sábado, 14 de março de 2015

15/03/2015 é mais perigoso que junho de 2013?

Por que o protesto de domingo no Brasil é mais grave que o de 2013?

As manifestações preocupam mais desta vez porque o país, em vez de ter melhorado, está pior do que então.

As manifestações de protesto convocadas para domingo no país todo, chamadas de 15/15, não serão as de 2013, quando os brasileiros foram às ruas para exigir um país melhor. Naquela ocasião este jornal se perguntou: “Por que o Brasil e por que agora?”. A resposta foi que diferentemente, por exemplo, do movimento dos indignados da Espanha, que protestavam pelo que as pessoas estavam perdendo com a crise econômica de 2008, os brasileiros exigiam o que ainda não tinham.

O de 2013 não foi um protesto para exigir uma mudança de governo, nem de regime político. Não ressoou nele o “Fora Dilma”. Exigiam-se dos governantes melhores serviços públicos, melhor qualidade de vida, melhor transporte, melhor saúde e melhores escolas. E menos corrupção política.

“Éramos infelizes e não sabíamos”, dizia uma dos milhares de cartazes criativos daquelas manifestações. Significava que os brasileiros se sentiam conformados com o já conseguido e não tinham tomado total consciência de que, por exemplo, seus serviços públicos ainda eram de terceiro ou quarto mundo, enquanto pagavam impostos de primeiro mundo.

A manifestação de 15/15 (ainda sem saber qual poderá ser sua força) será diferente. Não se pede apenas que as coisas melhorem; rejeita-se o Governo da recessão, da inflação que corrói os salários, de serviços cada dia mais caros, de uma carga tributária que sufoca a cada ano que passa. Não se aguenta mais a corrupção, cada vez maior e mais espalhada. E os participantes vão gritar que saia do comando do Titanic que faz água a equipe atual: o PT e sua comandante, a presidenta Dilma Rousseff.

O protesto de 15/15 é mais grave que o anterior porque o Brasil, em vez de ter melhorado desde então, impulsionado pelas promessas feitas e não cumpridas, piorou.

É possível alegar que nas últimas eleições a maioria dos votos foi para Rousseff, e que é apenas a minoria que protesta hoje, inconformada com o resultado das urnas. Na verdade, quem toma o pulso da opinião pública pode notar, como revelou a última pesquisa do Datafolha, que essa maioria mudou. Hoje, nem Rousseff nem o PT, com muita probabilidade, venceriam as eleições.

De fato, uma dos motivos que mais irritam a sociedade é ter visto que a então candidata presidencial Dilma Rousseff não contou a verdade. Mostrou um Brasil feliz, pujante e sem crise. Jurou que não haveria cortes nem sacrifícios, menos ainda para os mais necessitados, e acusou seus concorrentes Aécio Neves e Marina Silva de quererem entregar o país aos banqueiros, que acabariam roubando a comida do prato dos pobres.

E hoje o ministro da Fazenda do novo Governo é o banqueiro Joaquim Levy, formado em uma das escolas mais ortodoxas e liberais dos Estados Unidos. E Rousseff lhe entregou, ainda que relutantemente, a tesoura que havia condenado.

A crise refletida no espelho dos protestos de hoje é de credibilidade. E quando um país perde a confiança em seus governantes e políticos é difícil voltar atrás.

Nada contagia mais que o desencanto, especialmente se esse desencanto mexe no bolso das pessoas, porque se converte inevitavelmente em irritação.

Se os protestos de 2013 foram importantes porque neles o Brasil democrático se reconheceu numa mesma esperança de melhora, o que hoje cabe pedir é que, como então, os brasileiros (até os mais irritados) sejam capazes de se manifestar pacificamente, afastando os violentos e os que pedirem soluções para a crise que não tenham o selo de garantia da democracia.

O filósofo Hegel elaborou a tese de que não se cria uma nova síntese (nesse caso, um Brasil melhor) sem antes ter criado a antítese do que já não funciona. Foi essa a dinâmica de todas as revoluções da história. Algumas vezes souberam criar uma síntese de maior liberdade e prosperidade, e outras afundaram em sombrios totalitarismos.

