quarta-feira, 27 de maio de 2015

CBF e FIFA: o mar de escândalos e sujeiras (Por Thiago Muniz)

Marin e o mar de lama...ops! Conta Bancária polpuda

Quantos analfabetos políticos vestiram a "amarelinha" e foram para as ruas protestar contra o "mar de lama" que assola o país?

Segundo a Justiça dos EUA, José Maria Marin recebeu propinas de 2 milhões de reais por ano de parceiros comerciais para a realização da Copa no Brasil quando presidente da CBF. Tentou ainda transferir para suas contas o dinheiro que era antes destinado a Ricardo Teixeira.

Na manhã de quarta, Marin era um dos detidos em Zurique, com outros seis cartolas da Fifa, a mando do FBI. O atual chefão da entidade, Marco Polo del Nero, tratou de atirar a bola no colo de outros. “Isso é algo antigo “, disse, corajoso. O secretário geral Walter Feldman, ex-coordenador de campanha de Marina Silva, conseguiu afirmar que as denúncias são “casos do passado” e que Marin tem hoje “papel decorativo”.

Compreensivelmente, em se tratando de gente desse tipo, os amigos de Marin sumiram todos, a empresa onde ele trabalhava tornou-se correta em dois meses e um pessoal quer que você acredite que ele operava sozinho diretamente de sua penteadeira nos Jardins.

Um companheiro fiel, particularmente, desapareceu e não dá pinta que de vai oferecer uma palavra de solidariedade: Aécio Neves. A relação de ambos é próxima, antiga e cheia de passagens edificantes.

Em 2013, Marin inaugurou uma placa em homenagem a Aécio no Mineirão do dia de um amistoso entre Brasil e Chile. Lembrou que o tucano foi dos primeiros a parabenizá-lo quando ele assumiu o cargo. Deu-lhe uma réplica de uma camisa da seleção de 58 e participou de um jantar em torno do senador.

Foi uma cortesia em retribuição a serviços prestados. Juntamente com o colega Zezé Perrella, o dono do Helicoca, ex-presidente do Cruzeiro, Aécio ajudou a enterrar a CPI da CBF, que visava investigar abusos de poder econômico na eleição de dirigentes, transferências irregulares de recursos, desvios de verbas, entre outras mumunhas.

Perrella e Aécio conseguiram que nove senadores retirassem suas assinaturas do pedido de abertura da comissão parlamentar de inquérito, inviabilizando-a (entre eles, Cássio Cunha Lima, paladino da moral e dos bons costumes). Na época, Perrella falou no plenário que “não achava motivo que fundamente uma CPI”.

Na campanha presidencial, Marin declarou voto no mineiro. Após a Copa, a ligação não esfriou. De acordo com um comunicado da CBF, Aécio ligou duas vezes para Marin na ocasião de um jogo com o time de Messi: “Antes da partida, Aécio Neves desejou boa sorte para a seleção brasileira que iria enfrentar a Argentina. Terminado o jogo, Aécio voltou a telefonar, dessa vez para parabenizar o presidente da CBF, jogadores e integrantes da comissão técnica pela bela vitória sobre a Argentina e pelo tricampeonato do Superclássico das Américas”.

A confederação ainda conta com um antigo aliado de Aécio, o pessedebista João Doria Jr, empossado chefe da delegação. Galvão Bueno estranhou o fato de Doria não ter nada a ver com o esporte, como se esta fosse a especialidade da casa.

Os telefonemas devem estar fazendo falta a José Maria Marin, que pode pegar até 20 anos de prisão. Numa das manifestações pelo impeachment, aquela em que chegou mais perto da rua, Aécio se deixou fotografar na janela do apartamento no Leblon com a camiseta da CBF, orgulhoso.

A mesma camiseta que milhares de coxinhas usam para bater suas panelas e gritar pelo fim da corrupção, num tributo enviesado a brasileiros do bem como Marin, Teixeira, Del Nero e tantos outros que estão, neste momento, em pânico.

A era Blatter na FIFA é marcada por escândalos

A Fifa já passou por uma série de escândalos. Agora, dois dias antes de seu congresso anual, a prisão de sete altos dirigentes da entidade causa mais um embaraço. Mesmo que o presidente Joseph Blatter não esteja diretamente envolvido, ele já esteve no centro de várias controvérsias que mancharam a imagem da entidade máxima do futebol.

