terça-feira, 28 de abril de 2015

Cyberbullying: Os novos ‘inquisidores’ tomam conta da rede (Por Thiago Muniz)

Cyberbullying é um tipo de violência praticada contra alguém através da internet ou de outras tecnologias relacionadas.

Praticar cyberbullying significa usar o espaço virtual para intimidar e hostilizar uma pessoa (colega de escola, professores, ou mesmo desconhecidos), difamando, insultando ou atacando covardemente.

Etimologicamente, o termo é formado a partir da junção das palavras “cyber”, palavra de origem inglesa e que é associada a todo o tipo de comunicação virtual usando mídias digitais, como a internet, e bullying que é o ato de intimidar ou humilhar uma pessoa. Assim, a pessoa que comete esse tipo de ato é conhecida como cyberbully.

Quando o bullying é presencial, a pessoa é agredida psicologicamente, através de apelidos pejorativos ou outros constrangimentos, ou ainda, através de agressões físicas por um atacante mais forte.

O cyberbullying é mais fácil para os agressores, porque podem fazê-lo de forma anônima nas diversas redes sociais, através de e-mails ou de torpedos com conteúdos ofensivos e caluniosos.

Por meio de leis anti-cyberbullying que atualmente vigoram, os agressores anônimos podem ser descobertos e processados por calúnia e difamação, sendo obrigados a indenizar a vítima.

Em geral, o cyberbullying é praticado entre adolescentes, mas também ocorre com frequência entre adultos.

Consequências do cyberbullying: As pessoas agredidas pelo cyberbullying apresentam sintomas bastante similares com os do bullying, como: distúrbio do sono, problemas de estômago, transtornos alimentares, irritabilidade, depressão, transtornos de ansiedade, dor de cabeça, falta de apetite, pensamentos destrutivos como desejo de morrer, entre outros.

Em casos extremos, algumas vítimas de cyberbullying são atacadas de uma forma tão agressiva que são levadas a cometer suicídio. Muitos desses casos começam quando fotos ou vídeos íntimos das vítimas são introduzidos na internet.

A humilhação pública se tornou um esporte de massas graças às redes sociais. Um ciclo selvagem de linchamento e lucro arrasta para o inferno vítimas anônimas em questão de minutos, mas as consequências deixarão marcas para sempre na internet.

Em 19 de agosto de 2014, uma jovem jornalista e escritora decidiu publicar no Twitter suas impressões sobre o machismo vigente na sociedade espanhola e começou a enumerar situações do seu “dia a dia” que lhe pareciam sexistas. Começou: “Fui à biblioteca estudar como todas as manhãs e o rapaz que estava na minha frente me perguntou se queria tomar um café”.

A shitstorm (“tormenta de merda”, como chamam os especialistas) que ela provocou é das mais angustiantes de que se tem notícia. “Você é muito feia para eu te convidar para um café”, “Menos biblioteca e mais médicos para tratar seu retardamento”, “Fique tranquila, ninguém vai violar alguém como você”, “Te convidar para um café não sei, mas jogar amendoins com certeza”, “Como seus pais se conheceram? A única hipótese que cogito é que sejam irmãos”.

São apenas alguns dos exemplos menos ofensivos entre as barbaridades que disseram a ela durante os dias que se seguiram: milhares de tuítes, alguns com imagens desagradáveis e de sexo explícito. Ela apagou seu post alguns dias depois, mas no lugar deste continuou circulando a captura de tela de suas palavras para poder manter a orgia de piadas embora ela não quisesse permanecer no olho desse furacão.

À margem de se a percepção dela foi exagerada ou não, desatou-se uma violência verbal contra essa jovem que ainda não se diluiu. Ela já não quer nem falar do assunto. Aquele tuíte significou tornar-se alvo dos mais indecentes e tenazes machistas da Rede; dias, semanas e meses de piadas sexistas. Não é casual que esses linchamentos tenham um viés claramente machista: embora as mulheres representassem 53% dos usuários do Twitter no começo de 2013, estudos posteriores mostraram um declive dessa proporção em favor dos homens, possivelmente porque o ecossistema da internet continua destilando muita testosterona. 72,5% dos casos de cyberbullying é sofrido por mulheres, segundo a organização Trabalhando para Deter o Abuso Online (WHOA, da sigla em inglês).

