terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Os problemas com a Petrobras

A Petrobras está numa desordem. A estatal brasileira faz promessas ano após ano, mas só decepciona. Para piorar, o governo brasileiro faz pressão para tentar empurrar as metas de produção, mas, por razões de política nacional, se recusa a dar meios e liberdade para que a empresa atinja essas metas.

Vamos começar com as boas notícias. A Petrobras continua descobrindo enormes volumes de petróleo e gás. Estima-se que o campo de Lula, por exemplo, abrigue 8 bilhões de barris de petróleo, o que faz dele um gigante mundial.

Claramente, a costa brasileira é uma das novas áreas mais prolíficas do planeta. As boas notícias terminam aí. A má notícia é que a Petrobras parece ser incapaz de definir ou cumprir planos de desenvolvimento dignos de confiança para os recursos que estão em suas mãos.

● Os gastos da empresa estão descontrolados. O último plano quinquenal falava em investimentos de US$16 bilhões por ano. Os gastos reais de 2012 foram de US$25 bilhões. 

● A empresa enfrenta uma crise de caixa e ficou famosa por atrasar o pagamento de contas. O fundo criado para ajudar a desenvolver as cadeias locais de fornecimento não recebeu o dinheiro que lhe era devido. O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura alertou que pequenas empresas podem falir por isso.

● A estatal está apertando os fornecedores. As ações da empresa italiana Saipem, que tem grandes participações no Brasil, despencaram na última semana porque a Petrobras diminui suas margens a um grau ínfimo. A própria Saipem declarou que os problemas no Brasil causariam uma redução de 80% nos lucros de 2013. Essa situação faz com que muitos dos melhores fornecedores técnicos do setor optem por não trabalhar mais no Brasil.

● Por trás disso tudo está a má administração da estatal por parte do governo brasileiro. A Petrobras é usada pelo governo como um instrumento de política interna.

● A Petrobras não tem permissão de aumentar os preços cobrados dos consumidores do país e, com isso, sofre com os prejuízos. Os aumentos recentes nos preços da gasolina e de outros produtos foram mínimos, já que o governo tenta manter o apoio popular deixando os preços artificialmente baixos.

● Ao mesmo tempo, a Petrobras está sendo forçada a apoiar contratações locais mesmo estando claro que o setor de serviços do país não está preparado para a enorme complexidade inerente aos projetos nas águas profundas do pré-sal.

Por isso, é muito pouco provável que a Petrobras atinja sua própria meta de mais do que dobrar a produção e chegar a 5,7 milhões de barris por dia até 2020. Os planos estão bem atrasados. O baixo desempenho já está fazendo com que o país seja visto com maus olhos.

Um executivo do setor me disse que uma promessa brasileira não vale nem o papel em que foi escrita. Para fins de comparação, a Petrobras foi superada pela estatal colombiana Ecopetrol e está chegando ao nível da Pemex, a grande burocrata que controla o setor mexicano de petróleo e gás. A empresa acabou de receber outra avaliação negativa da Moody’s. Seus petroleiros estão prestes a iniciar uma greve prevista para durar cinco dias.

A Petrobras ainda não é grande o suficiente para causar um problema no mercado mundial. Os antigos campos de petróleo continuam produzindo. No entanto, esse panorama é uma crescente preocupação para as empresas ocidentais que têm investimentos no Brasil em parceria com a Petrobras, já que essa situação pode ser um elemento significativo em seus portfólios globais. O panorama também é problemático para acionistas de fundos em mercados emergentes que detêm ações da Petrobras, devido ao porte da estatal.

O preço das ações da Petrobras caiu mais de 10% esta semana após a divulgação, na terça-feira, de péssimos resultados, o que abalou todo o mercado brasileiro. Por enquanto, o governo brasileiro parece indiferente ao problema. Não existe a vontade de privatizar totalmente a Petrobras ou de abrir a gestão do desenvolvimento dos recursos de petróleo e gás do Brasil para o setor internacional.