Em 1997, Blatter esteve envolvido num escândalo, mesmo antes de assumir o cargo que ocupa hoje. Os pivôs do caso foram seu antecessor, João Havelange, e o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira. Ambos teriam recebido milhões em subornos por contratos de marketing para a Copa do Mundo. Blatter foi inocentado de todas as suspeitas, embora ele, como secretário-geral, tenha transferido pessoalmente um pagamento a Havelange de 1,5 milhão de francos suíços.

Em 1998, o então secretário-geral Joseph Blatter ganhou a eleição à presidência da Fifa, derrotando o então presidente da Uefa, Lennart Johansson, pouco antes do início da Copa do Mundo da França. Até hoje, há acusações sobre supostos pagamentos de 50 mil dólares, cada, a delegados africanos, realizados em um quarto de hotel em Paris. Blatter nega a acusação.

Em 2006, o então vice-presidente da Fifa, Jack Warner, assumiu a comercialização dos cobiçados ingressos para a Copa da Alemanha em seu país de origem, Trinidad e Tobago. Sua empresa teria recebido 900 mil dólares de comissão. No entanto, as investigações da Fifa não conseguiram encontrar indícios contra Warner, somente contra o filho dele.

Em 2010, Rússia a Qatar foram definidos como sedes das Copas de 2018 e 2022. Já antes da escolha, dois membros executivos da Fifa foram suspensos por causa de corrupção comprovada. Acusações contra os futuros países-sede do Mundial foram investigadas pela Fifa, mas sem resultados definitivos. Suspeitas ainda pairam sobre o então processo de escolha, atualmente investigado também por promotores suíços.

Em 2011, Mohamed bin Hammam, do Qatar, se candidatou para enfrentar Blatter na eleição para presidente. Pouco antes da votação, foram reveladas suspeitas contra o funcionário vindas do Caribe. Os 35 votos da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) são considerados cruciais. Enquanto Blatter prometeu às confederações um milhão de dólares como auxílio oficial da Fifa, Hammam tentou extraoficialmente oferecer 40 mil dólares a cada organização. Ele foi descoberto, após denúncias de outros funcionários, posteriormente condenados por participar de esquema de corrupção.

Em 2014, houve notícias de suspeitas de venda ilegal de bilhetes da Copa do Mundo no Brasil pelo dirigente argentino Julio Grondona, morto no ano passado.

Os sete cartolas envolvidos:

José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Até o início de 2012, José Maria Marin era um desconhecido do futebol brasileiro. Mas bastou embolsar uma medalha durante a premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior para ficar relativamente famoso. Dois meses depois, em março, ele assumiu a presidência da CBF, entidade que comandou até o fim do ano passado. Nos anos 50, foi jogador do São Paulo. Na década de 60, entrou para a política. Foi vereador e deputado estadual por São Paulo, além de vice e governador do Estado entre o final dos anos 70 e início dos 80.

Eugenio Figueredo, vice-presidente e membro do comitê executivo da Fifa. Ex-lateral-direito do pequeno Huracán Buceo, de Montevidéu, Eugenio Figueredo presidiu o clube nos anos 70 e, entre 1997 e 2006, assumiu o comando da Associação Uruguaia de Futebol (AUF). Foi presidente da Conmebol entre 2013 e 2014, depois de atuar como vice entre 1993 e 2013.

Jeffrey Webb, vice-presidente da Fifa e presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf). Aos 50 anos, o cartola tem mais de duas décadas de atuação no futebol americano, principalmente na América do Norte e no Caribe. Natural das Ilhas Cayman, ele foi eleito presidente da associação do país em 1991. Em 2012, assumiu a Concacaf.

Eduardo Li, presidente da Federação Costarriquenha de Futebol (Fedefutebol). Li assumiria esta semana seu cargo no comitê executivo da Fifa. É membro do comitê executivo da Concacaf.

Julio Rocha. Presidiu a Federação Nicaraguense de Futebol por 26 anos. Renunciou ao cargo no final de 2012.

Rafael Esquivel. Natural de Tenerife, na Espanha, Esquivel tem 68 anos e comanda a Federação Venezuelana de Futebol desde 1988.

Costas Takkas. Trabalha na Concacaf e foi secretário-geral da Associação de Futebol das Ilhas Cayman.

