segunda-feira, 2 de março de 2015

O Estado Islâmico e suas atrocidades

Desde o início de sua ofensiva, em junho de 2014, o Estado Islâmico avançou de forma exponencial. Beneficiado pela fraqueza e sectarismo do Estado Iraquiano e pela guerra civil Síria, os radicais ganharam reforços e conquistaram novos territórios, propagaram o terror a partir de dizimação de minorias étnicas e chocaram o mundo com a execução de vítimas inocentes. Hoje, lideranças mundiais debatem a formação de uma coalização capaz de parar os radicais, que avançam cada vez mais fortes e atrozes.

O surgimento do Estado Islâmico só foi possível graças a uma sacada inédita de seu chefe, Abu Bakr al-Baghdadi: porque não explorar a marginalização de um povo repreendido por sucessivos governos e a ira de comandantes expulsos das Forças Armadas para criar uma nova potência do terror?

Há quem afirme que s origens do extremismo do Estado Islâmico remontam a morte do "cabeça" do Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, executado pelos EUA em 2006. Com a insurgência de Abu Bakr al-Baghdadi sob a liderança do Estado Islâmico, esse discurso caiu por terra, e o mundo passou a testemunhar as atrocidades de que o grupo é capaz.

O Estado Islâmico é alimentado pelo ódio aos xiitas, às minorias, aos Estados Unidos, e em menor grau á Europa. A insurgência tenta impor uma versão ultraconservadora do Islamismo contra o que acredita ser uma expansão do xiismo, liderado pelo Irã, e que tem forte influência no Iraque.

Os jihadistas - extremistas islâmicos praticantes do terrorismo motivado por questões religiosas - do Estado Islâmico usam técnicas extremamente violentas para disseminar sua ideologia, entre elas decapitações, crucificações, apedrejamentos, genocídios e sepultamentos de pessoas ainda vivas nas regiões que domina. Toda essa brutalidade é fruto de ideologias e modus operandi antigos.

O governo americano estima que a principal fonte de financiamento do Estado Islâmico seja o petróleo iraquiano. Os jihadistas controlam desde junho de 2014 uma parte importante da indústria do petróleo no Iraque, a cidade de Mossul, localizada no norte do país e que produz quase 2 milhões de barris por dia. Os terroristas também exercem controle sobre a planta de gás de Shaar e Baiji, onde está localizada a maior refinaria do país. Com os lucros, os terroristas compram armas, ampliam as suas lideranças e recrutam mais soldados para a "causa".

O Estado Islâmico costuma recrutar jovens sunitas desiludidos e descontentes em vários países do mundo e que veem o grupo como uma poderosa fonte de vitória e salvação. A ONU denunciou neste ano o recrutamento de crianças, que eram explorados como soldados suicidas ou enviadas à frente de combate para servir de escudo para os mais experientes.

Os jihadistas do Estado Islâmico já destruíram desde junho centenas de mesquitas, santuários e outros lugares de grande importância cultural e religiosa no Iraque, entre eles, o túmulo do profeta Jonas (Nabi Yunis) e o santuário do profeta Seth (Nabi Chit), considerado o terceiro filho de Adão e Eva na tradição judaica, islâmica e cristã.

Com o argumento de que filosofia e química não se adaptam às leis de Deus, os radicais proibiram aulas dessas disciplinas nos colégios de Raqqa, na Síria, e estabeleceram um “plano islâmico” para os centros de educação. Em outras palavras, exigiram que o plano de estudos estivesse de acordo com o islamismo e fosse revisado por uma junta educativa do próprio Estado Islâmico.

Milhares de civis pertencentes à minoria yazidi puderam escapar em junho e julho do cerco dos jihadistas em torno do Monte Sinjar, no norte do Iraque, e chegaram a zonas próximas da Síria e do Curdistão iraquiano com a ajuda militar das forças curdas. Aqueles que não tiveram a mesma sorte e se recusaram a se converter ao islamismo foram sumariamente executados.

