sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Fernando Pamplona: o mestre de todos os carnavalescos

Fernando Pamplona (Rio de Janeiro, 26 de setembro de 1926 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2013) foi um carnavalesco, cenógrafo, professor, produtor e apresentador de televisão brasileiro , considerado um dos mais importantes nomes do carnaval carioca.

Após a Revolução de 1930, foi, com o pai, morar na cidade de Xapuri, no Acre, onde cursou o ensino primário. Ainda criança, teve contato com diversas manifestações folclóricas da região, como a festa do boi-bumbá, o que crucial para lhe despertar um grande interesse por cultura popular. Formado pela Escola Nacional de Belas Artes, teve uma rápida passagem como ator até conhecer Mário Conde em meados da década de 50, que lhe abriu as portas para a cenografia.

Em 1959, o escritor Miercio Tati, membro do então Departamento de Turismo e Certames da Prefeitura (hoje, Riotur), o chamou para integrar o corpo de jurados dos desfiles das escolas de samba do Rio. Embora tenha assumido o cargo com dedicação, apenas uma, entre todas as agremiações, deixou Pamplona realmente extasiado. Trata-se do GRES Acadêmicos do Salgueiro, que, naquele ano, havia inovado por completo os padrões do carnaval carioca ao jogar para o alto os habituais enredos de capa-e-espada (sobre políticos ou militares) trazidos pelas escolas e abraçou uma temática sobre o pintor francês Jean-Baptiste Debret. Tal tema, denominado "Viagem pitoresca e histórica ao Brasil", fora elaborado pelos figurinistas Dirceu e Marie Louise Nery e o Salgueiro fez uma apresentação revolucionária e inesquecível. Pamplona deu nota 8 à agremiação, que somente perdeu por um ponto da Portela.

Foi ele um dos poucos jurados a defender, sem medo, sua avaliação sobre os desfiles, o que surpreendeu o diretor de carnaval do Salgueiro, Nelson de Andrade. A diretoria da escola, por intermédio de Nelson, o convidou para preparar desfile salgueirense para o carnaval de 1960 e Pamplona aceitou o pedido com a condição de fazer um enredo sobre Zumbi dos Palmares. Pela primeira vez, a vida de uma personagem não-oficial da história do Brasil era retratada por uma agremiação. Chamou seus colegas de teatro, Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, e acabou se tornando, por fim, um carnavalesco de escola de samba. No Salgueiro conquistou quatro títulos, foi vice outras três vezes. Pamplona empresta seu nome a biblioteca do Centro de Referência do carnaval, a única do gênero no Brasil.

Encontra-se colaboração artística da sua autoria na Mocidade Portuguesa Feminina: boletim mensal (1939-1947).

Faleceu na manhã do dia 29 de setembro de 2013, em sua casa no bairro de Copacabana, vítima de um câncer.

Enredos assinados por Fernando Pamplona

AnoEscolaColocaçãoGrupoEnredo
1960SalgueiroCampeão1Quilombo dos Palmares
1961SalgueiroVice-Campeão1Vida e obra do Aleijadinho
1964SalgueiroVice-Campeão1Chico-Rei
1965SalgueiroCampeão1História do Carnaval Carioca
1967Salgueiro3ºlugar1História da liberdade no Brasil
1968Salgueiro3ºlugar1Dona Beja, a feiticeira de Araxá
1969SalgueiroCampeão1Bahia de todos os Deuses
1970SalgueiroVice-Campeão1Praça XI carioca da gema
1971SalgueiroCampeão1Festa para um rei negro
1972Salgueiro5ºlugar1Nossa madrinha, Mangueira querida
1977Salgueiro4ºlugar1-ADo Cauim ao Efó, moça branca, branquinha
1978Salgueiro6ºlugar1-ADo Yorubá à luz, a aurora dos deuses
1997Em Cima da Hora5ºlugarASérgio Cabral a cara do Rio




Cenógrafo. Fotógrafo. Ator. Jurado de Carnaval. Carnavalesco. Professor e diretor da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Jornalista e apresentado de televisão. Professor de Geometria. O médico responsável por seu parto foi Pedro Ernesto, que cinco anos depois viria a ser prefeito do Rio de Janeiro. Segundo o professor e pesquisador Luís Fernando Vieira: "No início da década de 1930 a família transferiu para a cidade de Xapuri, no Estado do Acre, onde o pai passou a atua como promotor público. No ano de 1935 a família retornou ao Rio de Janeiro, passando a residir no bairro do Flamengo, Zona Sul da cidade. Por essa época, foi matriculado na Escola México e posteriormente, no Internato Pedro II".

 Ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez parte da União dos Estudantes e do grupo de Teatro Universitário, trabalhando como ator e codiretor de peças e onde conheceu a futura esposa Zeni, então bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Estudou com Georgina de Albuquerque, Diretora da Escola de Belas Artes da UFRJ, cargo que ocuparia anos depois. Levado por Mário Conde (Chefe de Cenografia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro), passou a trabalhar como cenógrafo no Teatro Jardel, em Copacabana, onde estreou na peça "Othelo", de Shakespeare. Logo depois exerceu a profissão de cenógrafo em vários outros teatros, tais como no próprio Municipal do Rio de Janeiro e em teatro na Argentina. 

Na década de 1940 passou a lecionar Cenografia na Escola Martins Pena de Teatro. Em 1948 ganhou "Menção Honrosa" no Salão de Arte Moderna, do Rio de Janeiro. Ingressou na UNE (União Nacional dos Estudantes), onde conviveu com Fernando Pedreira, Rogê Ferreira e Roberto Gusmão, entre outros. Filiou-se ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). Em 1952 casou com Zeni, ano em que começou a trabalhar com fotografia, chegando a fazer capas para revista da época. Em 1956 ganhou como prêmio uma viagem pelo Brasil, por sua participação no "Salão de Arte Moderna" do Rio de Janeiro. No ano de 1959 foi premiado com a "Medalha de Ouro" no "Salão de Arte Moderna". Neste mesmo ano, a convite do escritor Miécio Tati, passou a integrar o corpo de jurados do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. No ano seguinte, foi convidado para o cargo de carnavalesco, quando desenvolveu o enredo do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, para o qual formaria a seguinte equipe de carnaval composta por ele, Dirceu e Marie Louise Nery, Arlindo Rodrigues e o aderecista e desenhista Nilton de Sá. 

Assim começou a revolução estética que culminaria, anos mais tarde, na ênfase ao grande visual dos carnavais modernos. Neste carnaval de 1960 a escola classificou-se em primeiro lugar no Grupo 1 (equivalente ao Grupo Especial), com o enredo "Quilombo dos Palmares", criado por ele. Segundo o pesquisador Euclides Amaral: "Na década de 1960, o Salgueiro começou a desenvolver enredos com a história focada em outra ótica, a história não oficial, principalmente nos sambas enredos. O samba enredo "Quilombo dos Palmares", de Anescarzinho do Salgueiro, Noel Rosa de Oliveira e Walter Moreira, detentor do primeiro lugar no Grupo 1 no ano de 1960, foi um dos primeiros neste caso, baseado em enredo criado por Fernando Pamplona". 

 Na direção carnavalesca desta escola ficaria por 14 anos e 12 carnavais, acumulando cinco primeiro lugares, três segundos e terceiros lugares em desfiles diferentes. A professora e doutora em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ Helenise Monteiro Guimarães ressalta em entrevista à Revista Carioquice, editada pelo Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA). "Pamplona foi a mente brilhante que influenciou não só o desfile, mas o carnaval como um todo. Ele foi o responsável pela mudança da proposta de enredo, ao falar do negro brasileiro/africano, rompeu com os tradicionais temas de capa e espada, como ele mesmo define os enredos da época. 

