quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Castor de Andrade: o carismático contraventor (Por Thiago Muniz)

Castor Gonçalves de Andrade e Silva (Rio de Janeiro, 1926 – 1997) foi o mais famoso e poderoso bicheiro do Brasil. Bicheiro, contraventor, mafioso, dono de indústrias, comprador de juízes, rei da propina.

Apoiador de greve metalúrgica mesmo sendo dono de uma empresa que fornecia panelas e fogões de campanha para o Exército e para a Marinha. Subornador, marginal, intelectual, amigo dos pobres, controlador de milhares de “pontos”, carismático, amado, odiado, matador, homem de palavra, protetor dos pobres, personagem nacional, principal presidente de honra e financiador do Bangu Atlético Clube, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, organizador de desfiles, criador da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, patrão do ex-boxeador campeão brasileiro Válter Silva (o “Anjo Negro, como o chamava), controvertido, envolvente, neto da bicheira Iaiá, sofisticado, invejado.

Amigo de ministros e autoridades da época, homem do povo.

Brasileiro, Castor era acompanhado por uma rede peculiar para um cidadão tido como contraventor pela justiça.

Castor de Andrade, sim, o melhor amigo do Bangu, sendo assim, o maior amigo dos associados, convidados e comunidade em geral. Comunidade esta a qual ele pertence e por isso aspira o melhor para ela. ‘Bangu de Castor’, banguense nato, completo, totalizado em seu espírito solidário, preocupado com as vitórias, com as glórias, as necessidades, os prazeres e as dificuldades do Bangu A.C e de Bangu-cidade.

Sendo ele dirigente do clube, advogado, esportista e filho do inesquecível ‘Sr. Zizinho’, ele faz e dá de tudo para o seu clube. O nosso Bangu possui e sente-se honrado com um componente de vital importância, um extremo colaborador, um amigo de infância de vários membros da presidência, como por exemplo, do Sr. Antenor Vicente Corrêa Filho, que sempre afirma: ‘Castor é o Bangu e é Bangu’.







Império da Contravenção

A herança da família Andrade provinha de muitos anos atrás. Criado em 1892 pelo Barão de Drummond, o Jogo do Bicho foi noticiado, na época, pelos jornais cariocas, como um advento histórico. No dia 4 de julho de 1892 uma enorme festança inauguraria o Zoológico particular do Barão. 

A idéia inicial era promover o sorteio a fim de aumentar a freqüência de visitantes no local. O complexo de lazer abrangia jardins, restaurantes, hotel e passeios para pessoas de alta distinção da sociedade imperial. Deu certo. Era o início do Jogo do Bicho, que anos depois já seria comerciado por Seu Zizinho, pai de Castor, oferecendo ao filho uma boa juventude como aluno do Colégio Pedro II, mesmo que este pouco freqüentasse as aulas para nadar na praia do Flamengo.

Seu pai, Eusébio de Andrade, já fizera fortuna explorando o jogo do bicho, e Castor teve uma infância despreocupada. Estudou no tradicional Colégio Dom Pedro II, mas era um aluno relapso que matava as aulas para nadar na praia do Flamengo. Isso não o impediu de se formar em Direito.

Castor herdou a banca de bicho de seu pai e a transformou num império. Era considerado um bicheiro romântico, que não permitia que outros negócios escusos, como o tráfico de drogas, fossem explorados juntamente com o jogo.

