sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Caminhoneiros: o alarme ignorado pela imprensa

O governo de Salvador Allende começou a cair, em 1973, quando os caminhoneiros chilenos iniciaram uma greve reivindicatória que acabou se transformando num movimento político que colocou a classe média do país contra o primeiro presidente socialista eleito nas urnas.

Quem cobriu aquele protesto, ocorrido há 41 anos, inevitavelmente associa a greve chilena com a brasileira atual e sente um frio na espinha porque os desdobramentos apontam na direção de uma crise institucional de consequências imprevisíveis. Allende sabia que seu destino já estava traçado muito antes de um golpe militar do qual a maioria dos chilenos se arrepende até hoje.

A greve dos caminhoneiros paralisou o abastecimento da população e o funcionamento da indústria, estrangulando a jugular da economia do país. A imprensa chilena da época, radicalizada política e ideologicamente, cobriu apenas o factual do protesto, deixando de lado as causas e principalmente as consequências do movimento. A desconstrução do governo Allende deu origem a um golpe militar que se transformou num capítulo trágico na história do país.

Tanto em 1973, no Chile, como agora no Brasil o protesto dos caminhoneiros não tem uma estrutura sindical e nem um comando central visíveis. Ele assume a forma de uma guerrilha rodoviária onde há apenas indícios de um comando centralizado porque há coordenação dos bloqueios de estradas. Se tudo ficasse apenas nas mãos dos motoristas, o movimento não mostraria tanta eficiência.

Os principais jornais brasileiros até agora não foram mais fundo nas origens e estrutura do protesto, o que revela uma decisão editorial e política que tem inevitáveis desdobramentos. O principal deles é ampliação do clima de incerteza na população e nos segmentos empresariais. Uma incerteza que vem crescendo desde as eleições do ano passado e que pode chegar a um ponto crítico se a greve dos caminhoneiros provocar a falta de alimentos, combustíveis e produtos essenciais (como remédios, por exemplo) nas principais capitais brasileiras.

Isso aconteceu no Chile em 1973 e levou, na época, a população do país a um estado de perplexidade quase catatônica que neutralizou preventivamente qualquer tipo de resistência a uma ruptura institucional. Este tipo de alerta não está sendo veiculado pela imprensa, o que deixa o público sem uma noção exata dos riscos a que ele poderá estar sujeito. Um dos papéis-chave da imprensa em situações de pré-crise é fornecer à população elementos para que ela avalie como lidar com o um possível desabastecimento alimentar, com a paralisação dos transportes públicos e privados, e o aumento da insegurança pessoal.

O que estamos assistindo agora aqui no Brasil é um paulatino agravamento das tensões que geram irritação progressiva e perda de controle emocional e político. Protestos podem rapidamente degenerar em pancadaria, depredações e vítimas pessoais por conta do clima de polarização e radicalização de posicionamentos político-ideológicos.

Ao não tratar estes temas como uma preocupação pública, a imprensa está brincando com fogo. A omissão informativa pode ser coerente com a oposição ao governo Dilma Rousseff, mas qualquer analista político ou sociológico sabe que o risco de descontrole cresce na medida em que a governabilidade é transformada em arma na luta pelo poder.

A presidente Dilma Rousseff se pronunciou nesta quinta-feira (26) pela primeira vez sobre a greve dos caminhoneiros – e tornou mais evidente o descontrole do governo sobre a crise. Depois de participar da cerimônia de lançamento do programa Bem Mais Simples, no Palácio do Planalto, ela afirmou que o Executivo tem se esforçado para resolver o problema, mas não apresentou qualquer novidade sobre a paralisação, que dura mais de uma semana em algumas partes do Brasil.

"O governo está fazendo todo um esforço na questão da resolução da greve. Nós apresentamos, junto com várias lideranças e empresários que foram consultados e avaliados, um conjunto de propostas. Esse conjunto de propostas foi divulgado pelos órgãos de comunicação e a gente tem visto que elas têm tido uma recepção. Aguardamos. Os ministros responsáveis estão todos em atividade trabalhando essas propostas", disse a presidente, na única resposta que deu sobre o tema.