Com o maior respeito ao grande Jim O’Neill no dia em que ele anuncia sua aposentadoria, sempre fui cético acerca da teoria do banco Goldman Sachs de que os BRIC dominariam o mundo até a metade deste século. Tudo o que está acontecendo com a Petrobras só reforça esse ceticismo.
Em 2007 e 2008, as descobertas do pré-sal fizeram a Petrobras decolar como uma das principais vitrines do governo brasileiro e se tornar uma das maiores petrolíferas do mundo. Passados seis anos, porém, o cenário da empresa não inspira mais tanto otimismo.

O valor de mercado da estatal tem recuado significativamente, e os problemas da empresa viraram uma dor de cabeça para o governo Dilma Rousseff. O jornal britânico Financial Timeschamou a companhia de "um potencial não concretizado".

A crise mais recente envolve a compra, em 2006, de 50% de uma refinaria de Pasadena (EUA), agora sob suspeita de superfaturamento. Na época, Dilma era ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal, que autorizou a compra.

Mas os obstáculos da empresa envolvem também os preços dos combustíveis praticados no Brasil, seu alto grau de endividamento e investigações sobre suposto recebimento de propina por funcionários em negócios com a empresa holandesa SBM Offshore.
Controle do preço dos combustíveis

Analistas apontam que uma das principais causas dos problemas econômicos da Petrobras é o controle no preço da gasolina e no diesel, exercido pelo governo para evitar um aumento da inflação.

O Brasil consome mais petróleo do que produz. Por isso, a Petrobras é obrigada a importar o produto, mas o valor que paga pelo produto no mercado internacional não pode ser repassado integralmente para os consumidores, pois isso geraria uma pressão inflacionária. Isso, obviamente, afeta as contas da empresa.

"Os investidores veem o papel do governo como uma interferência política na gestão da Petrobras", explica à BBC Brasil Robert Wood, especialista em Brasil da consultoria Economist Intelligence Unit.

Um reajuste nos preços dos combustíveis deu fôlego aos resultados da estatal em 2013, ano em que lucrou 11% a mais que no ano anterior.

Mas seu endividamento (veja abaixo) continua alto, mantendo a desconfiança de acionistas. "Em parte, (a retomada da empresa) depende do ajuste no preço da gasolina e de uma política que dê mais previsibilidade à gestão da empresa", opina Wood.

O Ministério das Minas e Energia diz que a política de reajuste dos preços dos combustíveis é estabelecida pela Petrobras. Por outro lado, autoridades insistem que a prioridade do governo é o combate à inflação.

Endividamento


No ano passado, a agência de classificação de risco Moody's rebaixou a nota da Petrobras, após a estatal brasileira se tornar a mais endividada entre as grandes empresas de petróleo e gás.

A dívida líquida da empresa subiu 50% em 2013 - de R$ 147,8 bilhões para R$ 221,6 bilhões.

Em relatório deste mês, a agência calcula que a dívida total da estatal equivale a 3,8 vezes o seu Ebitda (medida que representa o potencial de geração de caixa da empresa).

Isso tem a ver, segundo analistas, com a política de controle dos preços dos combustíveis e com um "plano ambicioso de investimentos", explica Wood.

Um exemplo disso é o fato de a Petrobras ter vencido, como integrante de um consórcio com outras empresas, o leilão do campo de Libra do pré-sal, a maior bacia petrolífera do país.

Libra deve exigir investimentos de cerca US$ 80 bilhões nos dez primeiros anos, segundo estimativas de mercado.

O relatório da Moody’s diz que a nota de crédito da Petrobras tem perspectiva "negativa", já que o endividamento "deve chegar a níveis altos em 2014, significativamente mais altos do que das demais empresas do setor, e só deve declinar a partir de 2015".

Isso é algo que "coloca em xeque a capacidade de investimentos da empresa", diz Pires à BBC Brasil.

