segunda-feira, 30 de março de 2015

Pedro II: o monarca incompreendido (Por Thiago Muniz)

O segundo imperador do Brasil nasceu no Palácio da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1825, sendo o sétimo filho e terceiro varão do casal de imperadores D. Pedro 1° e D. Maria Leopoldina, que faleceu quando o príncipe tinha apenas um ano. Com a morte de seus irmãos mais velhos, Miguel e João Carlos, herdou o direito ao trono do Brasil.

Após a abdicação do trono e a partida de D. Pedro 1° para Portugal, ascendeu ao poder com apenas 6 anos, em 7 de abril de 1831. Até assumir de fato o poder, ficou sob a tutela de José Bonifácio de Andrade e Silva e depois do marquês de Itanhaém, Manuel Inácio de Andrade Souto Maior.

Enquanto o Brasil era governado por uma regência, D. Pedro 2° iniciou os seus estudos com a sua camareira, D. Mariana Carlota Magalhães Coutinho, a condessa de Belmonte. Com diversos mestres do seu tempo, aprendeu outros idiomas, música, dança, geografia, literatura, ciências naturais, pintura e equitação.

Após nove anos de conflitos políticos internos no Brasil, D. Pedro 2° foi declarado maior de idade pela Assembléia Legislativa, atendendo a pressões do Partido Liberal, sendo sagrado e coroado um ano depois, em 18 de julho de 1841, na Capela Imperial do Rio de Janeiro. Dois anos após, no dia 30 de maio, casou-se com a princesa napolitana Teresa Cristina Maria de Bourbon. Com ela, teve quatro filhos, mas somente dois sobreviveram: as princesas Isabel e Leopoldina.

Entre seus primeiros atos de governo, decretou a anistia geral e restabeleceu o conselho de Estado. Neste primeiro período, tentou buscar a pacificação do país, contornando diversas revoltas como a dos Liberais (1842), em Minas Gerais e São Paulo; a Guerra dos Farrapos (1845) e a Insurreição Praieira (1848), em Pernambuco.

Entre 1864 e 1870, quando o país esteve envolvido na guerra contra o Paraguai, chegou a se incorporar ao Exército nacional, durante o período do cerco da cidade de Uruguaiana, e foi até o local do conflito, numa viagem que durou seis meses.

Durante o seu governo, foram construídas as primeiras linhas telegráficas e a primeira estrada de ferro do país. A imigração estrangeira e a instrução pública também receberam incentivos do imperador, que por diversas vezes foi nomeado árbitro em litígios internacionais.

Em seu Império, ocorreram o fim do tráfico negreiro (4 de setembro de 1850), a implantação do sistema de esgotamento das duas principais cidades da época, São Paulo e Rio de Janeiro (1850); a Lei do Ventre Livre (28 de setembro de 1871); a libertação dos escravos sexagenários e a lei Áurea, em 13 de maio de 1888, sancionada pela princesa Isabel, que ocupava a regência.

Interessado pelas letras e pelas artes, trocou correspondências com vários cientistas europeus da época, como Louis Pasteur e Arthur de Gobineau, sempre incentivando intelectuais e escritores. Durante o seu reinado, excursionou pelo Brasil e visitou diversos lugares do mundo, como a América do Norte, a Rússia, a Grécia, o Egito e a Palestina. Nestas visitas sempre buscava trazer inovações tecnológicas para o país, como a câmera fotográfica, onde os registros de suas viagens se tornaram preciosidades históricas.

Em 1870, com o final da Guerra do Paraguai, as divergências políticas se acirraram e o surgimento do Partido Republicano neste ano deu início à decadência política do Império. Em 1887, apesar dos problemas de saúde, fez a sua última viagem ao exterior como imperador, onde visitou a França, Alemanha e Itália. Em Milão, chegou a ficar por um período internado devido a uma pleurisia.

Com a proclamação da República em 15 de Novembro de 1889, ficou prisioneiro no paço da Cidade, para onde foi ao sair de Petrópolis, numa tentativa frustrada de sufocar o movimento. Com a decretação de que teria que sair do país em 24 horas pelo governo provisório, D. Pedro 2° deixou o Brasil e foi para Portugal com a família dois dias depois, chegando em Lisboa e depois indo em direção ao Porto, onde a imperatriz morreu no dia 28 de dezembro.