Apesar do acordo anunciado na noite desta quarta-feira pelo governo e sindicatos de caminhoneiros, os bloqueios persistem em boa parte do país. O protesto não foi organizado por entidades sindicais. O principal porta-voz do movimento, o caminhoneiro Ivar Schmidt, se reuniu com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, mas rejeitou a oferta do governo - que não aceita reduzir, mesmo que temporariamente, o valor do diesel..

A fala de Dilma se deu após o lançamento do Bem Mais Simples, programa que tem como objetivo agilizar os procedimentos para a criação de empresas. Por ora, a única mudança será a possibilidade de encerramento do CNPJ de forma imediata, por meio de um site criado pelo governo. Os eventuais débitos da companhia serão transferidos para o CPF dos proprietários. O objetivo do governo é que, em junho, seja possível criar uma empresa em cinco dias. Hoje, de acordo como próprio Executivo, o procedimento leva em média 102 dias.

Os protestos de caminhoneiros nas rodovias do Paraná completam 15 dias nesta sexta-feira (27). Desde o dia 13, foram vários pontos de bloqueio em rodovias estaduais e federais do estado. Na maioria dos trechos fechados, apenas os veículos de carga, com exceção dos com cargas vivas, são impedidos de seguir viagem. A categoria é contra os aumentos constantes do preço do litro do óleo diesel e o valor pago pelos fretes, que são considerados baixos.

Nas rodovias federais, os caminhoneiros descumprirem uma determinação da Justiça que impõe multa entre R$ 1 mil a R$ 50 mil por hora de bloqueio em rodovias de Curitiba, de Foz do Iguaçu, Toledo, Guarapuava e Londrina. Na quinta-feira (26), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou às superintendências da Polícia Federal (PF) a abertura de inquéritos para apurar se ocorreram abusos nos protestos de caminhoneiros, que também são realizados em outros estados brasileiros.

Após horas de negociações, sindicatos e associações que representam caminhoneiros aceitaram na noite desta quarta-feira (25) os termos do acordo proposto pelo governo para colocar fim aos protestos da categoria. Entretanto, o acordo não contou com o apoio de Ivar Luiz Schmidt, que se diz representante do Comando Nacional do Transporte, movimento que, segundo ele, é responsável por cerca de 100 pontos de bloqueio nas estradas.

Com os caminhões parados nas estradas, houve redução no número de fretes. O problema reflete em vários setores da economia do estado. Nas regiões oeste e sudoeste, por exemplo, os aeroportos de Cascavel e Foz do Iguaçu estão sem combustível para abastecer as aeronaves. Os frigoríficos da região também precisaram paralisar os trabalhos. Na quinta, o local deixou de abater 420 mil frangos e dispensou 2,6 mil funcionários.

A operação do Porto de Paranaguá, principal terminal de exportação de produtos agrícolas do país, também é prejudicada por causa dos protestos. No início da semana, apenas 10% dos carregamentos previstos para foram realizados.

Três pessoas foram presas durante um tumulto na BR-277, no Trevo Cataratas, em Cascavel, na tarde de quinta-feira.

Nesta quarta (25), após se reunir com lideranças dos caminhoneiros e com representantes de empresários, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, afirmou que o governo se comprometeu a sancionar sem vetos a Lei dos Caminhoneiros. A matéria foi aprovada na Câmara no último dia 11 e estabelece regras para o exercício da profissão de motorista.

Responsável pela interlocução do governo com os movimentos sociais, Rossetto frisou que a Lei dos Caminhoneiros vai prever que os caminhões que trafegarem vazios e com o eixo suspenso estarão isentos do pagamento de pedágio.

Ivar Schmidt diz ser responsável por pelo menos 100 pontos de bloqueio de caminhoneiros nas rodovias do país. O líder do recém-criado Comando Nacional dos Transportes, que não é vinculado a nenhum sindicato ou confederação de trabalhadores, atribui o sucesso de sua mobilização ao Whatsapp. É por meio desse aplicativo de troca de mensagens que ele se comunica com os líderes de cada ponto de bloqueio e passa orientações.