Oxalá o 15/15, depois do “não” ao que a população rejeita, saiba dar um “sim” a um futuro de prosperidade e de responsabilidade política, para pôr novamente em marcha o trem descarrilado da economia.

Oxalá esse “sim” e esse “não” os brasileiros saibam dar juntos no domingo, sem violência, sem enfrentamento, sem prejuízos, sem bandeiras de ideologias ultrapassadas e perigosas, unidos numa mesma esperança de construir um país que nossos filhos possam herdar com orgulho, sem se envergonhar.

O Brasil pode e merece.

Que seu povo, que nasce com o gosto pela festa em seu sangue, transforme o protesto de domingo numa comemoração de sonhos com os olhos abertos. O Brasil também é isso. Feliz 15/15!

Afinal, do que se trata? Simples: destituir Dilma e liquidar o PT

O governo cometeu erros, alguns muito graves, não há como negar. Mas surge um sentimento injustificável de ódio. E não é um ódio banal: é ódio de classe.

Não há como negar que existe uma concreta e substantiva dose de insatisfação geral, inclusive em parcelas significativas, talvez majoritárias, do eleitorado de Dilma Rousseff. Saber que a verdadeira situação da economía foi camuflada não apenas durante a campanha eleitoral, mas ao longo de todo o ano, é causa de frustração e inquietude. Ver como rápidamente – e da maneira mais torpe possível – foram anunciadas medidas restritivas, que durante a campanha eran imputadas ao adversário, caso alcançasse a vitória, também levou milhões de brasileiros a se sentirem enganados.

A – digamos – pouca hablidade de Dilma ao armar seu ministério, um dos mais formidáveis desfiles de mediocridades num país que já viu, entre outras bizarrices, Renan Calheiros ser ministro de Justiça, foi a sequência do mal estar.

E então vieram os índices de inflação, que ainda estão longe de ser efetivamente graves e dramáticos, mas são, sim, preocupantes. O passo seguinte, nesse mostruário de pequenos (embora sanáveis) desastres, foi a articulação absolutamente desarticulada entre o governo, o Congresso e os aliados. E, como se tudo isso fosse pouco, continua em curso outro escândalo, graças às denúncias concretas de corrupção, desta vez na Petrobras.

Ou seja: foram oferecidos todos os ingredientes para uma receita de crise política de bom tamanho.

Acontece que o verdadeiro problema é outro. Pela primeira vez desde a retomada da democracia, em 1985 e depois de 21 anos de benefícios para os mesmos grupos econômicos e midiáticos que agora clamam pelo Estado de Direito, surge em pleno esplendor um sentimento que andou bem distanciado do cenário político, e que é o ódio.

Assim de fácil, assim de simples: o ódio. Mais que a fúria de um Carlos Lacerda, que em última instância era um orador brilhante, o que temos é um ódio rasteiro, sem pena nem glória.

E não é um ódio banal: é ódio de classe. Preconceito de classe. As elites e as classes médias tradicionais, que invejam as elites enquanto a elas se submetem, se lançam com fúria desatada não exatamente contra o alvo de seus preconceitos, mas contra seus promotores.

O alvo é essa nova classe ignara e bruta que de repente ocupa aeroportos, gente ralé que viaja em avião usando sandálias de borracha e deixam perfeitamente claro que não sabem como se portar à altura de ambientes seletos como os aeroportos; essa gentalha que compra geladeiras e nos obrigam, digo, nós, brancos, que só soubemos o que é ter fome quando a empregada atrasou o almoço, pois nos obrigam a esperar pela entrega de um novo modelo de tanto que compram; enfim, essa turba que de repente começa a exigir melhor qualidade na educação, na assassina saúde pública, no humilhante transporte público.

A essa gente, o verdadeiro alvo, o desprezo. Aos que promoveram essa gente a ponto de nos perturbar, o ódio.

Da mesma forma que o Brasil soube disfarçar doses colossais daquele preconceito racial que os cínicos mais indecentes negam existir, a questão agora é tentar disfarçar o preconceito de classe. Porque as elites brasileiras que odeiam os pobres e, mais ainda, os que deixaram de ser pobres, se dizem defensoras da justiça social – desde que, claro, seja feita de acordo com seus criterios esdrúxulos. Porque as elites brasileiras exigem, em primeiro lugar e acima de tudo, a preservação de seus privilégios de sempre, agora ameaçados por uma crise econômica provocada, dizem, por governos irresponsáveis e inconsequentes, que gastaram rios de dinheiro para que os miseráveis passasem a ser pobres, e os pobres passassem a integrar a mesma economia de mercado, de consumo, que alimenta esas mesmas elites.

No fundo, é esse o motor que gera o cenário que vivemos. O governo é inábil, com certeza. Cometeu erros, alguns muito graves, não há como negar. Há muita culpa no cartório da corrupção, claro. Mas não é disso que se trata. Do que se trata é de fazer o Estado dismilinguir, retomar o domínio do país. Devolver às margens o que é marginal, aos subúrbios o que é suburbano, ao pé do chão o que se atreveu a andar de avião.

De destituir Dilma, liquidar o PT, enterrar Lula da Silva. Que, claro, cometeram erros e equívocos, mas, acima de tudo, cometeram um pecado capital, imperdoável: levar adiante um projeto de país, e não um projeto de preservação dos beneficios de determinada classe. E isso, vale repetir, é crime imprescritível. Pecado imperdoável.

Para os porta-vozes e porta-silêncios das elites preconceituosas, Dilma merece o direito de escolha. Os mais educados dizem que não é o caso de impeachment, e oferecem a ela o nobre gesto da renúncia. Os mais desembestados sentenciam que a saída é deixá-la – e a seu governo – sangrar. Os mais energúmenos preferem diretamente destituí-la.

Será que não há uma única alma capaz de convencê-la de que é preciso se defender? E não apenas se defender, mas defender um projeto de país?

Por que ela, que em seus anos jovens soube resistir a tudo, superar tudo, não dá um passo concreto, não faz um único gesto viável para reagir a uma conspiração baseada no mais vil dos sentimentos, que é o preconceito?

A polarização política nas redes

A decisão de ir para as ruas tomada pelos dois movimentos antagônicos — os movimentos anti-PT e anti-Dilma e as centrais sindicais e movimentos ligados ao governo — é, em parte, a materialização do que se vê nas redes sociais desde as eleições de outubro. Um estudo feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV apontou que a polarização durante as eleições continuou a se manifestar no Twitter, já que cada um dos dois grupos continuou a se comunicar em uma espécie de rede própria, para dialogar entre si. Isso foi verificado pelos pesquisadores em análises feitas em três ocasiões importantes neste segundo mandato de Rousseff: o anúncio do ministro Joaquim Levy para a Fazenda, a eleição para a presidência da Câmara de Eduardo Cunha (PMDB), que derrotou o PT e impôs um grave descontrole da base aliada no Congresso, e a escolha de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras, estatal que está mergulhada na maior crise de corrupção de sua história.

“Essa mobilização virtual alimenta as formas como as pessoas veem a realidade, influencia a percepção social”, afirma o cientista político Luís Felipe da Graça, um dos organizadores do estudo.

O Planalto tem monitorado o engajamento virtual, especialmente em relação à convocatória de domingo para o protesto contra Dilma Rousseff. O Governo já usou o tipo de seguimento antes para tentar se antecipar a manifestações. Na eleição, todos os candidatos contrataram empresas ou especialistas para seguir os "sentimentos" das redes. Na Copa, a Fifa manteve um monitoramento próprio.

No domingo do panelaço, o especialista Fabio Malini, do laboratório de estudos sobre imagem e cibercultura Labic (Ufes), mediu a temperatura nas redes sociais. Em sua página no Facebook, postou uma análise da movimentação no Twitter na qual avalia que o movimento a favor de Dilma tem menos margem de manobra do que os contrários à presidenta neste momento. Segundo ele, falta ao Governo uma pauta capaz de mobilizar uma rede atuante na internet que se considera à esquerda do PT, como o MPL e ativistas pelos direitos indígenas.