Na Europa, viveu em Cannes, Versailles e Paris, onde participa de palestras, conferências e espetáculos de arte. Aos 66 anos, morre de pneumonia em um hotel em Paris, no dia 5 de dezembro de 1891. Seu corpo foi transladado para Lisboa, onde foi colocado no convento de São Vicente de Fora, juntamente com o de sua esposa. Em 1920, os restos mortais do imperador vieram para o Brasil, tendo sido depositados na catedral do Rio de Janeiro e depois transferidos para a catedral de Petrópolis, onde se encontram sepultados.

O nome completo de D. Pedro 2° era Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga.

Legítimo descendente das mais nobres dinastias monárquicas europeias, D. Pedro II acreditava mesmo era no regime republicano. Imperador desde os cinco anos de idade, era fã da democracia. Abolicionista declarado, viu seu país ser o último a acabar com a escravidão nas Américas. À frente de uma nação com 80% de analfabetos, seria para sempre lembrado por sua dedicação à Educação. Conhecido como “rei filósofo”, não nos legou qualquer produção intelectual ou artística própria. Contido e comedido, avesso aos “tristes negócios da política”, logrou garantir a estabilidade política e a unidade nacional diante de pressões diversas, sobressaindo-se pela atuação segura na maior guerra que o Brasil já enfrentou.

Como é possível que uma das figuras mais marcantes e conhecidas de nossa História permaneça associada a tamanhas contradições? Nem os mais eficientes estudos e biografias são suficientes para desfazer essa impressão: D. Pedro II é, sobretudo, um personagem incompreendido. Ou compreendido apenas em parte. Juntar seus pedaços significa esbarrar, sempre, em grandes enigmas.

Para as almas que só se aquietam diante de consensos, pode ser agradável concluir que o imperador foi um governante querido e respeitado de forma quase unânime em seu tempo. Mas sempre há quem conteste o consenso. Em 1925, em meio aos festejos laudatórios em torno do centenário de D. Pedro II, o ainda jovem sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) fez uma conferência pública dedicada a demolir o mito. Em suas palavras, o Império teria sido um “período melancolicamente virtuoso”. Culpa do imperador, responsável por implantar entre nós uma “ditadura da moralidade, com suas preocupações de marcar a lápis azul o estadista que tinha amante, o senador que bebia, o político que jogava”. Não é de estranhar que Freyre – cuja obra enalteceria a miscigenação que forjou no Brasil uma cultura inédita no mundo – se incomodasse com os modos excessivamente europeizados do imperador. Figura impávida e inatacável, afeita mais às letras e às ciências do que ao contato social, mais às leis e às normas do que às relações afetivas e parentais, D. Pedro II contrariava a brasilidade festiva e manemolente enaltecida por Freyre. Seus valores puritanos seriam alienígenas à cultura nacional, como “um pastor protestante a oficiar em catedral católica”.

Difícil não se deixar seduzir pelo inspirado diagnóstico do pensador pernambucano. Mas tal “desajustamento ao meio e ao momento”, se existiu, não deve ter sido de todo mau. Ajustado ao meio e ao momento pelo qual passava o mundo, D. Pedro ajudou a incutir no Brasil princípios até então praticamente inéditos por aqui. Princípios considerados, na época, “civilizatórios”, que hoje qualificamos como “republicanos”: respeito ao interesse público, despersonalização da política, meritocracia. Nem por isso deixamos de ser mestiços, festivos ou adeptos do improviso. A excepcionalidade de D. Pedro II teria servido apenas para dar uma contrabalançada na receita.

Além do mais, caso fosse mesmo um desajustado, não teria reinado por quase 50 anos. É o que sustenta Roderick J. Barman, autor do livro Imperador cidadão, em entrevista por e-mail. Ele lembra que D. Pedro não estava sozinho: “O grupo que liderava o Brasil durante a primeira metade do século XIX havia sido, em sua maior parte, educado na Europa, e tomava França e Inglaterra como modelos do que o Brasil deveria ser (aliás, todos os ‘homens de casaca’, educados, compartilhavam essa visão). Neste sentido, Pedro II era bem brasileiro”, defende.

