quinta-feira, 12 de março de 2015

Indústria do açúcar manipulou a ciência como fez a do tabaco

Em 1954, Robert Hockett foi contratado pelo Comitê de Pesquisa da Indústria do Tabaco nos EUA. O objetivo (não declarado) dessa instituição era semear dúvidas sobre a solidez científica dos estudos que mostravam os perigos do tabagismo. Por meio de ferramentas como essa, as indústrias do setor estabeleceram vias de colaboração com o Estado, em princípio para cooperar com o desenvolvimento de estratégias para reduzir os danos à saúde causados por seus produtos. Entretanto, como determinaram sentenças judiciais nos últimos anos, a indústria aproveitou tais espaços para bloquear todo tipo de medidas que pudessem prejudicar seus interesses comerciais, como o financiamento de programas para deixar de fumar.

As más práticas da indústria do tabaco ficaram registradas em vários litígios dos quais se tornaram públicos documentos que mostravam suas táticas de manipulação. Entretanto, essa indústria não é a única que utilizou a ciência para desvirtuar resultados científicos que podiam prejudicar seu negócio. De fato, antes de trabalhar para as indústrias de tabaco, Hockett fez carreira fomentando a suspeita para a indústria do açúcar. Neste caso, o objetivo era evitar que a evidência de seus danos para a saúde dental se traduzisse em políticas de saúde que reduzissem o consumo de açúcar.


Nesta semana, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em San Francisco, publicam na revista PLOS Medicine uma análise de 319 documentos internos da indústria do açúcar produzidos entre 1959 e 1971. Por meio deles se pode ver como tentaram influir nas prioridades científicas do Programa Nacional para a Cárie (NCP, na sigla em inglês), criado no fim desse período.

“A indústria açucareira não podia negar o papel da sacarose na cárie dental, dada a evidência científica”, explicam os autores. “Portanto, adotou uma estratégia que consistia em desviar a atenção para intervenções de saúde pública que implicassem na redução dos danos do açúcar ao invés de restringir seu consumo”, acrescentam. Com esse plano, promoveram o financiamento de pesquisas sobre enzimas capazes de desfazer a placa dental e sobre uma vacina experimental contra a deterioração dos dentes que nunca demonstrou ser aplicável em grande escala.

Os resultados da estreita relação entre a indústria e os responsáveis pelos organismos públicos que deveriam definir as prioridades da saúde pública e a pesquisa se observa em alguns dados chamativos: 78% de um relatório remetido pela indústria foi incorporado aos editais de projetos de pesquisa do Instituto Nacional para a Pesquisa Dental, e outros trabalhos, como os pensados para medir como alguns alimentos específicos causam cárie (uma abordagem que poderia prejudicar a indústria) desapareceram da lista de prioridades do NCP. Depois de uma década liderando a agenda científica para combater a cárie nos EUA, o NCP “não conseguiu reduzir significativamente o problema da cárie dental, doença que se pode prevenir e que continua sendo a principal doença crônica entre crianças e adolescentes dos EUA”, concluem os pesquisadores.

Ildefonso Hernández, catedrático de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade Miguel Hernández (UMH) de Alicante (Espanha) afirma que táticas como as refletidas nos documentos publicados pela PLOS Medicine continuam vigentes. “É o que se chama captura da ciência”, aponta Hernández. “A estratégia da indústria açucareira que se vê nesses documentos é a mesma praticada agora com a obesidade, centrando o foco na necessidade de fazer exercício e deixando de lado a necessidade de reduzir o consumo de açúcar”, continua.

Atualmente, a Organização Mundial de Pesquisa sobre o Açúcar (WSRO, na sigla em inglês), o lobby científico da indústria açucareira mundial –no qual figuram corporações como a Associação Açucareira dos EUA e a Coca-Cola, conforme lembra o estudo– continua pressionando para que as políticas de saúde não prejudiquem seus negócios. Em 2003, as empresas obtiveram que não se assumissem como políticas da Organização Mundial da Saúde (OMS) a recomendação feita por um comitê conjunto dessa organização e da Organização para a Agricultura e a Alimentação (FAO) de reduzir os açúcares adicionados ao máximo de 10% das calorias consumidas diariamente. A WSRO defendeu que, ao invés de tratar de reduzir o açúcar na dieta, as políticas de saúde dental deveriam centrar-se no uso regular de pasta de dente com flúor.

Finalmente, a OMS não incluiu em seus guias um limite concreto e se conformou com o impreciso conselho de “limitar a ingestão de açúcares adicionados”. A WSRO também se opôs à recomendação de 2014 da OMS que pede a redução dos açúcares adicionados a 10% da dieta diária com a aspiração de deixá-los em 5% no futuro.