Em entrevista à GloboNews em outubro do ano passado, a presidente da estatal, Graça Foster, disse que, no caso específico de Libra, os investimentos de curto prazo são pequenos. E ressaltou que suas dívidas estão sendo convertidas em investimento, que resultarão em crescimento.

Mas recentemente, na divulgação dos resultados da empresa, a presidente admitiu que a redução do endividamento será uma missão difícil em 2014.

Casos Pasadena e SBM Offshore


Uma reportagem de O Estado de S. Paulo apontou, na quarta-feira, que Dilma, como então presidente do Conselho de Administração da estatal, em 2006, votou a favor da polêmica compra de 50% da refinaria americana de Pasadena, por US$ 360 milhões. Depois, uma cláusula contratual obrigou a Petrobras a comprar o restante da refinaria, por mais US$ 820 milhões.

No total, portanto, foi desembolsado US$ 1,18 bilhão. O problema é que a empresa que possuía a refinaria anteriormente, a belga Astra Oil, havia adquirido a Pasadena por apenas US$ 42,5 milhões em 2005.

O caso está sendo investigado pela Polícia Federal e pelo Tribunal de Contas da União, e a oposição no Congresso ameaça a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, em ano eleitoral.

Em carta ao Estado, Dilma disse que aceitou a compra com base em "informações incompletas" de um "parecer técnica e juridicamente falho". Depois, agregou que "na época o negócio parecia vantajoso". Questionada a respeito, a Petrobras até o momento não comentou o caso.

Outra crise envolve denúncias de suposto pagamento de propina a funcionários da Petrobras, por parte da empresa holandesa SBM Offshore. As denúncias envolvem cerca de US$ 139 milhões, que teriam sido pagos entre 2005 e 2011.

Uma comissão parlamentar externa foi designada para analisar o caso, também investigado por Ministério Público e Polícia Federal.

Perda de valor de mercado


Todos esses fatores têm gerado uma percepção negativa da estatal, levando investidores a venderem a suas ações. Isso faz a empresa perder o seu valor de mercado, representado pelo preço de suas ações vezes o número de ações existentes.

O valor das ações, que chegou a superar os R$ 30 em 2009, agora beira os R$ 13 – um dos níveis mais baixos desde 2005, antes do período áureo do pré-sal.

O valor de mercado da empresa foi o que apresentou a maior perda em valores absolutos entre as empresas brasileiras listadas em Bolsa em 2013 – de US$ 124,7 bilhões no fim de 2012 para US$ 90,6 bilhões no fim de 2013 –, segundo levantamento da consultoria Economática.

Para Adriano Pires, analista do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), mais do que uma dor de cabeça para o governo, a Petrobras "virou uma dor de cabeça para seus acionistas".

Razões para otimismo


Mas, mesmo nesses cenários, analistas apontam pontos positivos importantes da Petrobras.

O relativo sucesso do leilão do campo de Libra, no ano passado, despertou dúvidas sobre a geração de caixa da empresa, mas é também uma de suas principais promessas de lucros.

"Os investidores estrangeiros ainda respeitam a expertise da Petrobras na área de exploração profunda, mas a questão da gestão vem à tona", argumenta Wood.

Em entrevistas recentes, Graça Foster afirmou que a produção de petróleo pela empresa está em uma curva ascendente e não descarta novos aumentos de combustível, que ajudem a recompor o caixa da empresa.

Crises corporativas representam uma ameaça às organizações. E quase sempre provocam efeitos extremamente deletérios para osstakeholders, o próprio negócio, os resultados, a reputação e o futuro das corporações. Talvez o Brasil nunca possa dimensionar em toda a extensão o dano provocado pela atual crise da Petrobras, não apenas diretamente na empresa, mas em toda a cadeia de negócios que envolve as atividades da estatal.

Além das consequências negativas para a reputação da empresa e do país no exterior, o efeito cascata desse crime cometido contra a maior corporação brasileira e uma das maiores petroleiras do mundo, se irradia por centenas de outras organizações, até mesmo fora do país.

