segunda-feira, 16 de março de 2015

Um balanço de 15/03/2015: Sucesso ou Fracasso?

Todo protesto tem uma pauta de reivindicação coerente, justa ou não. Entre as motivações dos manifestantes para os protestos deste domingo estão a insatisfação com o governo federal, o pedido de impeachment da presidente e até mesmo uma intervenção militar no Brasil.

De acordo com o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da cadeira de Ética e Filosofia Política da USP, a pregação da ditadura militar precisa ser criminalizada.

Estamos tendo no Brasil uma tolerância, que é grande, com condutas antidemocráticas que deveriam ser tipificadas como criminosas… Pregar a volta dos militares deveria ser crime, deveria levar a pessoa para a cadeia. Vários países da Europa criminalizaram a pregação nazista. Nós – que tivemos uma ditadura militar – deveríamos criminalizar a pregação da ditadura”, disse Janine.



Apesar do apoio que a velha mídia que vinha divulgando as manifestações, há no mínimo 1 mês, e do engajamento de artistas da Globo, o número total de manifestantes hoje não chegou a 500 mil em todo o Brasil, num país de 201 milhões de pessoas?

Mas quais são as reais intenções dos protestos realizados no aniversário de trinta anos do fim da ditadura civil-militar brasileira?

Vamos analisar alguns cartazes, e um punhado de intenções abertas, as obscuras ou as veladas.

Pedir pena de morte para os corruptos? Prisão perpétua para corruptos? Se não existe esse tipo de pena no Brasil e é clausula pétrea e inconstitucional na realidade não estão pedindo nada. Estão de embromação! É a mesma coisa que pedir apedrejamento para adulteras ou fuzilamento para ladrão de galinhas! Não tem como, não vai dar em nada. Se focassem na reforma política ou na aprovação do PL que transforma corrupção um crime hediondo (que depois dos protestos de 2013 entrou rapidamente em pauta e com o esfriamento em 2014 ficou esquecido), por exemplo, seria justo e uma boa pauta. Prisão pesada para sonegadores que estão tirando dinheiro da saúde, educação ou habitação entre tantas necessidades importantes e urgentes no Brasil e que são necessários grandes esforços financeiros da união, estados e municípios. É isso que a esquerda precisa focar entre outras causas justas.



Mas não estão com real interesse no combate a corrupção ou sonegação históricas, pedem histericamente e convenientemente apenas a prisão de petistas, comunistas, socialistas, cubanos, venezuelanos ou sindicalistas, e sabe-se lá mais o quê, qualquer integrante da CUT, do MST ou UNE, e não estão interessados na auditoria e maior fiscalização com aumento e incremento físico e de pessoal nos dos mecanismos de combate (como TCU’s criação dos TCM’s, CGU, Receita, PF, CGU, Portal da Transparência, dos empresários, prefeitos(+- 5700) vereadores , governadores(27), deputados (federais e estaduais), senadores, funcionários públicos em geral, pessoas físicas ou jurídicas envolvidas em corrupção, crimes ou sonegação. Não estão nem aí para isso. Querem o poder, pode ser até para voltar a pilhar o erário e corromper, como sempre fizeram por séculos, quem sabe.

Impeachment de governador ou da presidente sem provas? Isso é golpe! Três meses depois da eleição é terceiro turno!!!

Focar a corrupção apenas nas empresas e bancos estratégicos que os estrangeiros querem sabotar e nos tungar é sabotagem econômica, obviamente. O combate a corrupção começa onde mais existe, nas relações entre empresários e prefeitos, até pela mensuração de quantidades de pessoas envolvidas em dezenas de milhares. Não que todos sejam corruptos, mas obviamente e claramente comparativamente existem mais corruptos nos milhares de municípios e seus políticos e nos 27 estados da federação. O combate é a longo prazo e em todas as instâncias. O resto é eleitoreiro, de má-fé e se aproveitando da boa fé dos inocentes úteis. Lembrando que pregar a volta da ditadura é crime e deviam estar sendo encarcerados, faça isso em um país de primeiro mundo para observar a reação.

Ou a intenção não é chegar a condição de primeiro mundo?

Vamos dialogar sobre uns detalhes para quem prega privatização e estado mínimo. Por que um veículo no Brasil e outros países com situação similar como vizinhos, é três vezes mais caro que no resto do mundo? Todos as dez maiores economias do mundo (todos do Brics, exceto África do Sul, não precisa pois é Commonwealth) exceto o Brasil possuem diversas montadoras nacionais, o que impede em parte a cartelização do mercado interno, o que obviamente ocorre no Brasil. Um Fiat Pálio produzido no Brasil com todos os mesmos impostos, argumentação ignorante, é vendido em países vizinhos pela metade do preço. Independente de direita ou esquerda nos EUA se falar em vender.



