domingo, 15 de março de 2015

O Oásis da Mídia Oligárquica

"Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem… Se a Rede Globo for a favor, somos contra. Se for contra, somos a favor!" (Leonel Brizola)

Se não passa de preocupação vã a ideia de que uma conjuntura para um golpe – armado ou institucional – está sendo preparada pela direita brasileira a partir de protestos que começaram com setores de esquerda, é fato que a mídia dominante, historicamente desapegada à democracia e apoiadora do Golpe Militar de 1964, tem feito de tudo para direcionar apenas à presidenta Dilma Rousseff a insatisfação que tem levado multidões de brasileiros às ruas. Com vistas a um rompimento democrático ou com objetivos eleitorais para 2014, fica claro o oportunismo e o entrosamento entre os principais veículos das velhas elites, que têm mantido uma linha bastante semelhante e construído mudanças editoriais concomitantes e no mesmo sentido desde que os protestos começaram a intensificar-se.

Na última segunda-feira, 24 de junho, aconteceram protestos em menor número, mais espalhados. No mesmo dia, Dilma falara em rede nacional e propusera 5 conjuntos de medidas na tentativa de aplacar a crise política, incluindo um plebiscito para finalmente construir uma Reforma Política. Os principais portais de notícias do país responderam com novos ataques contra a presidenta, procurando manter o foco totalmente direcionado a ela. As manchetes não deixam dúvidas. “Dilma” está por todos os lados dos portais, sempre acompanhada de expressões negativas e de interpretações contrárias às medidas que propôs.

O site da revista Veja diz em sua manchete que Dilma está “nas cordas”, e que “inventou” um plebiscito ao qual Veja chama de “oportunista”. Afirmar que a presidenta está “nas cordas” nada mais é do que apresentá-la como acuada, à beira do nocaute. Veja diz ainda que o plebiscito é “mecanismo contestável juridicamente” e que a presidenta quer “empurrar a responsabilidade”. Em chamadas secundárias da mesma notícia, fala em “tentativa de golpe bolivariano”, no “perigo” de “desmoralizar o Congresso”, afirma que “líderes do governo não sabiam da proposta”, que “para novo ministro, ideia é inconstitucional” e que Dilma “foge das demandas das ruas”. Por fim, uma entrevista exclusiva com Fernando Henrique Cardoso, que afirma já na chamada: “Política externa de Dilma tem visão equivocada”. Todas as manchetes convergem para atacar e isolar Dilma Rousseff.

Já o site do jornal O Globo noticia na manchete que “Proposta de Dilma de uma Constituinte específica para reforma política é contestada por juristas”. Em chamadas da mesma matéria, diz que “Proposta de plebiscito causa polêmica até entre aliados” e repercute declaração de José Serra (PSDB): “‘Sem pé nem cabeça’, diz Serra sobre proposta de Constituinte. Quer dizer, mesma linha da Veja: crítica geral + isolamento interno + crítica do PSDB. Em outras chamadas, mais ataques: “Na Saúde, medidas propostas por Dilma já não são novas”, “Movimento Passe Livre diz que Presidência é despreparada” e “Só 16% das verbas para mobilidade foram gastas”. Finalmente, uma chamada simpática…a Geraldo Alckmin (PSDB): “Alckmin suspende aumento de pedágios nas rodovias paulistas”.

A Folha de S. Paulo, em seu site, foi pelo mesmo caminho. Destaca não a fala de Dilma, mas a resposta da oposição: “Oposição ataca Dilma após proposta de plebiscito sobre reforma política”, diz a manchete, para na linha de apoio noticiar que “políticos dizem que ela quer desviar a atenção”. Em chamadas secundárias, seguem os ataques. São três: “Aumento de tarifas opõe Dilma a prefeitos”, “Dilma divide problema com Congresso” e “‘Necessitamos de reforma política’, diz Alckmin”. Novamente a construção de discurso da Veja e de O Globo. Mais abaixo, outras duas chamadas completam a linha: “Presidência é ‘despreparada’ no tema transporte, diz Passe Livre” e “Alckmin anuncia suspensão do reajuste dos pedágios de SP”.

