terça-feira, 21 de abril de 2015

Tiradentes: o herói inventado pelos militares (Por Thiago Muniz)

Personagem mineiro foi alçado como herói nacional após a Proclamação da República.

Com a implantação da república no Brasil, em 1889, o novo governo elevou alguns personagens da história do País para substituir as figuras monárquicas, como D.Pedro I e D.Pedro II. Assim, Zumbi dos Palmares e Tiradentes alcançaram patamares de heróis nacionais. O último citado é sempre lembrado no dia 21 de abril – dia que é feriado no Brasil. A história relata que Tiradentes foi um dos principais atores da Inconfidência Mineira – revolta contra a opressão do governo português em 1789. Contudo, vários pesquisadores tentam desconstruir o “endeusamento” do personagem mineiro.

"O início da construção do mito de Tiradentes remete ao século XIX, momento em que o Brasil estava construindo seu Estado Nacional e, portanto, precisava de um símbolo de identificação. Com a revelação de importantes documentos (como os autos da devassa de Ouro Preto), a disputa entre Monarquistas e Republicanos confrontou as imagens de D. Pedro I e Tiradentes como mártires. Foi então que a imagem do conspirador mineiro, embora ambivalente, foi associada a um Cristo que foi benevolente com seus executores”, relata o historiador Diogo Barreto.

Uma das imagens que eleva a figura de Tiradentes, o comparando até com Jesus Cristo é o quadro de Pedro Américo feita, em 1893 (quadro ao lado). “Ele representa exatamente essa imagem do homem humilde que foi adotado pela República na formação de uma comunidade imaginada, ou seja, de que necessitávamos de uma base resgatada de raízes populares para nos tornarmos nação”, afirmou o historiador.

Segundo Barreto, no decorrer da República os presidentes brasileiros continuaram a exaltar a figura de Tiradentes. “ Vargas e os Governos Militares (em especial Castelo Branco) fizeram de Tiradentes o "patrono cívico da nação" -o último por força de lei - nº4.897 de 09 de dezembro de 1965" , frisou.

Herói nacional ou bode expiatório? Quem foi, afinal, Tiradentes? Essa é uma das perguntas a que o livro 1789 – A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil (Nova Fronteira, 2014), do jornalista Pedro Doria, procura responder, ao tratar de um dos episódios mais conhecidos de nossa história: a Inconfidência Mineira. Conhecido, mas só até certo ponto, acredita o autor. “Se você perguntar por aí o que foi a Inconfidência, a grande maioria das pessoas vai dizer que foi um movimento brasileiro liderado, em Minas Gerais, por Tiradentes, um sujeito barbudo. Não há conhecimento muito além disso, e história e mito se misturam, porque, para começar, o Tiradentes nunca teve barba”, comenta Doria, que também escreveu 1565 – Enquanto o Brasil nascia (Nova Fronteira, 2012).

A ideia de que Tiradentes foi um grande herói faz parte da construção de um mito, assim como a de que ele era um pobre e ignorante alferes que serviu de bode expiatório para os verdadeiros cabeças do movimento. O alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes por seus conhecimentos como dentista, mostra o livro, não foi nem uma coisa nem outra. De pobre não tinha nada. Podia não ser o mais rico dos inconfidentes, mas tinha fazenda e escravos, além de ser sócio em uma botica. Possuía talento não só no tratamento dentário, mas também na produção de remédios. Não era também o mais estudado entre os conspiradores, mas era interessado e lia muito. Esteve em todas as reuniões nas quais a Inconfidência foi tramada. Não estava entre seus líderes intelectuais – papel que cabia a homens como o poeta Tomás Antônio Gonzaga e o cônego Vieira da Silva –, mas criou o símbolo do triângulo que adorna a bandeira dos inconfidentes. E era seu líder militar. Seria dele a missão de entrar na residência do governador e o matar, no momento em que a revolução fosse deflagrada.

Foi o principal propagandista do movimento. Falava nele o tempo todo, buscando cooptar cada vez mais simpatizantes. Sempre em voz alta, para quem quisesse ouvir. Estudava a independência americana. Tanto que, quando foi preso, em 10 de maio de 1789, carregava um pequeno livro que continha as leis da nascente república norte-americana. Quase um manual de como se formar um Estado republicano liberal, naquele momento. Havia uma ideologia, um projeto de nação por trás do movimento. Assim como havia interesses financeiros e articulares também – o padre Rolim, por exemplo, contrabandista e mau-caráter notório, pensava no movimento apenas como um meio de manter seus negócios.

Tiradentes via na Inconfidência o potencial para criar um novo Brasil, mas também se sentia frustrado com a ausência de oportunidades de ascensão na hierarquia militar e de chances de mostrar tudo o que tinha a oferecer – apresentou, por exemplo, projetos de canalização de rios cariocas, que nunca foram aprovados. Precisava chacoalhar sua vida e, de quebra, o país.