Por que a tarifa de celular é a mais cara do planeta no Brasil? Todas as operadoras brasileiras são estrangeiras ou grupos mistos nacionais e obviamente visam maximização da lucratividade com o menor investimento possível, remetendo lucros extraordinários para o exterior.

Por que a tarefa de energia é diferente de um estado em relação a outro? Cada estado possui concessionária privada (particular) diferente, estrangeiras ou não, que vendem (repassam) o kilowat cerca de dez vezes mais caro (ou mais) que a Eletrobrás. Óbvio que atuam em cartel e se fosse minha empresa aumentava ainda mais um pouquinho, pois estou querendo mesmo é o máximo possível. Imagine se a Eletrobrás depois de décadas de investimento pago pelo povo brasileiro for privatizada e cair nas mãos de gringos. Quanto os brasileiros vão pagar? Nos EUA as hidrelétricas, produtoras e distribuidoras de energia estão reguladas ou nas mãos de agências governamentais e do exército americano. Vende para a China! Se disser isso lá vai preso.

Vocês, meus amigos, conhecidos e parentes, podem ter a melhor das intenções, mas estavam hoje marchando numa micareta com milhares de pessoas que pediam claramente a volta da ditadura militar. Vocês fizeram coro com gente carregando suásticas, enforcando bonecos da Dilma e do Lula, carregando cartazes com dizeres de puro ódio e violência.

Vocês marcharam ao lado de gente com um cartaz de "Femicídio sim!" (qualquer pessoa que tenha visto essa foto e não tenha ficado enjoado é um imbecil). Vocês juntaram sua voz com o que há de mais podre na sociedade. Deram poder pra gente como os revoltados On Line, Lobão, Danilo Gentili, Coronel Telhada, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, TV Globo.

Ah...os números de participantes também foram maquiados, obviamente para números muito acima da realidade, vejam abaixo:




Análise do jornalista Luciano Martins Costa, do Observatório de Imprensa:

Os jornais fazem nas edições de segunda-feira (16/3) o balanço das manifestações realizadas no domingo em todos os estados. A data coincide com os trinta anos da posse do primeiro presidente civil após a ditadura, e a imprensa usa esse fato para comparar os eventos de 2015 com os de 1985.

Jornalistas gostam de datas redondas. Não há qualquer relação possível entre o período da redemocratização após os anos da ditadura militar e o protesto contra um governo eleito democraticamente, mas a comparação serve para legitimar a adesão à campanha produzida pela mídia.

As divergências quanto ao número de participantes superam a casa das centenas de milhares: o Globo e o Estado de S.Paulo aceitam a avaliação da Polícia Militar, que viu 1 milhão de pessoas na região da Avenida Paulista, enquanto o Datafolha calculou a multidão em 210 mil. A curiosa dança dos números já havia acontecido na sexta-feira (13), quando centrais sindicais levaram à mesma avenida 40 mil pessoas, segundo o Datafolha, e apenas 10 mil, segundo a Polícia Militar.

No balanço sobre a cobertura da imprensa internacional, o Estado de S.Paulo observa que o jornal britânico The Guardian (ver aqui o texto original em inglês) destacou o fato de as manifestações serem compostas predominantemente por “pessoas brancas, de classe média”. Isso era o que mostravam as imagens transmitidas ao longo do dia pelas emissoras de televisão, principalmente Record, Band e RedeTV.

A Rede Globo manteve sua programação normal dos domingos, com transmissões mais concentradas no início da tarde, e deixou a cobertura mais intensa para sua emissora de notícias via cabo, a GloboNews.

A Folha de S.Paulo, onde se anota que trata-se de “movimento de centro-direita”, encontrou dois negros – uma maratonista e um aposentado – em meio aos rostos brancos. Louve-se o grande esforço de reportagem.

Mas a personagem mais curiosa citada pelo jornal paulista foi Maria Isabel Fleury, de 83 anos, que pedia a volta do regime de exceção. Ela é viúva do delegado Sérgio Paranhos Fleury, “que ganhou fama como torturador na ditadura”, registrou a Folha.

Esse mosaico de personagens não resume a ópera, mas é um bom ponto de partida para entender o processo.

O que não está nos jornais?

Justamente o ponto central do acontecimento: a culminância do processo de convencimento das classes médias urbanas após anos de campanha cotidiana da mídia hegemônica. As entrevistas de manifestantes durante o ato e registradas pelos jornais na segunda-feira repetem refrões martelados pela imprensa ao longo dos últimos anos e intensificados após a vitória de Dilma Rousseff na eleição do ano passado.

