segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Volume Morto

A crise no abastecimento não é natural, mas sim resultado de uma gestão voltada para a maximização de lucros da concessionária e de um Governo incompetente. Simples assim, ou talvez, infelizmente, nem tanto.

Governos têm sucesso quando executam políticas públicas que respondem aos desafios apresentados, e criam assim condições para um futuro melhor. No caso do que se convencionou chamar da crise de desabastecimento de água em São Paulo, algumas características deste evento foram sendo delineadas, e hoje estão bem definidas.

O sistema Cantareira, que abastece 364 municípios paulistas, de um total de 645, atendendo 27,7 milhões de pessoas que respondem por 73% da receita da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo detém 50,26% das ações da companhia, e os outros 49,74% estão nas mãos de acionistas privados), poderá deixar 6,5 milhões de paulistanos sem água em suas torneiras. A culpa é menos de São Pedro do que do governo de São Paulo que administra a Sabesp, e que subestimou os impactos das mudanças climáticas, da extração desordenada e descontrolada de recursos hídricos, da falta de conservação e proteção dos mananciais, e, não menos relevante, da poluição.

Faltaram planejamento estratégico na gestão integrada e compartilhada dos recursos hídricos, e os investimentos necessários em obras que poderiam ter amenizado o racionamento existente (sobre o qual o presidente da Sabesp demonstrou descaso ao dizer que “Não existe racionamento, existe uma administração da disponibilidade de água”).

Em 2004, uma série de seminários com especialistas debateram a crise de 2003 do sistema Cantareira, e apontaram para a necessidade de ampliar a disponibilidade de água do sistema, indicando que o melhor caminho para isso era buscar água no Vale do Ribeira através de uma obra que demoraria aproximadamente 10 anos para ser estudada, projetada e concluída, mas que, caso tivesse sido realizada, provavelmente não haveria problema de escassez de água como ocorre atualmente.

E a falta de transparência ficou evidenciada, mais do que nunca, quando foi tornado público um relatório de 2012 da própria Sabesp, revelando o risco de desabastecimento no sistema Cantareira, e alertando investidores da Bolsa de Valores de Nova York para a estiagem prevista e seus impactos nas finanças da empresa. Somente encarou o problema a partir do inicio de 2014, quando criou um bônus para quem economizasse água.

A irresponsabilidade técnica e gerencial da empresa merece ser destacada. O plano enviado a ANA (Agência Nacional de Águas) para operar o sistema Cantareira até abril de 2015 não tem amparo adequado na realidade. A probabilidade de recuperação do sistema é altamente arriscada, com um cenário traçado que já não se confirma neste mês de outubro (2014).

A arrogância e soberba dos gestores da água em São Paulo levaram a Justiça Federal a proibir a captação da segunda cota do volume morto do sistema Cantareira, já que a empresa vinha captando mais água que o autorizado. Tudo se faz para não decretar oficialmente o racionamento, nem prejudicar o valor de suas ações na bolsa. A água é tratada como um mero “negócio”, não como um bem coletivo.

Apesar dos problemas verificados nos anos 2000, o que se constatou foi um aprofundamento ainda maior da política da água como mercadoria, e da empresa a serviço do mercado e de interesses políticos escusos, com diretorias indicadas por estes interesses inconfessos, sem nenhuma abertura para um planejamento técnico sério, vinculado às necessidades da população. 

Prova disso é o quadro funcional da Sabesp, reduzido de 21 mil trabalhadores para 14 mil. Em particular, o setor de engenharia e operação foi diminuído a ponto de, atualmente, várias unidades terem um quadro de técnicos capacitados abaixo da necessidade para a atividade fim da companhia. Por outro lado, no último balanço divulgado foi comemorado um lucro de 1,9 bilhões de reais da companhia, mostrando que do ponto de vista mercadológico a empresa vai bem.

O centro da questão está na malfadada gestão dos recursos hídricos de responsabilidade do governo do estado de São Paulo. Não por acaso o Ministério Público possui, segundo a Promotoria de Justiça do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente, 50 investigações sobre a gestão da água feita pela Sabesp.

A mercantilização de um bem essencial a vida, cujo lucro, ao invés de usar na realização de obras, paga dividendos a acionistas e especuladores é que tem provocado uma crise de tal dimensão, e consequentemente o sofrimento da população paulista.

Alternativa para amenizar a crise no abastecimento de água que atinge o Estado de São Paulo, o volume morto traz riscos à saúde dos consumidores caso não seja tratado de forma adequada, de acordo com especialistas ouvidos pelo UOL.

O volume morto é a água que fica no fundo das represas, abaixo do nível de captação das comportas e que acumula sujeira, sedimentos e até metais pesados. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) informa que o tratamento será o mesmo usado atualmente, "dentro dos rígidos padrões de qualidade seguidos pela Sabesp".

A Sabesp pretende retirar a partir do dia 15 de maio 200 bilhões de litros de água do volume morto do Sistema Cantareira, que tem 400 bilhões de litros de reserva.

