sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BNDES: Muita polêmica está por vir

O BNDES e o polêmico financiamento das multinacionais brasileiras.


Em outras palavras, seria indispensável contar com multinacionais brasileiras, gigantes e em expansão, para participar em condições mais vantajosas da feroz concorrência global, acirrada agora pela crise mundial do capitalismo e o desenvolvimento desigual das nações. Isto significa estimular ativamente o processo de concentração e centralização do capital e a formação, consequente e inevitável, dos monopólios modernos, que dominam a produção, o comércio e as finanças. O "Carreçúcar", se concretizado, responderia por quase um terço (32%) das vendas no ramo de supermercados. A ideia, e também a ideologia, de que o BNDES deve priorizar o processo de formação e expansão das multinacionais brasileiras no exterior prevalece no governo e conta com amplo apoio político. Muitos bilhões de dólares já foram destinados a este objetivo.

Mas é preciso observar com espírito crítico se este caminho, que certamente dá um sentido ao desenvolvimento da economia nacional e à inserção do país na chamada globalização, corresponde aos interesses do povo brasileiro, e em particular da classe trabalhadora, que constitui a maioria da sociedade. O que está em jogo é não só dinheiro público, que deve ser gasto em benefício do povo, mas a nação que se desenha para o futuro. O impacto mais que provável da fusão em tela é uma maior monopolização da economia, conforme alertou o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Fernando Furlan. Isto é bom para os grandes capitalistas, mas sai caro para os consumidores e requer a liquidação de várias pequenas e médias empresas, que não podem aspirar a privilegiada condição de campeãs e são engolidas pelo processo de centralização do capital. Sob este aspecto o emprego de dinheiro público na fusão não parece muito justificável. Mas o tema não se esgota aí. A monopolização da economia não é o único aspecto relevante da política do BNDES a favor das “campeãs”.

A ascensão das multinacionais brasileiras é um fenômeno relativamente recente na história brasileira, que acompanha o processo histórico de declínio do poderio econômico relativo dos Estados Unidos e o desenvolvimento desigual das nações. Este desenvolvimento promove o deslocamento do centro dinâmico da produção e do comércio para a China e outros países ditos emergentes, com destaque na América Latina para o Brasil. A “emergência” das multinacionais verde-amarelas é parte inseparável deste movimento.

A crise deflagrada nos EUA, associada à queda do dólar e valorização do real, favoreceu a expansão dos negócios protagonizados pela grande burguesia brasileira no exterior, com aquisições bilionárias no mercado norte-americano de empresas em liquidação e crescente exportação de capitais, direcionada principalmente à América Latina. A situação mudou. Antes (e não faz muito tempo) o Brasil era (quase) exclusivamente um país importador de capitais, hoje é também, e ao mesmo tempo, um exportador de capitais. Isto faz diferença, embora não signifique o fim da vulnerabilidade externa.

A liderança do Brasil no continente americano não se sustenta apenas na política externa, que assumiu no governo Lula um caráter progressista por adotar uma posição altiva e soberana no tratamento das contradições com os EUA e apostar na integração dos países latino-americanos. É respaldada pela presença econômica não só na exportação de mercadorias como também de capitais. Por esta e outras, a ascensão das multinacionais brasileiras é apoiada por muitos políticos nacionalistas, que consideram o fenômeno conveniente aos interesses nacionais. O tema é complexo e não pode ser abordado de forma exaustiva nos limites deste artigo, que por sinal já subverteu os limites do recomendável na internet. Algumas palavras finais são necessárias.

Em minha modesta opinião, de um ponto de vista marxista, ancorado na perspectiva histórica da classe trabalhadora, o desenvolvimento nacional orientado para a formação de monopólios privados não merece o apoio do povo. O pensamento capitalista dominante obviamente sustenta que os interesses dos grandes monopólios coincidem com os interesses nacionais. Foi um apelo parecido que levou os trabalhadores da Europa e do mundo à guerra uns contra os outros em 1914 e induziu a Internacional Socialista à capitulação. É uma suposição falsa para os povos, que nada têm a ganhar com a concorrência global dos monopólios, a não ser a guerra. Não devemos perder de vista o caráter internacional da classe trabalhadora e da humanidade. O capitalismo dos monopólios é a razão da crise mundial, inclusive em sua dimensão ambiental. Financiamento subsidiado para expansão de multinacionais não vai criar atalho para o socialismo, vai reproduzir relações imperialistas, vai reproduzir imperialismo.