Hernández considera que os conflitos de interesse das pessoas que criam as políticas de saúde e de pesquisa ainda não são regulados por uma legislação adequada. “Na Europa, tanto a Agência Europeia do Medicamento (EMA) como a Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) chamaram atenção para o problema do conflito de interesse, mas a legislação ainda não é bastante estrita”, afirma o pesquisador. “Na Espanha, a lei de saúde pública diz que é preciso regular os conflitos de interesse, mas depois nem sequer as tímidas medidas incluídas chegaram a ser desenvolvidas. Sem ir mais longe, o comitê da hepatite C se reuniu recentemente e não foram publicados os conflitos de interesse de seus membros”, acrescenta.

Para o catedrático da UMH, é necessário que legislações como as que devem regular a pesquisa para reduzir os danos derivados do consumo excessivo de açúcar sejam redigidas por agências com a suficiente independência. “Uma agência independente, acreditada e legítima pode ser vital para que o público confie nela e para que as políticas baseadas em testes avancem”, aponta. “Agora é um bom momento para criar esse tipo de agências, porque as pessoas estão cansadas das influências das empresas sobre as políticas públicas, mas há pouca vontade política para facilitar isso”, explica.

Nos EUA, os autores afirmam que houve uma melhora. “As primeiras políticas relativas à declaração de conflitos de interesse para conselhos assessores federais foram desenvolvidas no começo dos anos 1960”, escrevem. “Antes disso, a preocupação de que os interesses empresariais fossem uma ameaça para a integridade científica era um ponto de vista minoritário”, continuam. Isso começou a mudar nos anos 70, e em 2015 os NIH (a maior agência de financiamento da biomedicina dos EUA) tinham um programa completo dedicado ao contato ético entre seus institutos para fazer frente aos efeitos adversos para a ciência de conflitos de interesse com a indústria.

Estudo vincula adoçantes artificiais com diabetes e obesidade

Os adoçantes artificiais empregados frequentemente como substitutos do açúcar acompanhando o café, sucos e alimentos prontos talvez não sejam o aliado que aparentam ser contra a obesidade, o sobrepeso e os transtornos metabólicos associados com a diabetes. Um estudo de pesquisadores do Instituto de Ciência Weizmann (Israel) sustenta que o consumo desses aditivos provoca, pelo menos em algumas pessoas, intolerância à glicose, uma fase prévia à diabetes na qual há uma maior concentração de açúcar no sangue, e alterações no metabolismo relacionadas com obesidade; ou seja, o efeito contrário que pretendem conseguir.

O trabalho, publicado na revista Nature, explica esse paradoxo apoiando-se fundamentalmente nas mudanças que essas substâncias –foram analisadas a sacarina, a sacarose e o aspartame– provocam na flora intestinal de ratos, as quais derivam de alterações tanto da composição como da função das bactérias do sistema digestivo.


Como consequência, os autores do estudo, Eran Elinav, do departamento de imunologia do centro de pesquisa israelense, e Eran Segal, do departamento de computação, argumentam que o aumento do uso dos adoçantes artificiais em bebidas e alimentos pode ser considerado, entre outros motivos, uma das causas da epidemia de diabetes e obesidade que se estende pelo mundo. Quase um terço da população está acima do peso.

Outros especialistas são muito menos contundentes e fazem ponderações em relação às conclusões do grupo israelense. É o caso de Migue Ángel Rubio, secretário da Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição, que destaca que a maioria dos estudos realizados até o momento não encontrou problemas para a saúde pelo consumo de adoçantes nas doses habituais. A distinção é importante, acrescenta, já que no artigo publicado na Nature foi administrada a quantidade máxima permitida pelas autoridades sanitárias norte-americanas (FDA), de 5 miligramas por quilo de sacarina. “Isso representaria 350 miligramas em uma pessoa de 70 quilos, o que seria uma dose exagerada. Ninguém consome essas quantidades”, comenta. Além disso, ele censura o fato de a maioria das conclusões terem sido extraídas dos experimentos feitos em ratos, quando, em razão das diferenças entre ambas as espécies, não se trata de resultados que possam ser transferidos diretamente a humanos.

Alberto Fernández, endocrinologista do hospital de Móstoles, tem a mesma opinião: “É prematuro extrapolar esses resultados para humanos. A flora dos ratos é diferente da nossa”. Além do mais, ele insiste nos estudos com centenas de milhares de pessoas que atestam que “o consumo de adoçantes é seguro”.