Há pouco mais de um mês começaram a ser construídos canais e instaladas bombas para a retirada da água nas represas Atibainha, em Nazaré Paulista, e Jaguari/Jacareí, em Bragança Paulista. De acordo com a companhia, essa água será "suficiente" para abastecer a região até setembro.

Para Sílvia Regina Gobbo, professora de ecologia da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), o tratamento de água usado atualmente não consegue resolver os problemas dos metais pesados que podem estar acumulados no fundo dos reservatórios.

"O tratamento tradicional não elimina a contaminação por metais pesados, que são provenientes de indústrias de celulose, tecidos, tintas, solventes. Quando não fazem o tratamento adequado, liberam na água metais como mercúrio, chumbo e cádmio", disse.

De acordo com Maria Aparecida Marin Morales, especialista em toxicologia ambiental do campus Rio Claro da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o volume morto exige um tratamento "mais delicado, sensível e com técnicas muito mais eficazes".

"Possivelmente, teria de se fazer um tratamento terciário da água, que é mais eficiente porque tira todos os contaminantes que estão na água, deixando-a mais isenta possível", disse.

Na opinião do médico clínico Paulo Olzon, professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), haverá sérios riscos para a saúde do consumidor caso o tratamento não elimine os metais pesados da água proveniente do volume morto.

O corpo humano, afirma Olzon, tem dificuldade para eliminar os metais. "A tendência é os metais pesados se depositarem nos tecidos do organismo". Eles se acumulam em pontos como os rins, o fígado, o coração e o cérebro, e alteram as células e causam inflamações crônicas.

Segundo ele, os metais pesados podem, por exemplo, provocar insuficiência renal, desequilibrar o sistema nervoso central, causar depressão ou aumentar a agressividade. E possuem "efeito de massa" quando há a presença de mais de um no organismo. "Um elemento aumenta a toxicidade do outro", diz Olzon.

Ainda de acordo com o clínico, há o risco de os metais provocarem câncer, sobretudo no aparelho digestivo. No último dia 10, o superintendente de Regulação da ANA (Agência Nacional de Águas), Rodrigo Flecha, demonstrou preocupação com os riscos ambientais que podem ser causados pelo uso do volume morto.

Sílvia Regina Gobbo alerta que a utilização dessa água pode provocar o esgotamento das bacias hidrográficas do Piracicaba, Capivari e Jundiaí, já que as represas do Sistema Cantareira estão nas cabeceiras desses rios.

Maria Aparecida Marin Morales chama a atenção para mudanças que vão ocorrer no ecossistema dos reservatórios, que podem comprometer o sistema e levar anos para ser recuperado.

"Na represa, existem organismos biodegradadores que estão ali depurando, fazendo a limpeza do sistema, minimizando os impactos dos poluentes. Se você tira [essa água], os impactos serão acentuados. E para recuperar a qualidade e a quantidade desses organismos leva muitos anos. Não dá nem para estimar", disse.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB), com o seu jeito de “picolé de chuchu” – segundo a certeira ironia de José Simão – continua se fazendo de "volume morto" diante da grave crise de abastecimento de água em São Paulo. Para ele, tudo está sob controle e não há motivos para preocupação. Mas não é isso que revela o relatório do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) divulgado nesta sexta-feira (11). Apenas nos últimos quinze dias, o órgão recebeu 178 relatos de torneiras vazias na Grande São Paulo, uma média diária de 11,8 reclamações. Apesar de a Sabesp jurar que não há desabastecimento, o Idec garante que milhares de famílias já padecem com a falta crônica de água em suas casas.

Segundo Camila Maciel, da Agência Brasil, “o balanço parcial mostra que a falta d'água ocorre todos os dias, pelo menos uma vez, em 76% dos casos. Para 14% das pessoas que fizeram o relato, o racionamento é feito mais de uma vez por semana. Entre os demais consumidores, 4% indicaram que isso ocorre mais de uma vez por dia, 2% relataram a frequência de uma vez por mês e 1% mais de uma vez por mês. Sobre o turno mais comum para a falta d'água, a noite foi apontada por 74% dos consumidores pesquisados. Em seguida está o turno da manhã, com 16%. Para 13% das pessoas, o racionamento ocorre durante o dia e a noite e para 4%, ele ocorre somente à tarde”.

Ainda segundo a jornalista, o Idec pretende agora cobrar maior transparência do governo Alckmin e exigir providências da Agência Reguladora de Saneamento de São Paulo. “Se o racionamento está mesmo ocorrendo, ele precisa ser feito de forma responsável, igualitária e transparente para toda a população”, realça o órgão. A cobrança, porém, não deve ter maiores efeitos. O PSDB, que governa o Estado há quase duas décadas, não admite seus graves erros de planejamento no setor e culpa Deus pela crise. Na prática, os tucanos tentam empurrar o problema para depois das eleições de outubro. Dane-se a população; o fundamental agora é garantir a reeleição de Geraldo Alckmin.