As crises do capitalismo monopolista, capitaneado pelo capital financeiro, e da ordem imperialista mundial, hegemonizada pelos EUA, crises convergentes e entrelaçadas, abrem novas oportunidades e um desafio histórico que deve extrapolar os limites estreitos do nacionalismo. Este, quando bem-sucedido nos marcos do capitalismo, conduz ao imperialismo, conforme notou Lênin. O imperialismo, que é o capitalismo global dos nossos dias, é um monstro de muitas cabeças que parece eterno, promoveu duas grandes tragédias no século 20 e neste momento em que vivemos é uma clara ameaça à sobrevivência da humanidade e da natureza. Tem que ser destruído para evitar a barbárie e preservar a vida e a civilização. Este não é um tipo de dilema que podemos remeter às calendas gregas em nome de interesses nacionais. De resto, certamente existe destino socialmente mais justo e produtivo para o dinheiro público (incluindo do Fundo de Amparo do Trabalhador) que o controvertido financiamento dos grandes grupos capitalistas e a formação de monopólios privados. Ou será que não?

É necessário o controle social desses grandes empreendimentos (especialmente por parte do Estado) de forma a garantir o interesse público. Há de se politizar o papel do Estado neste processo. O povo tem de compreender a importância desses consórcios nacionais ao mesmo tempo em que defenda uma política tributária progressiva (em contraponto ao senso-comum "todo imposto é ruim"). O povo tem que ser a favor do desenvolvimento de nossa economia ao mesmo tempo em que se destaque o protagonismo da classe trabalhadora organizada. Porque se os interesses "nacionais" se resumirem ao sucesso de nossas empresas no mundo, o Brasil seguirá caminhos parecidos com os da Europa, que levou anos para implementar políticas garantissem o bem-estar dos trabalhadores - hoje estes vivem com a corda no pescoço e só a direita ganha força política nos parlamentos. Não dá pra ser simplesmente pragmático. Analisemos além da Economia, devemos atentar para o rumo do debate político-ideológico, e este vai muito mal!

Nos últimos meses, o banco responsável por financiar os grandes investimentos no Brasil está no centro das discussões. O dinheiro do cofre bilionário do BNDES estaria indo para as mãos de algumas poucas empresas, o que tem gerado muita polêmica. O BNDES é um banco de 60 anos e existe exatamente para reduzir os custos de financiamento, de investimento. Ele sempre teve uma oferta de dinheiro mais barata, sempre foi assim.

Só que agora a discussão ocorre por muitos motivos. Um deles é a concentração: o dinheiro vai para poucas empresas. Por exemplo: a ajuda na época da crise, para capital de giro, foi para apenas 14 empresas. Algumas receberam R$ 800 milhões, como a Votorantim. Desse capital, 57% foi para 12 empresas. Antes, o banco emprestava dinheiro do Fundo de Amparo do Trabalhador e recursos que voltavam de empréstimos antigos. Agora, é dinheiro do Tesouro.

Um dos casos que está gerando muita polêmica é o empréstimo excessivo para o setor de frigoríficos. O BNDES negou para muitos frigoríficos e deu muito dinheiro para dois. Um dos empréstimos não paga juros durante um ano e é para compra de um frigorífico no exterior. Ou seja, não cria um emprego no Brasil, não cria investimentos no Brasil.

Os empresários fizeram um manifesto em defesa do BNDES. Não é o banco que está sendo atacado, mas as escolhas que a direção está fazendo. Sessenta anos após sua criação, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vem atraindo a atenção internacional e provocando polêmica com sua atuação cada vez mais ampla no financiamento da expansão de multinacionais brasileiras e no papel de apoiador da política industrial do governo brasileiro.

Como peça central em todas as estratégias de desenvolvimento implementadas no Brasil nos últimos 60 anos - da fase inicial da industrialização do país, nos anos 50, ao desenvolvimento da indústria intermediária e de bens de capital nas décadas de 60 e 70, e as privatizações dos anos 90 - a ação do BNDES sempre alimentou debates domésticos.

Representantes de ONGs e movimentos sociais ligados a rede conhecida como Plataforma BNDES, por exemplo, defendem que não há muito o que comemorar e alguns grupos estão se organizando para lançar, no fim do mês, uma campanha pedindo a responsabilização judicial do BNDES pelas "violações de direitos dos trabalhadores e das populações atingidas por empreendimentos financiados pelo banco".