Além deles, foram indiciados:

Nicolás Leoz, ex-presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). O dirigente paraguaio de 86 anos presidiu a Conmebol entre 1986 e 2013 — mesmo ano em que renunciou ao cargo que ocupava no Comitê Executivo da Fifa, igualmente alegando motivos de saúde. Entre os anos 40 e 50, foi jornalista esportivo. Depois, estudou direito e foi professor até começar a atuar como dirigente de futebol, na década de 70.
Jack Warner. Natural de Rio Claro, em Trinidad e Tobago, Warner atuou como político, empresário e professor. Presidiu a Concacaf entre 1990 e 2011, quando foi suspenso e renunciou ao cargo.

Como Marin montou uma máquina de propinas, segundo os investigadores americanos

A administração de José Maria Marin cobrou propinas milionárias para fechar contratos comerciais e ceder competições a outros países. Investigações conduzidas pela Justiça americana e pelo Ministério Público da Suíça revelam que o ex-presidente exigia pagamentos e chegou a alertar parceiros comerciais que os valores de propinas pagos ao seu antecessor, Ricardo Teixeira, deveriam agora ser redirecionados a ele.

Num dos pagamentos, a CBF ficaria com uma propina de US$ 20 milhões (R$ 63 milhões) para contratos comerciais envolvendo a Copa América de 2019 no Brasil. No total, os contratos oficiais estavam avaliados em US$ 80 milhões (R$ 254 milhões).

Marin ainda cobrou R$ 2 milhões por ano de parceiros comerciais para a realização da Copa do Brasil enquanto foi presidente da CBF e tentou negociar o fim dos pagamentos de propinas para Ricardo Teixeira, transferindo os lucros para suas contas. Nesta manhã, ele foi um dos presos na Fifa pela polícia suíça e à pedido do FBI nos EUA.

Segundo a investigação americana, a CBF cobrou propinas de parceiros para que tivessem o direito de transmissão dos eventos. O valor, porém, subiu quando Marin assumiu a presidência, em 2012. Marco Polo Del Nero, presidente atual da CBF, saiu nesta manhã em defesa de Marin, alegando que todos os contratos eram da época de Ricardo Teixeira.

O cartola brasileiro que está preso na Suíça aceitou dividir os R$ 2 milhões anuais com outros dois dirigentes esportivos, não mencionados. Parte do pagamento foi feito por meio de contas no banco Itaú de Nova Iorque para outra no HSBC de Londres. Numa delas, o dinheiro ia para uma conta de uma empresa que fabrica iates de luxo.

Em abril de 2014, Marin usou uma coletiva de imprensa nos EUA para, nos bastidores, falar da Copa América para negociar o fim de pagamentos a Ricardo Teixeira. No encontro, segundo a Justiça americana, Marin declarou: “Chegou a hora de vir em nossa direção. Verdade ou não?”. O interlocutor, não identificado, apenas respondeu: “Claro, claro. O dinheiro teria de vir para o senhor”. Marin respondeu: “Está certo”.

As propinas não começaram com Marin. Desde 1990 e até 2009, a investigação americana indica que um “alto funcionário da Fifa e da CBF solicitou receber propinas em conexão com o contrato de venda dos direitos da Copa do Brasil” Marin ainda recebeu em 2013 mais US$ 3 milhões (R$ 9 milhões) em propinas por contratos da Copa América, pagos pela empresa Datisa.

Outra constatação é de que a Nike pagou uma propina de US$ 40 milhões em uma conta na Suíça para fechar um contrato com a CBF para patrocinar a seleção brasileira. A informação faz parte da investigação conduzida nos EUA e que acabou com a prisão de José Maria Marin, ex-presidente da CBF.

Segundo o levantamento, o acordo avaliado em US$ 140 milhões (R$ 127 milhões) rendeu em pagamentos paralelos e depositados no paraíso fiscal alpino. As suas duas empresas que teriam recebido o dinheiro seriam a Traffic Sports International Inc. E a Traffic Sports USA Inc. -, que estão sediadas na Flórida (EUA). Ambas são citadas pela Justiça americana. Os suíços já indicaram que contas foram bloqueadas.