Castor transitou com prestígio e desembaraço pelo poder. No governo militar diversos generais lhe dedicaram atenção especial, a ponto de um secretário de Segurança do Rio de Janeiro daquela época, o general Waldir Alves Muniz, ter recebido instrução para "evitar problemas com Castor de Andrade". E o ex-presidente João Figueiredo quebrou o cerimonial certa vez, afastando-se do grupo de autoridades que o cercava e indo pessoalmente cumprimentar o bicheiro.
Quando herdou do pai as bancas de jogo, Castor já tinha em mãos uma boa quantia e um espaço ilustre dentro do chamado “círculo de banqueiros”, que foram surgindo. Antes da formação da cúpula de banqueiros, nos anos 80, os pontos de jogo variavam de titular dependendo do domínio de fogo do candidato. Funcionava na base do “apagar”. Foi assim em 1967 com Artur Ribeiro, o Tutuca, dono da banca no subúrbio carioca de Bento Ribeiro. Foi assassinado com cinco tiros perto de sua casa. Os pontos de Tutuca passaram então para o espólio de Castor de Andrade. A polícia nunca encontrou o culpado. 

Já em 1976, o presidente da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro e bicheiro Euclides Pannar, o China Cabeça Branca, foi “apagado” a caminho de casa, no Maracanã, zona norte do Rio. A ligação dos bicheiros com as escolas de samba é afinada. No carnaval de 1998, público e foliões fizeram um minuto de silêncio no sambódromo em homenagem a Castor, morto em 1997.
Contudo, os minutos de silêncio pregados em vários momentos pela morte do patrono maior de Bangu não duraram muito tempo. O estopim de balas e até de granadas ecoou por todo Rio de Janeiro e outras cidades do país, como Salvador na luta abrasiva pelo reinado deixado pelo maior. Quando o gato some, os ratos tomam conta. Depois da morte do chefe, os crimes foram se sucedendo de forma tão cinematográfica que até hoje, quase quatorze anos depois da morte de Castor, a polícia ainda tem dúvidas quanto aos mandantes dos crimes.




Futebol

O bicheiro foi presidente de honra e grande financiador do Bangu Atlético Clube, sendo o grande responsável pela conquista do título de campeão carioca de futebol de 1966. Foi acusado várias vezes de subornar árbitros para facilitar a vitória do seu time. Uma vez, num jogo contra o América, no Maracanã, ele invadiu o campo de revólver em punho. Quis tirar satisfação com o juiz que dera um pênalti a favor do América. O Bangu vencia por 2 a 1 e o América empatou. Dois minutos depois, o juiz marcaria outro pênalti, só que a favor do Bangu. Seu time venceu por 3 a 2. Quando perguntado pelos jornalistas sobre sua atitude, respondeu cinicamente que havia entrado em campo para proteger o juiz, ameaçado de agressão por torcedores revoltados.

Em um jogo do Bangu realizado no Maracanã o banqueiro estava acompanhado de apenas dois seguranças, ao contrário dos vinte e três freqüentes. Eram eles Irandir Paiva e Carlos Lacerda, delegados de polícia do Rio Grande do Sul, os quais haviam efetivado a segurança de Castor durante o jogo contra o Brasil de Pelotas, no Estádio Olímpico, do Grêmio Futebol Porto-Alegrense. O jogo contra o xavante não ocorreu em Pelotas. Enquanto Castor tecia com a CBF para a partida ser disputada na capital gaúcha ele recebera a informação de que a Confederação havia decidido que os jogos daquela etapa do campeonato deveriam ocorrer nos melhores estádios de cada estado. Estava fora de cogitação a formosa Pelotas.

Aqui desfilou também o famoso time Vice-campeão brasileiro de 1985, uma máquina que perdeu um titulo por um tremendo formulismo do futebol. Teve 48 pontos, contra 33 do campeão, o Coritiba, e ainda assim jogou em casa sem nenhuma vantagem. A decisão foi para os pênaltis e o final todos conhecemos. Pior é ver o Coritiba ser campeão com saldo negativo. Só mesmo no Brasil.





























Carnaval

Foi também patrono do G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba à qual ajudou a conquistar os títulos dos carnavais de 1979, 1985, 1990, 1991 e 1996. Mas sua participação no Carnaval não se limitava a esta escola de samba. Durante décadas colocou dinheiro na organização dos desfiles, numa época em que os traficantes não ousavam aparecer.

