sexta-feira, 17 de abril de 2015

A real intenção do PMDB: Nem governo nem oposição (Por Thiago Muniz)

Desde junho de 2013, quando se gritava contra tudo e contra todos, a novidade é que as ruas foram afunilando para um único foco: o“fora Dilma, fora PT”. Mas, para além do que é dito e escrito em faixas e cartazes, o recado das bandeiras verdes e amarelas é que, se não há governo, também não há oposição.

Esse buraco político, exposto a sol aberto pelas manifestações, cria uma situação esquizofrênica: o PMDB consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo, governo e oposição, sofrendo de múltiplas personalidades.

Tem a Vice Presidência e uma penca de ministérios, mas é o partido que vai contra tudo o que o governo apresenta ao Congresso. Com uma das mãos, maneja a caneta do poder. Com a outra, apedreja o Planalto.

Tem se assim que, enquanto o PT esfarela a olhos vistos e o PSDB não sabe bem o que fazer com essa batata quente do impeachment, o PMDB cresce, engorda, ocupa os espaços e pauta as manchetes, para o bem e para o mal.

Talvez mais para o mal: sua visão de sociedade é conservadora, retrógrada, e nunca fica exatamente claro se suas vitórias são por mera implicância com Dilma e por simples queda de braço com o PT, ou se há nelas uma busca real do que é melhor para o País. Você decide.

Até pela circunstância de que o PT está ladeira abaixo na avaliação popular e o PMDB está ladeira acima no poder, assistir ao “fora Dilma, fora PT”, de Norte a Sul, causa uma certa aflição. Se Dilma sai, quem é mesmo que assume? A maioria dos cidadãos e cidadãs não sabe, mas os líderes políticos têm a obrigação de saber. E eles estão perplexos e confusos.

Em vez de o PSDB liderar as manifestações, elas é que começam a comandar os passos do PSDB. É por causa delas e das pesquisas que os tucanos se uniram a PPS, DEM, PV e SD para passar a defender o impeachment, correndo atrás das ruas. Pelo Datafolha, 63% dos entrevistados são a favor do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Mesmo sem querer, não há como a oposição fingir que não sabe, não viu, não ouviu.

Então, há ou não governo? O PT, partido da presidente, critica dia e noite o Planalto, enquanto o poder é dividido por três: Dilma tem 33%, se tanto; o vice Michel Temer tem 33%, no mínimo; e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem 33%, com margem de erro oscilando para cima ou para baixo de acordo com os avanços do ajuste fiscal.

E há ou não oposição? A maioria da população fala sem pruridos em impeachment e renúncia, e milhões, ou milhares, vá lá, estão nas ruas gritando “fora Dilma”, mas o maior partido de oposição fica em casa e, assim, passa a ser um garantidor do mandato da presidente.

Ao que conste, governistas defendem o governo e oposicionistas fazem oposição a ele. Não tem sido assim, nem de um lado nem do outro, mas os movimentos unificados contra Dilma pressionam fortemente, e agora ao vivo, os líderes tucanos e seus aliados a se assumirem efetivamente como oposição. É daí que, apesar da cautela de Fernando Henrique Cardoso, o tom do PSDB mudou em relação a Dilma.

E, enquanto aguardam os pareceres encomendados a juristas sobre motivos legais para o impeachment, as oposições acabam de ganhar um reforço e tanto: o Tribunal de Contas da União diz que o uso de bancos públicos para dar jeitinho nas contas públicas caracteriza crime de responsabilidade. Por enquanto, o dedo acusatório é estendido para o exministro da Fazenda Guido Mantega. Mas ele tinha chefe, ou seria “chefa”? Assim, essa posição do TCU só sacode ainda mais as coisas, numa hora de governo parado, PT de marcha a ré e oposição acelerando para se fundir ali adiante aos movimentos pró impeachment.

Então, vamos deixar ainda mais claro: por vias transversas, a presença do PMDB ajuda Dilma a se equilibrar no poder. Trocar o PT pelo PMDB? Trocar Dilma pelo trio Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros? Há muito o que refletir sobre isso.