Mas uma das novidades desta nova fase consolidada pelo banco ao completar seu sexagésimo aniversário parece ser a atenção que o "BNDES do século 21" atrai também fora do Brasil entre diversos setores - de movimentos sociais a meios acadêmicos e políticos, consultorias e veículos da imprensa. A revista britânica "The Economist" é uma das publicações que vêm analisando o papel atual do BNDES. Para a revista, a instituição "cresceu rápido demais" e ajudou o Brasil a produzir um "novo modelo de política industrial" no século 21.

Algumas das ONGs que pressionam por mais transparência no BNDES (como o Instituto Mais Democracia e a Rede Brasil de Instituições Financeiras Multilaterais) têm parceiros em redes internacionais que até os anos 1990 supervisionavam o FMI e o Banco Mundial e também cooperam com grupos afetados por obras financiadas pelo BNDES na América Latina - como indígenas bolivianos e peruanos.

"O BNDES começou a atrair atenção internacional nos últimos anos, conforme o Brasil foi alçado à categoria de ator global", diz Mahrukh Doctor, professora da Universidade de Hull, na Grã-Bretanha, que tem feito pesquisa sobre o banco.

Para a economista indiana Jayati Ghosh, da Jawaharlal Nehru University, com sede em Nova Déli, o banco brasileiro tornou-se um "modelo" para outros países em desenvolvimento. Aldo Musacchio, professor da Universidade de Harvard, nos EUA, estuda o BNDES para entender os diferentes tipos de relação Estado-mercado que vêm ganhando força com a crise global.

De acordo com esses três especialistas, pelo menos três fatores explicam esse crescente interesse pelo banco. Primeiro, a mudança na "escala" dos seus desembolsos. Segundo, a expansão de multinacionais brasileiras pelo globo, com o apoio direto ou indireto do BNDES.

Por fim, a crise econômica internacional, que levou a uma revisão das teorias sobre as relações Estado-mercado e deu fôlego aos que defendem a adoção de políticas industriais. Hoje, R$ 1 de cada R$ 5 investidos no Brasil sai dos cofres do BNDES - incluindo uma fatia importante dos recursos para as obras da Copa de 2014 e Olimpíada de 2016.

Os desembolsos do banco saltaram de R$ 38,2 bilhões (US$ 18 bilhões), em 2002, para R$ 150 bilhões (US$ 72 bilhões), no esperado para esse ano (que equivaleria ao dobro do PIB da Bolívia). E desde 2010 têm superado os do Banco Mundial.

"Embora a Índia tenha tido muitos bancos de desenvolvimento nos anos 50 e 60, deixou que a maior parte deles fosse extinta nos anos 90", diz Gosh. "A China tem bancos estatais até maiores que o BNDES, mas só o Brasil tem um banco de desenvolvimento de tanto impacto em um contexto de uma economia de mercado e globalizada."

Conforme os desembolsos cresciam, o próprio BNDES também passou a olhar para além das fronteiras do país, apoiando a expansão de multinacionais brasileiras de três maneiras. Em primeiro lugar, ajudando a formação de grandes grupos nacionais - principalmente por meio do estímulo a fusões e aquisições, como aponta Doctor.

Segundo, financiando investimentos diretos brasileiros no exterior - um tipo de operação que só se tornou possível graças a uma alteração no estatuto do banco, em 2002, e consumiu mais de R$ 9 bilhões (US$ 4,4 bilhões) desde 2005.

Foi esse o esquema usado para permitir as compras bilionárias de frigoríficos nos EUA que transformaram a JBS Friboi na maior empresa da cadeia de proteína animal do mundo, por exemplo. "Uma estratégia que transforma uma empresa pequena do interior de Goiás em um líder global de mercado em seis ou sete anos certamente desperta o interesse dos que observam tal transformação", diz Doctor.

A terceira forma pela qual o BNDES tem ajudado a expansão das multinacionais 'made in Brazil' é por meio do financiamento ao conteúdo brasileiro em obras de infraestrutura no exterior, principalmente na América Latina e África. A primeira transação desse tipo só foi feita em 1998 - com a China. De 2003 a 2010, foram desembolsados US$ 5,1 bilhões para financiar o envolvimento de construtoras brasileiras em obras em Angola, Argentina, República Dominicana, Venezuela, Chile, Ecuador, Peru, Cuba, Paraguai, África do Sul, China e Uruguai.

Foram prometidos mais US$ 680 milhões do banco para o Porto de Mariel, a maior obra de infraestrutura de Cuba desde a revolução de 1959, US$ 342 milhões para uma hidrelétrica na Nicarágua e US$ 394 milhões para uma estação de tratamento de água no México. E recentemente novos países entraram para a lista dos destinos dos empréstimos do banco, como Moçambique (onde seria financiada a construção de um aeroporto) e Gana (estradas).