Pequenas e grandes empresas, que faziam negócios com a Petrobras, precisaram rever investimentos, suspender pedidos de matéria-prima, cortar empregos e a maioria delas não sabe o que acontecerá em 2015. Corte de investimentos, impostos não pagos, obras paradas, virando sucata, demissões em massa em estaleiros, empreiteiras, indústrias de plataforma e outros fornecedores, além dos problemas de caixa que fazem a empresa cortar investimentos, representam um prejuízo incalculável ao país.

Não bastasse tudo isso, a crise provoca um indiscutível efeito negativo sobre o mercado de capitais. Pequenos investidores foram prejudicados pela atuação da quadrilha, pilotada por diretores e gerentes da empresa, com a omissão dos órgãos controladores da empresa. Esses investidores ficarão arredios e dificilmente voltarão à Bolsa. Investidores internacionais se recolheram. Escritórios de advocacia dos EUA, representando investidores, acionam a Petrobras na Justiça por ter prometido o que não entregou. Levará muito tempo para a empresa merecer de novo a confiança de um mercado já ressentido pelas perdas com a crise econômica internacional.

A área contábil da Petrobras já deve ter se debruçado quanto ao efeito dessa megacrise sobre os resultados da empresa. Sabemos que o mercado, principalmente numa época de instabilidade econômica e num mundo também em crise, funciona muito na base da confiança e das percepções.

No momento, até pela demora do governo em tomar uma atitude decisiva sobre a crise da Petrobras, a percepção do mercado é extremamente negativa. Não há como explicar por que a presidente da República, na ausência total do ministro das Minas e Energia, demora tanto para dar um sinal positivo ou qualquer sinal. Deixar a empresa purgar uma crise durante nove meses, sem uma atitude sequer no sentido de resolvê-la.

Pelo contrário, as intervenções de ministros, dirigentes da Petrobras, e da própria presidente Dilma são evasivas, retóricas e desconstrutivas do discurso e das ações da Polícia Federal, do Juiz Sérgio Moro, do Ministério Público e das testemunhas. Vão mais no sentido de tergiversar, atribuir a outros ou a um fatalismo histórico do que assumir que errou, falhou nos controles, se desculpar e punir os culpados.

Como diz o especialista em Crisis Management, Steven Fink, “na guerra entre percepções e realidade, a percepção sempre vence.” Num exercício simples, sem grande aprofundamento, apenas para ilustrar visualmente algumas das consequências da crise da Petrobras, foi possível selecionar cerca de 30 causas diretas extremamente perniciosas para o país e para a empresa.

Afinal, numa megacorporação em crise, em que o titular da área de Comunicação, como diz a Revista Veja (Radar, 24/12/14), não fala há meses com a presidente da empresa, Graça Foster, qual a esperança de que haja alguma luz no fim do túnel?

O que uma organização da dimensão e importância da Petrobras deveria fazer para tentar conter a crise atual, cada vez mais desgastante para a sua reputação? Vale recorrer aos especialistas em gestão de crises, principalmente aqueles chamados para socorrer empresas do porte de uma das maiores petroleiras do mundo e que vê dia a dia a reputação esvair-se no escrutínio da opinião pública.

Não bastassem todas as notícias negativas e denúncias das últimas semanas, na quinta-feira passada, a Polícia Federal passou cinco horas na Sede da empresa, no Rio de Janeiro. Como a empresa colaborou, entregando documentos da segunda fase da Operação Lava-Jato, não foi preciso a Polícia Federal cumprir os mandados de busca e apreensão. O pivô da intervenção da PF é o ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, que ali atuou por oito anos.

Esse diretor se transformou num autêntico “homem-bomba”. Ressalvada a colaboração da presidente da Petrobras à PF, o episódio é mais um a denegrir a imagem da multinacional brasileira, no bojo de uma crise que começou com a revelação de um negócio muito mal explicado: a compra de refinaria em Pasadena, Texas.

