segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC), um estaleiro chinês ganhou neste ano parte da concorrência internacional aberta pela Petrobras para construção de módulos de compressão, cujo contrato original de US$ 750 milhões foi cancelado com a brasileira Iesa, após citações na Lava Jato. O grupo Inepar, ao qual pertence a Iesa, está em recuperação judicial.

“Como se sabe, os grandes projetos de infraestrutura e de petróleo e gás sempre foram dominados por grandes empreiteiras brasileiras que ora têm dificuldade de concluir as suas obras. Nossa Câmara têm se esforçado para trazer investimentos de grandes empresas chinesas para ajudar a recuperar a economia do Brasil e manter empregos brasileiros”, afirma.

“O empréstimo de US$ 3,5 bilhões (R$ 10,5 bilhões) feito recentemente à Petrobras demonstra a confiança que a China deposita no Brasil e demonstra a importância que a China dá a essa aliança estratégica e comercial. Um amigo em hora de necessidade é um amigo verdadeiro”, acrescenta Tang.

O financiamento, obtido junto ao Banco de Desenvolvimento Chinês no início de abril, chega em um momento que a Petrobras está com o endividamento elevado e enfrenta dificuldade de obter recursos emitindo títulos e ações.

Li Keqiang reúne-se com a presidente Dilma Rousseff nesta terça-feira de manhã e no dia seguinte cumpre agenda no Rio e Janeiro, antes de seguir viagem para Colômbia, Peru e Chile. A China vem ampliando sua presença na região e tem laços próximos também com Venezuela e Argentina.

Durante a passagem da comitiva chinesa pelo Brasil serão assinados mais de 30 documentos, entre acordos governamentais, empresariais e outros atos, sinalizando intenções novas de investimentos de US$ 50 bilhões (R$ 150 bilhões), segundo o embaixador José Alfredo Graça Lima, atualmente à frente da Subsecretaria-Geral de Assuntos Políticos 2, área responsável pelas relações políticas e econômicas do Brasil com a Ásia.

Como maior parceiro comercial do país, a China já tem hoje peso importante na economia brasileira. Para Graça Lima, o crescente interesse chinês em investir aqui traz o relacionamento dos dois países a um novo patamar.

“A visita do primeiro-ministro Li Keqiang segue um histórico de visitas de alto nível que se iniciaram em 2004 e que vêm contribuindo para adensar a relações bilaterais entre Brasil e China. E (essas relações) estão tomando outro vulto, ou subindo de patamar, na forma de uma cooperação mais voltada para investimentos, tanto em infraestrutura, como em capacidade produtiva, que são duas áreas de especial interesse para o Brasil de hoje”, disse Graça Lima, em apresentação a jornalistas na semana passada.

Se tudo que está sendo anunciado vai sair do papel é outra história. Segundo o embaixador, são projetos que estão em diferentes estágios de negociação e planejamento. Um dos mais importantes para os dois países é a construção de uma ferrovia transoceânica, que cortará Brasil e Peru, facilitando o escoamento de grãos e outros produtos da região Centro-Oeste para o Oceano Pacífico.

Segundo o diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista, é justamente essa preocupação com escoamento de produtos brasileiros para a China, “questão de segurança alimentar”, que tem elevado a disposição do país em investir na logística brasileira.

Até hoje, observa Batista, a presença do capital chinês na infraestrutura de transportes do Brasil é pequena, mas a expectativa é que isso mude nos próximos anos. Em entrevista à imprensa chinesa na semana passada, Dilma sinalizou que o interesse brasileiro nessa parceria também é grade.

“O Brasil passa por um momento em que todo o conhecimento e a expertise da China na área de investimento em infraestrutura nós podemos aproveitar, tanto na área de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos”, disse ela ao China Business News, ressaltando que a participação chinesa em ferrovias vai ser “essencial” para o Brasil.

Monitoramento da Apex indica que, entre 2004 e 2014, a China investiu US$ 50 bilhões no Brasil. Maria Luisa Cravo explica que antes esses investimentos eram mais concentrados em fábricas e que agora o escopo está se ampliando para obras de infraestrutura, que são mais caras.

Mas o que estaria por trás do apetite bilionário chinês pelo Brasil?

Certamente, é de interesse do país melhorar a logística das nossas exportação, reduzindo os custos de produtos comprados em grande quantidade pela China, como soja e minério de ferro. Questionado sobre se haveria também uma estratégia geopolítica da China no sentido de ampliar sua influência na América do Sul, o embaixador Graça Lima descartou a existência de “uma agenda secreta” e minimizou uma possível perda de protagonismo do Brasil na região.