Trinta anos após a morte de Tancredo Neves, que antes da posse deixou o cargo para o vice José Sarney (ex-Arena e ex-PDS), primeiro e último presidente da República do PMDB, o principal partido da transição da ditadura para a democracia está novamente dando as cartas no poder central.

Quanto mais fraco o governo, mais forte fica o PMDB, o fiel da balança nestas últimas duas décadas em que PSDB e PT se revezaram no Palácio do Planalto.

Com brevíssimos intervalos, o antigo partido de Ulysses Guimarães, hoje comandado pelo vice Michel Temer e os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e Eduardo Cunha, da Câmara, integrou todos os governos após a redemocratização. Só meu amigo Nelson Jobim, por exemplo, foi ministro de três deles: de FHC, de Lula e Dilma.

Por maior que seja seu poder, até hoje ninguém descobriu qual é o projeto do PMDB para o país, aonde seus líderes querem chegar. Este talvez seja o segredo do seu longevo sucesso: o PMDB só tem projeto de poder, quanto mais, melhor.

É por isso que agora, antes mesmo da inclusão dos nomes de Renan e Cunha na lista dos políticos investigados na Operação Lava-Jato, os peemedebistas abriram guerra contra governo Dilma-2, que tentou reduzir os espaços do partido no segundo mandato. Sabe-se lá por quais misteriosos desígnios, a presidente resolveu montar um governo à sua imagem e semelhança, reforçando o papel de partidos menores, como o PSD de Gilberto Kassab, distanciando-se do PMDB e do PT, e do seu criador e mentor Lula. E deu no que deu.

Em apenas dois meses, Dilma conseguiu transformar sua folgada maioria no Congresso em minoria. Quem comanda a oposição agora é o PMDB velho de guerra, o primeiro a pular do barco que começou a fazer água, como é de sua tradição e costume. Mais do que adversários descontentes com a divisão de cargos e verbas, os dois peemedebistas comandantes do Congresso são agora inimigos declarados e furiosos.

"O governo quer sócio na lama", disparou Eduardo Cunha neste sábado, indignado como todos os políticos limpinhos que apareceram na lista do Janot. "Sabemos exatamente o jogo político que aconteceu. O procurador agiu como aparelho visando à imputação política de indícios como se todos fossem partícipes da mesma lama. É lamentável ver o procurador, talvez para merecer sua recondução, se prestar a esse papel."

Na mesma linha de tiro, Renan deu uma ideia do nível do debate daqui para frente: "Dilma só soube que o Aécio estava fora da lista na noite de terça, quando o Janot entregou os nomes para o Supremo. Ficou p... da vida. Aí a lógica foi clara: vazar que estavam na lista Renan e Eduardo Cunha. Por quê? Porque querem sempre jogar o problema para o outro lado da rua".

Para quem acompanha a política brasileira, por dever de ofício, há mais de 50 anos, dá um certo cansaço e um profundo desânimo ver a repetição dos mesmos enredos, pois nada mais parece capaz de nos espantar. Se já é difícil governar o país tendo o PMDB como aliado, é fácil imaginar como será com o PMDB na oposição.

A gravidade do quadro político chegou a tal nível de combustão que já se voltou a falar até num diálogo entre PT e PSDB na tentativa de salvação da lavoura. Esquece-se quem ainda acredita nisso que o PSDB é apenas uma costela do PMDB, consequência de um racha do partido em São Paulo, quando era comandado por Orestes Quércia, o que provocou a saída de FHC, Mario Covas, José Serra e Franco Montoro, entre outros, para a criação da nova sigla da socialdemocracia.

A esta altura, o que os líderes dos dois partidos teriam a dizer uns aos outros, em que termos seria costurado um pacto pela governabilidade? Não há a menor chance, como deixou bem claro o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos mais entusiasmados com as marchas pelo impeachment marcadas para o próximo domingo: "A condição para tirar o Brasil da crise é tirar o PT do poder". Qualquer semelhança com o que acontece no Oriente Médio não é mera coincidência.

Este é o clima. Pobre país sem um futuro traçado e um presente empobrecido.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para:thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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