A mobilização de movimentos sociais bolivianos e peruanos contra obras financiadas pelo banco é em parte uma consequência dessa expansão, segundo Doctor. "Mas também é consequência da falta de salvaguardas ambientais e sociais consistentes, que o banco deveria começar a impulsionar dentro e fora do Brasil", acredita o acadêmico e ativista João Roberto Lopes Pinto, do Instituto Mais Democracia.

Para garantir o apoio a expansão dessas empresas e ajudar a atrair investimentos para o Brasil o próprio BNDES criou um departamento responsável por suas operações internacionais em 2007 e começou a se internacionalizar, abrindo escritórios em Montevideu e Londres, dois anos mais tarde.
O resultado dessas tendências só poderia ser mais atenções internacionais, embora o BNDES não esteja necessariamente desbravando novos caminhos nessas áreas.

"Diversos países emergentes estão adotando estratégias semelhantes, usando bancos estatais para fortalecer e apoiar a expansão de suas empresas pelo globo", explica Musacchio. "As políticas de formação de 'campeões nacionais' estão em alta entre eles - então é natural que haja apreensão entre países desenvolvidos."

João Carlos Ferraz, vice-presidente do BNDES concorda parcialmente com Musacchio, mas acrescenta: "Apoiar a expansão global de empresas nacionais é algo que as nações desenvolvidas cansaram de fazer no passado, quando não viam nenhum problema nisso", opina. "O que acontece é que nesse momento de crise vários países - inclusive os mais ricos e tradicionalmente liberais - estão percebendo que há mais espaço para bancos públicos.", diz Ferraz.

O comentário faz referência, precisamente, ao terceiro motivo apontado pelos especialistas estrangeiros para o interesse na experiência do BNDES: o fato de que a crise provocada pelos mercados financeiros deu novo fôlego aos que defendem a ação do Estado na promoção tanto de políticas industriais quanto de políticas monetárias anti-cíclicas.

"Nos anos em que o Brasil cresceu bastante apesar da crise, até 2010, de fato havia interesse em entender se isso se devia ao uso de instrumentos anti-cíclicos de expansão do crédito, como o BNDES", acredita Neil Shearing, da consultoria Capital Economics, em Londres. "Por outro lado, o último pacote econômico adotado pela presidente Dilma Rousseff foi um reconhecimento de que essa expansão só consegue manter o crescimento por um período limitado sem mudanças estruturais."

Para Musacchio um dos diferenciais da ação do BNDES na última década que tem sido observada de perto em meio à crise é a ampliação de sua atuação nos mercados de capitais, via BNDESPar.

Ele diz que se até os anos 1990 o Estado mantinha uma mão pesada na economia com as estatais, com as privatizações, uma tendência ganhou força, se consolidando na última década: a do Estado como "acionista minoritário" em empresas privadas. É claro que, nos últimos anos, o BNDES nem sempre tem atraído atenções por bons motivos. Na realidade, as críticas se multiplicaram na mesma proporção dos desembolsos do banco.

De um lado, organizações da sociedade civil brasileiras e latino-americanas pedem que o BNDES aplique regras sociais e ambientais mais rígidas nos projetos que financia. No outro extremo do espectro ideológico, economistas liberais apontam os efeitos dos empréstimos na inflação. "Do ponto de vista macroeconômico, por exemplo, o banco cria quase tantos problemas quanto os que resolve", acredita Shearing. Mas para Musacchio e Doctor, as críticas mais contundentes são as que enfatizam a falta de transparência sobre os critérios de seleção e condições dos empréstimos e a concentração dos financiamentos nas grandes empresas.

O BNDES nasceu como um banco dos "grandes" projetos industriais e obras de infraestrutura em 1952. O "S" de "social" só foi adicionado ao seu nome em 1982. Como explica Ferraz, nos últimos anos foram feitos esforços para ampliar os empréstimos a pequenas empresas. A criação do cartão BNDES é um exemplo de avanço nessa área. Ainda assim, a fatia dos empréstimos destinada a grandes empresas variou em torno de 60% a 80% nos últimos anos. Para Musacchio, ainda não está claro por que, em um contexto de restrição de crédito como o brasileiro, o BNDES empresta dinheiro público para grupos globais, que poderiam conseguir recursos em mercados internacionais - e só com mais transparência seria possível esclarecer essa questão.