A jornalista Julia Duailibi, uma das poucas vozes críticas do jornal Estadão, já havia desmascarado o plano eleitoreiro dos tucanos. Em 10 de abril, ela revelou que “o Palácio dos Bandeirantes já definiu a estratégia que irá adotar caso haja rodízio de água, leia-se racionamento, antes da eleição de outubro: colocará a Sabesp na linha de frente do processo, atraindo os holofotes para a empresa e deixando na penumbra Geraldo Alckmin, candidato à reeleição... A política de redução de danos pretende deixar o governador como coadjuvante. É uma tentativa de evitar que, em plena campanha eleitoral, ele fique preso a uma pauta extremamente negativa para quem quer mais quatro anos de mandato”.

Nesta manobra eleitoreira, ele conta com a cumplicidade da mídia amiga. A crise de abastecimento no Estado mais rico do Brasil não é manchete dos jornalões e nem motivo das críticas iradas dos colunistas de rádio e tevê. Até lances demagógicos de Geraldo Alckmin, como a solenidade do uso do “volume morto” – a reserva estratégica do Sistema Cantareira –, recebem coberturas generosas da velha imprensa. Nesta semana, o tucano anunciou a transposição do rio Jaguari para abastecer a cidade de Campinas. A medida é questionada por técnicos do setor e pelas prefeituras dos municípios vizinhos, que terão seu abastecimento afetado, mas voltou a receber os holofotes bondosos da mídia.

Apesar destas manobras, a tendência é que a crise de abastecimento se agrave nas próximas semanas – conforme sinaliza o Idec. Já é tido como certo que o “volume morto” será insuficiente para cobrir a demanda de água na região metropolitana. A maior parte desta reserva estratégica já foi utilizada e o reservatório do Sistema Cantareira seca rapidamente. Com isto, o tucano Geraldo Alckmin poderá ver o seu “volume morto” sumir antes das eleições de outubro, com terríveis efeitos para sua campanha pela reeleição. Ele será obrigado a explicar as graves falhas de planejamento do seu governo na administração deste setor estratégico – como o seu choque de gestão virou uma indigestão!

Entre 2007 e 2011, por exemplo, a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) deixou de investir R$ 815 milhões em melhorias nas redes de água e esgoto que estavam previstas em contratos de concessão assinados com 233 prefeituras paulistas. A grana economizada serviu para enriquecer os acionistas da empresa, mas agora cobra o seu preço com o desabastecimento. A falta de investimentos no setor foi um baita crime. Somente na capital paulista, metade da tubulação da Sabesp tem mais de 30 anos. O envelhecimento da rede é um dos principais motivos dos crônicos vazamentos de água, mas os governos tucanos nada fizeram para encarar este velho problema.

Apenas no ano passado, a Sabesp perdeu 31,2% de toda a água produzida entre a estação de tratamento e a caixa d’água dos consumidores em função destes vazamentos. O índice representa cerca de 950 bilhões de litros – quantidade equivalente a quase todo o “volume útil” do Sistema Cantareira, que tem capacidade para 981 bilhões de litros. Geraldo Alckmin conhece estes dados, fornecidos pela própria Sabesp. Mesmo assim, o governo tucano reduziu os investimentos na ampliação do sistema e na manutenção das redes. Ou seja: o PSDB é um “volume morto”!

O nível do reservatório de Paraibuna, no Rio Paraíba do Sul, pertencente à Companhia Energética de São Paulo (Cesp), atingiu o chamado volume morto nesta quarta-feira (21), às 7 horas. O dado foi divulgado nesta quinta-feira (22) no Informativo Preliminar Diário da Operação, publicado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Estão chegando ao reservatório de Paraibuna nove metros cúbicos de água por segundo, mas ele está permitindo sair 32 metros cúbicos por segundo. Segundo a assessoria, isso está sendo feito com vertimento, isto é, com descarga que não passa pelas turbinas, porque é preciso respeitar a vazão defluente mínima obrigatória do reservatório.

“Ele não está produzindo mais energia e está usando o volume morto para manter a descarga mínima obrigatória que tem”. Em outras palavras, toda a defluência do reservatório está sendo feita com utilização do volume morto.

Na avaliação do ONS, esse é um sinal de que os reservatórios estão se esvaziando. O reservatório de Santa Branca, pertencente à Light, por exemplo, apresenta nível de 0,65%, com entrada de 27 metros cúbicos de água por segundo e saída de 40 metros cúbicos por segundo; o de Funil¨(Furnas) tem nível de 4,15%, com 65 metros cúbicos por segundo de entrada e 137 metros cúbicos por segundo de saída; já no reservatório de Jaguari (Cesp), o nível alcança 2%, com cinco metros cúbicos de água por segundo entrando e 11 metros cúbicos por segundo saindo.

O ONS salientou, entretanto, que para a geração de energia do Sistema Interligado Nacional (SIN), a bacia do Rio Paraíba do Sul representa menos de 1% da energia produzida. “Não é relevante em termos de energia. O fato de ela parar não é motivo de atenção maior, porque só contribui com 1% da geração hidráulica do sistema”, esclareceu a assessoria do órgão.

O coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), Nivalde de Castro, reforçou que para a geração elétrica, a bacia do Rio Paraíba do Sul “não é problemática. Ela vai ser problemática para o abastecimento de água”. Disse à Agência Brasil que, como não está chovendo, a tendência é que outras bacias comecem a ter o mesmo tipo de problema. “De maneira geral, a próxima medida agora é fazer procissão para São Pedro”, sugeriu.

Na avaliação de especialistas do setor, os reservatórios brasileiros “estão chegando ao fim da linha”.

São Paulo e Rio desperdiçam mais de 30% de água tratada



São Paulo e Rio de Janeiro - que trocaram farpas no mês passado pelo fato de o governo paulista querer captar água do Rio Paraíba do Sul – desperdiçaram mais de 30% da água tradada em 2011, segundo o jornal O Globo. As perdas durante a distribuição chegaram, respectivamente, a 32,8% e 35,2%. Segundo o Ministério das Cidades, que reúne dados do setor, a média brasileira é ainda pior: 38,8%, por causa dos Estados do Norte e do Nordeste, que desperdiçavam, em sua maioria, mais da metade da água tratada. Só a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) foi responsável por desperdiçar 32% em 2013.

No entanto, especialistas afirmam que o razoável seria até 15% de desperdício. Alguns países europeus e os Estados Unidos estão nesse patamar. Na Alemanha, por exemplo, o índice já está abaixo dos 10%. Já o Japão conseguiu reduzir mais ainda e atingir 7%, sendo que, em Tóquio, o desperdício não passa dos 5%.

Responsável por 7,7 milhões de ligações de água, o volume de água tratado pela Sabesp em 2012 foi pouco mais de três milhões de metros cúbicos. Apenas com vazamentos, a companhia perdeu 20,3%. Entretanto, a Sabesp afirma que esse índice vem diminuindo. Nos últimos dez anos, houve queda de oito pontos percentuais. Ainda assim, a água desperdiçada com vazamentos, de acordo com o conselheiro do Crea/RJ, Antônio Eulálio, daria para encher “em torno de 300 piscinas olímpicas”. Somadas as perdas que impactam no faturamento, como ligações irregulares, ligações clandestinhas de água e hidrômetros quebrados, o desperdício chegou, em 2012, a 25,7%.

No Rio, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), desde o começo deste ano, trata e distribui 48.000 litros por segundo. De acordo com a Cedae, 70% das redes de distribuição antigas, “potencialmente causadoras de vazamentos”, já foram substituídas, o que explicaria em parte a queda no índice de desperdício que, em 2009, passava dos 50%. A Cedae cita ainda as perdas comerciais, “impactadas pelo consumo em comunidades”. Segundo a empresa, “nas comunidades existe abastecimento, mas o nível de consumo informal (gatos) é extremamente elevado”.

"Rio e São Paulo têm perdas extraordinárias. Discute-se quem pode captar ou não água do Rio Paraíba do Sul, mas é uma falsa discussão. Se tanta água não fosse desperdiçada, a carência seria menor. A discussão tinha que passar pela má gestão das empresas de saneamento dos Estados e não apenas pela captação da água do rio que atende a maior concentração da força produtiva brasileira. Claro que agora é necessária uma solução de curto prazo, mas desperdiçar mais de 15% deveria ser inaceitável”, disse Paulo Canedo, coordenador do laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ. “Se o estado de São Paulo conseguisse reduzir em 50% as perdas na distribuição, seria possível atender cerca de 4,5 milhões a mais de pessoas”.

No mês passado, pelo fato da capacidade dos reservatórios do Sistema Cantareira virem acumulando recordes negativos - registrou 12,9% da capacidade nesta segunda-feira -, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) pediu ao governo federal para captar água do Rio Paraíba do Sul, maior fonte de abastecimento do Rio. O pedido abriu uma crise entre os dois Estados, e o então governador Sérgio Cabral (PMDB) disse que não iria “tolerar nada” que afetasse o abastecimento.

No Brasil, segundo o Ministério das Cidades, nenhum Estado tinha índice de perda abaixo ou igual a 20% em 2011. No mesmo ano, o Atlas do Saneamento, publicado pelo IBGE, apontava que 60% das cidades com mais de 100.000 habitantes perdiam de 20% a 50% da água tratada, em função de vazamentos no percurso entre a captação e o consumidor. Além disso, 23% das cidades brasileiras conviviam com racionamento de água.

Água do mar pode ser a solução contra a crise hídrica

A dessalinização é uma das alternativas que alguns países encontraram para suprir a falta d’água. Mas, no Brasil, técnica ainda é usada em pequena escala.
A crise hídrica que afeta São Paulo nos últimos meses e ameaça chegar ao Rio em breve trouxe o abastecimento e uso da água para o centro do debate no Brasil. Com os reservatórios em mínimas históricas, o país poderia se espelhar no exemplo de outras nações que enfrentaram a falta de água com investimentos na dessalinização da água do mar para consumo.