“Interessa ao Brasil que seus 11 vizinhos progridam, que tenham uma grau de desenvolvimento que sirva para mais estabilidade, mais paz, mais segurança (na região). Nesse ponto, a China é vista como uma parceiro bem vindo”, argumentou.

Para Charles Tang, porém, há sim uma intenção geopolítica, na medida em que a China busca a se contrapor aos Estados Unidos como potência global.

Esse é o entendimento também de Renato Baumann, diretor da área de Relações Econômicas e Políticas Internacionais do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada). “A China quer expandir sua áreas de influência e tornar o yuan uma moeda de referência global”, afirma ele.

O que pode acontecer também é que esses projetos grandiosos certamente esbarraram na legislação ambiental brasileira; se tornarão mais custosos, morosos e, bem, os chineses podem desistir de boa parte, isso se o governo brasileiro não abrir mão da fiscalização e aprovar projetos que serão contornados quando da implementação dos mesmos.

Parece que subestimamos um pouco a nossa presidenta.

Em novembro do ano passado, mencionei uma jogada política astuta dela, ao “deixar rolar” a Lava Jato. Num post intitulado “O xeque-mate de Dilma em seus adversários“, eu fazia a seguinte especulação: que a investigação na Petrobrás iria deixar um rastro destruidor, mas que o setor renasceria renovado, e a presidenta levaria os louros de ter sido a primeira governante a realmente liderar uma verdadeira luta contra a corrupção. Dilma teria lutado à sua maneira, de maneira republicana, democrática, como convêm a um estadista (a quem não compete o papel de juiz ou polícia), não intervindo, em silêncio, dando autonomia inclusive a setores explicitamente hostis ao governo.

Era uma jogada arriscada, mas astuta.

Não foi um xeque-mate, porém. O jogo ainda estava longe de terminar. Do final do ano até hoje, a mídia conseguiu diversas vitórias: elegeu Cunha, conseguiu impor a narrativa de que a corrupção na Petrobrás “nasceu” com o PT, e continuou vazando delações de maneira seletiva.

Por fim, Sergio Moro mergulhou na piscina "barbosiana", recebeu o prêmio Faz Diferença, da Globo, e assumiu orgulhosamente o papel de juiz político, mais interessado em holofotes do que em justiça.

A prisão de Vaccari & família selou a sua imagem de carrasco implacável.

Então eu – e a torcida de todos os times, à esquerda e à direita – passamos a criticar duramente a presidenta Dilma.

A conspiração parecia ter saído do controle. O PSDB, com apoio explícito da mídia, passou a falar diariamente em impeachment. Todos os dias, os jornais catavam no baú algum pretexto para derrubar a presidenta. A palavra golpe se tornou companheira nossa de cada dia.

A direita botou milhões de coxinhas psicóticos na rua, pedindo intervenção militar.

E os procuradores se mostraram determinados a destruir as empreiteiras, para produzir, deliberadamente, recessão e desemprego, criando uma atmosfera propícia ao impeachment.

Dilma, mais uma vez, parecia entregar várias peças importantes, e não demonstrava nenhuma reação.

Até que ela… jogou.

E novamente aplica um xeque em seus adversários. Não arriscarei afirmar que se trata de um xeque-mate. Agora está claro que esse jogo só vai terminar em meados do ano que vem, ou então ao final de 2018.

Depois de apanhar calada como nunca dantes na história desse país, a presidenta Dilma finalmente parece ter encaçapado lindamente uma bola!

O acordo que o governo está celebrando com a China deu um prodigioso drible da vaca na conspiração midiático-judicial.

Uma conspiração que pretendia derrubá-la através de uma estratégia incrivelmente suja e canalha: asfixiando um dos setores mais importantes da economia, o de construção civil, e criando um clima de terrorismo econômico e caos político.

A semana passada, conforme analisei no post anterior, terminou mal para os paneleiros, e boa para o resto da população.

Quero martelar na cabeça do leitor dois fatos importantes: o lucro de R$ 5 bilhões da Petrobrás e o anúncio da China de investir R$ 160 bilhões no Brasil.

Hoje a presidenta encontrou o primeiro-ministro chinês, que confirmou a intenção da China de fazer os investimentos em infra-estrutura. Com destaque para… trens.

Na entrevista com Dilma da qual participei, minha pergunta foi justamente sobre isso: por que o governo não promovia a criação de uma indústria ferroviária no país, a única maneira de nos livrarmos da dependência da indústria automobilística, que é tão importante, mas que não pode, naturalmente, ter o monopólio sobre a política industrial?