As jornalistas recebem o triplo de mensagens abusivas que seus colegas homens, segundo Demos, e até a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) mostrou-se “alarmada” em fevereiro pelo crescente número de ameaças a mulheres jornalistas em ambientes digitais. Como explicou recentemente um artigo do Washington Post, são muitas as vozes feministas que estão dando um passo para trás na internet para fugir do clima irrespirável. A maior shitstorm da história provavelmente seja o Gamergate, que estalou também em agosto passado, no qual os homens da comunidade de videojogos atacaram grosseiramente as mulheres que criticavam o sexismo do setor.

Quando o Twitter começou a fazer sucesso na Espanha, começaram a acontecer raides em que os tropeços de um famoso congregavam uma multidão que se lançava sobre ele e, depois de desfrutar de um momento de massacre entre chacotas, insultos e hashtags, a manada se dissolvia tão fugazmente como tinha caído sobre a presa. Um caso excepcional foi aquele que David Bisbal escreveu durante a Primavera Árabe: “Nunca se viram as pirâmides do Egito com tão pouco trânsito, tomara que logo acabe a revolta”.

A gozação que desencadeou ainda ressoa nos limites da galáxia interneteira. Naqueles mesmos dias, alguns tuítes parodiando o antissemitismo deixaram o diretor de cinema Nacho Vigalondo sem seu blog neste jornal. A imprensa começou a colocar entre as notícias mais vistas esses tropeços que incendiavam as redes sociais, gerando um ciclo de feedback com os usuários. Mas de um tempo para cá o fenômeno está ficando cada vez mais indiscriminado: não importa se é um político, um personagem popular ou um Zé ninguém. Não estamos dispostos a tolerar um deslize, nem sequer se tolera o arrependimento. Fazemos uma captura de tela de tudo para que não se possa esconder seu erro apagando-o, embora esse gesto equivalha a reconhecer de forma bastante explícita o equívoco.

É algo que está acontecendo em todo o mundo e talvez o exemplo mais paradigmático seja o que sofreu Justine Sacco. A vida dela descarrilou para sempre por culpa de um tuíte estúpido, uma piada infeliz e fora de lugar que provocou uma das maiores cenas de linchamento digital de que se tem notícia. Em apenas algumas horas, essa jovem relações-públicas com uma bem-sucedida carreira em Nova York passou do mais aprazível dos anonimatos ao estresse pós-traumático, a noites de pesadelos e porquês.

Foram apenas 65 caracteres, não fez falta usar os 140 que o Twitter permite. Sacco publicou estas palavras justo antes de embarcar para a África do Sul para passar o Natal com a família: “A caminho da África. Espero não pegar Aids. É brincadeira. Sou branca!”. Foi o último tuíte de uma réstia de piadas horríveis e pouco corretas. Durante meia hora, até desligar o telefone celular dentro do avião, ela ficou atualizando a tela, mas ninguém deu bola. Tampouco ficou surpresa que seu tuíte tenha passado tão despercebido como os anteriores; ela só tinha 170 seguidores, garantia de escasso impacto. Em geral, um tuíte que não recebeu nenhuma interação durante esse tempo cairá no poço do esquecimento para sempre.

Mas isso não aconteceu. Logo depois de aterrissar, ao ligar o celular, tinha uma mensagem de alguém que não via desde os tempos de colégio: “Sinto muitíssimo ver o que está acontecendo”. O tuíte não apenas não tinha passado despercebido como também se tornou alvo de centenas de milhares de mensagens indignadas pelo racismo que destilava. O assunto foi o mais comentado nessa rede social durante horas e sua autora foi imediatamente julgada, condenada e sentenciada enquanto tirava um cochilo a 10.000 metros de altura: Sacco era uma “patricinha branca racista que zombava do sofrimento na África”.

Vários tuítes pediam sua morte, desejavam-lhe violações que a contagiassem com o vírus da Aids e exigiam que sua empresa a despedisse. Este último objetivo se cumpriu imediatamente, depois que todos os meios de informação contaram como as redes sociais tinham descoberto o racismo da relações-públicas de uma importante companhia editorial.

Tudo isso aconteceu durante as 11 horas do voo de Sacco, sem que a jovem pudesse se explicar ou se desculpar, apagar seu tuíte ou eliminar seus perfis de outras redes sociais que foram convenientemente estripados. Ninguém ficou do lado dela, ninguém publicou que talvez aquilo tudo fosse um exagero. O fenômeno foi tal que inclusive houve quem tenha ido do aeroporto da Cidade do Cabo para fotografar o momento em que Sacco chegava, para informar ao mundo.