Mas o historiador canadense, com mais de quatro décadas dedicadas ao estudo do Brasil Império, também tem sua tese controversa. Apresenta-a em forma de pistas: é o mais popular político da nossa História; apresenta-se como a encarnação das aspirações do país; é aberto, amigável e gentil, apto a comunicar-se com gente simples e identificar suas necessidades; tranquilizadoramente gordinho, não representa ameaça a ninguém, e ao mesmo tempo é digno e imponente, um legítimo chefe de Estado; transformou a imagem do Brasil como um Estado-nação, tornando-o conhecido e respeitado em todo o mundo.Quem seria este personagem? Para Barman, são dois em um: D. Pedro II e Luiz Inácio Lula da Silva.

Fique o leitor à vontade para refletir sobre a inusitada associação. Para os acadêmicos, é fácil descartá-la sob o argumento do anacronismo. Mais proveitoso, no entanto, pode ser considerá-la uma licença poética. A liberdade interpretativa é um direito inalienável de quem se propõe a ler a história, e tem o potencial de abrir novos caminhos.

Com respeito ao nosso protagonista, uma definição soa inadequada. “Amigável” e “gentil”, até pode ser. Mas “aberto”? Biógrafos descrevem D. Pedro como tímido, inseguro, taciturno. Quanto a “comunicar-se com gente simples”, o próprio Barman, em seu livro, cita a fala de uma pessoa próxima ao imperador, segundo a qual ele tinha “catinga de rei”, considerando-se feito “de outra fibra e superior a toda a gente”.

Mais uma vez, há controvérsias. O nobre imperador era de fato receptivo e surpreendentemente despido de preconceitos comuns em seu tempo. Caso emblemático foi sua relação com D. Obá, ou “príncipe Obá II d’ África”, como se autoproclamava Cândido Fonseca Galvão, um filho de escravos e neto de imperador africano. Depois que lutou com bravura na Guerra do Paraguai, promovido a oficial honorário do Exército, o baiano tornou-se personalidade pública no Rio de Janeiro na década de 1870. Liderava campanhas contra os maus-tratos no Exército, pelo fim do uso da chibata, pela igualdade racial e pela abolição da escravatura. “Era adorado pelos negros libertos e malvisto pela elite, que o desprezava. Os jornais o ridicularizavam, retratado como um louco”, descreve Eduardo Silva, pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, em conversa com a RHBN. Entre essas duas visões inconciliáveis – a dos ex-escravos dos cortiços e a dos escravocratas da elite –, de que lado ficou o imperador? Com os primeiros. Mesmo criticado, D. Pedro II recebia D. Obá em palácio, reconhecendo seus serviços no Paraguai e tratando-o com todo respeito. “Meu coração é cheio de PII, PII”, dizia o príncipe africano, em gratidão ao bom tratamento recebido do monarca. Eduardo Silva lembra que recentemente foi descoberta a única fotografia conhecida de D. Obá, entre os bens da princesa Isabel. “Só o fato de terem guardado mostra certo respeito que a família imperial nutria por ele”, comenta.

Monarquia e abolicionismo costumam ser vistos juntos. Isabel entrou para a História como “a Redentora”. Proclamada a República, o governo reprimiu fortemente os espontâneos festejos populares em torno do 13 de Maio, por louvarem a monarquia. Ao mesmo tempo, uma milícia de guardas negros combatia o regime e ansiava pela volta da coroa.

Tudo certo, mais ou menos. Uma pergunta ainda incomoda: se era tão simpática ao regime, por que a abolição não veio antes? Quanto a D. Pedro, do alto de seu poder imperial, será que ele fez menos do que poderia?