A China está cruzando seu país com trens-bala e trens de transporte. Num primeiro momento, ela vai construir ferrovias para nos ajudar a escoarmos nossa produção. Num segundo, a fazer trens-bala ligando todas as grandes capitais do país.

Diante das notícias da China, a conspiração midiático-judicial ganhou uma aparência incrivelmente ridícula.

Óbvio que é importante lutar pela recuperação do dinheiro desviado da Petrobrás.

Mas não é isso que os procuradores, com apoio de setores do judiciário, estão fazendo.

O Moro já conseguiu e conseguirá recuperar alguns milhões, mas não adiantará nada se o fizer à custa da falência do setor naval, por exemplo.

Não adianta recuperar alguns ovos, e matar as galinhas.

Ontem, li que os procuradores conseguiram bloquear, nos últimos dias, cerca de R$ 1 bilhão das empreiteiras.

Pareceu-me que os procuradores estão realmente dispostos a sacrificar, no altar da Globo, nossas maiores indústrias de construção civil.

Acontece que, se as empresas quebrarem, aí que não pagarão mais nada ao Estado.

Finito.

Com a entrada da China, esse terrorismo, contudo, se torna patético e, ironicamente, antipatriótico.

A China se tornou a vacina contra o golpe. Se os procuradores levarem adiante sua estratégia insana de destruir importantes empresas nacionais, nós as substituiremos por chinesas.

Quem vai pagar o pato não serão os operários, que continuarão brasileiros, e sim um punhado de paneleiros executivos dos escalões médios das grandes empresas – e admito que terei dificuldade em sentir compaixão.

As denúncias contra os deputados, por sua vez, já aceitas pelo judiciário (um judiciário sempre pusilânime quando entram os holofotes da mídia), revelaram-se, mais uma vez, inconsistentes. Não que os deputados sejam santos, mas os procuradores não encontraram nada de concreto contra eles, e mais uma vez irão colher as provas após as denúncias, após prendê-los, invertendo pela enésima vez o princípio da presunção da inocência.

Pior, a força-tarefa da Lava Jato os acusou de crimes que não tem absolutamente nada a ver… com a Lava Jato. Um deputado do PP foi denunciado por incorporar uma doméstica como sua assessora, e um deputado petista por supostamente influenciar a Caixa a anunciar na agência de publicidade de seu irmão. Tudo ainda sem prova nenhuma, e sem nada a ver com o “petrolão”.

Com o último cartucho da Lava Jato já detonado com as delações confusas de Ricardo Pessoa, presidente da UTC, só falta resolver isso: não deixar que os procuradores, frustrados, destruam Paris.

Ou seja, é preciso impedir que os procuradores, desesperados com o fracasso de seu golpe contra o voto de 54 milhões de eleitores, detonem alguma bomba atômica sobre a indústria brasileira de construção civil, em especial os setores que trabalham com a Petrobrás.

O golpe político já está morto. Mas eles ainda podem (aliás, já estão fazendo) promover estragos de curto prazo na economia. Se conseguirmos evitar isso, através de acordos de leniência, que permitam às empreiteiras voltarem a trabalhar, pagar impostos, gerar empregos, e quitarem suas multas no devido tempo, a vitória do Brasil contra o terrorismo midiático será completa.

Segundo o diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista, é justamente essa preocupação com escoamento de produtos brasileiros para a China, "questão de segurança alimentar", que tem elevado a disposição do país em investir na logística brasileira.

Até hoje, observa Batista, a presença do capital chinês na infraestrutura de transportes do Brasil é pequena, mas a expectativa é que isso mude nos próximos anos.

Em junho, o governo federal pretende anunciar um novo pacote de concessão de obras em infraestrutura, e, segundo o diretor da CNT, há grande interesse chinês nas ferrovias.

Para os investimentos se confirmarem, porém, é preciso clareza nos detalhes técnicos e na taxa de retorno desses investimentos, afirma ele.

Batista lembra que nenhuma das ferrovias anunciadas no pacote de concessões de 2012 saiu do papel até hoje, porque essas incertezas afastaram investidores.

Naquele ano, o governo anunciou que as concessões significariam investimentos de R$ 91 bilhões em ferrovias - os projetos estão sendo revisados para entrar no novo pacote previsto para junho.

"A insfraestrutura de transportes está num momento de crise de recursos, com a redução dos investimentos públicos e dos financiamentos liberados pelo BNDES. O capital privado ganha mais importância agora e a única sinalização clara de interesse (em investir) é do governo chinês", destaca Batista.

Em entrevista à imprensa chinesa na semana passada, Dilma sinalizou que o interesse brasileiro nessa parceria também é grande.