E então meu telefone começou a explodir”, recorda a própria Sacco no livro que o jornalista Jon Ronson acaba de publicar (So you've been publicly shamed, Pilcador, “Então você foi humilhado publicamente”), resultado de três anos dedicados a descobrir o que resta das pessoas que, como Sacco, passaram por esse terrível processo de desonra e vexame, uma espécie de apedrejamento na praça pública global que deixa cicatrizes em forma de resultados no Google. Sacco explicou a Ronson que seu tuíte só pretendia parodiar essa mentalidade tão de norte-americano branco que acredita viver numa bolha que o protege. Mas dá no mesmo.

Uma vez que a manada digital desembesta é impossível detê-la e a sentença te acompanha para sempre: cada vez que alguém te procurar na internet, sua imagem devolverá esse retrato disforme e monstruoso criado com recortes de manchetes sensacionalistas, frases retiradas do contexto e fotos de seu passado resgatadas para te humilhar.

“Justine Sacco é a primeira pessoa que entrevistei que tinha sido destruída por nós”, escreve Ronson. Ele também entrou em contato com Lindsey Stone, uma jovem que compartilhava com uma colega uma diversão boba: fotografar-se desafiando cartazes. Fumando diante de cartazes de “Proibido fumar”, por exemplo. Até que em uma viagem de trabalho foram visitar o célebre cemitério de Arlington, em Washington, no qual repousam os que morreram pelos EUA. Lá, diante de um cartaz que pedia “Silêncio e Respeito”, Stone fotografou-se com o punho fechado e o dedo anelar esticado e fingindo gritar. E a amiga postou a foto em sua página do Facebook.

Um amigo veterano de guerra disse a elas que a foto era desagradável, mas Lindsey explicou que se tratava de uma piada habitual e que não pretendia ser ofensiva. A foto caiu no esquecimento até que, quatro semanas depois, começou a percorrer foros e redes por causa da indignação dos mais patriotas. De novo, ameaças de morte e de violação, às quais se somaram insultos vexatórios por seu sobrepeso. E de novo um desejo cumprido imediatamente: que a jovem perdesse seu emprego. A caixa de mensagens da Life, a ONG que cuida de adultos com pouca capacidade intelectual em que Lindsey Stone trabalhava, se encheu de raiva contra a funcionária. “Literalmente, da noite para o dia perdi tudo o que conhecia e amava”, explicou algum tempo depois a jovem, que passou um ano sem sair de casa, afundada numa depressão, com noites truncadas por pesadelos.

A turba nasce nas redes, mas pode se tornar em algo muito real. Em maio do ano passado, uma tragédia sacudiu a Colômbia quando 33 meninos morreram queimados em um acidente de ônibus. Antes de entrar na aula em sua faculdade, Jorge Alejandro Pérez Monroy começou a tuitar piadas muito desagradáveis sobre a desgraça. Quando saiu da aula, uma multidão pedia sua cabeça diante de sua sala, disposta a linchá-lo. Ele só pôde sair dali depois que agentes anti-distúrbios investissem contra a multidão e vestido como um deles. Teve de mudar de celular, de faculdade, de curso e até de nome.

“Nesses casos é ativado um componente de suposta justiça, no qual os linchadores se agarram com raiva a algum elemento moral que o justifique”, explica o sociólogo Javier de Rivera, especialista em redes sociais, coincidindo com as conclusões a que o próprio Ronson chega em seu relato. Os justiceiros da Web acreditam estar fazendo o bem, pondo as coisas em seu lugar, e que a única forma de fazê-lo é mediante essa humilhação pública. Ronson recorda que em 1787 se iniciou um movimento cívico nos Estados Unidos para acabar com o castigo da desonra pública, considerado mais cruel que os castigos físicos —mais regulados e que deviam ser infligidos em privado. De Rivera considera que são reproduzidas as normas de agressão básicas da antropologia: desumanizar e justificar. No Twitter, com seus 140 caracteres e as pequenas fotos de perfil, é fácil ignorar a empatia se não queremos estragar o espetáculo. Porque em todos esses casos foram poucos os estraga-prazeres que se atreveram a dizer: “Estamos nos excedendo”.