É verdade que a maioria dos estudos foi feito em ratos, embora não exclusivamente. Os pesquisadores administraram a roedores doses dos três adoçantes mais comuns: sacarina, sacarose e aspartame, e constataram nesses animais alterações metabólicas que conduziram a um aumento dos níveis de glicose no sangue. As taxas eram superiores até mesmo às registradas entre os que haviam tomado açúcar em lugar de seus substitutos.

Como as mudanças na dieta se associam a alterações na flora intestinal, os cientistas se concentraram nas possíveis alterações provocadas pelos aditivos nas bactérias do sistema digestivo.

Eles implantaram bactérias intestinais de ratos que tinham consumido sacarina –mediante um transplante de fezes– naqueles que não tinham provado nunca os adoçantes artificiais, e notaram que eles sofriam os mesmos efeitos prejudiciais, ou seja, mais glicose no sangue (pré-diabetes). Para os pesquisadores, essa foi a prova de que o consumo de adoçantes provoca mudanças na flora intestinal que, por sua vez, resultam em alterações metabólicas vinculadas à diabetes.

Ao analisar o detalhe da composição da flora microbiana dos ratos consumidores de adoçantes sintéticos, os investigadores observaram “profundas mudanças na população de bactérias, mas também novas funções, algumas delas relacionadas com uma maior propensão à obesidade e à diabetes”, o que reforçou sua tese.

E em humanos? Os pesquisadores sustentam que os efeitos são os mesmos do que nos ratos, apoiando-se em dois argumentos. Em um estudo com 400 pessoas constataram que aquelas que diziam consumir adoçantes apresentavam populações bacterianas distintas e maior propensão a ter níveis elevados de açúcar no sangue em comparação com as que não ingeriam esses aditivos. Além disso, realizaram um pequeno experimento com cinco homens e duas mulheres que não consomem habitualmente essas substâncias. Durante uma semana lhes foi administrada sacarina (de novo, a quantidade máxima permitida pela lei norte-americana, dividida em três ingestões diárias). Quatro deles apresentaram, apenas quatro dias depois, sintomas da síndrome pré-diabética, mas nos outros três os níveis de açúcar no sangue se mantiveram normais. Para os pesquisadores, essa diferença significa que a flora intestinal entre os humanos não é homogênea e, em alguns casos, reage aos adoçantes com uma espécie de resposta imune que se traduz em alterações no metabolismo do açúcar.

Miguel Ángel Rubio, da unidade de nutrição do hospital Carlos III de Madrid, destaca o fato de que o teste em humanos foi muito limitado (somente sete pessoas) e não aponta resultados tão conclusivos como nos ratos: “Não se pode tirar conclusões deste trabalho sobre os efeitos em humanos”, insiste.

Os autores do estudo, porém, ressaltam que o incremento do consumo dos adoçantes caminha em paralelo com o aumento “dramático” das epidemias mundiais de obesidade e diabetes. “Nossos achados sugerem que essas substâncias poderiam ter contribuído para aumentar a epidemia que tentavam combater”, concluem.

O enorme custo da obesidade
A recente decisão do Tribunal Europeu de Justiça que reconhece que a obesidade “pode representar uma deficiência” no trabalho voltou a colocar em primeiro plano um dos maiores problemas de saúde dos países desenvolvidos e emergentes, com graves implicações sobre o futuro da atividade econômica. O reconhecimento do excesso de peso como “deficiência” obrigaria as empresas, por exemplo, a fornecer espaços de trabalho maiores para estes empregados, designar-lhes tarefas mais leves, ou habilitar zonas de estacionamento apropriadas. E, levando-se em conta que cerca de 20% dos homens e 23% das mulheres da Europa são obesos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a questão do sobrepeso representa um fator de tensão nas relações trabalhistas a médio prazo.

Pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas com excesso de peso do que desnutridas. Cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo sofrem de sobrepeso, das quais 670 milhões padecem de obesidade. O número total já representa em torno de 30% da população mundial, e um estudo da consultoria McKinsey estima que o percentual subirá para a metade dos habitantes do planeta em 2030. “A obesidade está em crescimento nos países desenvolvidos e, agora, também está presente nas economias emergentes”, afirmam os especialistas da consultoria, que apontam que o problema não só se agrava rapidamente, como também será cada vez mais difícil de ser revertido. “Só um plano que ataque em várias frentes, desde o tamanho das porções dos alimentos, passando pelo controle sobre o fast-food até o estímulo ao exercício físico e à educação alimentar, entre outras questões, poderá começar a frear a crise”, dizem na McKinsey.