Desde o advento da internet, a mídia tradicional vem se caracterizando pela concentração de suas atenções no cotidiano, abandonando gradualmente a contextualização histórica dos acontecimentos. No Brasil, esse processo coincide com o engajamento dos veículos ligados às empresas hegemônicas num discurso partidário cujo objeto é claramente demonizar as políticas públicas adotadas com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder central. Não é por acaso que a maioria dos entrevistados durante a manifestação, bem como as palavras de ordem dos incentivadores a bordo dos carros de som, expressavam a percepção da realidade insuflada pela imprensa.

A massa dos protestos estava dividida sobre os objetivos de sua presença nas ruas: segundo os relatos da mídia, havia até mesmo petistas infelizes com a condução do atual governo, misturados aos aloprados que defendem a volta da ditadura, mas a maioria parecia convencida de que o Brasil oscila à beira do abismo, de que a corrupção foi inventada há dez anos e de que todos os políticos são corruptos.

Registre-se que alguns oportunistas, como os deputados Paulo Pereira da Silva, do Solidariedade, e Jair Bolsonaro, do Partido Progressista, foram impedidos de usar os microfones. Silva luta contra uma condenação por improbidade administrativa à frente da central Força Sindical e Bolsonaro, conhecido representante do que há de mais reacionário no Congresso Nacional, integra o partido mais entalado no escândalo da Petrobras.

No final, prevaleceu o direito de divergir pacificamente, ainda que se possa demonstrar que a opinião da massa foi condicionada pela militância da imprensa. A classe média, readmitida no jogo da política, está em seu paraíso.

O que virá em seguida vai depender em grande parte da capacidade do governo de mobilizar seus apoiadores e de superar os impasses com o Congresso Nacional.


Análise da escritora e professora Élika Takimoto:

Não creio que seja somente uma luta de classes a que estamos vendo, ainda que ela exista no Brasil. Pelas manifestações de ontem, a despeito de poucos negros mesmo nas passeatas em Salvador, não há como manter o discurso que somente a elite está insatisfeita. A insatisfação e o saco cheio - para ser mais clara - estão generalizados. Não convém falar de números porque eles já viraram motivo de piada. As estimativas são dadas de acordo com a miopia de cada um. No entanto, vale uma reflexão.

Antes, gostaria de esclarecer um ponto: há quem ache que sou cega, filiada a algum partido político, comunista e bababá bububú. Parece que a minha posição política não está clara e que estou feliz com tudo o que está acontecendo por aqui. Já falaram que sou a favor da corrupção por ter votado em quem votei e a minha inteligência sempre é colocada em cheque por criticar alguns discursos.

Que fique claro: não estou feliz e muito menos sou a favor da corrupção. Só não acho que ela tenha se iniciado há pouco mais de dez anos como querem que eu acredite. Aliás, eu não acredito em mais nada que leio nesses jornais, sejam eles Globo e Folha ou sejam os Cartas Capitais da vida. Há claramente verdades inventadas e de imparcial o jornalismo nessa conjuntura brasileira não tem nada. Aliás, pergunto-me se há como um fato narrado ser isento de subjetividade. Mas isso é papo de horas. Voltemos ao foco: eu não estou nem um pouco feliz com nada do que está acontecendo com o meu país.

Para início de conversa, como afirmou a própria presidente, as manifestações são legítimas. O ponto que considero é que o povo que foi às ruas ontem deveria estar cobrando medidas da presidente e não o seu impeachment. E se a pauta fosse, de fato, anticorrupção, ela teria que ser dirigida à corrupção de todos os partidos e a todos os três poderes da República e não apenas para um grupo específico que está sendo nitidamente demonizado pela mídia. Não estou mais lendo, com raríssimas exceções de alguns amigos que fundamentam a sua antipatia pelo governo, um debate de ideias e sim um discurso cheio de ódio, pronto e repetitivo.

Por outro lado, esse papo de Reforma Política só agora me causa um certo asco. A bandeira da Reforma Política deveria ser levantada desde que Lula foi presidente. Mas só agora os petistas e os demais de esquerda estão lutando por isso justamente quando a popularidade está em baixa. Sei também que não é um partido que faz a Reforma e sim o Congresso. Acho porém estranho todo essa luta ser incentivada nesse momento ainda que eu particularmente não veja outra solução efetiva para nosso país; entendo que o financiamento privado para as campanhas políticas é a espinha dorsal da corrupção brasileira.