A técnica, criada na década de 1960, capta a água salgada e, através do processo de osmose reversa, um sistema de filtros retira as moléculas de sal e impurezas da água, tornando-a própria para o uso. Também são adicionados produtos químicos para deixar o gosto agradável.

O Brasil já faz uso da dessalinização em pequena escala. Desde 2011, uma usina abastece os 2.600 moradores do arquipélago de Fernando de Noronha com água do mar. Também há projetos em andamento em nove estados, como Ceará, Pernambuco e Bahia.

O método vem crescendo rapidamente e já há cerca de 15 mil usinas instaladas em mais de 25 países, especialmente no Oriente Médio, como o Catar. Somente nos últimos 30 anos, a produção de água dessalinizada passou de oito para 60 milhões de metros cúbicos por dia. Estados Unidos, Espanha e China também utilizam a técnica.

Porém, o país que mais investe nessa modalidade de uso da água é Israel que, em 2010, inaugurou a maior usina do mundo, localizada na cidade de Hadera. Apenas com sua produção é possível abastecer um sexto da população. “Uma megausina de dessalinização trará uma era de água abundante e acessível para o mundo”, disse à época Avshalom Felber, diretor da IDE Technologies, empresa responsável pela construção da usina.

Apesar de ser a aposta de muitos países para enfrentar a falta de água, o método de dessalinização também é alvo de questionamentos quanto à sua sustentabilidade e garantia de manutenção pelas próximas décadas.

Entre as críticas aos massivos investimentos que nações como Israel, China e Emirados Árabes Unidos têm feito, estão a extinção da vida marinha na área de captação e a poluição das águas por reagentes químicos.

Peixes pequenos e microorganismos marinhos, como o plâncton, acabam sendo sugados pelas usinas e mortos nos filtros. Já a poluição das águas se dá pois: ao final do processo de dessalinização as moléculas de sal e os produtos químicos utilizados são despejados de volta no mar, o que pode impedir que a água volte a ser usada.


Cinco razões (que não a falta de chuva) para explicar a crise hídrica: Desmatamento, ocupação desenfreada, falta de planejamento e perdas estão entre as causas destacadas por especialistas













Falta de planejamento:
Quando o sistema Cantareira foi construído, já era previsto que entre 2015 e 2020 ele precisaria ser ampliado. As obras começaram em 1967. Em 1974, o sistema passou a enviar 4,5 metros cúbicos por segundo e o projeto foi totalmente concluído em 1982. “Todo o projeto tem um prazo esperado para que tenha uma vida útil. No Cantareira a expectativa era que tivesse 30 anos para ser operado”, afirma o especialista em recursos hídricos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Ilha Solteira (SP), Jefferson Nascimento de Oliveira.

O professor explica que as demandas continuaram, mas a população mudou. “Cresceu não só numericamente mas também economicamente, passou a consumir mais água”, afirma.

Um exemplo deste crescimento, de acordo com Oliveira, pode ser notado com a mudança rápida de uma situação de abundância de água para quase total escassez. “Em 12 de janeiro de 2010, o Cantareira estava com 97% de todo o seu volume. Choveu muito naquela temporada. Estava muito cheio, mas em cinco anos, não só acabamos com o volume todo como precisamos usar água do volume morto. De fato está chovendo pouco agora, mas tínhamos um lastro. A falta de água já era algo previsto”, completa.

Desmatamento:
O desmatamento que ocorre na Amazônia tem como consequência sobre a escassez de água em São Paulo. No estudo “O Futuro Climático da Amazônia”, Antônio Nobre, pesquisador do INPE, explica como o desmatamento na Amazônia altera os padrões de chuva no resto do Brasil.

De acordo com o estudo de Nobre, todos os dias as árvores da floresta transpiram 20 bilhões de toneladas de água (ou 20 trilhões de litros), formando uma espécie de rio vertical que alimenta nuvens e altera a rota dos ventos e das chuvas. No caso de São Paulo, foi analisado que os ventos que vêm da floresta amazônica trazem mais chuva que os ventos que não têm relação com a floresta. Quanto menos árvores na Amazônia, menor é o processo que traz chuvas para a metrópole.

Ocupação de área de manancial:
O desmatamento local, no Estado de São Paulo, também tem peso sobre a crise hídrica. Já é sabido que a mata ciliar, aquela na borda dos rios, ajuda a manter a boa saúde (o não assoreamento) dos rios. Portanto, quanto mais degradada a mata ciliar, menos eles contribuem para as bacias hidrográficas.

Um estudo realizado em outubro do ano passado pela Fundação SOS Mata Atlântica mostrou que a cobertura florestal nativa na bacia hidrográfica e nos mananciais que compõem o Cantareira é ainda pior que o que se imaginava, principalmente pela ocupação desenfreada nestas áreas. De acordo com o estudo, restam apenas 488 quilômetros quadrados (21,5%) de vegetação nativa na bacia hidrográfica e nos 2.270 km2 do conjunto de seis represas que formam o Sistema Cantareira.