O linchamento funciona como espetáculo, como sempre foi. Mas, além disso, se incorporam outras dinâmicas digitais: “Talvez o diferencial seja que nas redes sociais temos de estar conscientes de que aquilo que fazemos pode acabar sendo criticado em qualquer parte do mundo, e por muita gente. Muito mais do que esperamos. Por isso, o linchamento digital tem uma dimensão, alcance e velocidade que não esperamos”, explica Esteban Moro, especialista em redes sociais da Universidade Carlos III de Madri. Em qualquer caso, o ecossistema digital espanhol parece menos propício a uma terrível tempestade perfeita contra um usuário porque está tão polarizado que qualquer tuíte ofensivo para muitos é rapidamente defendido por outros tantos. Para os que se enredam mais frequentemente nessas rinhas, as regras da turba e seus perigos são bem conhecidos, ao contrário do que ocorreu com as incautas dos casos anteriores. Todos os tuiteiros briguentos são bastante conscientes do que fazem quando retuitam barbaridades de outros e quando desejam que o seu erro fique registrado no Google, para prejudicar tanto agora como no futuro.

Talvez todo esse clima de tocaia tenha provocado o aparecimento de uma espiral de silêncio nas redes sociais, como mostrou um recente estudo do Pew Research: os internautas temem abordar determinados temas ou posições porque sabem que podem gerar uma resposta negativa contra si. E já não é só uma contestação negativa de um amigo ou conhecido, podem ser milhares de pessoas de qualquer ponto do planeta que desancam uma opinião sua. O problema é tão grave que até o próprio chefe do Twitter, Dick Costolo, reconheceu abertamente em um relatório interno vazado para a imprensa: “Não é nenhum segredo e todo mundo fala disso. Perdemos usuário após usuário por não enfrentar a questão dos assediadores. Nós somos péssimos na forma de lidar com os abusos e temos sido péssimos há anos”. Em março, a plataforma incluiu novas opções para que os usuários possam denunciar com mais facilidade os abusos. No entanto, como afirma uma das vítimas do Gamergate: “Tal como está estruturado atualmente, o Twitter ganha durante as campanhas de assédio, e nós perdemos”.

E depois? Os buscadores se transformam em uma cicatriz monstruosa no currículo das vítimas dos linchamentos digitais. Sacco e Stone produzem centenas de milhares de resultados no Google (a primeira foi objeto de 1,2 milhão de acessos ao Google naqueles dias). São pessoas comuns, obrigadas a fazer um mestrado apressado de gestão de crises e de defesa de sua imagem pública. “No momento, o melhor é não fazer nada. Qualquer tentativa vai ser vista com maus olhos, como um ato de censura, e vai gerar mais problemas”, diz o advogado Samuel Parra, do ePrivacidad.es, um escritório especializado em solucionar esses problemas. Essas pessoas anônimas têm de assistir silenciosas ao seu esquartejamento público e, depois de semanas ou meses, tentar recompor discretamente os pedaços. Aqui, como no caso dos políticos corruptos, não se aplica o tão na moda “direito ao esquecimento”, torpedeado pelo Google e que, na realidade, só é concedido em casos contados nos dedos, pouco divulgados e que ocorreram há décadas.

A única forma de resgatar a sua imagem das areias movediças do Google é tentar mudar pessoalmente os resultados, um “direito ao esquecimento” pago para os que podem dar-se ao luxo. Recorrer a especialistas que evitem que o mais horrível apareça entre as primeiras respostas do buscador. Parra, por exemplo, conseguiu anos depois que todas as páginas de Internet que publicaram um topless da revista Interviú o apagassem de seus servidores, fazendo com que desaparecesse do buscador. “Somos donos de nossa imagem, ninguém pode fazer circular uma foto nossa sem nosso consentimento”, explica. Às vezes, a melhor estratégia é criar conteúdo para empurrar para baixo os maus resultados —90% das pessoas não olham mais do que os primeiros links que o Google relaciona—, como fazem na Eliminalia: “As pessoas podem chegar a ficar traumatizadas pelo medo de que sua imagem online as impeça de encontrar trabalho”, afirma seu presidente, Didac Sánchez. Essa empresa, segundo Sánchez, ajudou um homem que foi assediado após se declarar antiaborto em redes sociais e um jovem perseguido depois de postar no YouTube um vídeo de denúncia de brutalidade policial na Catalunha.