Durante a entrevista que deu ao G1, Schmidt atendeu a uma ligação de um dos caminhoneiros e recomendou que não entrasse em atrito com a polícia. O governo conseguiu na Justiça a liberação das rodovias federais em 11 estados. Porém, nesta quinta-feira (26), os caminhoneiros mantêm bloqueios em sete deles: Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Seu poder de mobilização está causando dor de cabeça ao governo. Enquanto sindicatos e associações que representam os caminhoneiros aceitaram na noite de quarta-feira (25) os termos do acordo proposto pelo governo para colocar fim aos protestos da categoria em todos os estados, Schmidt diz que não vai ceder enquanto o governo não criar o chamado frete mínimo. “Daqui de Brasília eu só saio com alguma solução ou morto”, diz.

Schmidt conta que fundou o Comando Nacional dos Transportes com cinco amigos caminhoneiros em dezembro do ano passado. Ele se orgulha em dizer que a entidade não tem vinculação a partido, sindicato ou federação. “A categoria não reconhece mais esses representantes antigos, eles atendem só a um leque pequeno da categoria, fica tudo centralizado em São Paulo, e a realidade de São Paulo é diferente do Brasil”, explica.

Schmidt, que já foi caminhoneiro, atualmente é proprietário de uma pequena transportadora desde 2002 em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Natural de Palmitos, SC, tem 44 anos, mora há 16 anos no RN, é casado desde 1996 e tem um casal de filhos. Atualmente tem um caminhão de sua propriedade, que está parado na Bahia.

O empresário diz que a paralisação estava marcada na verdade para o dia 1º de abril, mas acabou antecipada por causa do primeiro aumento do combustível em novembro. “Nesse aumento de novembro já nos botaram uma faca na garganta, e com esse último cortaram nossa veia aorta”, diz.

“O pessoal já tinha contato com a gente. Mossoró é um polo de carga, por conta da minha transportadora sou muito conhecido e por isso conseguimos mobilizar todo mundo”, conta.
Schmidt afirma que no início até resistiu à ideia de antecipar os bloqueios nas estradas porque diz que gosta das coisas bem organizadas. “Eu queria pra 1º de abril, mas o lucro operacional é zero neste momento, então deflagramos antes. Os caminhoneiros não recebem aumento há 10 anos, a depreciação nem é mais contabilizada”, diz.

De acordo com Schmidt, até terça-feira (24), ele contabilizava 128 pontos de bloqueio sob seu comando. Mas na quarta-feira (25) alguns se desmobilizaram após o acordo anunciado com o governo e a polícia começou a intervir para liberar as rodovias. Mas o empresário garante que em 80% dos pontos não houve desmobilização.

Ele reclama que foi convidado a se retirar da reunião na sede do Ministério dos Transportes, em Brasília. “Foi jogo de cena montado pelo governo. Chamaram pra reunião às 14h com supostos líderes do movimento, fui convidado para sair. Aí tive uma reunião com o secretário do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, às 19h30 que durou até as 21h, e nesse tempo o Rossetto anunciou o acordo com os representantes dos caminhoneiros”, diz.

Schmidt quer que o governo aprove sua proposta de criar o frete mínimo para que, segundo ele, não ocorra mais a exploração dos caminhoneiros. Para ele, será uma espécie de balizamento no setor de cargas. O valor defendido por ele é de R$ 0,70 por eixo e por km rodado. “Hoje não é por eixo nem por km rodado e isso contribui com o excesso de peso. A partir do momento que tiver o frete por km rodado não vai haver peso a mais porque será por quilometragem e não por peso, isso vai beneficiar o próprio governo, que vai gastar menos para recuperar a malha viária”, explica. Schmidt diz que apresentou essa proposta ao secretário de Rossetto na quarta e foi pedido a ele um detalhamento. Agora o líder aguarda uma nova reunião.

Questionado se pretende se candidatar a algum cargo político no futuro, ele descartou. “Nunca pensei nisso, nunca me envolvi com política. A água bateu no meu pescoço, por isso me mexi. Nosso movimento tem só o propósito de resolver os problemas do transporte, não nos envolvemos com política”, ressaltou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário