quarta-feira, 27 de maio de 2015

FIFA: Raízes Corruptas (Por Thiago Muniz)

A prisão de sete diretores da FIFA obriga a refundar a organização. Corrupção da FIFA chega a 150 milhões de dólares em 24 anos

A escandalosa trama de corrupção destampada pela justiça dos Estados Unidos, pelo FBI e pela agência tributária norte-americana compromete gravemente a credibilidade da FIFA, a federação internacional que governa desde 1904 os destinos do futebol mundial. Sete diretores da organização, muito próximos ao presidente, Joseph Blatter, foram detidos nesta quarta-feira em Zurique acusados de suborno, chantagem, fraude e lavagem de dinheiro. Loretta Lynch, procuradora-geral dos EUA, foi clara e taxativa ao apresentar as acusações: é uma trama com “raízes profundas” que operou por, pelo menos, 24 anos. A conclusão é que o futebol mundial viveu em um ecossistema corrupto durante as duas últimas décadas.

A espetacular prisão de diretores mostra que não foi um simples episódio, mais ou menos grave, na história da FIFA. De entrada, confirma as persistentes suspeitas de corrupção que mancharam as concessões dos negócios adjacentes à organização dos campeonatos internacionais; e, claro, questiona até a raiz a decisão de realizar as Copas do Mundo na Rússia e em Qatar. A ponto de que uma das primeiras disposições que deveria tomar a nova equipe diretora (há eleições na próxima sexta-feira nas quais, com certeza, Blatter se apresentará) se quiser recuperar um pouco da credibilidade perdida seria revisar e investigar a decisão das duas Copas do Mundo. Elas estão sob suspeita e não deixa de ser um mau sinal que o porta-voz da FIFA tenha ratificado as duas datas.

A prisão de vários diretores salpica, sem dúvidas, em Joseph Blatter. Não dá para acreditar que o presidente desconhecesse as raízes profundas de corrupção citadas por Loretta Lynch. Durante seu mandato, os gestores de marketing esportivo subornaram os diretores da FIFA a ponto de que, na expressão do FBI, “os pagamentos ilícitos eram a forma de fazer negócio” na organização. Mesmo que não soubesse de nada, Blatter era e é o responsável. A decisão mais lógica, por mais que dentro da organização assegurem que o presidente “não está implicado”, seria a renúncia. O que não implica aceitar culpa, mas responsabilidade.

Não é surpresa que o sistema de direção da FIFA – obscurantista, arbitrário, fechado ao exterior, servido sempre pelos mesmos mandarins constituídos, estes sim de uma casta perene – tenha facilitado o desenvolvimento de tramas corruptas em seu interior. O golpe de ontem, dado a partir de Washington, pode ser uma oportunidade para profundas mudanças. Eleição aberta dos presidentes, abertura nos negócios adjuntos às Copas do Mundo, auditorias independentes sobre as contas da organização e limite de mandatos poderiam ser as bases de uma renovação. Os 17 anos de governo de Blatter em uma organização federada (o presidente anterior, Havelange, ficou por 24) degradam qualquer eleição em uma armação entre amigos.

Apesar disso, a renovação da FIFA será impossível se houver uma ação sobre a raiz, que são as federações nacionais. Neste nível, as presidências se eternizam, quase sempre como consequência de compensações, trocas de favores ou interesses comuns entre os clubes e aqueles que os representam. Loretta Lynch e o FBI fizeram seu trabalho na superestrutura da FIFA; as autoridades nacionais teriam que fazer o mesmo nos níveis das federações. Assim, seria possível evitar as presidências eternas tão suspeitas como a de Ángel María Villar, presidente da Federação Espanhola de Futebol, que declarou em voz alta, com clareza e entusiasmo a “honradez” da diretoria da FIFA. Só por colocar a mão nesse fogo, ele deveria pedir demissão. Ao mesmo tempo que Blatter.

A recente prisão de sete membros da FIFA acusados de corrupção manchou ainda mais a imagem do órgão internacional que representa o futebol internacional e a de seu presidente, Joseph Blatter, que em dois dias disputa as eleições para se manter no cargo enfrentando outro candidato, Ali bin al Hussein. Com esse novo escândalo, surgem muitas perguntas a respeito da FIFA, uma entidade que, apesar de seus esforços para ser transparente, continua projetando grandes sombras.

Quando e como foi criada?

Segundo o site da organização, a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) foi fundada em 21 de maio de 1904 como consequência da expansão do futebol no início do século XX. Em razão da popularidade do esporte, julgou-se necessário formar uma organização para estabelecer normas ao futebol no âmbito internacional. Com exceção da Inglaterra na fase inicial, Dinamarca, Bélgica, Suíça, França, Suécia, Holanda e Espanha decidiram criar uma entidade garantidora do futebol. A Inglaterra passou a fazer parte da organização um ano depois. A FIFA é uma associação regida pelas leis suíças, com sede em Zurique.