Perdas e desperdícios:
Quanto se perde e quanto se desperdiça de água em São Paulo? A balança é importante, pois principalmente com a crise hídrica, toda a água deve ser usada da maneira mais consciente possível. Porém, um antigo problema ainda persiste mesmo com a escassez de água.

De acordo com dados da Sabesp, a região metropolita de São Paulo tem perda de 20 a 25% de água na transmissão, na tubulação. “Chama a atenção que nenhuma ação para reparar estas perdas tenha sido divulgada. Embora existam lugares no Brasil onde este número é ainda mais alto, nós não podemos perder este volume enorme de água. Sabemos que diminuir a pressão é apenas um paliativo. É preciso melhor a transmissão”, afirma a gerente do Instituto Akatu, Gabriela Yamaguchi.
A campanha fica mais voltada para que o consumo seja reduzido nas residências e que se evite desperdícios, o que também é importante. Especialistas afirmam que com medidas simples é possível economizar 15% de água nas residências.

Gabriela afirma ainda que existem diferentes tipos de grandes consumidores de água, como grandes condomínios, indústria, agronegócio e empresas que necessitam de água para produzir. “O agronegócio é responsável por 80% do consumo de água, de acordo com médias mundiais da ONU [Organização das Nações Unidas]. É aí na verdade que a gente deve ter meta de redução de consumo. Mas isso não é do dia para a noite, tem de ser planejado até porque a gente precisa ter o que comer”, diz. Ela afirma que a redução de desperdício tem de ser objeto em todos os setores e feito de forma planejada. “Não adianta colocar só nas costas do consumidor, que de fato é quem menos consome”, avalia.

Faltou plano e comunicação da crise 
A crise da água só passou a ser admitida pelas autoridades no início de 2015. A Proteste Associação de Consumidores reclama que além da demora, ainda falta um decreto oficial de racionamento. “Quando tira a água de forma frequente tem de avisar o dia e o horário, mesmo sendo rodízio ou racionamento não oficial”, afirma Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Proteste.

Se houvesse mais transparência sobre a crise hídrica, explica Maria Inês, o consumidor poderia economizar mais água e por mais tempo. “O bônus não foi suficiente, nós temos realmente falta de água. O Proteste não é contra a sobretaxa. A gente percebe que está numa crise, mas é preciso deste decreto para que seja cobrada uma cobrança adicional, de emergência”, disse.

Na semana passada, a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) aprovou uma tarifa adicional na conta de água de mais de 28 milhões de consumidores atendidos pela Sabesp, em 364 municípios. A sobretaxa será cobrada dos usuários que ultrapassarem a média de consumo registrada antes da crise, de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014. “Como o consumidor pode pagar uma tarifa adicional se ele não tem informação sobre este histórico?”, disse.

10 mitos sobre a crise hídrica
1- “Não choveu e por isso está faltando água”. Essa conclusão é cientificamente problemática. Existem períodos chuvosos e de estiagem, descritos estatisticamente. É natural que isso ocorra. A base de dados de São Paulo possibilita análises precisas desde o século XIX e projeções anteriores a partir de cálculos matemáticos. Um sistema de abastecimento eficiente precisa ser projetado seguindo essas previsões (ex: estiagens que ocorram a cada cem anos).

2- “É por causa do aquecimento global”. Existem poucos estudos verdadeiramente confiáveis em São Paulo. De qualquer forma, o problema aqui parece ser de escala de grandeza. A não ser que estejamos realmente vivendo uma catástrofe global repentina (que não parece ser o caso esse ano), a mudança nos padrões de chuva não atingem porcentagens tão grandes capazes de secar vários reservatórios de um ano para o outro. Mais estudadas são as mudanças climáticas locais por causa de ocupação urbana desordenada. Isso é concreto e pode trazer mudanças radicais. Aqui o problema é outro: as represas do sistema Cantareira estão longe demais do núcleo urbano adensado de SP para sentir efeitos como de ilha de calor. A escala do território é muito maior.

3- “Não choveu nas Represas”. Isso é uma simplificação grosseira. O volume do reservatório depende de vários fluxos, incluindo a chuva sobre o espelho d’água das represas. A chuva em regiões de cabeceira, por exemplo, pode recarregar o lençol freático e assim aumentar o volume de água dos rios. O processo é muito mais complexo.

4- “As próximas chuvas farão que o sistema volte ao normal”. Isso já é mais difícil de prever, mas tudo indica que a recuperação pode levar décadas. Como sabemos, quando o fundo do lago fica exposto (e seco), ele se torna permeável. Assim a água que voltar atingir esses lugares percola (infiltra) para o lençol freático, antes de criar uma camada impermeável. Se eu fosse usar minha intuição e conhecimento, diria que São Paulo tem duas opções a curto-médio prazo: (a) usar fontes alternativas de abastecimento antes que possa voltar a contar com as represas; (b) ter uma redução drástica em sua economia para que haja diminuição de consumo (há relação direta entre movimento econômico e consumo de água).