Deve-se ainda a Castor a fundação da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, que surgiu de uma dissidência da Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro. Sob a liderança de Castor e de Capitão Guimarães, dez escolas de samba, financiadas por bicheiros, que eram minoria e sempre derrotadas nas deliberações da Associação, criaram a LIESA, que passou a dominar o Carnaval carioca.





Processos

No início da década de 90, em processo presidido pela juíza Denise Frossard, Castor e os mais treze dos principais bicheiros do Rio de Janeiro foram acusados por formação de quadrilha, pois, seguindo o modelo da Máfia, os contraventores montaram um órgão de cúpula cuja principal finalidade era centralizar o esquema de corrupção de autoridades e policiais. A direção desse órgão de cúpula coube a Castor.

Num claro desafio à Justiça, Castor aproveitou a atenção da mídia e do público e, durante o carnaval de 1993, em pleno sambódromo, proferiu um discurso de cinco minutos condenando ferozmente a perseguição aos bicheiros. Três meses depois, a juíza Denise condenou os quatorze réus à pena máxima de seis anos de prisão.

Em 1994, Castor sofreria novo revés. Antonio Carlos Biscaia, procurador-geral de Justiça no Estado do Rio de Janeiro empreendeu uma ação contra o jogo do bicho, com o estouro da fortaleza de Castor. Foram apreendidas listas com nomes de autoridades, policiais e políticos suspeitos de receber suborno do crime organizado. A operação, seguida de ampla investigação, resultou em nova condenação da cúpula do jogo do bicho fluminense.

A crise de liderança estava instaurada. Ao contrário dos anos 80, quando os banqueiros realizavam reuniões para deliberações do colegiado, o prélio pelo comando trouxe uma nova lei ao mundo do Jogo do Bicho carioca: agora é cada um por si. A calmaria aparente desde a prisão dos bicheiros em 1993, condenados pela juíza Denise Frossard, membro do Partido Popular Socialista (PPS) e fundadora da ONG Transparência Brasil, terminara.

Enquanto os grandões estavam enclausurados, aconteceu a ascensão do chamado “segundo escalão”. Na madrugada de 12 de novembro de 1996, logo que a maioria dos chefões conseguiu a liberdade, o ex-policial civil José Augusto Rêllo de Souza foi metralhado com 17 tiros dentro de um táxi que nunca foi periciado. Rêllo tinha ampliado seu poder durante os três anos de prisão da cúpula. Junto a Rêllo, no “segundo escalão”, estava o economista Márcio Molinaro, o único homicídio desvendado pela polícia. Molinaro havia herdado metade dos pontos de jogo que pertenciam ao bicheiro Raul Capitão, do primeiro escalão. A mandante do crime seria Kátia de Melo, filha de Raul, que não teria se conformado com a divisão da herança com o sócio do pai.

Em 1998 a Polícia Militar do Rio invadiu imóveis no bairro de Bangu pertencentes à família Andrade. Lá estavam 20 pistolas, nove revólveres, 3.882 cartuchos para armas de fogo e uma caneta com dispositivo de disparo calibre 38. Contudo, junto às anotações de Castor, estava uma extensa lista de militares, políticos, policiais e pessoas ligadas ao governo.



Prisão e Morte

Castor esteve foragido para escapar da prisão, mas foi reconhecido e capturado em 26 de outubro de 1994, quando visitava o Salão do Automóvel, em São Paulo, disfarçado com um bigode postiço e uma peruca preta.

Recolhido à carceragem da Polinter, fez ali uma verdadeira revolução. As celas se tornaram suítes de hotel de luxo, com ar-condicionado, lavadora de roupa, frigobar, televisão e videocassete. As festas na prisão eram constantes e movidas à champanhe e caviar. Além de comprar mordomias, o contraventor financiou a reforma das instalações e o conserto de carros de polícia.