O site do Estadão talvez seja o mais significativo da linha geral adotada por esses veículos. Sua organização da capa tem como destaque uma manchete principal e quatro secundárias. Todas elas se encaixam perfeitamente na linha editorial seguida pelos demais portais. A principal, “Dilma propõe plebiscito e Constituinte para reforma política e é contestada”; “Proposta é mal recebida no STF e no Congresso Nacional”; “Anúncio de Dilma é ‘forma para distrair o povo’, diz ex-ministro”; “Passe Livre diz que Dilma não apresentou proposta concreta”; e “Alckmin suspende o reajuste do pedágio nas rodovias de São Paulo”. Ou seja, o nome “Dilma” presente em três das cinco manchetes, quatro das manchetes negativas à presidenta e a outra positiva em relação a Geraldo Alckmin.

O site do jornal Zero Hora ainda mantinha, na madrugada de segunda para terça, destaque total para o protesto que recém ocorrera em Porto Alegre, sem grande espaço relacionado ao que falara Dilma e suas repercussões. Nesta terça-feira, porém, sua capa acompanhou a linha dos demais. Mesmo com uma manchete neutra, todas as três chamadas secundárias apresentam posições contrárias às propostas da presidenta.

Um panorama geral mostra de forma clara uma linha comum entre estes veículos. Essa linha é composta por algumas características presentes em todos ou quase todos os portais:

1. Crítica personalizada, inclusive com uso diretamente do nome de Dilma Rousseff em parte significativa das chamadas;

2. Aparência de isolamento de Dilma em relação a seus próprios apoiadores e a outras instituições da República;

3. Grande espaço para o que a oposição disse a respeito das declarações, com especial atenção a figuras do PSDB;

4. No entorno, chamadas positivas em relação a membros da mesma oposição.

A Mídia Oligárquica não precisa dar golpe, ela já tem o poder, qualquer um que esteja lá, seja esquerda, direita ou militares tem que beijar a mão da globo, por que eles detém a cabeça do povo. Concordo que as Organizações Globo em todos os seus meios (TV, jornal, rádio, Internet e o cacete a quatro) já deu inúmeros motivos para sofrer intervenções e punições, porém qualquer coisa que seja feita vai ser refutada como ataque a liberdade de expressão e censura, que é como eles interpretam a muito necessária lei das mídias que o governo tenta colocar para reduzir o monopólio da informação. .. e o povo vai comprar a idéia da censura e defender a novela em detrimento do país. Por isso não protesto. Meu protesto é não ver TV e nem ler jornal ou ouvir rádio, e isso não me fez um alienado, pelo contrário, estou mais consciente do que nunca! Então não assisto e sempre digo para que outros façam o mesmo, esse é o meu protesto.

Os blogs em geral, e os de notícias particularmente, são os novos e mais ameaçadores concorrentes dos tradicionais veículos comunicação. Embora isso seja claramente percebido pela grande mídia e fique nítido na forma como agem em relação aos blogs, estes últimos, pelo contrário, parecem não ter percebido o papel que hoje desempenham. Inadvertidamente publicam conteúdos ora promovendo a grande mídia, ora prestigiando seus operadores.

Num período em que mais e mais brasileiros passam a ter acesso à internet e a se aventurar em mares por eles nunca dantes navegados, os blogs – em especial os progressistas – antes de apontar novas rotas para esses navegantes, terminam por direcioná-los para retrógrados destinos, levando-os a ter por referência e admiração totens há muito desacreditados.

É pouco provável que ao ligar o televisor você encontre uma emissora transmitindo reportagens produzidas pela concorrente local. Improvável também que encontre em um jornal matérias provenientes de seu principal adversário comercial. Da mesma forma, dificilmente encontrará nesses veículos conteúdos produzidos por blogs da internet.