5- “Não existe outras fontes de abastecimento que não as represas atuais”. Essa afirmação é duplamente mentirosa. Primeiro porque sempre se pode construir represas em lugares mais e mais distantes (sobretudo em um país com esse recurso abundante como o Brasil) e transportar a água por bombeamento. O problema parece ser de ordem econômica já como o custo da água bombeada de longe sairia muito caro. Outra mentira é que não podemos usar água subterrânea. Não consigo entender o impedimento técnico disso. O Estado de São Paulo tem ampla reserva de água subterrânea (como o chamado aquífero Guarani), de onde é possível tirar água, sobretudo em momentos de crise. Novamente, o problema é custo de trazer essa água de longe que afetaria os lucros da Sabesp.

6- “O aquífero Guaraní é um reservatório subterrâneo”. A ideia de que o aquífero é um bolsão d’água, como um vazio preenchido pelo líquido, é ridiculamente equivocada. Não existe bolsão, em nenhum lugar no mundo. O aquífero é simplesmente água subterrânea diluída no solo. O aquífero Guaraní, nem é mesmo um só, mas descontínuo. Como uma camada profunda do lençol freático. Em todo caso, países como a Holanda acham o uso dessas águas tão bom que parte da produção superficial (reservatórios etc) é reinserida no solo e retirada novamente (!). Isso porque as propriedades químicas do líquido são, potencialmente, excelentes.

7- “Precisamos economizar água”. Outra simplificação. Os grandes consumidores (indústrias ou grandes estabelecimentos, por exemplo) e a perda de água por falta de manutenção do sistema representam os maiores gastos. Infelizmente os números oficiais parecem camuflados. A seguinte conta nunca fecha: consumo total = esgoto total + perda + água gasta em irrigação. Estima-se que as perdas estejam entre 30% e 40%. Ou seja, essa quantidade vaza na tubulação antes de atingir os consumidores. Água tratada e perdida. Para usar novamente o exemplo Holandês (que estudei), lá essas perdas são virtualmente 0%. Os índices elevados não são normais e são resultados de décadas de maximização de lucros da Sabesp ao custo de uma manutenção precária da rede.

8- “Não há racionamento”. O governo está fazendo a mídia e a população de boba. Em lugares pobres o racionamento já acontece há meses, dia sim, dia não (ou mesmo todo dia). É interessante notar que, historicamente, as populações pobres são as que sempre sentem mais esses efeitos (cito, por exemplo, as constantes interrupções no fornecimento de água no começo do século XX nos bairros operários das várzeas, como o Pari). A história se repete.

9- “É necessário implantar o racionamento”. Essa afirmação é bem perigosa porque coloca vidas em risco. Já como praticamente todas as construções na cidade têm grandes caixas d’água, o racionamento apenas ataca o problema das perdas da rede (vazamentos). É tudo que a Sabesp quer: em momentos de crise fazer racionamento e reduzir as perdas; sem diminuição de consumo, sem aumentar o controle de vazamentos. O custo disso? A saúde pública. A mesma trinca por onde a água vaza, se não houver pressão dentro do cano, se transformará em um ponto de entrada de poluentes do lençol freático nojento da cidade. Estaremos bebendo, sem saber água poluída, porque a poluição entrou pela rede urbana. Por isso que agências de saúde internacionais exigem pressão mínima dentro dos canos de abastecimento.

10- “Precisamos confiar na Sabesp nesse momento”. A Sabesp é gerida para maximizar lucros dos acionistas. Não está preocupada, em essência, em entregar um serviço de qualidade (exemplos são vários: a negligência no saneamento que polui o Rio Tietê, o uso de tecnologia obsoleta de tratamento de água com doses cavalares de cloro e, além, da crise no abastecimento decorrente dos pequenos investimentos no aumento do sistema de captação). A Sabesp é apenas herdeira de um sistema que já teve várias outras concessionárias: Cantareira Águas e Esgotos, RAE, SAEC etc. A empresa tem hoje uma concessão de abastecimento e saneamento. Acredito que é o momento de discutir a cassação dessa outorga, uma vez que as obrigações não foram cumpridas. Além, é claro, de uma nova administração no Governo do Estado, ao menos preocupada em entregar serviços público e não lucros para meia dúzia apenas.


Seca já atinge 5 das 10 maiores regiões metropolitanas do país

Racionamento, problemas de abastecimento ou reservatórios em níveis de alerta já são realidade em cinco das dez maiores regiões metropolitanas do país: as de Belo Horizonte, Campinas, Recife, Rio e São Paulo. Juntas, elas abrigam 48 milhões de pessoas, quase um quarto da população do país.

Na Grande São Paulo, os principais reservatórios se esgotarão em cerca de cinco meses caso seja mantido o ritmo de chuvas e consumo das primeiras três semanas do ano.