"O Brasil passa por um momento em que todo o conhecimento e a expertise da China na área de investimento em infraestrutura nós podemos aproveitar, tanto na área de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos", disse ela ao China Business News, ressaltando que a participação chinesa em ferrovias vai ser "essencial" para o Brasil.

Monitoramento da Apex indica que, entre 2004 e 2014, a China investiu US$ 50 bilhões no Brasil. Maria Luisa Cravo explica que antes esses investimentos eram mais concentrados em fábricas e que agora o escopo está se ampliando para obras de infraestrutura, que são mais caras.

Entre as empresas chinesas que investiram no Brasil nos últimos dez anos, destacam-se JAC Motors e Chery (montadoras), Sinopec (petróleo e gás), Huawei (telecomunicações), Foxconn (eletrônicos), Banco da China (financeiro) e a Companhia Nacional da Rede Elétrica da China (energia). Recentemente, a Apex mediou a instalação da uma empresa de ônibus elétricos em Campinas - a primeira fábrica na América Latina da gigante chinesa BYD.

Mas o que estaria por trás do apetite bilionário chinês pelo Brasil?

Certamente, é de interesse do país melhorar a logística das nossas exportação, reduzindo os custos de produtos comprados em grande quantidade pela China, como soja e minério de ferro.

Apesar de a queda nos preços das commodities ter provocado um recuo no valor das vendas brasileiras para a China, o país manteve-se como principal parceiro comercial do Brasil em 2014, quando a corrente de comércio (soma de importações e exportações) foi de US$ 78 bilhões.

Questionado sobre se haveria também uma estratégia geopolítica da China no sentindo de ampliar sua influência na América do Sul, o embaixador Graça Lima descartou a existência de "uma agenda secreta" e minimizou uma possível perda de protagonismo do Brasil na região.

"Interessa ao Brasil que seus 11 vizinhos progridam, que tenham uma grau de desenvolvimento que sirva para mais estabilidade, mais paz, mais segurança (na região). Nesse ponto, a China é vista como uma parceiro bem vindo", argumentou.

Para Charles Tang, porém, há sim uma intenção geopolítica, na medida em que a China busca a se contrapor aos Estados Unidos como potência global.

Esse é o entendimento também de Renato Baumann, diretor da área de Relações Econômicas e Políticas Internacionais do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada). "A China quer expandir sua áreas de influência e tornar o yuan uma moeda de referência global", afirma ele.

Com enorme volume de reservas internacionais, da ordem de US$ 4 trilhão, a China também busca diversificar suas aplicações.

Há anos já vem investindo na África, não sem alguma controvérsia, como por exemplo na construção de ferrovias cuja bitola só serve para trens chineses ou devido à prática de importar mão de obra chinesa para essas obras.

Investidores chineses já tentaram trazer mão de obra nacional na construção de umas das linhas de transmissão de energia da usina de Belo Monte, no Pará, mas foram barrados pela legislação trabalhista brasileira.

Sobre essas polêmicas, o embaixador Graça Lima disse que o Brasil "não é totalmente ignorante" e que o país estará atento aos riscos.

"Para isso que são requeridos mecanismo de acompanhamento, memorandos de entendimentos, que deixem muito claro que o se busca é um benefício equilibrado", garantiu.

"O gigantismo comercial da China, que há dois anos se converteu na maior exportadora e importadora do mundo, não se fez acompanhar do papel do país como grande fonte de investimentos estrangeiros diretos", afirma Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Universidade de Columbia. Agora o país estaria buscando compensar essa lacuna.

O dinheiro chinês chega num momento em que o Brasil implementa diversos cortes no orçamento e no investimento em infraestrutura. Segundo Márcio Sette Fortes, professor de relações internacionais do Ibmec/RJ e ex-diretor da Câmara de Comércio Brasil-China, esse dinheiro é essencial para contribuir com o reaquecimento da economia.

"O Custo Brasil tem a chance de diminuir com a presença maciça do capital chinês. Isso não melhora a tributação ou diminui a corrupção, mas contribui para reduzir custos logísticos e de infraestrutura precária," afirma.

Li e a presidente Dilma deverão assinar em Brasília cerca de 30 acordos, entre eles diversas parcerias de investimentos e a ampliação do comércio entre os dois países.

Entre um dos projetos possíveis está a construção da ferrovia Transoceânica, que deve ligar o porto de Santos, em São Paulo, ao porto de Ilo, na costa do Peru. O corredor de trilhos entre os oceanos Atlântico e Pacífico vai abrir uma saída para os produtos brasileiros como grãos e carnes para o Pacífico, sem que a carga precise passar pelo Canal do Panamá. O objetivo é tornar as mercadorias mais competitivas e com um menor custo também para a China.