Os terroristas listaram regras sobre como o véu e outras roupas devem ser utilizadas pelas mulheres de Mossul em uma tentativa de impor uma radical vertente do islamismo à população. Também foi ordenado que todas as moças e crianças se submetessem à mutilação genital.

O EI proclamou em junho a criação de um califado nas regiões conquistadas, e seus membros se apresentaram como herdeiros de um regime que existiu da época do profeta Maomé até um século atrás. Os terroristas pediram a todos os muçulmanos que jurassem lealdade ao seu chefe, proclamado califa, que seria o sucessor do profeta Maomé, como chefe da nação, e que tem o poder da lei islâmica na terra do Islã.

Os objetivos do Estado Islâmico é expandir o seu califado por todo o Oriente Médio, que se pautaria pela Sharia, a Lei Islâmica interpretada a partir do Alcorão, e estabelecer conexões na Europa e outras regiões do mundo, com o propósito de realizar atentados que lhes possam conferir autoridade através do terror. A concepção de Jihad, ou Guerra Santa para o Islã, que o Estado Islâmico possui é a mesma de outras organizações terroristas, como a Al-Qaeda ou o Hamas: expandir o modelo teocrático radical islâmico de governo pelo mundo, por meio dos métodos terroristas.

É curiosa a grande adesão de simpatizantes não islâmicos e, frenquentemente, de origem europeia às causas do Estado Islâmico. Muitos jovens do Ocidente se oferecem para integrar o grupo e servir ao seu propósito jhadista. Esse tipo de comportamento preocupa vários chefes de estado da Europa, sobretudo pela possibilidade de infiltração que tais jovens, treinados como terroristas, possam realizar em solo europeu.
O Estado Islâmico pode estar a caminho de cometer mais uma de suas atrocidades. Na terça-feira (24/02), sequestrou 90 cristãos assírios no nordeste da Síria. É sempre uma incógnita o que o EI planeja fazer. Pode muito bem matar de maneira bárbara os reféns – o grupo se refere aos cristãos como “cruzados” – ou considerar a possibilidade de usá-los como moeda de troca em alguma negociação pela libertação de terroristas. Muito embora a decisão selvagem de queimar numa jaula o piloto jordaniano no mês passado seja a imagem mais recente do tratamento destinado a reféns, o EI já se envolveu em trocas de prisioneiros no passado.

Sobre o rapto dos cristãos assírios é importante fazer algumas observações; a província de Hassake, no nordeste da Síria, era o lar para a maior parte dos 30 mil cristãos do país até 2011, quando a guerra civil eclodiu, causando a fuga de milhões de pessoas. Os assírios estão presentes também no Iraque, muito embora o número de cristãos no Oriente Médio esteja diminuindo bastante em função do fundamentalismo islâmico.

A situação dos cristãos é similar a de muitos grupos minoritários na região. Esta guerra na Síria e o conflito ideológico e militar com o EI está também relacionado ao futuro das minorias no Oriente Médio. É o caso dos curdos, por exemplo. Ao contrário dos cristãos, no entanto, os curdos têm capacidade militar para enfrentar o Estado Islâmico e hoje exercem papel fundamental na linha de contenção aos avanços do grupo. No último domingo, a YPG, sigla da principal milícia curda síria, foi responsável por duas grandes ofensivas ao EI no nordeste da Síria. Esta região é o epicentro do confronto militar e graças a curdos da Síria e do Iraque – e, claro, ao apoio dos ataques aéreos das forças americanas – o EI encontra dificuldades para ampliar seus domínios.

Os combatentes curdos do norte do Iraque também enfrentam o EI. Conhecidos como Peshmerga (cuja tradução é “aqueles que encaram a morte”), têm um efetivo de cerca de 190 mil militantes e, desde a queda do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial, estão organizados como as forças armadas curdas. Curdos, cristãos e yazidis têm muito a perder com a viralização da luta do Estado Islâmico. Na esteira dos acontecimentos no Oriente Médio, o destino das minorias está em jogo. E isso quer dizer, de maneira um tanto dramática, que o resultado desta sangrenta reorganização regional irá determinar a sobrevivência destes grupos minoritários.