Por problemas cardíacos, obteve da Justiça o direito de cumprir sua pena em prisão domiciliar no seu luxuoso apartamento na Avenida Atlântica. Mas saía às ruas com freqüência, sem ser incomodado.

No fim da tarde do dia 11 de março de 1997, desrespeitando pela enésima vez a ordem judicial, jogava cartas na casa de um amigo, no Leblon, quando sofreu um ataque cardíaco fulminante, que o matou. Seu corpo foi velado na quadra da Mocidade. No carnaval de 1998, público e foliões presentes ao sambódromo fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem.

Herdeiros

Com a morte de Castor de Andrade, seus negócios foram divididos: o controle das máquinas caça-níqueis ficou com Fernando Iggnácio de Miranda, genro do contraventor, e o jogo do bicho ficou com Paulinho, seu filho. O sobrinho de Castor, Rogério Andrade, foi chamado para ajudar na administração do jogo do bicho e como as apostas caíram muito no final dos anos 90, ele passou a investir em máquinas, tomando parte do negócio de Fernando Ignácio, que se tornou seu inimigo.

Mas a popularidade do bicheiro não encontrava eco em seu sobrinho Rogério Andrade, para quem a figura do tio despertava um misto de fascínio e revolta. O ódio de Rogério contra Castor começou após a morte do avô Eusébio Andrade. Antes de morrer, o patriarca preteriu João Carlos de Andrade, seu filho mais velho e pai de Rogério, para assumir o controle sobre os “negócios da família”. Seu irmão, Castor, foi o escolhido e alçado a “capo”.

A disputa por poder e dinheiro dentro do clã de Castor de Andrade deixou um rastro de sangue de dezenas de assassinatos praticados nos últimos dez anos na zona oeste do Rio. A disputa entre Rogério Andrade e Fernando Iggnácio envolveu pelo menos 80 policiais civis e militares, com destaque para integrantes da cúpula da Polícia Civil do Estado, conforme apuraram policiais federais. A Operação Gladiador, da PF, levou à condenação dos dois contraventores e de 11 policiais, em janeiro de 2009, pelos crimes de formação de quadrilha, contrabando e contravenção. Entre os agentes, três deles eram ligados a Álvaro Lins, ex-chefe da Polícia Civil e ex-deputado estadual. De acordo com a PF, Lins atuava como subordinado de Rogério Andrade no submundo da jogatina fluminense.

Em 1998, a guerra esquentou com uma generalizada destruição de máquinas caça-níqueis de ambos os lados. Nessa ocasião, Rogério teria encomendado a morte de Paulinho Andrade, que foi assassinado na Barra da Tijuca. O ex-PM Jadir Simeone, autor dos disparos contra Paulinho, acusou Rogério de ser o mandante do crime, que foi condenado, em 2002, a 19 anos de prisão, mas o julgamento foi anulado no Superior Tribunal de Justiça.

Diogo Andrade vinha sendo preparado pelo pai para se tornar seu herdeiro na exploração de caça-níqueis em vários bairros da zona oeste do Rio. Um negócio milionário que, segundo estimativas da Polícia Federal, movimenta até R$ 5 milhões mensais. Ainda assim, durante a missa de sétimo dia de Diogo, realizada com pompa na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, Andrade negou que fosse colocar em prática qualquer plano de vingança.







BIO

Thiago Muniz é colunista do blog "O Contemporâneo", dos sites Panorama TricolorEliane de Lacerdablog do Drummond e Mundial News FM. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.


4 comentários:

  1. Fantástico texto sobre essa figura incrível (para o bem e para o mal) que foi o castor. Pq essa história não virou um filme ou série?

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    1. É verdade, daria um ótimo seriado. História é o que não falta.

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    2. Existe uma minisérie da HBO, chamada Filhos do Carnaval, que em duas temporadas, fala um pouco sobre essa história.

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    3. Boa dica, vou procurar pra assistir.

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