Na biografia D. Pedro II: Ser ou não ser, José Murilo de Carvalho defende que ele “não escondeu sua posição contrária à escravidão”, embora “nem sempre jogasse todo o seu peso político do lado dos abolicionistas”. Roderick J. Barman pondera que “a escravidão estava entranhada e era vista como indispensável em todos os níveis da sociedade”, mas reconhece que “a falta que se pode cobrar [de D. Pedro II] é, depois do seu retorno ao Brasil em 1877, não ter agido para assegurar que o processo de emancipação fosse ao mesmo tempo reforçado e acelerado”. Para Eduardo Silva, “claramente ele não se sentia confortável com essa situação. Mas não dependia dele, tinha o Senado e Câmara. A princesa assinou a Lei Áurea porque foi aprovada pela Câmara, não poderia fazer por decreto”.

É, portanto, um tema propício para nos lembrar que não é possível separar o governante de seu tempo, nem o Estado da sociedade que representa. São os dois lados da moeda: se não se pode culpar o indivíduo pelos atrasos que persistiram na sociedade brasileira do século XIX, também não são mérito exclusivo do imperador as conquistas da época.

Quanto a “não jogar todo o seu peso político” – esta, sim, uma variável individual –, a historiadora Alessandra Fraguas afirma que, de fato, D. Pedro II costumava abrir mão de exercer seu Poder Moderador. A análise de todas as minutas das reuniões do imperador com o Conselho de Estado demonstra que ele assumia “mais um caráter mediador do que fazia prevalecer a sua vontade”. Alessandra integrou a equipe do Museu Imperial de Petrópolis que durante dois anos debruçou-se sobre cerca de 30.000 documentos para organizar um dossiê sobre as viagens de D. Pedro e registrá-lo no programa Memória do Mundo, da Unesco.

A pesquisadora cita um documento para exemplificar o interesse do imperador pela emancipação dos escravos. Em rascunhos que se estendem por algumas páginas – palavras riscadas e reescritas, registrando seu raciocínio “em tempo real” –, ele faz contas sobre as possíveis idades dos escravos a serem libertados e as respectivas indenizações a serem pagas. “Como emancipá-los gradualmente pela lei?”, pergunta-se o monarca. “Os de 30 [anos] são os que prestarão mais serviço, e os de 60 já o terão prestado 30 anos, e merecem sua emancipação por lei, sem indenização a quem já tirou dele o maior lucro”, calcula, para em seguida concluir que, por essa proposta, o último escravo seria libertado “em 1931”. “Seria muito tarde”, reconhece, “embora deva-se atender aqui o termo médio de vida do escravo que é de menos de 39 anos e assim o número dos escravos não será grande nessa época”. É o D. Pedro II ponderado e conciliador, a favor de avanços “civilizatórios”, mas zeloso para que fossem graduais, sem rupturas legais.

Naquilo em que os valores do indivíduo não dependiam de negociação política, ele era exemplar. Recusava aumentos salariais, só viajava bancando-se do próprio bolso, aceitava os piores ataques da imprensa numa impavidez olímpica (e jamais repetida em toda a História da República), aceitava democraticamente a existência de um Partido Republicano em plena monarquia.

Alessandra Fraguas vem propondo novas leituras sobre a trajetória do imperador, entre elas uma análise de sua relação com as ciências. Sabe-se que a sólida formação intelectual de D. Pedro II não resultou em inteligência destacada. Era mais enciclopédico do que livre-pensador. “O intelecto de D. Pedro II não era de modo algum extraordinário (...) Sua suposta familiaridade com a maioria dos campos de conhecimento parecia pretensiosa e pouco convincente”, escreve Barman emImperador cidadão.

A definição de “rei filósofo” merece ser relativizada: “filósofo”, na época, era quem se dedicava a estudos e pesquisas humanísticos. Hoje o imperador não seria um “filósofo” pela simples razão de não filosofar por conta própria. Se é possível filiá-lo a algum dos campos de conhecimento que vicejavam na época, a pesquisadora qualifica D. Pedro como nosso... imperador-etnógrafo. Nas viagens que fazia pelo Brasil e ao exterior, tinha gosto pela observação antropológica, desenhando e descrevendo os cenários e os tipos humanos que encontrava pelo caminho, registrando vocabulários, traduzindo termos.

Mais do que a consagrada “defesa da pátria”, será que estamos diante de uma radiografia mais profunda da alma do imperador republicano? Sua maior motivação seria, na verdade, desbravar o mundo?

Em um aspecto biográfico, essa tese ganha reforço: o abandono precoce foi crucial para o desenvolvimento de sua personalidade. “Órfão de mãe logo depois de completar um ano de idade, de pai aos nove, virou órfão da nação”, escreve José Murilo de Carvalho. “Seus principais conselheiros nunca foram seres humanos, mas sim a página impressa, sobretudo as monografias e as resenhas em francês, que para ele ilustravam a ‘civilização’ vislumbrada para o Brasil”, registra o livro de Barman.

Juntando as pontas, é admirável encontrar, em um trecho de Joaquim Nabuco (1849-1910), a seguinte consideração sobre os indivíduos desprovidos de família: “Em nossa política e em nossa sociedade (...) são os órfãos, os abandonados, que vencem a luta, sobem e governam”. O autor, contemporâneo de D. Pedro II, não se refere ao imperador, mas à vida de seu próprio pai, o estadista Nabuco de Araújo (1813-1878). Duplamente admirável porque esse trecho é citado por Sérgio Buarque de Holanda, na obra-prima Raízes do Brasil (1936), como introdução ao conceito de “homem cordial”. Assim justifica o sociólogo: “Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo”. Esse processo sintetizaria a necessidade do Brasil de superar suas características coloniais (personalistas e patriarcais) e desenvolver conceitos mais “elevados” para a formação de um estado igualitário. Ao tratar da orfandade, Sérgio Buarque tampouco se refere ao imperador, embora seja irresistível interpretar a trajetória de D. Pedro II pela ótica do forçado abandono do leito familiar como libertação rumo a valores universais.

Uma de suas frases mais emblemáticas é aquela em que se declara republicano: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador”. Menos comentada, no entanto, é a sequência dessa citação: “Se ao menos meu Pai imperasse ainda, estaria eu há 11 anos com assento no Senado e teria viajado pelo mundo”. Apaixonado pelo Brasil? Sim, sua vida pública o demonstra. Mas não o suficiente para impedir que, podendo, se dedicasse ao que realmente lhe interessava: o mundo.

Os brasileiros se mantiveram apegados a figura do imperador popular a quem consideravam um herói e continuaram a vê-lo como o Pai do Povo personificado. Esta visão era ainda mais forte entre os brasileiros negros ou de ascendência negra, que acreditavam que a monarquia representava a libertação. O fenômeno de apoio contínuo ao monarca deposto é largamente devido a uma noção generalizada de que ele foi "um governante sábio, benevolente, austero e honesto" Esta visão positiva de Pedro II, e nostalgia por seu reinado, apenas cresceu a medida que a nação rapidamente caiu sob o efeito de uma série de crises políticas e econômicas que os brasileiros acreditavam terem ocorridas devido a deposição do Imperador. Ele nunca cessou de ser considerado um herói popular, mas gradualmente voltaria a ser um herói oficial.

Seus restos mortais, assim como os de sua esposa, foram finalmente trazidos ao Brasil em 1921 a tempo do centenário da independência brasileira em 1922 e o governo desejava dar a Pedro II condizentes aos de Chefe de Estado. Um feriado nacional foi decretado e o retorno do Imperador como herói nacional foi celebrado por todo o país. Milhares participaram da cerimônia principal no Rio de Janeiro. O historiador Pedro Calmon descreveu a cena: "Os velhos choravam. Muitos ajoelhavam-se. Todos batiam palmas. Não se distinguiam mais republicanos e monárquicos. Eram brasileiros" Esta homenagem marcou a reconciliação do Brasil republicano com o seu passado monárquico.

Os historiadores possuem uma grande estima por Pedro II e seu reinado. A literatura historiográfica que trata dele é vasta e, com a exceção do período imediatamente posterior a sua queda, enormemente positiva, e até mesmo laudatória. O Imperador Pedro II é considerado por vários historiadores o maior de todos os brasileiros. De uma maneira bem similar aos métodos que foram usados pelos republicanos do começo do século XX, os historiadores apontam as virtudes do Imperador como exemplos a serem seguidos, apesar de que nenhum foi longe o bastante para propôr a restauração da monarquia. O historiador Richard Graham comentou: "A maior parte dos historiadores do século XX, além disso, têm olhado nostalgicamente para o período [do reinado de Pedro II], usando suas descrições do Império para criticar – às vezes sutilmente, outras vezes nem tanto – os regimes republicanos e ditatoriais subsequentes do Brasil."