O mundo anda pequeno demais. Se há alguma vantagem nisso, há certamente muitas desvantagens. Em questões de segurança, por exemplo, a facilidade de tráfego de pessoas e tráfico de armamento, por exemplo, são grandes desvantagens. Os acontecimentos recentes mostram isso; está cada dia mais banal conseguir uma Kalashnikov. Como ilustração pontual deste cenário, um dos protagonistas dos atentados em Paris comprou seu armamento com facilidade na Bélgica. Esta não é uma questão especialmente belga, mas as fronteiras frouxas permitem fluxo de entrada e saída de armamento em toda a Europa.

Há outros elementos que contribuem para dificultar o combate ao terrorismo: a grande quantidade de europeus que têm se filiado aos grupos terroristas internacionais. As estimativas são de que entre três e cinco mil cidadãos da União Europeia tenham ido lutar na Síria ao lado do Estado Islâmico. E após receberem treinamento e passar por intensa mobilização de discurso, devem retornar para casa. Prontos para agir, claro. Nesta quinta-feira, as forças de segurança belgas impediram que fosse colocado em prática um ataque no país. De acordo com os veículos internacionais, os atentados foram frustrados muito pouco tempo antes de serem realizados.

Até este momento, o Estado Islâmico não havia executado atentados na Europa, muito embora o discurso do grupo não seja restrito ao Oriente Médio (o objetivo final é a construção do califado islâmico, inclusive em regiões da Europa). Talvez, esta mudança na abordagem seja fruto dos acontecimentos das últimas semanas – as ações dos terroristas franceses passaram a ser alvo de disputa entre al-Qaeda e Estado Islâmico. A partir de agora, não faz mais diferença se eles agiram como os chamados “lobos solitários” ou se fato eram vinculados a essas organizações fundamentalistas e extremistas islâmicas. Parece que Estado Islâmico e al-Qaeda retomaram seu interesse pelo território europeu a partir da “demanda” desses terroristas que agem a partir da inspiração desses grupos. De certa maneira, al-Qaeda e Estado Islâmico aplicam uma espécie de “lógica capitalista” em que as empresas decidem agir onde há apelo de seus clientes.

Como funcionários voluntários, os europeus que correram para se juntar às fileiras dos terroristas no Oriente Médio acabaram por influenciar na tomada de decisões de seus “patrões”. Agora, a partir do imenso poder da narrativa do Estado Islâmico, o grupo parece ter uma enorme vontade de realizar um grande atentado na Europa – claro, para atender às expectativas de parte do bando.

Nos últimos dias o mundo assiste a um espetáculo horrendo que antes da Internet seria impossível. Fomos levados pelo Youtube para dentro de uma realidade que antes só conhecíamos em livros de história medieval. Ali as pessoas são condenadas à morte sem julgamento prévio apenas por serem “infiéis” à religião dos líderes. Homossexuais, prisioneiros políticos, reféns de guerra são todos executados com requintes de crueldade. Os vídeos mais recentes mostram homens atirados de cima de prédios altos e um piloto jordaniano queimado vivo dentro de uma jaula na frente de soldados fardados impassíveis.

O Estado Islâmico estabelece seu domínio de força pelo Iraque e Síria sem pedir desculpas e sem tentar se explicar. Eles são o que são. Se guiam pelas palavras e ações de seu profeta Maomé e pelo seu livro sagrado o Alcorão. Quem estudou história sabe que a inspiração que eles recebem do profeta não é equivocada. Maomé estava longe de ser um pacifista. Conquistou à força da espada toda a península Arábica e ainda apavorou o norte da África. Combateu os infiéis, colecionou escravas sexuais, extorquiu e dominou tribos inteiras.