A razão disso é simples, reproduzir aquilo oriundo do concorrente é fazer gol contra: num só lance reconhece-se publicamente o valor do concorrente, sua competência, qualidade e ainda direciona para ele a audiência. Com os blogs a situação se agrava. Por estarem no formato de páginas de internet podem ser acessados por todos os sistemas operacionais e pelos mais variados aparelhos conectados à internet (computadores, netbooks, notebooks, tablets, celulares, TVs etc.).

Seu formato multimídia (com textos, tabelas, imagens, áudios, animações, vídeos) enriquece e torna mais dinâmica e agradável a experiencia do usuário. A conectividade dos blogs com as redes sociais e a integração entre aplicativos presentes em tablets e celulares permitem que nesses dispositivos os conteúdos dos blogs sejam rápido e facilmente compartilhados com outros usuários. Que sejam copiados para arquivos ou aplicativos; armazenados no aparelho ou em memórias externas (reais – pendrives, ou virtuais – nas nuvens); ou transferidos de um aparelho para outro via bluetooth, wi-fi, NFC e assemelhados.

Levando em conta apenas esse conjunto de vantagens os antigos veículos de comunicação já teriam muito que se preocupar com a simples existência dos blogs. Acontece que em acréscimo a isso há o fatal golpe lançado na espinha dorsal desses e de outros veículos: a quebra dos monopólios de publicação e divulgação de conteúdos.

Se antigamente era preciso ter competência, contatos e/ou recursos para ter algo publicado – seja em jornais, revistas, livros ou outros instrumentos de divulgação -, hoje basta criar umblog e lá publicar o que se tem dizer. Não é preciso muitos recursos (dá até mesmo pra fazer tudo sem gastar um real), não requer q.i. (quem indica) e nem mesmo excelência naquilo a que se propõe publicar.

Um escritor, um pesquisador, um fotógrafo, um jornalista, um cozinheiro, um determinado profissional ou um indeterminado amador não precisam mais recorrer à editoras, instituições, entidades ou empresas para tornarem público o conteúdo produzido.

Os blogs de notícias geram uma preocupação adicional para os antigos veículos de comunicação: muitos deles são capitaneados por profissionais com longa experiência, cujas carreiras e formação se deram justamente nesses antigos veículos.

O temor que pequenos Davis derrubem gigantes Golias ocasiona um comportamento padrão da grande mídia em relação aos blogs:

1. Um mundo inexistente. Pretender dar a entender que os autores de blogs não produzem conhecimento ou conteúdos relevantes. A princípio blog serve apenas para entretenimento.

2. Crítica indireta. Quando pretendem refutar alguma publicação de blog, não citam a página que pretendem negar. Indeterminam o criticado, como se tratasse de algo difuso, de uma minoria, não tendo alguém que pudesse ser ouvido e não dando margem a pedido de direito de resposta.

3. Aqueles que não devem ser mencionados. Quando falam de pessoa certa se referem a ela de modo incerto. Não dizem quem é, não mencionam seu nome, não dão crédito quando este é devido.

4. Desqualificação profissional. Quando não há como deixar de citar nominalmente a pessoa, procuram desqualificá-la. Omitem qualificações relevantes, seja sua formação, sua experiência profissional, atividade desempenhada ou biografia, chamando-a de blogueiro financiado pelo governo.

5. Desqualificação civil e profissional. O “blogueiro” deixa de ser blogueiro e passa a ser identificado como profissional determinado quando publicam penalidade sofrida ou adversidade vivida. Objetivo: causar dano à imagem do indivíduo.

Em vista disso, como agem os blogs diante desses e do comportamento desses concorrentes?

1. Reproduzem dia sim, outro também, textos provenientes desses veículos de comunicação.

2. Citam dia sim, noite também, a opiniões e comentários dos profissionais que trabalham nessas empresas, por mais irrelevantes que sejam as coisas que eles digam ou superficiais, parciais e sistematicamente incorretas e desmentidas pela realidade dos fatos as análises que realizam.