Por outro lado (há vários lados a considerar) entristeço-me ao perceber que esse movimento a favor do impeachment enfraqueça essa questão maior. Parece-me que muitos eleitores ainda não aceitaram o resultado das eleições presidenciais e estão usando o impeachment para anular o que foi decidido nas urnas. No mais, não acredito que tirar a presidente resolverá os problemas apontados pelos que estão se dizendo revoltados com o governo. Não sei se são os jornais que estimulam essa conclusão ou se é porque gostamos mesmo de ter esperança mas, estão acreditando, a meu ver ingenuamente, em uma solução simplista e ilusória para a atual crise: destituir ou, pelo menos, "sangrar" a presidenta Dilma.

Podem bater panela, depor a presidente e pôr até "Jesus na causa". Sem o fim do financiamento empresarial de campanhas políticas, na minha opinião, a coisa não vai melhorar efetivamente. Não é a solução final, mas acredito que vai melhorar muito o quadro atual, que é a institucionalização da corrupção: as empresas fazem um "investimento" nos políticos com retorno garantido, onde os prejudicados, como estamos todos vendo, somos nós.

Por outro lado (a verdade é um polígono de infinitos lados), não acredito em grandeza espiritual do PT a despeito da desigualdade neste país ter diminuído consideravelmente nesses últimos anos. O jogo é muito sujo e está longe de estar claro para mim. Se ainda fico do lado em que estou é por acreditar não na pureza e nas boas intenções de ninguém, mas sim que o que se tem para colocar no lugar é muito pior. Não acredito na santidade do Papa, vou lá eu querer canonizar Lula como já vieram me falar de forma irônica para fazê-lo? Tenho e nutro minhas admirações sim pela história de vida dele. Acho sua biografia digna de nota, um político admirável em vários quesitos e reconheço seus erros nessa trajetória. E penso sim senhor que ao lado de muitos outros políticos ele é infinitamente mais inteligente e, pasmem, mais honesto. Podem rir. É, de fato, muito difícil falar em honestidade com a política estruturada na forma em que está em nosso país. O que me leva de volta ao dia de ontem.

Se não pararmos de agirmos como se estivéssemos no pátio do recreio com dez anos de idade a coisa tende a ficar cada vez pior. O movimento de ontem vai ocupar um lugar nas histórias infantis: " Era uma vez uma manifestação que se dizia em defesa do Brasil, da democracia e contra a corrupção. Acontecia em várias capitais do país e reuniria todos os cidadãos de bem, honestos e interessados em lutar contra os desmandos e malfeitos que tomavam conta do país " Pergunto-me: De que matéria é feita essa fronteira rompida entre o bom e o mau nessa história? Como estamos julgando o que é bom para nós? Como efetivamente acabar com esse circo que vem a ser a nossa política? Pedindo a renúncia ou afastamento (o que hoje se chama pelo nome técnico de impeachment) de quem ocupa a Presidência da República? Xingando de imbecil quem não pensa de forma igual a você? Chamando de idiota quem foi ou não às ruas? Tanto de um lado quanto de outro quando há deboche ou xingamentos é porque há não a burrice e sim a ausência de uma reflexão mais profunda sobre o problema (para mim, muito mais grave não querer pensar do que não saber como fazê-lo).

O ódio e a ignorância (não quero saber, não preciso saber) ao serem compartilhados por escrito deixaram de ser algo a ser reprimido. Muito pelo contrário. Os comentários seguidos nas postagens mostram o quão gladiadores estamos nos tornando. A internet virou um campo de guerra e se tivéssemos a opção de lançar bombas do outro lado, mandar um vírus para destruir o computador de quem não concorda com as nossas colocações, se tivéssemos como ferir mesmo na carne o adversário político utilizando o anonimato ou não o faríamos.

Enfim, não que o assunto tenha esgotado mas para não me estender, não estou feliz assim como você. Mas acho que nenhum desses que estão na liderança política deste país mereça que eu me diminua como ser humano a ponto de xingar ou me indispor com quem pensa de forma diferente de mim e muito menos desfazer uma amizade. Gosto sim de expor meus argumentos justamente para ouvir quem não pensa como eu e ver se há algo que não considerei no meu raciocínio. Penso que só assim, alertando uns aos outros, conseguiremos nos melhorar como um todo e como nação.

Acredito que a principal mudança que beneficiará a todos nós precisa de nossa união e não que nos afastemos e nos distanciemos como cidadãos. O caminho que estamos tomando, parece-me, está nos levando para o precipício. Tornando-nos bárbaros ninguém sairá impune nessa budega, pois, o barco é um só e afundando morreremos todos.

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