Como está formada?

A FIFA é formada por 209 associações nacionais que se encarregam de organizar o futebol em seus respectivos países. No âmbito continental, são divididas em seis confederações: Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), da União das Federações Europeias de Futebol (UEFA), Confederação Asiática de Futebol (AFC), Confederação Africana de Futebol (CAF), Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF) e Confederação de Futebol da Oceania (OFC). Além disso, está organizada com os seguintes departamentos: o Congresso (órgão legislativo), o Comitê Executivo (órgão executivo), Secretaria Geral (órgão administrativo), e as Comissões (que dão suporte ao Comitê Executivo).

Quantas pessoas trabalham na FIFA?

310 pessoas de 35 países diferentes trabalham na organização.

Qual o volume financeiro movimentado?

Cerca 90% da renda da FIFA é obtida com a organização da Copa do Mundo e com a venda dos direitos de marketing e transmissão do evento pela TV. De acordo com dados recentes publicados no site da entidade após o 64o Congresso, a renda da FIFA subiu para 4,5 bilhões de dólares (14,3 bilhões de reais), sendo que as redes de TV responderam por 60% desse total. Segundo os cálculos da organização, a FIFA desembolsou cerca 2 bilhões de dólares (6,3 bilhões de reais) para os custos operacionais da Copa do Mundo do Brasil em 2014. Como a entidade tem sede em Zurique, o lucro total da FIFA está sujeito à tributação suíça. De acordo com o Relatório de Finanças de 2013, a FIFA pagou 17 milhões de dólares (54 milhões de reais) em impostos.

Como o presidente da FIFA é eleito?

O fato de Joseph Blatter ocupar o cargo de presidente da FIFA desde 1998 gerou todos os tipos de suspeitas sobre a transparência e a legalidade do mecanismo de eleição do posto máximo da entidade. O suíço pretende renovar sua permanência no cargo no Congresso que será realizado no próximo dia 29 de maio, em Zurique, no qual disputará o posto com outro candidato, o príncipe jordano Ali bin al Hussein. Será a primeira vez desde as eleições realizadas em Seul, em 2002, que o suíço terá um adversário. O príncipe jordano foi o único candidato que se manteve firme em seu objetivo. Não ocorreu o mesmo com Luis Figo, que na última quinta-feira anunciou sua desistência denunciando "uma grave falta de transparência democrática", tachando as eleições como "um plebiscito de entrega do poder absoluto para um único homem". Também desistiram do páreo o francês Jérome Champagne, de 55 anos, e ex-vice-secretário geral da FIFA, e o holandês Michael van Praag, presidente da Federação Holandesa de Futebol.

A eleição do presidente da FIFA será realizada por voto secreto. Nessa votação, participarão os representantes das 209 associações que estejam presentes durante o ato. Cada um receberá uma cédula e, seguindo a ordem alfabética em inglês das associações, começará a votação. Antes, os candidatos terão a oportunidade de apresentar seus programas para o Congresso. Para que o presidente seja escolhido na primeira votação, serão necessários dois terços dos votos. Para a segunda (não há mais etapas devido à ausência de um terceiro candidato), é necessário apenas atingir a maioria simples (mais de 50% dos votos). O mandato do presidente eleito começará após o encerramento do Congresso.

Quem foram os presidentes da FIFA?

Até o momento, a FIFA teve oito presidentes: Robert Guérin, Daniel Burley Woolfall, Jules Rimet, Rodolphe Seeldrayers, Arthur Drewry, Stanley Rous, João Havelange e Joseph Blatter. Juntos, os dois últimos ficaram 41 anos no cargo (24 anos e 17 anos, respectivamente).

Quem foi a favor de uma renovação?

Nas quase duas décadas do mandato Blatter, muitas vozes apontaram o dirigente suíço como responsável pela corrupção nas estruturas de governança da organização. Desde as recentes renúncias de ex-candidatos ao cargo até os antigos aspirantes, todos exigiram um novo rosto na presidência da instituição que se encarrega de administrar um esporte praticado por mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo.

Recentemente, o presidente da Comissão de Assuntos Externos do Senado dos EUA, Bob Menendez, do Partido Democrata, e o senador republicano John McCain enviaram uma carta aos congressistas da FIFA, para que reconsiderem sua posição e se inclinem a favor de um candidato que esteja disposto a reconsiderar a escolha da Rússia para sediar a Copa do Mundo em 2018. Ambos os senadores destacam o fato que a receita gerada pelo Governo de Putin com a organização do evento viola as sanções multilaterais impostas pelos Estados Unidos em razão das “contínuas agressões na Ucrânia".

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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