O que define uma grande empresa é a maneira como ela lida bem com os problemas e alcança seus objetivos de negócios, enquanto fornece resultados de uma maneira que seja consistente com os interesses comuns de todos os seus constituintes. (Peter Verengia, especialista em Comunicação)

Ameaças ou ataques à reputação impactam diretamente os valores das organizações: valores internos de pertencimento, de autoestima, do orgulho de pertencer à corporação; valores financeiros, materializados nos resultados, no faturamento, nas relações comerciais, na segurança e confiança dos acionistas, clientes, investidores, parceiros e fornecedores. Mas, principalmente, impactam o valor de mercado da empresa.

Ameaças à reputação, portanto, significam também prejuízos, não só à empresa, mas também aos stakeholders e ao país. O mercado precifica denúncias, acusações e até especulações. E é implacável com empresas que não conseguem explicar adequadamente fatos negativos. A versão sobre as crises, muitas vezes, são mais deletérias do que a própria crise.

A Petrobras está na fase do Crisis Management, ou seja, ela precisa administrar a crise durante a fase aguda dos acontecimentos, para tentar conter o passivo negativo. Os especialistas dizem ser este o pior momento para gerenciar uma crise. Se a Petrobras traçou algum cenário, preparando-se para essa intempérie, não sabemos. Tudo leva a crer que foi colhida de surpresa, não apenas pelas denúncias, mas pelo contexto, velocidade e extensão em que estão ocorrendo, com respingos no Palácio do Planalto, em ex-diretores, parlamentares do partido governista, nos negócios no exterior e na sede da empresa.

Marcas fortes são mais resilientes, mas sofrem mais pressão

A Petrobras tem uma marca forte. Há dois anos, figurava no Índice Forbes Global como a 10ª. empresa do mundo, com ativos de 319 bilhões de dólares. Passou incólume ou desgastada por várias outras crises no passado. Aprendeu com elas. A ponto de criar uma área de gerenciamento de crises considerada bastante eficiente, quando precisou administrar crises operacionais.

A crise atual difere de vazamentos, como ocorreram na Baia de Guanabara e na Refinaria Getúlio Vargas, em Araucária (PR), nos anos 1990. Ou até mesmo bem diferente do mais grave acidente na história da Petrobras, a explosão, seguida de afundamento, da Plataforma P-36, em 2001, com a morte de 11 empregados.

De modo genérico, sem entrar no mérito das questões até agora divulgadas, o que uma empresa em situação parecida com a da Petrobras, com denúncias graves divulgadas, diariamente, precisaria fazer, sob a ótica da gestão de crises, para tentar conter o tsunami que há pelo menos três semanas não tira a petroleira das manchetes?

• Se a Petrobras ainda não mantém contrato com empresa especializada, contratar imediatamente uma consultoria nacional ou internacional, com know-how em gestão de crises, de preferência crises de reputação. Trazer os melhores especialistas e construir um Plano de Recuperação de Imagem.

• Instalar um “Gabinete de Crise” full time para gerenciar todas as ações relacionadas com as denúncias e os procedimentos de comunicação. Consta que já foi ativado. Esse time de crise teria que ter um coordenador com amplo respaldo da organização, da diretoria e do governo, e total liberdade de atuação, sob o comando direto da principal executiva.

• Rapidamente, junto com a Consultoria externa, montar uma estratégia de reação às denúncias, com ações objetivas e efetivas de apuração de todos os fatos denunciados, além de mudar a comunicação da empresa sobre a crise. Até agora, a sensação é de uma comunicação reativa e contida, provavelmente pelos pruridos políticos que envolvem os escândalos denunciados. Não há alternativa. Se a empresa quiser limpar a reputação, não há como fazer essa omelete sem quebrar os ovos. Terá que atropelar interesses políticos.