Diante da situação, o Estado instituiu uma sobretaxa sobre o aumento de consumo, e o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, admitiu a possibilidade de racionamento "se continuar a não chover nos lugares certos e nas quantidades necessárias".

Na região de Campinas (interior de SP), cinco municípios já fazem racionamento e outros enfrentam cortes de água frequentes desde 2014. A situação deve se agravar. Nesta semana, a vazão dos reservatórios do sistema Cantareira para a região foi ainda mais reduzida. Empresas de saneamento, indústrias e agricultores terão de reduzir a captação de 20% a 30% quando a vazão dos rios cair.

Um alerta de 1977 para a crise da água

“Água de São Paulo está no fim, diz Nogueira Neto” foi o título de uma reportagem da Folha de São Paulo há 37 anos. A matéria, na edição de 25 de maio de 1977 (Primeiro Caderno, pág. 12), noticiava o alerta de Paulo Nogueira Neto, professor de ecologia da USP e titular da Sema (Secretaria Especial do Meio Ambiente), do governo federal, que comandou de 1974 a 1986.

Nessa reportagem, o então secretário federal destacou São Paulo e Belo Horizonte como “exemplos típicos de má utilização da água doce” no Brasil. Ele afirmou que as duas cidades deveriam “cuidar urgentemente da preservação de seus recursos hídricos”, ressaltando que a situação da capital paulista era “particularmente delicada”, pois os mananciais que a abasteciam já naquela época seriam posteriormente necessários para atendimento à região metropolitana que começava a se formar em Campinas. E acrescentou:

“E, talvez, antes do final do século, São Paulo terá que se abastecer com água transportada do vale do Ribeira.”

Passados esses 37 anos, São Paulo nunca adotou uma política para uma verdadeira utilização racional de seus recursos hídricos, não impediu nem reverteu a invasão e o adensamento populacional de áreas de proteção de mananciais e teve resultados pífios na redução do elevado nível de perdas de água no seu próprio sistema de distribuição.

Para agravar ainda mais esse quadro, o governo de São Paulo não realizou as obras do sistema de produção São Lourenço (SPSL) para a entrada em operação a partir de 2015, prevista desde a década passada. Os riscos desse atraso não só para o abastecimento da metrópole, mas também para a integridade dos sistemas Guarapiranga e Cantareira foram previstos também no estudo de impacto ambiental elaborado em 2011 para o São Lourenço.

“Caso o SPSL nem outro novo sistema produtor sejam implantados, o cenário prospectivo é de déficits crescentes no Sistema Integrado, e a permanência ou piora da regularidade de abastecimento nas zonas oeste, sudoeste e norte/noroeste da metrópole, (…) e maior stress no uso dos Sistemas Guarapiranga e Cantareira. (…) Os reservatórios tenderão a operar com menor volume de reserva e, ocorrendo condições hidrológicas desfavoráveis (não necessariamente críticas), a possibilidade de um colapso no abastecimento será maior, e o esquema de rodízio deverá ser adotado de modo generalizado na metrópole.”

No entanto, as “condições hidrológicas desfavoráveis” começaram a ser críticas já no final de 2013. O governo federal também tem sua parcela de responsabilidade por todo esse quadro, uma vez que a ANA (Agência Nacional de Águas) poderia ter exigido de São Paulo medidas severas nas renovações da outorga do sistema Cantareira.

Ainda ontem, a recém-criada Aliança pela Proteção da Água divulgou nota criticando as medidas anunciadas pelo governo estadual, destacando os seguintes pontos. O conjunto de intervenções apresentado não resolve a crise atual, é fazer mais do mesmo, ou seja, novas e caras obras que não contemplam medidas estratégicas para criar segurança hídrica.
Até o momento não foi apresentado um plano de contingência que demonstre como vamos chegar em abril de 2015 em situação segura para encarar o próximo período de estiagem.
Não foi feita qualquer menção sobre recuperar e cuidar dos mananciais existentes (restauração florestal, ampliação de parques, pagamentos por serviços ambientais)

O alerta do titular da Sema em 1977 não foi o único desde aquela época. Foram frequentes avisos de outros especialistas, principalmente de um dos maiores estudiosos dos recursos hídricos do Brasil nas últimas décadas do século passado, o geólogo Aldo da Cunha Rebouças (1937-2011), também professor da USP.

Telefonei na manhã desta quinta-feira (13) para Paulo Nogueira Neto — hoje com 92 anos e aposentado da USP—, e perguntei a ele por que o poder público costuma agir como se ignorasse alertas baseados na ciência. Ele apontou dois motivos: “imediatismo e economia malfeita de recursos”.

Apesar de tudo isso, o governo de São Paulo ainda insiste na retórica de que “garante” o abastecimento até março de 2015, minimizando o prejuízo para a integridade dos demais sistemas de produção de água, apontado também no próprio estudo de impacto ambiental do sistema São Lourenço.

Infográfico: Uol

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