O país insensato

A noite do dia 8 de março, domingo, ofereceu um impecável retrato do Brasil. A presidenta vai dirigir-se à nação estacionada diante do vídeo, a Globo nos proporciona a bem de um gordo ibope o Domingão do Faustão, festival de inomináveis bobagens e vulgaridade irrefreável. Irritados com a interrupção do programa, os telespectadores, sobretudo aqueles dos bairros que se declaram nobres, erguem-se do sofá da sala e, de panela em punho, vão à janela, debruçam-se a meio busto e batem no instrumento improvisado com talheres adequados à tarefa e com o vigor dos tocadores de tambor de gasolina na Martinica. Acompanha o batuque clangoroso o coro “Fora Dilma”, com o contorno dos melhores exemplos do primitivo turpilóquio nacional.

Indiscutível prova dos alcances da imaginação nativa. A mídia exulta. A nobreza dos bairros eleitos a cenário do espetáculo, e de seus moradores, inúmeros apinhados nos terraços gourmet, não passa de demonstração de provincianismo tropical. A mídia prazerosamente embrenha-se neste cipoal de parvoíce e grosseria, é partícipe ativa e empenhada, donde incapaz de perceber o que, de fato, acontece e acontecerá.

Nem por isso, vozes das redações apressam-se a esclarecer que não é só de ricos que se nutre o panelaço. Não foram somente estes os cidadãos que votaram contra Dilma, está claro, não fosse assim Aécio não conseguiria 48% dos sufrágios. Resta ver por que pobre grita “Fora Dilma”, rico a gente já sabe. Muitos aderem por imitação, por modismo, por servilismo. Por espírito festeiro, por parte de quem não se dá conta do possível desfecho disso tudo.

Observem nas fotos publicadas pelos jornalões na quarta 11 quantos riam entre os visitantes do 2º Salão da Construção de São Paulo ao vaiarem a presidenta recém-chegada para a inauguração. E quantos, em geral, em todas as praças, acreditam efetivamente que Dilma, Lula e o PT são os únicos responsáveis pela crise? E quantos enxergam no impeachment a solução que a situação recomenda?

Os meus botões puxam-me pelo paletó. Vem cá, e então qual seria a culpa da presidenta, ou ela simplesmente não tem culpa alguma? Confabulamos, na zona miasmática situada entre o fígado e a alma. Conclusão acordada: faltou a ela talento político para o diálogo com o Congresso e com o empresariado, aquele gênero de conversa que faz de Lula um mestre na matéria. Faltou avaliação atenta e precisa na escolha dos principais colaboradores.

Mas há quem ela ouça? Os botões insistem, pergunta irrespondível por falta de informação. Na segunda 9, após o panelaço, Dilma quis revidar ao dizer que nada previsto na Constituição justificaria o impeachment. Talvez lhe faltasse ânimo para ser mais clara e falar em golpe. E não seria então da mais relevante conveniência que a presidenta evitasse pronunciar a palavra impedimento? Teria ela consultado previamente os conselheiros mais próximos, ou um apenas, antes de falar? Ou teria agido por conta própria? Em um caso, ou noutro, precipitou-se, por decisão-solo, ou compartilhada.

A propósito, e esse tal de Joaquim Levy? E lá vou eu: talhado para fazer o exato contrário daquilo que seria preciso para tirar o Brasil do atoleiro. Nem deve saber de Keynes, comentam os botões. Conseguem ser bastante azedos. Este é um ponto crucial: Dilma não haveria de esquecer que a vitória eleitoral se deveu ao voto dos prejudicados, ou melhor, dos humilhados e ofendidos, por qualquer programa de austeridade, o nosso já em marcha.

Há um complicador, é óbvio. A Operação Lava Jato, além do mais declamada pela mídia como se a corrupção fosse obra exclusiva do PT, de Dilma, de Lula. Ora, ora, Lava Jato, mensalões, compra de votos no Congresso, privatizações para enriquecer apaniguados,inside information etc. etc. Trambiques, falcatruas, o patrimonialismo inesgotável no País que às vezes se arvorou a ser do futuro, terra de 500 anos de predação e onde a escravidão, oficialmente encerrada depois de três séculos e meio, ainda não terminou na prática do cotidiano.

Na semana passada, ao dar razão a Lula quando afirma que a Operação Mãos Limpas na Itália resultou em Berlusconi, observei que na terra arrasada costumam triunfar os piores oportunistas. Esqueci de registrar que no Brasil os piores oportunistas estão a postos desde sempre.


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