• Uma estratégia de recuperação da imagem supõe uma equipe totalmente engajada nos objetivos da empresa, sem interferências políticas ou administrativas. Precisaria identificar os pontos críticos e tocar o dedo na ferida, sem medo de ferir suscetibilidades, interesses de partidos, tanto do governo, quanto aliados, de sindicatos, políticos ou membros da gestão anterior. Atuar com o pé no freio, com medo de eventual arranhão na reputação da administração anterior ou de ferir interesses de diretores, indicados por políticos ou amigos do rei, não ajudará a empresa a sair da crise.

• Uma mudança radical na comunicação. Com comunicados atualizados, sempre que notícias negativas forem publicadas. Da forma como vem ocorrendo, parece só existir um lado conduzindo a comunicação da crise: a imprensa e os demais interlocutores, parlamentares da situação, da oposição, especialistas, comentaristas. A Petrobras deve transformar a sua comunicação na principal fonte de explicação da crise e não deixar a imprensa, como tem acontecido, ser protagonista das versões sobre a crise.

• É preciso definir na empresa quem será a “cara” dessa crise. A presidente da estatal? É uma decisão estratégica importante, nesse momento. Para isso, ela precisaria ser muito bem treinada e também ter tempo disponível, além de disposição, para as intensas demandas da mídia, inclusive internacional. Há algum diretor com credibilidade, treinado em Media Training, conhecedor do "negócio" da Petrobras, para assumir esse papel de porta-voz? Se existe, poderia ser uma opção para preservar a presidente da empresa.

• Assumir o controle da comunicação da crise com respostas consistentes. As respostas precisam mostrar compromisso com a transparência sobre todos os atos que acabaram motivando a atual crise. É a única forma de trabalhar a comunicação para tentar reverter o estrago à imagem da empresa. Pode-se partir da premissa de uma pergunta mais ou menos assim: o que um jornalista do exterior, que não sabe detalhes sobre a crise da Petrobras, mas acompanha de longe, gostaria de receber da empresa para construir uma reportagem correta, veraz? Naturalmente, tudo isso implica admitir que a empresa pode e quer dar respostas para as denúncias sobre negócios no exterior e no país, sem esconder nada.

• A empresa precisa demonstrar ao mercado e ao país a disposição firme de esclarecer tudo e extirpar eventuais resquícios de uso político ou privado, por meio de negócios suspeitos ou desvios de recursos. Para isso, deve afastar imediatamente todas as pessoas suspeitas de qualquer ligação com executivos ou ex-executivos comprometidos com os malfeitos que a Polícia Federal está apurando.

• Discurso com viés político não solucina as crises. Não basta a presidente da República irritar-se em eventos oficiais e dizer que irá defender a Petrobras da "campanha negativa", insinuando ser este um comportamento orquestrado por opositores ou quiçá pela mídia. Essa crise não tem origem externa. Vem de dentro da empresa, como aliás 80% das crises corporativas. Quem denegriu a imagem da Petrobras foram os erros de gestão, sabe-se agora, muito provavelmente por influência política; foram negócios pra lá de suspeitos, em licitações com propósitos de beneficiar pessoas ou apadrinhados por executivos indicados pelo governo.

• Não há dúvida, as crises sugam energia. Por mais que a empresa tente passar uma imagem de normalidade, divulgando notícias positivas, participando de eventos e até, erradamente, mantendo uma campanha institucional no ar, não há como ignorar esse momento de extrema fragilidade da reputação da organização. A maioria das denúncias e questionamentos não foi respondida pela Petrobras, até pela dificuldade de se contrapor a posições que envolvem a presidente da República e membros do Conselho de Administração.