3. Promovem, indiretamente, esses veículos.

É bom lembrar que à medida que o país se desenvolve e as regiões se desenvolvem a grande velha mídia – hoje proveniente de São Paulo e do Rio de Janeiro - a cada dia perde influência para as produções regionais.

Na verdade, fora do sudeste a maioria dos brasileiros nem sabe da existência dos grandes jornais do Rio e de São Paulo.

Um contingente enorme de brasileiros que não lê jornais e revistas está adentrando na internet e passa agora a ter a oferta de um mundo de notícias.

Ao invés de os blogs possibilitarem novas referências a esses internautas acabam, por descuido, é direcionando os incautos para as velhas oligarquias midiáticas. Eles precisam direcionar seus leitores para outros blogs e sítios que estejam desvinculados da velha mídia oligárquica, precisam propiciar o ambiente no qual os navegantes possam tomar para si novos referenciais para a obtenção de informação e conhecimento.

Os blogs devem promover os verdadeiros pensadores, os reais e relevantes formadores de opinião que transbordam na rede. Se tantas pessoas meritórias já falecidas ou das quais somos contemporâneos pensaram ou hoje debatem construtivamente sobre nossa história, nossa realidade e sobre os caminhos do mundo, por que então reproduzir inadvertidamente aqueles operam em sentido contrário?

Com os blogs podemos fazer mais pelas futuras gerações, podemos dar-lhes novos referencias.

Para isso os blogs precisam estar cientes que são os novos veículos de comunicação, se estabelecerem como novos referenciais de informação e conteúdo, se reconhecerem como concorrentes diretos e caminho alternativo à grande mídia. E tratar o concorrente como um concorrente.

À medida que a expansão da mídia provoca uma mudança no comportamento humano, obrigando a sociedade a deter informação e o conhecimento do mundo a sua volta in real time no âmbito social, geográfico, cultural, político, etc., ela deixa de ser apenas um fator complementar no processo eleitoral, e torna-se uma profunda influência na formação de opiniões. Os empresários midiáticos sabem do grande poder que possuem e os políticos conhecem as conseqüências deste poder, vendo a necessidade de centralizá-lo de acordo com os seus interesses. E como parte de uma sociedade que é programada apenas para receber informação e aceitá-las, não processá-las; ligamos a TV e abrimos jornais pensando que estamos informados, mas somos enganados por esses cúmplices.

Com as primeiras experiências da influência da mídia na população, os partidos políticos começaram a se adequar com meios legais ou ilícitos à nova estrutura das campanhas. Grupos políticos compram, criam ou se associam às agências publicitárias e fomentam políticas de benefícios com emissoras de rádio, jornais e TV, como exemplo mais famoso o império midiático de Antônio Carlos Magalhães (Jonas e Almeida, 2006). Através dos sistemas de concessões no Brasil na rede de comunicação entre os políticos, facilmente encontra-se um paralelo entre os donos do poder público e a imagem, revelando a falta de ética dos profissionais da mídia, deturpando seu título de profissional responsável por pesquisar, processar e divulgar informações precisas e atuais. As notícias já não podem ser vistas como verdades absolutas, sem um processo reflexivo antecipado e também posterior.

Com o desenvolvimento da revolução informacional, os resultados de ações realizadas pelos gestores passam a ser imediatamente representados pela mídia. Não é possível consertar eventuais lapsos, a melhor resposta obrigatoriamente tem que ser a primeira. Os frutos dessa exposição representados pelo convencimento ou descrença mostram a estabilidade da imagem na mente humana. Por isso, os partidos políticos vêem o domínio midiático como o poder de controlar a influência de seus candidatos através da deturpação ou omissão, manipulando com o poder representado pelo capital o desenvolvimento ideológico constituído socialmente da opinião humana.