Outra alteração foi a uniformização do visual da escola através de uma harmonia de cores e formas no figurino". No ano de 1961 ganhou do Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro o prêmio de uma viagem à Europa, feita no ano seguinte, em 1962. Permaneceu por dois anos na Europa, retornando ao Brasil em 1964. Passou a lecionar na Escola de Belas Artes da UFRJ e logo depois passou ao cargo de diretor da mesma escola, quando em sua homenagem um atelier da escola foi batizado de "Pamplonão". Como projetista de "stands" representando o Brasil no exterior, atuou entre os anos de 1962 e 1964 nas cidades de Berlim, Colônia e Hamburgo (Alemanha), Estocolmo (Suécia), Viena (Áustria), Budapeste (Hungria), Milão (Itália) e Estocolmo. 

Para as companhias estrangeiras que visitaram o Brasil trabalhou como diretor de cena, iluminador e/ou coordenador de montagem para Ballet da Ópera de Paris; Companhia Jean Louis Barreaut, Ballet de Champs Elisées; Ballet Jean Babilee; Picolo Teatro de Millano; Ballet Stanilawsky (URSS); Companhia Porgy And Bess (EUA);Ballet Senegal; Ballet da Geórgia (URSS); Companhia Memo Benasi (Itália) e Ballet Bolshoi. Professor e mentor artístico de vários carnavalescos que começaram com ele, destacando-se Rosa Magalhães, Renato Lage, Arlindo Rodrigues, Lícia Lacerda, Maria Augusta e Joãosinho Trinta. Em 2013 foi lançada no Bar Ernesto, na Lapa, centro do Rio de Janeiro, o livro "O encarnado e o branco", autobiografia editada pelo jornalista Fábio Fabato pela Editora Nova Terra. Considerado o inventor do carnaval contemporâneo e o pai de muitos carnavalescos profissionais como Rosa Magalhães, Maria Augusta, Lícia Lacerda, Renato Lage e Joãosinho Trinta. Faleceu vitimado por um câncer raro, sendo sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O termo carnavalesco utilizado genericamente para designar todo folião que participa, brincando, do carnaval de rua passou a ter um novo significado a partir dos anos 60 com a participação de membros da escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro no desenvolvimento de enredos nas escolas de samba do Rio de Janeiro.

A aproximação da academia com a festa popular contribuiu para o desenvolvimento e enriquecimento do carnaval carioca. Eis que surge o mestre Fernando Pamplona, professor dessa escola, que foi convidado para ser jurado no ano de 1959 do desfile das escolas de samba. Aceitou o pedido e nunca mais se afastou do carnaval. Atuando como carnavalesco por 14 anos, já a partir de 1960, e depois como comentarista das emissoras de rádio e de televisão, muito identificado com a extinta TV Manchete, com comentários precisos, técnicos e críticos, inclusive ao sistema que cercava o carnaval.
Pamplona foi o mestre dos grandes carnavalescos que surgiram a partir dos anos 60, 70 e 80, dentre eles, Joãosinho Trinta, Arlindo Rodrigues, Maria Augusta e Rosa Magalhães, que foram seus discípulos na arte de fazer belos e plásticos carnavais.

Foi também revolucionador em realizar o encontro do carnaval do morro com sua própria identidade, quando propôs temas que tinham por objetivo fazer uma revisão histórica e que mostrasse personagens e fatos que eram inerentes às pessoas dessas comunidades. Em vez de temas homenageando império, república, nobreza e elite, surgiram enredos como: Quilombo dos Palmares, Aleijadinho, Festa para um Rei Negro, dentre outros. 

Pela primeira vez, as escolas nascidas da resistência negra contavam sua verdadeira história e começavam a se enxergar no espelho. É impossível falar em concepção de enredo, em modernidade de estruturas alegóricas, sem pensar em Fernando Pamplona, salgueirense e botafoguense de coração. O mestre de todos os carnavalescos, neste ano de 2015, será tema do enredo da escola de samba São Clemente com o título: “A incrível história do homem que só tinha medo da matinta perera, da tocandira e da onça pé de boi”. A responsável pelo desenvolvimento do enredo é sua aluna da escola de Belas Artes, a campeoníssima do carnaval carioca, professora Rosa Magalhães. Com certeza, Pamplona estará assistindo ao desfile no camarote celestial.










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