O legado ambiental da floresta da Tijuca por Pedro II

Os 450 anos da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não se resumem apenas a festas. É também o momento de resgate de inúmeros episódios de sua riquíssima história que deveriam não só encher de orgulho os habitantes da cidade e do país, como também servir de inspiração para decisões administrativas no presente e no futuro. Um exemplo é a muito atual preocupação com o vital abastecimento de água para os milhões de habitantes. Contudo, todos deveriam saber que esta preocupação já era recorrente no início do século XIX.

Do Maciço da Tijuca brotavam ­ e brotam ainda hoje ­ mais de cem riachos que abasteciam a população de água potável. Mas a floresta luxuriante que cobria o maciço foi gradativamente derrubada para a extração de madeira, produção de carvão, plantações de café e instalação de chácaras de famílias da alta sociedade. Naquela época não existiam as noções de ecologia e sustentabilidade. Nem estes termos constavam nos dicionários. Mas, mesmo assim, o Imperador D. Pedro II teve a percepção de que aquelas nascentes, os cursos d'água e, consequentemente, a sobrevivência dos cariocas dependiam da mata que cobria a montanha. Foi então em 1861, em meio a uma das maiores secas de que se teve notícia, que o grande Monarca ordenou a desapropriação das chácaras e o consequente reflorestamento, o maior promovido até então no país. Sabe-se que, além da preocupação com a proteção dos mananciais, o Imperador tinha perfeita noção da influência da vegetação sobre o clima da região e sobre a proliferação dos insetos.

O grande nome à frente deste investimento foi o Major Manuel Gomes Archer, que com a ajuda de uns poucos escravos plantou, ao longo de doze anos, cerca de 80 a 90 mil mudas, em boa parte produzida no Jardim Botânico, cuja existência, aliás, se deve a D. João, avô de D. Pedro II. Naturalmente o projeto esbarraria na resistência e oposição tanto da elite cafeeira, como dos moradores da região. Mas, felizmente, as necessárias remoções acabaram sendo levado a bom termo graças às habilidades políticas do Ministro dos Negócios da época, o Visconde de Bom Retiro, que é o outro nome que não deve ser esquecido.

Segundo consta em artigo publicado no jornal O Globo de 7.2.2015, este episódio da história da cidade, serviu para desmistificar a ideia então vigente, de que a água no Brasil é um recurso inesgotável. 150 anos após o trabalho de Major Archer as árvores estão gigantescas e a Floresta da Tijuca, esta joia verde como a conhecemos hoje, incrustada na megalópole é hoje a maior floresta artificial urbana do mundo e, sem ela, o Rio de Janeiro não seria a Cidade Maravilhosa.

O autor destas linhas viveu sua infância e adolescência na Ladeira do Ascurra, situada no Cosme Velho, e um dos acessos à Floresta.

Com saudades lembro-me dos piqueniques e jogos de bola em cima da Caixa D'Água que, embora desativada na década de 1960, se encontra lá até hoje. Foi construída em 1868, e captava água do Rio Silvestre, afluente do Rio Carioca, e chegou a abastecer o Bairro de Laranjeiras, a casa em que eu morava inclusive. Este reservatório é apenas um de muitos que foram instalados nas encostas do Maciço da Tijuca para atender as diferentes regiões da cidade. Com o crescimento da cidade, outras soluções foram providenciadas, como a captação em grande escala de água do Rio Paraíba do Sul, através do Sistema Guandu. Porém, como sabemos a falta de chuvas no Sudeste hoje vem ameaçando também este sistema.

Mas, graças a D. Pedro II, as águas límpidas da Floresta da Tijuca continuam à disposição, descendo as encostas. Segundo notícias recentes, o Secretário Estadual do Ambiente vem estudando a possibilidade de voltar a aproveitar o manancial para ajudar no abastecimento.




BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor, do blog Eliane de Lacerda e do site Jornal Correio Eletrônico. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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