O Alcorão é no mínimo ambíguo. Nele se acham bizarrices que justificam a crueldade do EI, mas também se lê mensagens de paz e luz. Alguns mal intencionados podem dizer que a Bíblia nos confunde da mesma maneira. Engano. A Bíblia é costurada pela mensagem de amor do Deus Jeová-Jesus pela humanidade. Alá ao contrário só nos pede submissão. O Alcorão não descreve o amor de Alá por seus servos. Em poucos versos se refere a amor e a maioria são sobre o amor que os servos devem a Alá. Existem 27 referências ao que Alá não ama. São 20 referências sobre o que e quem ele ama, todas condicionais. Ele ama quem o ama, ama quem faz o bem, ama quem faz guerra em seu nome. Não, me permitam dizer, não há como dizer que a Bíblia e o Alcorão são semelhantes.

Você já se perguntou por que o Estado Islâmico é tão preciso em promover as imagens dos atos cruéis que comete? Por que o EI não tem pudores em divulgar imagens do inferno que geram? Por que não esconde as atrocidades que comete como a SS nazista fez quase até o fim de seu reino de terror? O que ganham eles em exibir para o mundo o seu arsenal de impiedades?

Se nós conhecêssemos melhor a cultura muçulmana saberíamos que eles ganham pontos com todos que lhes interessam. Só chocam a nós. Aos seus, impressionam. A disputa por status entre eles não se dá na área do amor, da integridade moral, caráter, nem dinheiro, mas na capacidade de conquista, e na crueldade com os infiéis. Altamente equipados, tecnologicamente avançados eles sabem o que lhes rende prestígio entre seu público alvo. Grupos radicais se espelham neles, líderes de movimentos radicais aspiram chegar até o padrão estabelecido pelo EI. No mundo inteiro jovens muçulmanos ou até ocidentais os veem como heróis modernos, ícones de masculinidade e poder.

E agora Iraque? E agora Síria? O Estado Islâmico apresentou a estes países um dilema. O problema não é mais a América, a OTAN, os países ocidentais. A linguagem vitimizada cultivada pelas esquerdas não explica e não lhes resolve o problema real que estão enfrentando. Um Iraque dividido e incapaz de se organizar não pode resistir contra a força imperialista implacável do EI. O Iraque e o que resta da Síria fora do controle deles sabem que combate-los é imperativo.

O Iraque agora tem que optar pelo reino de terror do EI ou organizar-se num estado democrático que vai lhes dar o poder de reagir. Sabem que com eles não há solução diplomática ou negociação possível. Se entender no meio de sua diversidade multi-étnica, se organizar num estado civil forte, escolher uma constituição que agrade a todos não é tarefa fácil. Mas foi o que todos os outros estados organizados do mundo lograram fazer. Eles não tem mais tempo para chorar como um bebê. É tempo de crescer se quiserem salvar sua pele.

O grande benefício do Estado Islâmico foi mostrar ao mundo muçulmano que o problema são eles mesmos. Todos os países islâmicos do mundo hoje sabem quem seu verdadeiro inimigo é. Existem agora para os países árabes ainda de pé e organizados, dois caminhos claros. Se eles continuam permitindo e financiando o terror e grupos radicais perdem “face” se pedirem ajuda ao ocidente para combater o EI. Se proclamam que o Estado Islâmico é uma anomalia e não uma expressão fiel do islamismo terão de parar de fazer vista grossa ao extremismo comum em seus territórios da Palestina ao norte da África. Terão de se alinhar com valores ocidentais e convencer ao mundo e a si mesmos que não são o EI. Estas decisões são tanto de natureza prática quanto ideológica. Agora a porca vai torcer o rabo.

Se você ora pelo mundo árabe é um bom momento de por seus joelhos no chão.

Fontes: BBC, agências AP, AFP, Reuters, EFE e jornais internacionais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário