sábado, 14 de março de 2015

15/03: a outra face do protesto

Meu amigo(a) coxinha, eu já fui pra rua. Só que em 2013. E não foi para pedir Impeachment não. Foi pra exigir um país melhor e mais educado.

Fui criticar o mesmo governo que você. Na época você reclamou do trânsito, reclamou da sujeira. Apoiou a PM: "tem que bater nesses vagabundos". E o "vagabundo aqui apanhou de verdade de uma polícia subversiva, submissa desses governos initerruptos.

Os "cronistas" que você lê disseram que as passeatas não serviam para nada. A revista que você lê disse que Maycon Freitas (quem?) era o grande novo líder do Brasil. A mídia tentou e conseguiu diminuir o mérito das manifestações de 2013. De manifestantes viramos vândalos e fez com que a opinião pública acreditasse.

A gente tomou a Paulista e a Presidente Vargas. Depois tomamos a Cinelândia. Depois tomamos o Congresso. Eu fiz o que pude, tomei a rampa da prefeitura da minha cidade. Cada um fez o que pode. A gente balançou o Brasil. Tentamos reverter a situação.

Mas recuamos. Recuamos porque, de repente, alguém levantou um cartaz pedindo intervenção militar. Alguém falou em pena de morte. Alguém quis se aproveitar do nosso movimento para fazer perseguição partidária.

Ôpa, aí não!

Aprendi com isso (e com Marina Silva, depois) que não se faz política "sem partido" (era o que a gente gritava). Mais do que partido, sem "posicionamento". Nada é neutro. Abracei de vez o meu partido e a minha posição, e vi vocês, sozinhos, minguarem o movimento que não começaram.

Não posso me opor a nenhuma manifestação popular. Que se manifestem. E nem podem me acusar de não criticar o mesmo governo. Já fiz isso, sem o teu apoio, em 2013.

Se não te apóio, não é porque a tua conclusão é injusta. Mas o teu argumento é vil, a tua visão de mundo é egoísta e a tua forma de pensar é mesquinha. E pra mim, o COMO você pensa é tão importante quanto o O QUE você pensa. Não podemos só pensar em nossos umbigos e "foda-se" o outro. Temos que pensar no coletivo, pensar no próximo, abrirmos mais as nossas mentes. É isso que ainda falta ao brasileiro: SER MAIS COLETIVO!

De resto, não me preocupo. Ao contrário de nós, vocês serão muito bem tratados pela polícia.

Mas não me convidem. Não terão o meu apoio!

Engraçado que se fala muito em “sangrar a presidenta”, termo usado literalmente por Aloysio Nunes, líder do PSDB, e faz isso quando desqualifica o voto que garantiua vitória de Dilma e volta a fazê-lo, com maior empenho, ao convocar manifestações de rua para repudiá-la e agora gritar pelo impeachment. Aloysio Nunes não somente declarou que quer o sangue e o impeachment da presidente Dilma como não nega que deseja a volta do regime militar no Brasil. Maravilha.

O objetivo que move os Aloysios da vida não é o de se opor democraticamente ao governo, mas de paralisá-lo, impedi-lo de cumprir as sua funções constitucionais. O importante é evitar que o governo possa ser exercido em sua plenitude e a oposição conta com a ajuda da mídia como qualquer cego já percebeu. Há um esforço gigantesco para que se forme uma determinada opinião e muita lenha na fogueira tem sido lançada para que a convivência política no país seja degradada pela intolerância, traduzida em manifestações cotidianas de ódio e nos dizeres dos cartazes que veremos amanhã. Ótimo.

A real possibilidade de um processo de impeachment da Presidente não parece algo próximo de acontecer por questões jurídicas. Sem acusações comprovadas, o processo é impossível, na teoria. Especialistas dessa área já se manifestaram mostrando o quão improvável o impeachment é. Mas isso pouco importa porque um golpe está prestes a acontecer.