O impacto da obesidade na economia mundial é calculado em cerca de 2 trilhões de dólares (5,3 bilhões de reais), o equivalente a 2,8% do produto interno bruto (PIB) global, segundo a McKinsey. A gravidade do problema está à altura do tabagismo, da violência armada e do terrorismo, e suas consequências se expandem para muitas áreas da economia, desde os custos de saúde –públicos e particulares— passando pela queda da produtividade e o aumento do absentismo trabalhista, até um maior consumo de alimentos e de energia.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o custo anual da obesidade em função da produtividade para as empresas chega a 153 milhões de dólares, segundo a consultoria Gallup. Na Europa, o valor ronda os 160 bilhões, segundo estudo do Bank of America-Merrill Lynch. Um levantamento realizado há quatro anos por especialistas da Clínica Mayo, dos EUA, calculou que, enquanto o tabagismo aumenta o custo dos cuidados médicos em 20% a cada ano, a obesidade eleva esse percentual a 50%.

O mesmo centro médico, assim como as universidades norte-americanas de Duke e Cornell, dedicaram recursos para estudar o impacto do excesso de peso das empresas do país. Os diferentes estudos calcularam que as faltas ao trabalho derivadas da obesidade elevam os custos das empresas em 6 bilhões de dólares anuais, enquanto a menor produtividade destes mesmos empregados aumenta essa perda em outros 30 bilhões. O problema não afeta apenas a empresa, mas também o trabalhador, uma vez que as pessoas obesas têm menor probabilidade de serem contratadas e inclusive ganham menos, especialmente no caso das mulheres.

Ainda que em países industrializados, como EUA e Reino Unido, que estão entre os mais afetados pela crise, tenham surgido campanhas governamentais e privadas para estimular hábitos que ajudem a combater o problema, a maioria das empresas ainda não tem consciência da importância de incentivar programas internos para estimular pelo menos o cuidado com a alimentação e o exercício físico. A maioria dos especialistas concorda que as empresas devem subvencionar os programas de emagrecimento, os medicamentos contra a obesidade que os empregados podem necessitar e investir no replanejamento do local de trabalho (sala de exercícios, refeitório, máquinas com produtos saudáveis, entre outros). Planos amplos contra a obesidade teriam um custo de entre 20 e 30 dólares anuais por pessoa em países como Japão, Itália, Canadá ou Reino Unido.

A obesidade ainda tem outras implicações. A empresa aérea australiana Qantas calculou que o peso dos passageiros adultos aumentou dois quilos desde 2000, o que representa um custo extra de 1 milhão de dólares por ano em combustível. A Samoa Air, por exemplo, é a primeira a cobrar dos passageiros de acordo com seu peso. A fabricante de aeronaves Airbus já oferece assentos mais largos para seu modelo A320, e várias companhias fabricantes de ônibus e trens estudam fazer o mesmo. No setor de automóveis, calcula-se que os passageiros obesos aumentam o consumo de gasolina em milhões de litros por ano só nos EUA. A Universidade de Buffalo (Nova York) constatou que as pessoas sem excesso de peso são 70% mais propensas a usar o cinto de segurança do que os obesos, o que reduz a gravidade e o custo dos acidentes.

Um estudo recente dos professores Núria Mas (IESE) e Joan Costa (London School of Economics), intitulado Globesity? The Effects of Globalization on Obesity and Caloric Intake, (Globesidade? Os Efeitos da Globalização na Obesidade e Ingestão Calórica) faz a correlação entre a globalização e a obesidade. “A obesidade é um fenômeno complexo que implica tanto aspectos econômicos como sociais”, diz Mas. “Nós observamos que as normas sociais e culturais têm um impacto fundamental sobre a obesidade. Os elementos da globalização social que têm mais efeito sobre a obesidade são os fluxos de informação e os contatos pessoais. Há evidências que indicam que o grupo de pessoas com quem comemos ou com quem nos relacionamos tem um impacto sobre como e quanto ingerimos. De fato, já se fala de um ‘entorno obesogênico’, que propicia a obesidade se forem seguidas suas normais sociais: por exemplo, o tempo que se leva para comer e o tamanho das porções, entre outros”, acrescenta.

McDonald’s perde o sorriso

Há mais de uma década não se via Ronald McDonald's tão triste. Deste vez, porém, há quem se pergunte em Wall Street se não chegou a hora de o palhaço da cadeia dos arcos dourados se aposentar. A empresa que transformou o Big Mac em um ícone da cultura popular norte-americana está vendo sua expansão desinflar no mercado que a tornou uma gigante, enquanto abrem caminho outras redes do chamado fast-casual como Shake Shack, Five Guys, Habit Restaurantes e Chipotle.
O McDonald’s acaba de anunciar que seu presidente-executivo, Don Thompson, vai deixar a empresa após três anos em que a rede desabou –frente a uma revalorização de 50% do índice S&P 500— e fracassou em ajustar o menu às novas tendências para conter a fuga de clientes. O executivo será substituído em 1º de março por Steve Easterbrook, chefe de marca. O britânico está há duas décadas na rede, com um curto intervalo em Wagamama e Pizza Express.