Empresário envolvido no escândalo da Fifa, J Hawilla devolveu US$ 151 milhões em acordo

Um dos envolvidos no processo investigado pela Justiça norte-americana, o empresário José Hawilla, dono da Traffic, empresa de marketing esportivo, devolveu US$ 151 milhões (R$ 473 milhões) ao fazer um acordo e assinar sua confissão. Em 12 de dezembro do ano passado, Hawilla, de 71 anos, assumiu as acusações de conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. No dia 14 de maio deste ano, foi considerado culpado por fraude bancária.

Destes US$ 151 milhões devolvidos, US$ 25 milhões (R$ 78,8 milhões) foram pagos no momento do acordo, segundo o documento divulgado pela Justiça dos Estados Unidos. Além dele, outros dois réus assumiram-se culpados. Daryan Warner, filho de Jack Warner – ex-secretário de desenvolvimento da Fifa e também réu – devolveu mais de US$ 1,1 milhão (R$ 3,4 milhões) ao longo do processo em que foi acusado por conspiração para fraude, lavagem de dinheiro e estruturação de transações financeiras. Ele fez um acordo para devolver novos valores, ainda não definidos.

Charles Blazer, ex-secretário-geral e ex-membro do comitê executivo da Fifa, assumiu-se culpado nas acusações por conspiração para extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e evasão de imposto de renda. Ele devolveu US$ 1,9 milhão (R$ 6 milhões) ao longo do processo e também fez um acordo para novas devoluções.

Confira a nota da Justiça dos Estados Unidos:

“Em 12 de dezembro de 2014, o acusado José Hawilla, dono e fundador do Grupo Traffic, o conglomerado de marketing esportivo brasileiro, foi indiciado e declarado culpado por extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Hawilla concordou em devolver mais de US$ 151 milhões, sendo US$ 25 milhões destes pagos no momento de seu apelo.

Em 14 de maio de 2015, os acusados da Traffic Sports USA Inc. e Traffic Sports International Inc. foram considerados culpados por fraude bancária.

Todo o dinheiro devolvido pelos acusados estão sendo guardados na reserva para assegurar sua disponibilidade para satisfazer qualquer ordem de restituição em sentenças que beneficiem qualquer pessoa ou entidade qualificada como vítima dos crimes destes acusados sob a lei federal”.























A Fifa chamou a mulher errada... (Dorrit Harazim)

No domingo 5 de maio de 2013, este artigo publicado na página de Opiniões de "O Globo" pela companheira Dorrit Harazim chamou minha atenção.

Guardeio-o, como faço com diversos outros que julgo interessantes.

E agora compartilho com vocês.

É ou não é interessante?

Dorrit Harazim, O Globo

Foi no 61º congresso da Fifa, realizado em Zurique em meados de 2011, que Sepp Blatter, o presidente eleito pela quarta vez, anunciou a novidade às 206 confederações ali representadas: a partir daquele ano seria criado um novíssimo comitê, inteiramente independente, para monitorar o funcionamento e aprimorar a idoneidade do órgão máximo do futebol mundial.

Medida um tanto tardia considerando-se que as primeiras provas da avalanche de falcatruas e alegações de corrupção na entidade haviam sido expostas pela primeira vez doze anos antes, pelo autor de livros investigativos David Yallop. Em "How They Stole The Game" (Como eles roubaram o jogo, não editado no Brasil), o inglês Yallop focara na compra de votos africanos para que Blatter sucedesse a seu padrinho brasileiro João Havelange.

O colossal escândalo "ISL", referente ao generoso suborno embolsado por Havelange e seu genro Ricardo Teixeira da empresa de marketing International Sports and Leisure, também já vinha sendo escarafunchado há anos.

Repórteres internacionais incômodos e obcecados como o escocês Andrew Jenkins (autor, entre outros, de "Jogo sujo — O mundo secreto da Fifa") ou jornalistas determinados como o brasileiro Juca Kfouri não deixavam o escândalo morrer. As muitas outras improbidades que se seguiram também não conseguiram ser varridas para baixo do tapete.

Urgia, portanto, fazer algo antes que os negócios da Fifa começassem a ser afetados.

A instalação do inovador Comitê Independente de Governança recebeu elogios até mesmo da Interpol. Presidido pelo professor de Direito Criminal Mark Pieth, o comitê era composto por dez membros vindos de oito países. Além de Pieth, nove homens e uma mulher — a canadense Alexandra Wrage.