Classificando a mídia como o conjunto das instituições que usam tecnologias para realizar a comunicação humana, tem-se esta comunicação, ou seja, a transmissão de informações de idéias, acontecendo se para isto for utilizada uma ferramenta em particular. Esses aparatos tecnológicos (instituições que têm a tecnologia específica) correspondem às ferramentas e o conjunto destas compõe a mídia. A grande capacidade que a mídia tem de atingir uma quantidade grande de pessoas, de fazer exposições e de deter a informação, assim como a maneira com a qual se deseja que ela seja transmitida, garante a ela considerável poder simbólico e visibilidade diante do contexto social. A indústria da mídia, assim como todos os outros segmentos capitalistas, tem fins primordialmente econômicos, muito embora sua eficácia simbólica gire em torno da idéia de que o seu objetivo é o de promover a comunicação.

Ética é o estudo da moral. É o “estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. A idéia pretendida de um político, por exemplo, na qualidade de uma pessoa pública que cuida do bem comum, deveria ser um referencial de pessoa honesta, que preza pela preservação de sua moral, bem como a do povo que representa. O interessante, é que no caso do brasileiro, a idéia de moral criada por muitos políticos é que o relevante para seu trabalho é apenas acumular dinheiro. Dessa forma, o conceito de moral para eles não é o agir no sentido de promover uma situação de isostasia entre o povo, suas necessidades e seu bem-estar. Longe disto, a idéia de moral está intimamente atrelada ao sentido que se atribui, ao fato de ter a maior quantidade de renda que se pode adquirir, mesmo que para isto seja necessário recorrer à vias ilegais. Assim, o sentido que atribuímos a objetos e pensamentos são de extrema importância para a dinâmica social e o sentido que damos é conseqüência da ação do poder simbólico.

Seguindo o desenvolvimento das concessões na instalação de empresas midiáticas no Brasil, logo após o final da ditadura militar, diversos grupos políticos passaram a utilizar os meios de comunicação para alargar seu poder no imaginário social das massas, como se ocorria já nos EUA e parte da Europa. Hoje, vemos a preponderância da política espetáculo, da política sedução, do marketing político, da mídia política, da espetacularização do poder.

Exemplificando como membros de ao menos uma dessas organizações, temos o Bispo Wanderwall do PL de São Paulo, concessionário de 6 emissoras de rádio no estado nas eleições de 2006; José Batista PFL/SP, 9 emissoras de rádio e 2 de TV; ACM, 3 TVs e 1 rádio; Flávio Arms PT/SC, 6 emissoras de rádio. Isso mostra a isenção de imparcialidade dos diretores gerais dessas empresas, que através de seus interesses, precisam aliar à conquista da manipulação do poder público uma relação de benefícios e violação de quase todos os princípios da administração pública.

José Sarney declarou em entrevista a revista Carta Capital de 23/11/2005: "[Nossa] única atividade em empresas é relativa à atividade política: jornal, rádio e televisão. Temos uma pequena televisão, uma das menores, talvez, emissoras da Rede Globo. E por motivos políticos. Se não fôssemos políticos, não teríamos a necessidade de ter meios de comunicação."

Os números comprovavam naquelas eleições sua honestidade em declarar a sua adesão para a conquista do poder: uma relação mais próxima entre o poder simbólico e o poder econômico. Sarney junto com sua filha Roseana possuía 12 emissoras de rádio e 6 de TV no estado do Maranhão. Este feito é mais comum do que se imagina. Dados como esses podem nos ajudar a entender que, para alguns políticos, a sua projeção e a manutenção do poder, ou seja, o sentido que se dá a importância de ocupar a posição que se ocupa, é mais importante que o sentido de exercer o papel do político, do gestor público.