“Ele era um cara ressentido, sim. Esse é um lado. Mas era realmente empolgado com a revolução. Sabe aquele cara que toma dois chopes e já começa a fazer discurso? Esse era o Tiradentes”, compara Pedro Doria. No livro, o jornalista aponta essa empolgação toda como o principal motivo para Tiradentes ter sido o único dos inconfidentes a ter sua pena de morte executada, sendo enforcado em praça pública e posteriormente esquartejado.

“Segundo a ordem régia de 1790, só não receberiam o perdão os réus que, porventura, ‘com discursos práticos ou declamações sediciosas, assim em público como em particular, procurassem em diferentes partes fora das ditas assembleias introduzir no ânimo de quem os ouvia o veneno de sua perfídia e dispor e induzir os povos’. É onde Tiradentes se encaixava”, escreve.

Mas, ao contrário da crença popular, isso não significa que todos os outros tiveram vida fácil. Com exceção talvez de Tomás Antônio Gonzaga, cuja pena foi o degredo em uma prisão angolana, mas que pouco tempo depois se tornou um homem importante na burocracia portuguesa em Moçambique, onde se casou com a filha de um comerciante rico.

Nos outros casos, houve outras penas de degredo em prisões africanas – ou penas de morte comutadas em degredo – que se mostraram duríssimas. O contratador Domingos de Abreu Vieira, por exemplo, morreu um mês depois de ter chegado a um presídio em Luanda. O tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade foi rebaixado a alferes também em Luanda, de onde nunca pôde sair sequer para conhecer o filho.

“Tiradentes é enforcado também porque é réu confesso, os outros não são. Mas os degredos são pavorosos. Portugal nunca tinha dado penas tão severas. O interessante é que não prende nem julga ninguém do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Porque, se a Coroa começasse a prender e julgar os principais membros de todas essas elites, criaria uma situação incontrolável de revolta. Mas ao pegar apenas a elite de um desses lugares – e, no caso, foi a mineira, estabeleceu uma punição exemplar. Portugal foi muito hábil nisso”, avalia Pedro Doria.

No livro, o autor mostra que a conspiração tinha braços no Rio e, provavelmente, em São Paulo. “Tiradentes passa um ano e meio no Rio, fala com muita gente. Quando começa a ser perseguido, diz que seus contatos cariocas vão informá-lo do que está acontecendo. E eles informam mesmo”, conta Doria.

O foco do livro não é apenas Tiradentes. Conhecemos melhor a primeira Marília de Dirceu, a loura, que não ficou tão famosa na história quanto a morena, e descobrimos que Tomás Antônio Gonzaga era um intelectual refinado, mas de poucas posses. Nem sequer tinha escravos. A escravidão, aliás, é um ponto sobre o qual os conspiradores não chegaram a um consenso. Alguns queriam o seu fim; outros, entre os quais os donos de fazendas e escravos, preferiam a sua permanência. Havia ainda os que estavam em busca de um meio-termo: os escravos que lutassem na guerra da independência ganhariam a alforria, situação pensada também por alguns dos cabeças da independência americana.

“Era na Revolução Americana que os inconfidentes pensavam o tempo todo; aquele era, até então, o exemplo de República que eles tinham. E havia aquele fascínio de tentar descobrir o que era aquela democracia, por parte de homens como Gonzaga”, comenta Doria, lembrando que, em 1787, o carioca José Joaquim da Maia, integrante do grupo de 12 brasileiros que começaram a pensar a independência do país, chegou a ter encontros em Paris com Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência americana, de 1776 e, futuramente, terceiro presidente dos Estados Unidos. 

Foi Jefferson quem presenteou Maia com o livrinho que estava com Tiradentes no momento de sua prisão. A Revolução Americana havia acontecido na década anterior. A francesa estaria para começar ainda naquele ano de 1789. A brasileira não aconteceu por dois dias. Os planos eram deflagrar o movimento no dia da execução da Derrama – cada região de exploração de ouro deveria pagar 100 arrobas de ouro (1.500 quilos) por ano para a metrópole; quando a exigência não era cumprida, acontecia a derrama, pela qual soldados da Coroa entravam nas casas das famílias para retirar os pertences até completar o valor.

Mas a derrama foi cancelada dois dias antes da data marcada, esfriando o movimento. “A Inconfidência não aconteceu por muito pouco. Se tivesse acontecido, a história não falaria sobre duas revoluções republicanas que mudaram tudo no século XVIII, e sim sobre três: a americana, a francesa e a brasileira”, acredita Doria. E o Brasil ainda esperou 33 anos pela sua independência. Que veio pelas mãos da própria monarquia portuguesa, com aspirações bem diferentes das dos conspiradores de 1789.

“A Inconfidência não aconteceu por muito pouco. Se tivesse acontecido, a história não falaria sobre duas revoluções republicanas que mudaram tudo no século XVIII, e sim sobre três: a americana, a francesa e a brasileira”, acredita Doria. E o Brasil ainda esperou 33 anos pela sua independência. Que veio pelas mãos da própria monarquia portuguesa, com aspirações bem diferentes das dos conspiradores de 1789.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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