Sepp Blatter, João Havelange e todos os encrencados da Fifa deveriam ter lido pelo menos o livro de Wrage, "Bribery and Extortion: Undermining Business, Governments, and Security" (Suborno e extorsão: Minando negócios, governos e segurança, sem edição no Brasil) para saber que ela entende de corrupção tanto quanto eles. Se não mais. O título do primeiro capítulo é "Ladrões, bandidos e cleptocratas".

Formada em Direito por Cambridge e há seis anos na lista das 100 Pessoas Mais Influentes na Ética Empresarial da revista "Ethisphere", Wrage já presidiu o Comitê Anticorrupção da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos.

É fundadora da Trace, a principal entidade internacional de apoio a corporações no combate a todo tipo de corrupção. Organização sem fins lucrativos, tem afiliados que pagam anuidade espalhados por todo o mundo e um site em 21 línguas para denúncias anônimas de práticas de extorsão e suborno por qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo.

Pois bem, foi com essa mulher a bordo que o Comitê Independente de Governança montado pela Fifa produziu um primeiro relatório em março de 2012, em apenas três meses de trabalho.

É possível que o grupo tenha detectado procedimentos e lacunas tão gritantes que achou conveniente elencá-los de imediato para correção rápida. Mas nada foi feito.

O Comitê trabalhou mais doze meses e produziu um segundo relatório, apresentado em fevereiro último. Tudo indica que tampouco esse novo lote de sugestões foi encampado.

Assim, duas semanas atrás, Alexandra Wrage abandonou a Fifa à própria sorte. Ou, como diz, deixou "esse antiquado clube de homens a lustrar o verniz" enquanto a fundação continua a ruir.

Desde então, ela atende quem se interessa em saber o que houve. BBC, CNN, "Forbes" correram atrás. O retrato que emerge de suas entrevistas é de uma Fifa entrincheirada.

Um dos papéis cruciais atribuídos ao Comitê dito Independente fora o de indicar nomes para cargos críticos numa nova estrutura mais arejada. Após criteriosa seleção, o Comitê sugerira oito nomes, entre os quais os de duas mulheres recomendadas para o setor de Ética. Todos foram vetados.

Wrage conta que foi instada por dois altos executivos da casa a garimpar mais candidatos homens uma vez que candidatas mulheres não seriam aceitas. Ficou estarrecida.

A canadense, que trabalha em países e continentes reputados pela fraca adesão ao catecismo feminista, não tinha ouvido afirmação de preconceito tão explícita e direta há pelo menos três décadas.

O Comitê também recomendara que o Conselho Executivo da Fifa cogitasse aceitar membros de fora da entidade, para sinalizar um início de transparência e alinhamento com modernas corporações e organizações mundiais. Proposta rejeitada. A Fifa continua sendo uma sociedade secreta, sem prestar contas a ninguém.

A recomendação de acompanhar a tendência mundial e tornar públicos os salários e gratificações de seus executivos foi descartada com o argumento de que a questão serviria mais à curiosidade pública do que a uma melhora de governança.

Wrage conclui que somente o governo da Suíça é capaz de fazer com que a Fifa, algum dia, se dobre às leis da transparência. Isso porque a entidade está sentada em cima de um baú de US$ 1,4 bilhão em reservas. Livres de impostos.

"Blatter virtualmente declarou sua missão de saneamento cumprida, não vai debater com ninguém nem vai se explicar", diz a canadense. "O que não é surpreendente para um homem que descreve a Fifa como se fosse um Estado soberano presidido por ele."

Mas ainda que Blatter seguisse à risca todas as recomendações caras a Wrage, dificilmente os dois se entenderiam. É que alguma sequela deve ter ficado em Blatter de um cargo que ocupou nos anos 1970: foi presidente da Sociedade Mundial dos Amigos das Cintas-Ligas. Repetindo: presidente da Sociedade Mundial dos Amigos das Cintas-Ligas.

A organização se formara em protesto à substituição das sensuais cintas-ligas pelo uso das meias-calças, bem mais práticas, que apareceram com a invenção do náilon. Trinta anos depois, o mesmo Blatter, já presidente da Fifa, sugeria que as jogadoras de futebol deveriam usar "short mais apertadinho e camisa mais decotada" para "criar uma estética mais feminina".

Cada qual com sua visão de transparência.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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