A eleição que não acabou

A gente quando era menino, gostava de zoar com os políticos. Em época de eleição, saíamos de noite às ruas com um pedaço de carvão nas mãos, desenhando bigodinho de Hitler, colocando chifre e dentes de vampiro, nos cartazes dos candidatos colados nos muros.

Gostávamos, desde cedo, de fazer aqueles trocadilhos infames. Eu gosto de frango e o Magalhães Pinto. A minha casa é de tijolo e a do Ademar de Barros. Eu gosto de ovelha e o Nelson Carneiro.

Colecionávamos santinhos, adesivos de plástico, chaveiros, mas o mais cobiçado dos objetos era aquela vassourinha de metal dourado do Jânio Quadros.

Depois veio o golpe militar de 64 e nossa brincadeira mixou. Além de acabar com o Simca Chambord, eles acabaram também com as eleições. Eu fui embora do Brasil e passei mais de duas décadas sem votar.

Hoje, acho bizarra essa história mas ela é verdadeira. Assim que cheguei a Paris para longos invernos, prometi a mim mesmo que só cortaria o cabelo quando caísse a ditadura militar no Brasil.

E assim passaram-se os anos, até que o meu cabelo chegou à cintura. Juro que quando Gilberto Gil compôs Cultura e Civilização, eu tinha certeza de que aqueles versos eram pra mim.

Contando que me deixem

Meu cabelo belo
Meu cabelo belo
Como a juba de um leão
Contando que me deixem
Ficar na minha

Foi no governo Figueiredo, quando a abertura começou a colocar suas asinhas de fora, que fui numa pequena barbearia lá no Boulevard Voltaire e podei minha juba de leão.

No Brasil, já com o cabelo curto, um dia voltei a votar, ainda marcando um X no papelzinho. Sou tão apaixonado por eleições que na primeira que tivemos pra presidente da República, no Jornal de Vanguarda, toda noite, Dóris Giesse abria as manchetes dizendo:

Faltam tantos dias para elegermos o presidente da República!

Eu era o editor-chefe e me orgulhava daquilo, todo fim de noite, no switcher da Rede Bandeirantes de Televisão. Eu, o Oscar Rodrigues Alves, o Paulo Leminski, a Roberta Vaz, o Renato Barbieri, o Miguel Paiva e todo o pessoal da pesada.

Ainda não havia Facebook pra mim, mas eu já dava um jeito de espalhar notícias, fazer campanha por eleições livres e diretas, deixar bem claro que a palavra de ordem era a volta da democracia.

Eleição sempre foi assim. No final, um ganhava, outro perdia. O que ganhava tomava posse e começava a governar, o que perdia se recolhia, virava oposição, começava a se preparar para a próxima e a vida seguia.

Pela primeira vez, desde a redemocratização do Brasil, estou aqui meio assustado, meio sem entender porque os perdedores não se conformam em ter sido derrotados nas urnas em outubro do ano passado.

Eu sou torcedor do América Mineiro e toda vez que o meu ameriquinha perde, seja pro Galo, pro Cruzeiro, ou mesmo pro Tupi, pro Boa ou pro Democrata, eu reconheço a derrota. Fico amuado, chateado de ver meu time descendo pelas tabelas, mas jogo é jogo, resultado é resultado.

Milhões de brasileiros não estão sabendo perder. Sim, a presidente Dilma teve 51,58 por cento dos votos e seu rival, Aécio Neves, 48,41 por cento. Ela não ganhou nos pênaltis, nem tampouco com gol roubado. Foi um jogo apertado, mas ganhou.

Naquele inesquecível 8 de julho, perdemos por 7 a 1 pra Alemanha e todo mundo se lembra disso. Foi um vexame. Perdemos, ficamos chocados, choramos, teve gente que quebrou a televisão, prometeu nunca mais sofrer por futebol, mas se conformou. Ninguém pensou em fazer um terceiro tempo, virar o tapete ou anular a Copa do Mundo de Futebol. Perdemos e pronto. E bola pra frente!

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