quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Carnaval do Rio: Um produto com o selo Globo de 'qualidade"

O Carnaval na Marquês de Sapucaí virou mais um produto comercial da Rede Globo de Televisão. O Rei Momo já era, na folia quem manda é a Globeleza.

Fofo, inofensivo, adorado por todos, o Rei da Folia está sendo destronado: de mansinho, à vista de todos. Quem assume o lugar de Momo é a criatura eletrônica, divina, esguia, inefável, inebriante, indizível, absolutamente pelada, algo assexuada, poderosa e etérea.

Globeleza, descendente das cabrochas, é símbolo da apropriação do carnaval pela Rede Globo. Justiça seja feita – não faltam ao grupo empresarial competência, imaginação, recursos e audácia. Mas ao obter a exclusividade da cobertura dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro – ponto alto do carnaval brasileiro –, a maior rede televisiva do país integrou-a à sua grade de programas tal como fez com as transmissões de futebol em dias úteis que só começam quando acaba o capítulo da novela das 9.

Nosso Carnaval agora é plim-plim, platinado – mesmo padrão de qualidade (e mesmosdelays), mesmo esmero e mesmíssima aposta na infantilização da distinta audiência.

No domingo de Carnaval (15/2), o desfile das escolas só começou depois do Fantástico. Dia seguinte, segunda-feira, os telespectadores de todo o Brasil que pretendiam assistir ao desfile integral, ao vivo, tiveram que se contentar com as escolas que desfilaram depois da exibição da novela e do abominável reality show. Significa que as escolas que desfilaram antes foram exibidas depois, de madrugada e na manhã seguinte, gravadas. Ou, quem sabe, editadas.

Alguma coisa está errada quando a maior festa popular do país é manhosamente privatizada, convertida em ativo de um portentoso grupo empresarial e a sua cobertura sujeita a interesses alheios ao jornalismo. É possível que dentro do organograma da rede a cobertura do carnaval esteja fora do âmbito da Central Globo de Jornalismo. Problema do organograma, ou da maneira com que foi concebido.

A cobertura de um evento público, oficial e patrocinado pelo erário, deve seguir obrigatoriamente os paradigmas jornalísticos e não a lógica dos departamentos comercial e de marketing.

Se as autoridades que concederam à Rede Globo a exclusividade para cobrir o desfile carioca não parecem ter a necessária disposição cívica para reclamar, problema delas – são parceiros de uma concessão que deveria ser acompanhada e zelada como patrimônio nacional. E se os veículos concorrentes – na mídia impressa, audiovisual ou digital – engolem a sutil trambicagem, convém lembrar que a inconsequente Maria Antonieta só se deu conta das mudanças que ocorriam à sua volta momentos antes de perder a cabeça.

A submissão e o servilismo com que o grosso da mídia pega carona na popularidade das atrações da Globo atende pelo nome de oligopólio. É nome feio, não condiz com as normas republicanas e uma imprensa adulta. Sugere algo assemelhado a impeachment, pena que o especialista no assunto esteja olhando em outra direção.

Os desfiles no sambódromo do Rio pareciam ambientados num colossal Projac (os estúdios globais em Jacarepaguá): as beldades e rainhas das diferentes baterias, alas e escolas são “da casa” – começaram estrelando comerciais consagrados nas telinhas da Globo, hoje brilham nos elencos das intermináveis telenovelas e, nesta condição, obrigadas a participar de, no mínimo, uma escola de samba (alguns pularam em várias). Chegou-se à suprema combinação do real com o surreal ao sobrepor a trama da novela das 9 ao clima carnavalesco reinante no país: o desfile da escola de samba que homenageava o protagonista de Império, por casualidade, aconteceu na noite da Quarta-Feira de Cinzas.

Personagens que na véspera estavam na Sapucaí, 24 horas depois estavam no estúdio que fingia Sapucaí, com adereços e figurinos diferentes, a mesma trilha sonora e cenas do desfile real enfiadas no desfile falsificado. Simplesmente genial: faltou pouco para que a justaposição do mundo da fantasia com o mundo de mentirinha se transformasse em pastiche. Chegaremos lá.

Parênteses além da fenomenologia: a ideia de resgatar Fátima Bernardes para o jornalismo merece aplausos. Trata-se de uma profissional qualificada, ótima entrevistadora, capaz de narrar acontecimentos sem depender do texto que corre noteleprompter. Mas se hoje a ex-apresentadora do Jornal Nacional está estrelando comerciais, não pode participar de qualquer cobertura jornalística. Mesmo da forma discreta e elegante escolhida para comentar os desfiles do sambódromo carioca.

Não importa que o seu programa matinal esteja fora da Central Globo de Jornalismo. De novo, isso é problema organizacional doméstico. Jornalismo, em qualquer departamento ou editoria, é jornalismo – tem regras, princípios, deveres. O que importa – e muito! – é que ao admitir a participação de um profissional em comerciais de TV e anúncios, fica interditada automaticamente sua participação em qualquer missão jornalística. É livre o caminho da volta, inadmissível a duplicidade.

A transfiguração de Momo em Globeleza faz parte do processo de mediatização e simplificação que, ao correr solto e livre, sem reparos ou contrapesos, desanda e termina mal. O empenho em ressuscitar a todo custo o Carnaval de rua e esticar o antigo tríduo para uma e até duas semanas segue a mesma lógica do pé-na-jaca e do vai-levando que jornalistas e comunicadores com as melhores intenções entendem como alegria, descontração e inocência sem perceber seus efeitos colaterais e deletérios.

O que é verdadeiramente novo nem sempre é novidade. E o que é apresentado como atualidade muitas vezes são velharias recicladas. Desta confusão e do despreparo das chefias para encarar problemas menos óbvios nasce a atual obsessão pelos modismos.

Este foi o Carnaval do Selfie, nunca se apelou tanto para obter algum retorno. O narcisismo nunca foi tão descaradamente explorado. Dona da fama, mesmo de 15 minutos, a mídia sabe seduzir os anônimos. Jornais, portais, emissoras de TV abertas ou pagas, rádios em horário nobre ou plebeu, perderam completamente a compostura suplicando qualquer participação do público. Mensagens, tuítes, torpedos, whatsapps, autofotos, vídeos – desde que tratassem de carnaval, folia, euforia. Este tipo de alegria tem algo de funesto. Rima com anestesia.

Não é a primeira vez que enredos de uma escola de samba são financiados por empresas (públicas ou privadas), lobbies (ostensivos ou disfarçados), governos, caudilhos, ditaduras ou repúblicas. Neste Carnaval de 2015, dois países patrocinaram enredos: a Suíça – primeira república federativa do mundo – pagou uma soma não revelada à Unidos da Tijuca para louvar seus chocolates, relógios, neve, neutralidade etc., etc. A Guiné Equatorial, ditadura de 35 anos, deu 10 milhões de reais à Beija-Flor para cantar a pujança da africanidade. No dia em que desfilou (domingo à noite), jornais, portais e a TV Globeleza não deram muita atenção ao polêmico subsídio manchado de sangue, corrupção e miséria. Só lembraram de discuti-lo quando foi anunciado o cobiçado primeiro lugar à estranha ave predadora fantasiada de beija-flor.

Doping é isso: privação do senso moral.


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