Easterbrook não podia imaginar quando, aos 11 anos, visitou seu primeiro McDonald's que 18 anos depois seria o administrador dos negócios da multinacional no Reino Unido, que pouco tempo depois comandaria as operações da empresa em todo norte da Europa –cerca de 1.800 restaurantes— e que aos 47 anos chegaria ao topo de um dos símbolos empresariais norte-americanos. Durante todos estes anos lutou para preservar a reputação da companhia, com campanhas para reforçar sua imagem.

A saída abrupta de Thompson e a promoção de Easterbrook é considerada uma manobra adequada. Mas ainda falta. Analistas apontam que é difícil culpar o ainda CEO pela crise que atinge uma marca com 60 anos de história. Uma simples mudança de comando, dizem, dificilmente resolverá os problemas sistêmicos que abalam agora suas vendas pela primeira vez em 12 anos. Os últimos resultados, divulgados um dia antes do anúncio da troca, e que refletem uma queda de 15% no lucro líquido, para 4,75 bilhões de dólares, mostram o problema com clareza.

























Ray Kroc abriu o primeiro restaurante McDonald's em Des Plaines (Illinois) em 1955. Em uma década, a rede operava mais de 700 restaurantes, e duas depois já eram 6.000 lojas. Agora, são cerca de 14.000 apenas nos Estados Unidos. Burger King e Wendy´s também registraram um crescimento rápido até uma década atrás, quando o modelo começou a mostrar os limites do fast-food tradicional, que também conta com redes como Sonic, KFC e Taco Bell. O mercado está saturado.

O McDonald’s, com 69 milhões de clientes no mundo todo, abre novas lojas nos EUA a um ritmo três vezes mais lento do que o registrado há uma década. Dessa forma, para aumentar a receita precisa vender mais comida em cada loja. E isso não é o que está acontecendo. As vendas nos restaurantes que estão abertos há mais de um ano caíram 0,2% nos EUA e no Canadá.

A via de escape, por isso, é o mercado internacional. A rede se tornou cada vez mais global, com dois terços dos 27,4 bilhões que teve de receita no exercício passado gerados fora dos Estados Unidos, ante a metade das vendas fora há duas décadas . A empresa busca o crescimento da classe média em Brasil, China e outros países emergentes, que abraçam agora o estilo de comer norte-americano. Seu principal mercado é o europeu, com 11 bilhões.

Mas, enquanto a direção do McDonald's prioriza o crescimento global, o verdadeiro problema da empresa está na marca, e a solução é bastante complexa. A companhia é sinônimo de comida barata. Os novos competidores, ao contrário, têm mais atrativos para as gerações jovens que preferem pagar um pouco mais por um produto de melhor qualidade e que, além disso, podem personalizar a seu gosto, como os burritos do Chipotle. O McDonald's tratou de acrescentar sanduíches de frango, saladas e frutas ao cardápio. Mas a imagem dos 39.000 restaurantes do grupo está construída sobre os hambúrgueres e batatas fritas. O McDonald's, além disso, é o padrão de franquia. Como seus concorrentes, está cedendo parte dos locais que administra nos EUA para assim isolar sua conta de resultados. Mesmo assim, a margem de lucro caiu para 14,4% no ano passado, porque, como o Wal-Mart, se concentra no preço baixo.

Thompson disse em sua última conferência com analistas que o McDonald´s está mudando seu modelo de negócios de uma forma “agressiva”. Mas pediu paciência. No exercício passado, admitiu, foi complicado em todos os segmentos geográficos onde a multinacional opera. Agora, além disso, há o problema do dólar. Não pode permitir uma taxa de câmbio desfavorável que afete o ganho no exterior, inclusive se a situação na Europa melhorar.

Nicole Miller, analista da Piper Jaffray, destaca que a forma de evitar continuar perdendo mercado para as companhias de fast-casual “não é copiando seu modelo, mas recuperando o DNA do que era no passado”. Na Morningstar, acrescentam que para que o McDonald's possa voltar a crescer, “deve começar a se concentrar mais nos mercados locais”, para assim poder atrair novos consumidores, em vez de ter um cardápio tão padronizado.

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