Os dados são especialmente limitados no caso de operações internacionais - para os quais o banco divulga apenas o volume de financiamentos agregado por país de destino. "Não somos perfeitos e admitimos que precisamos avançar em questões como transparência, mas já demos importantes passos nesse sentido e a ideia é continuar avançando", diz Ferraz. Às vezes, a impressão que tenho é que o Brasil está contaminado por políticas que vão em desencontro com os anseios da sociedade. Até que se prove o contrário, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é uma instituição séria e como tal deveria garantir que o Brasil como um todo pudesse melhor fomentar todas as classes que se propõe a empreender e/ou produzir algo e não somente parte delas.

O BNDES, desde sua criação, em 1952, é um dos principais agentes estatais para a promoção do desenvolvimento brasileiro. Tem como missão “promover o desenvolvimento sustentável e competitivo da economia brasileira, com geração de emprego e redução das desigualdades sociais e regionais”. Também não é novidade que, ao longo de sua história, o Banco sempre conduziu empreendimentos inovadores tanto de políticas quanto de processos de gestão, tendo sido considerado referência em diferentes frentes de atuação, o que robustece a sua função agregadora de apontar direções positivas para o País.

Obviamente que há empreendedores com capacidade intelectual para desenvolver algum negócio ou algum tipo de projeto por meio do BNDES, porém, o que se percebe é que o nosso sistema de financiamento não o permite fazê-lo. O mais interessante disso é que o BNDES exige garantias reais do ‘futuro’ empreendedor, pois, do contrário, não fomentará tal projeto. Por outro lado, alguns empresários, e, sem generalizar, se aproveitam dessa benesse, digo, do BNDES, para tomar recursos, com um grandioso detalhe. Na maioria das vezes, isso ocorre em condições e capacidade de investir sem o fomento público, ou ainda, com o seu próprio giro, porém, se utiliza a ‘máquina’ a fim de garantir que o seu recurso tenha um custo muito mais atraente que o garantido pelas instituições privadas. Não que isso esteja errado. Vejamos.

É quase que impossível viabilizar um projeto/negócio, pelo menos para o cidadão comum. Como disse, não resta dúvida que temos um material humano bastante heterogêneo, com visão de negócios, boas ideias e intenções, sobretudo, talentos formadores de opinião, enfim, mas que não consegue o tal do financiamento seja lá por qual motivo.

EXCLUÍDOS? - Minha indignação vem de encontro a uma situação análoga recente em que tive de obter um pequeno empréstimo pessoal para manutenção do negócio numa instituição estatal que não o BNDES, em que aquela me exigiu um calhamaço de papel e garantias reais para que fosse dada continuidade no processo. Pior – quase três meses – para sair o recurso.

Se for assim para o pequeno empresário, para o cidadão, seja lá quem for, tem que ser para o médio e o grande. Do contrário, cabe ao Ministério Publico Federal investigar e estar atento a circunstâncias de empréstimos duvidosos que são direcionados diariamente a certas classes empreendedoras, seja pela Caixa Econômica Federal, seja pelo Banco do Brasil ou pelo BNDES.

A sociedade espera uma resposta. Não podemos continuar tão inocentes assim. Fato que me vem à cabeça é que alguns empresários estão sendo mantidos à política do ‘pão à vontade’, para ancorar certas bases políticas. Se isso é verdade, estamos diante de uma situação grave, situação esta de corrupção totalmente infiltrada em todos os setores que parecem querer levar vantagem em tudo e contra todos. Há sérios sinais vindos da sociedade em que parece estarmos vivendo num estado dramático, calamitoso, de um câncer, uma doença que atinge a ética e a moral e que, infelizmente, não há tratamento de cura.

O QUE É NECESSÁRIO - Fato é que precisamos de transparência e não acobertamento de situações duvidosas. Necessitamos de um MP e um Poder Judiciário que façam cumprir as regras ditadas pela Constituição Federal em sua plenitude, afinal, a Lei é para todos. O próprio BNDES, a classe política (Executivo e Legislativo), enfim, precisam se mobilizar e aparar de uma vez estas pseudas arestas que flutuam no ar.

Precisamos de mais pessoas enérgicas, pujantes e batalhadoras preocupadas com atitudes politicamente corretas, para que não continuemos a assistir este ‘sangramento financeiro’ em detrimento de certas regalias direcionadas. Este que vos escreve, mesmo com um modesto currículo e trabalhando há mais de 33 anos, até agora não conseguiu ter mais do que uma casa e um veículo, pagos em ‘suaves’ prestações. O mesmo contexto acerca a maioria dos brasileiros.