Dentre os maiores coronéis eletrônicos temos: Antônio Carlos Martins Bulhões (PMDB-SP) em primeiro lugar; no segundo empatam 6 sócios, mas tem-se o deputado federal Roberto Rocha (PSDB-MA) em segundo; Prefeito José Carlos de Souza (PMDB-SE) em terceiro e em décimo o Senador Fernando Collor de Mello (PRTB-AL). Cabe a reflexão que nossos representantes parecem que a primeira coisa que fazem ao possuírem representatividade, é cuidar dos interesses individuais, meios de nos controlar. O poder político domina qualquer ideologia, informação, lugar, ou seja, usa de todos os meios que o capital é possuidor para reinar.

Há muito se sabe que o uso da máquina pública para fins pessoais é uma prática comum dentro do âmbito político. Esta observação e seus casos ampliam os limites do Estado da Paraíba. Como foi proposto, governar não consiste apenas em fazer a manutenção da “atividade de coordenação dos indivíduos de uma maneira centralizada”. Mais do que isso, governar é também encontrar caminhos para “sobreviver” dentro do contexto político. É proteger-se dos adversários utilizando a mídia tanto para a autopromoção, quanto para o ataque a seus opositores. Não obstante, a aparente dialética entre ideologias partidárias com suas verdades a respeito da melhor forma de administrar, legislar ou julgar se desfaz. Uma vez que se confere que estas diferentes vertentes, na realidade, correspondem à mesma face de um pensamento: manipular a mídia de maneira a promover-se para aumentar seu poder e, com a mídia, manipular também as idéias dos cidadãos, conceitos como o de ética, bem como o conceito do que é a própria política.

Enfim, fomos domesticados a aceitar as coisas como são, não enxergarmos como poderiam ser e se o fazemos, não agimos pra defender nossas utopias interiores. Para termos uma consciência livre da culpa, universalizamos o erro: “político é tudo igual mesmo”, ou simplesmente, vendemos nossas convicções por meio da aceitabilidade alheia sobre o velho adágio: “uma andorinha só não faz verão”, levando ao caos atual da despolitização.

É perceptível a atuação dos oligopólios no sentido de serem apenas a parte de um processo simbiótico, onde também se incluem a máquina pública, a mídia e os conceitos adjacentes à formação do pensamento público e à manutenção do seu poder. Pretende-se uma leitura da sociedade sobre os meios de comunicação e suas informações, para que sejam: opinativas, informativas sem distorções, reflexiva, e logo, libertária, sem criar paradigmas. Como também, sugere-se uma regulação real destes meios, afastando os políticos profundamente envolvidos com esses interesses.

Não é novidade pra ninguém habituado a consultar mídias alternativas que a grande imprensa é antiesquerdista por princípio e antigovernista por opção política. O apelido PIG – Partido da Imprensa Golpista, uma referência a porco, em inglês – não é só uma alusão à atuação conspiratória da mídia contra o governo e as demandas populares, mas também uma acusação ao papel partidário que adota.

Desde pelo menos o golpe de 1964 a mídia se tornou ator central da opinião pública nacional, trabalhou para fundamentar o golpe, e até hoje expressões como ditabranda podem ser encontradas em editoriais. Obviamente as redações dos órgãos de imprensa não eram formadas apenas por apoiadores do golpe, mas a pressão exercida sobre editores e jornalistas adestrou o comportamento da opinião pública. A velha mídia é constituída por empresas, e as empresas tratam as questões políticas como uma questão econômica – não exatamente macroeconomia, mas microeconomia, as contas domésticas. Nacionais e internacionais.

Joseph Nye, um consultor do departamento de Estado travestido de intelectual orgânico, define muito bem o poder norte-americano. Aponta suas duas origens: Hard Power e Soft Power (em má tradução, poder duro e poder brando; poder militar e poder ideológico seria mais exato). O que melhor traduziria o poder ideológico que o poder midiático? A proposta de leitura do contexto internacional criado pela Guerra Fria, na mídia periférica – entre elas a brasileira – foi a necessidade de se alinhar partidarização política em defesa de regimes opressores e aliados aos interesses do grande capital em troca de propaganda e financiamento.

Corporações compravam – e compram – propaganda. Em troca, querem as notícias certas. Corporações internacionais norte-americanas sempre financiaram ações da política externa naquele país. Nessa estratégia, buscaram oligarquias locais para sustentar internamente suas políticas. Aliado a isso, regimes ilegítimos colocaram suas estatais e órgãos de comunicação para comprar propaganda. Soft Power e Hard Power significam isso.

Nem sempre a força militar é suficiente para impor o silêncio à sociedade civil. A inovação do departamento de Estado dos Estados Unidos é que eles passaram a oprimir opositores internacionais e comprar silêncios. Os regimes das oligarquias locais e seus apoiadores internacionais financiavam e ainda financiam a grande imprensa. E a grande imprensa não tem mais condições de descolar-se disso. Boa parte da literatura em Ciência Política – José Luis Fiori, Emir Sader, Boaventura de Sousa Santos etc – define o neoliberalismo como a invasão estrangeira sobre os países periféricos, mas sugiro que, como estratégia, isso tenha surgido já nos anos 1950 do macarthismo.

Quando houve o processo de transição para as democracias na América Latina, os governos democráticos assumem ou mantém o mecanismo de financiamento da mídia, entre outras coisas porque não vai conseguir apoio e legitimidade dos veículos de imprensa sem a manutenção do esquema que inevitavelmente concentrou a imprensa. Vejam o que aconteceu com Cristina Kirchner e o Clarín, na Argentina, e o que aconteceu com Hugo Chaves e a PDV, na Venezuela. Não por acaso, cada país da América Latina tem seu grupo midiático hegemônico. E neste caso não se trata simplesmente de manter a propaganda governamental e das empresas estatais nas páginas dos jornais e revistas, mas também de manter o acesso dos interesses do grande capital nos governos e o acesso privilegiado à informação dos âncoras dos principais órgãos de imprensa. São essas as fontes que fazem com que a mídia tenha sua capacidade de financiamento ativa e seu poder de influência perpetuado. O capital midiático nacional está comprometido, associado e dependente do capital corporativo internacional.

Mas, fica a pergunta: por que a mídia brasileira tornou-se praticamente o principal partido de oposição? Obviamente porque o governo tem trabalhado, consciente ou inconscientemente, na contramão das três principais fontes do poder da mídia brasileira.

Os governos que assumiram após 2002, primeiro, fizeram uma tentativa de ressuscitar interesses nacionais e corporações nacionais para concorrer no mercado interno e externo. Segundo, reduziram o financiamento público e da propaganda governamental na grande mídia e tentaram pulverizar o financiamento da comunicação governamental (mesmo que timidamente). Terceiro, e talvez mais impactante, não mostraram a necessidade de se legitimar na mídia e dar a ela acesso privilegiado à informação.

Esta terceira ação do governo, ainda que bastante modesta, talvez seja a principal mudança conjuntural das comunicações no Brasil desde o golpe de 1964. O fato de o governo Lula e a sua posse não ter se legitimado na grande mídia e até mesmo a ausência de necessidade de Lula falar com seus apoiadores via mídias foi um grande golpe naquela imprensa ligada à legitimação dos governos e ativa como Soft Power.

Lula não teve apoio dos grandes veículos de comunicação, e mesmo que não tenha agido sistematicamente para multiplicar e descentralizar o acesso e os meios de comunicação, agiu no sentido de não se pautar ou se legitimar pelos meios de comunicação. Isso, por si só, é uma mudança que compõe uma ruptura fundamental em relação a pelo menos o regime de 1964. Mudança que Dilma aparenta dificuldade em manter…

Desde 1964 todos os governos precisavam de legitimidade institucional porque não dispunham de nenhum canal de comunicação popular que os legitimasse. Ao derrubar Jango, os presidentes militares precisavam de todo aparelho ideológico de que dispusessem para manter o poder, diante da fissura que realizaram nas instituições da sociedade civil. A mídia era personagem central. Sarney idem, herdou o trono de Tancredo e não podia se dar ao luxo de não se apoiar em propaganda midiática. Collor, então, foi a expressão cabal da importância e influência da mídia. Forjado nas redes de televisão e jornais, foi também o maior exemplo dessa esquizofrenia brasileira. Itamar não teve força para agir e FHC foi o que melhor contemplou os interesses que se manifestavam desde os militares, porque reforçou a presença das corporações internacionais no país, promoveu privatizações e conseguiu aliar os interesses internacionais em pauta com boa circulação na imprensa.

Lula chega ao poder com um projeto próprio de governo. Um verdadeiro escândalo àqueles que caminhavam soberanos nos corredores dos palácios, dizendo quais informações eram relevantes e quais não eram. Concordemos ou não com Lula, seu estilo próprio de comunicação é novidade. Uma enorme novidade. Os projetos de poder, até então, não eram representados pelos partidos, mas pela aliança entre capital internacional e empresas nacionais dependentes – incluindo a grande mídia com seus empresários conservadores, associados ao capital internacional em negócios dependentes do financiamento externo. Lula e os governos petistas romperam com isso?

Seria ingênuo dizer que sim, mas, ao não alimentar as engrenagens desses mecanismos, criaram muitos ruídos e falhas de funcionamento na velha estrutura. Para os jornalistas da grande mídia é um escândalo – repito, um escândalo – o PT ter um projeto de poder, uma estratégia para ganhar cada vez mais eleições. Mas, o que é um partido político se não uma associação que organiza um projeto de tomada do poder e governo? É pra isso que se constitui um partido político. E, neste sentido, ao ter uma pauta própria de governo, a maior ruptura realizada foi a retomada (pelo menos em parte) da agenda de governo. Sim, aconteceu o óbvio, mas um óbvio que não ocorria no Brasil desde 1964, ao menos. Agora, veja só que escândalo: o próprio governo reivindica fazer a pauta de governo.

Quem se acostumou a dizer o que deve ser prioritário? O que é emergencial, se é a inflação ou o emprego, se é a política interna ou externa, se é a copa do mundo ou a saúde pública? Quem dizia qual pauta deveria ser seguida era a mídia. Editores tinham poder em relação a vários temas. Obviamente, no regime militar o limite era não falar mal do governo, não acusá-lo diretamente, mas, entre os temas discutidos, a mídia tinha papel de representar interesses incorporados ao governo. E depois, na redemocratização, e até o final do século XX, foi crescente a influência da mídia.

Talvez porque os elementos não estavam postos, ou porque não havia maturidade política, ou porque faltou apoio popular, ou porque faltou uma análise mais aprofundada, mas devemos reconhecer que o governo negligenciou essa área. Poderia avançar muito mais em questões como a descentralização e multiplicação dos espaços midiáticos, a pulverização dos recursos e a abertura da pauta e da informação.

As ações do governo tiveram que enfrentar momentos de crise instigados por uma imprensa não só tendenciosa, mas raivosa. Na ausência de uma oposição com base social, ela é hoje a principal oposição organizada. Nas suas constantes tentativas de deslegitimar as políticas do governo e tentar conseguir apoio popular, substitui qualquer liderança partidária.

O governo foi tímido na questão da comunicação, e talvez Dilma esteja pagando um preço alto por isso. Mas quem perde é a sociedade brasileira. Não temos um grande veículo de esquerda circulando entre os maiores editoriais, são esparsas e cada vez mais esmagadas as posições progressistas. Agora não se trata mais de uma visão distorcida da realidade, porque só apresenta um lado da questão – passamos para as visões tendenciosas, que se apoiam na ladainha da oposição cega dos veículos de comunicação. Só isso explica a nova moda de quem acha que questionar a Copa do Mundo é um ato de cidadania.

#‎RespeitoAoBrasil‬

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