A proposta gera polêmica por conta do elevado custo da construção, que passará pela Cordilheira dos Andes, e pelo impacto ambiental, já que a linha férrea teria que passar pela região amazônica brasileira e peruana. Segundo Graça Lima, a ferrovia deverá ficar pronta entre três e quatro anos. O custo ainda não foi calculado, mas há estimativas de que a ligação de cerca de 5,3 mil quilômetros chegue a custar cerca de 10 bilhões de dólares.

Grande iniciativa chinesa. Se fosse por tradicionais meios de financiamento como Banco Mundial iriam exigir privatizações, contratação de empresas americanas e nós ficaríamos com a conta a pagar a juros altíssimos. Surge uma nova potência com interesses distintos. Em outros países sul americanos a China está a financiar programas sociais como construção de escolas e hospitais.
É responsável por enfraquecer o boicote ocidental à Rússia aproveitando e comprando gás barato e investindo na indústria de carros naquelas bandas.

Enquanto o irmão do Norte segue com sua insana economia dirigida por Wall Street e por fabricantes de armas, a China pisa fundo na economia real promovendo parcerias estratégicas.

A perda de dinamismo da industrialização brasileira provocou, no início dos anos 90, uma reação extremada nas hostes liberais: abrir a economia seria expor os empresários letárgicos aos ares benfazejos da globalização. O silogismo em que se desdobra a premissa é grotesco em sua simplicidade: se a indústria brasileira perdeu a capacidade de investir ou de se modernizar, a solução é submeter a incompetente à disciplina da concorrência externa.

Na trajetória dos emergentes bem-sucedidos, os benefícios da abertura da economia ao investimento estrangeiro – tais como absorção de tecnologia, adensamento de cadeias industriais, crescimento das exportações – dependeram fundamentalmente das políticas nacionais. Dentre os chamados Brics, cresceu mais e exportou ainda melhor quem conseguiu administrar uma combinação favorável entre câmbio real competitivo e juros baixos, acompanhada da formação de redes domésticas entre as montadoras e os fornecedores de peças, componentes, equipamentos, sistemas de logística e advertising.

Na era da escalada chinesa, é superstição acreditar que a abertura financeira e a exposição pura e simples do setor industrial à concorrência externa são capazes de promover a modernização tecnológica e os ganhos de competitividade.

Não há exemplo nos países periféricos, aí incluídos os “Tigres Asiáticos” e a China, de renúncia a políticas deliberadas de reestruturação produtiva ou de estímulo à modernização e à conquista de mercados. Os casos bem-sucedidos têm um traço comum: intencionalidade e coordenação pública.

As políticas asiáticas de promoção e integração industrial estão alicerçadas em ganhos expressivos nas relações produtividade/salário e câmbio/salário na manufatura. Esse processo é amparado por um sistema de crédito voltado para o investimento manufatureiro privado e a sustentação dos programas públicos de gastos em infraestrutura. A despeito da crise global e da desaceleração chinesa, o estilo de desenvolvimento sino-asiático prosseguirá empenhado na busca da dianteira na porfia competitiva global. Nessas circunstâncias, a valorização cambial é um erro grave, assim como a hesitação em promover políticas adequadas de defesa comercial e de estímulo às exportações.

Percorremos o caminho inverso dos asiáticos que abriram a economia para as importações redutoras de custos. A abertura da economia estava comprometida com os ganhos de produtividade voltado para aumento das exportações.

É natural a participação da indústria no PIB declinar nos países que atingiram um estágio de desenvolvimento avançado e nível de renda elevado. A queda é virtuosa por refletir os formidáveis ganhos de produtividade proporcionados pela indústria manufatureira contemporânea, principal vetor do progresso técnico.

O Brasil ainda não apresenta essas condições. É um país de renda média com os transtornos de mudanças muito profundas na configuração produtiva e nas relações comerciais do mundo globalizado. Depois da estabilização dos anos 90, aceitou as balelas da integração financeira e da abertura comercial pura e simples e desprotegeu sua indústria avassalada pelo avanço competitivo da China.

A grande empresa transnacional promoveu a articulação das novas cadeias de produção de valor, escoltada por uma profunda redefinição espacial da economia global. A estratégia chinesa administrou o comércio exterior de modo a colher os benefícios da incorporação de novos processos de produção “embutidos” em peças, componentes e nos bens de capital de última geração. O comércio intra-asiático é hoje um exemplo de estratégias de abertura com ganhos de competitividade, apesar da subida dos salários, mais do que compensada pelos avanços nos ganhos de escala, de escopo e de integração regional.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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