Já dizia Abramovay em uma publicação que data de 2001, “o segredo do desenvolvimento não reside em dons naturais, na acumulação de riqueza, nem mesmo nas capacidades humanas, mas nas instituições, nas formas de coordenar a ação dos indivíduos e dos grupos sociais”. Portanto, o papel do BNDES deve convergir para uma política a qual todos possam se beneficiar e se desenvolver frente ao fortalecimento institucional em todas as escalas e níveis federativos.

Primeiro, o BNDES inibiria o mercado de capitais. O banco atua em renda variável com um horizonte de longo prazo incomum no Brasil. Isso favorece que ele apoie empresas que, em razão de planos desafiadores, tendem a passar por períodos de turbulência. Essa estratégia --além de se mostrar rentável, pois o risco é recompensado quando os projetos florescem-- induz a entrada de empresas no mercado de capitais.

O BNDES atua com firmas em diferentes estágios, desde o capital-semente até as que buscam abrir seu capital. Nesse caminho, o fortalecimento da governança das investidas é sensível. Ao fortalecer a transparência corporativa, o banco favorece a formação de investidores.

O mesmo ocorre quando, na venda de papéis, o BNDES usa ofertas públicas para atrair investidores menores, como foram os casos do PIBB, o primeiro fundo brasileiro baseado num índice de mercado (Ibovespa), e das ofertas de ações do BB, que o fez o primeiro grande banco nacional a participar do Novo Mercado.

Assim, além de mitigar a deficiência da economia brasileira no financiamento de longo prazo, tema da coluna passada, o BNDES tem ação indutora do mercado de capitais. O segundo mito é o de que o BNDES escolheria vencedores, reforçando a atuação de setores tradicionais e pouco inovadores. Isso é um mito porque não há ativismo na definição das operações a serem apoiadas. O BNDES não aponta projetos a serem feitos. São as empresas que os estruturam e buscam o banco, que os avalia.

Como banco público, o BNDES está aberto a analisar todos os projetos que lhe são apresentados. Há prioridades em termos das condições de taxas, participação, prazos etc., algo expresso em suas políticas operacionais. Porém, se o demandante tem risco de crédito aceitável, o pedido é considerado viável e há garantias adequadas, nenhum pleito é negado. Se boa parte dos projetos apoiados ocorre em setores tradicionais, é porque são os mais fortes da economia --e eles também precisam aumentar a produtividade.

Além disso, a inovação tem um caráter mais geral do que o aspecto tecnológico. Quando o BNDES suporta a internacionalização de grupos brasileiros, há inovações ligadas à capacidade empresarial de dominar cadeias globais, buscando novos espaços de valorização e desenvolvendo as atividades corporativas centrais, como logística, marketing e inovação. Os países ricos têm grupos globais em diversos setores.

O BNDES sempre que possível apóia grupos brasileiros em setores de tecnologia, como tem feito, por exemplo, com as empresas de softwares Totvs e Linx. O terceiro mito é que os empréstimos do Tesouro para reforçar as captações do BNDES estariam recriando a "conta-movimento".

Extinta em 1986, ela propiciava acesso automático, não contabilizado nos seus balanços, do Banco do Brasil aos recursos do BC. Com isso, o BB tinha menos incentivos a usar bons critérios de concessão de crédito e prejudicava a gestão da política monetária pelo BC. A comparação é no mínimo forçada. O BNDES não toma recursos do BC nem busca sanar problemas de liquidez. Os empréstimos são devidamente expressos no seu balanço e na dívida pública, sendo apenas uma fonte de captação.

Está ausente no debate uma reflexão estratégica. A comparação que faz sentido é com o acúmulo de reservas cambiais. Nos dois casos, ocorre elevação da dívida pública bruta, sem impactar a líquida, cada uma com seu custo fiscal (diferença entre o custo da dívida pública e o rendimento da aplicação). A manutenção de um alto nível de reservas mitiga a histórica vulnerabilidade externa. Os empréstimos ao BNDES irrigam a economia com financiamento de longo prazo.

E, como a inadimplência no BNDES é baixa (hoje, é 0,06%) e as operações de renda variável são no conjunto lucrativas, o risco da diferença entre o endividamento bruto e o líquido é pequeno. Há forte viés político e ideológico no debate sobre o BNDES. Por isso, não pretendo convencer os críticos do banco, só mostrar que há uma visão alternativa bem fundamentada pautando a ação do BNDES.



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