Apesar disso, Parra não acha que estamos mais conscientes deste perigo: “As pessoas se preocupam unicamente quando chega a catástrofe, não há prevenção”. Os internautas deveriam aprender a se mover com cuidado, a conhecer as opções de privacidade de cada plataforma. Mas é uma responsabilidade exclusiva dos usuários? Twitter reconhece que “é uma porcaria” na hora de enfrentar os assédios. No caso de Lindsey Stone, a jovem admite que não sabia como estavam configuradas suas opções de Facebook: a foto era pública, por que assim estava por default, mas nem ela nem sua amiga sabiam disso. “Pensei muito nisso estes meses. O Facebook funciona melhor e ganha mais dinheiro quando todo mundo compartilha as coisas”, diz no livro de Ronson, que calculou que a buscas relacionadas com Justine Sacco proporcionaram ao Google centenas de milhares de dólares de lucro. Todos somamos nosso grão de areia em cada humilhação pública, mas sem dúvida há uma responsabilidade compartilhada por estas empresas que são a areia onde acontecem esses linchamentos. Cada vez que acende a pira dos inquisidores 2.0, há uma conta de lucros crescendo no calor das chamas no Vale do Silício.

Monica Lewinsky resume isso perfeitamente, agora que acaba de romper um longo silêncio que durou 17 anos, nos quais esteve lutando para recuperar as rédeas de sua vida, depois de cometer um erro de juventude: apaixonar-se pela pessoa equivocada, ter uma aventura com o presidente Bill Clinton enquanto era estagiária na Casa Branca. No dia 19 de março realizou uma conferência comovedora e combativa na qual relatou o inferno que quase a levou ao suicídio enquanto os demais brincavam com vestidos manchados. Para ela, o horror aconteceu antes da era das redes sociais, mas graças a fóruns e e-mails foi vítima do cyberbulling antes mesmo da invenção do conceito. Lewinsky fala porque quer lutar contra esta “cultura da humilhação” que se instalou na sociedade. “A humilhação pública é uma mercadoria e a desonra, uma atividade econômica. Como se ganha dinheiro? Cliques. Quanto maior a humilhação, mais cliques. Quanto mais cliques, mais renda com publicidade. Estamos em um ciclo alarmante (...) e alguém está ganhando dinheiro com o sofrimento de outras pessoas”. Para que a “humilhação como esporte” desapareça, Lewinsky —licenciada em psicologia social pela London School of Economics— propõe compaixão e empatia, colocar-se no lugar da pessoa que recebe tuites e manchetes.

“É preciso fomentar o aprendizado digital, integrar seu uso em nossos valores, para gerar outras dinâmicas menos destrutivas”, sugere o sociólogo De Rivera. Os usuários das redes sociais devem ser conscientes de que por trás de cada perfil há uma pessoa que, por pior que tenha sido seu erro, pode sofrer as consequências fora do ambiente digital e por muito tempo depois do aqui e agora. Uma demonstração exemplar de empatia foi realizada pela historiadora britância Mary Beard, assediada online por suas palestras feministas. A princípio, submetia seus assediadores à ignomínia para lhes dar uma lição, aproveitando seus muitos seguidores nas redes. No entanto, mais tarde, compreendeu que isto poderia prejudicá-los pessoalmente e começou a realizar conversas privadas com eles e inclusive a escrever cartas de recomendação. “Embora seja muito tonto, imprudente e nesse momento não muito agradável, não acho que um tuíte deveria arruinar suas perspectivas de emprego”, explicava Beard sobre seu assediador. Uma verdadeira lição vital.

Depois de conversar com uma dezena de pessoas que passaram por esse tormento, o jornalista Jon Ronson compara suas impressões, depois de ter olhado para os olhos dos linchados, com as que o levaram a se tornar vegetariano: “Sentia falta dos filés, mas não conseguia esquecer o matadouro”.

As pessoas são as mesmas, online ou offline. Mas a internet tem a ver com respostas rápidas. As pessoas falam sem pensar. É diferente da experiência social offline, em que você se policia por conta da proximidade física do interlocutor. Nós já estamos acostumados com a ideia de que nosso comportamento obedece a regras sociais, mas ainda não percebemos que o mesmo vale na internet.

As redes sociais encorajam pessoas com posições extremas a se sentirem mais confiantes para expressá-las. Pessoas que se sentem impotentes ou frustradas se comportam desta maneira para se apresentarem como se tivessem mais poder. E as pessoas costumam se sentir mais poderosas tentando diminuir ou ofender alguém.

Seria ingênuo esperar que qualquer companhia, mesmo do tamanho do Facebook e do Twitter, seja capaz de monitorar e ajudar neste tipo de situação. E não dá para deixar só para as empresas aquilo que devemos ser responsáveis, nós mesmos. É importante que as pessoas entendam como funcionam as ferramentas e seus mecanismos para privacidade. Se a conclusão for que o Facebook não oferece o suficiente, que as pessoas se posicionem e reclamem: ''Não é suficiente''.


BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


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