• A Petrobras precisa consertar o transatlântico em plena velocidade de cruzeiro. E no meio de uma tempestade. O problema é que existem “piratas”, à la “Capitão Phillips”, que tomaram algumas áreas do navio de assalto e não deixam a tripulação sequer diagnosticar os principais problemas com liberdade. Isso porque, ao descobri-los, teria que revelar os bastidores desses problemas, muitas vezes interesses excusos, desconectados da boa governança e dos objetivos do negócio. Sem falar naqueles que não querem apurar nada. Estariam a diretoria e o conselho de administração dispostos a trabalhar com disclosure total?

• A auditoria da Petrobras foi rápida em divulgar que a SMB Offshore, empresa holandesa que teve negócios com a estatal brasileira, não encontrou "elemento credível" de que a companhia ou seus representantes comerciais teriam pago propinas a funcionários da Petrobras. Essa foi uma das acusações que ajudaram parlamentares a propor uma CPI, no Congresso.

• Mas a empresa tem sido reativa, ou até mesmo lenta, em dar respostas às demais acusações, principalmente as que envolvem dois diretores, um deles demitido e pra lá de enrolado. Quando a opinião pública recebe informações contraditórias, como ocorreu com a estranha nota divulgada pelo Planalto no limiar da crise, ela desconfia que alguém pode estar escondendo algo ou mentindo. Quando a imprensa denunciou que a presidente Dilma, como presidente do Conselho de Administração da Petrobras, tinha aprovado a compra da refinaria, pivô da crise, o Planalto alegou ter recebido “informações incompletas” e um parecer “técnica e juridicamente falho”. Essa nota teve reações negativas da corporação e foi desmentida pelo advogado do diretor que apresentou o resumo técnico. Ele defendeu o diretor dizendo que, 15 dias antes, o estudo completo estava disponível.

• O imbróglio do comunicado do Planalto, que pode ter sido um tiro no pé, se analisado por um lado, ou também uma estratégia deliberada da presidente, para tirar a crise do Planalto e jogar na administração anterior, ficou ainda mais nebuloso, após entrevista do ex-presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli. Ele classificou como "um bom negócio" a suspeita compra da refinaria no Texas. E assegurou que a presidente Dilma falou a verdade, quando disse que recebera informações parciais. Gabrielli confessa publicamente que a empresa comandada por ele foi incompetente para dar informações consistentes ao Conselho de Administração sobre um negócio para lá de suspeito. E que este mesmo Conselho – do qual ele fazia parte - aprovou uma compra milionária, com informações parciais. Quem garante, portanto, que outras operações aprovadas por esse Conselho não estejam contaminadas pela mesma omissão? Como se vê, esse capítulo da compra da refinaria no Texas precisa ficar muito esclarecido, até porque ele pode ser a ponta do iceberg de fatos que ainda não vieram à tona.

• Em momentos de crise, confundir faz parte da estratégia para não explicar. E isso não se coaduna com a boa comunicação de crise, nem ajuda na solução do problema. Pesquisa feita nos Estados Unidos mostrou que 55% das pessoas acreditam que todas as empresas mentem nas explicações das crises graves. Reverter essa percepção, portanto, precisa de um extraordinário trabalho de comunicação.

• Desenvolver uma estratégia de recuperação da reputação – e para a Petrobras, com longa tradição de bons serviços ao país e uma forte reputação, não é tarefa tão difícil. Implica ferir interesses, sem dúvida. Espera-se, como disse a presidente da empresa, Graça Foster, em entrevista ao jornal O Globo, que se investigue "tudo o que precisa" e que não fique "pedra sobre pedra", doa a quem doer. Será que Graça Foster tem força para mexer nesse vespeiro e cumprir a promessa?

• E a CPI? Talvez seja, no momento, o problema menor da Petrobras. Nada se espera de uma CPI, que visa mais colocar nos holofotes parlamentares do governo e da oposição, do que apurar alguma coisa. A CPI, dada a interferência dos aliados do governo, já nasceu morta. Será mais uma oportunidade para Suas Excelências estimularem longos depoimentos e que, pressionados pela Copa do Mundo e as eleições, não chegarão a nada. Não é por aí, pois, que a Petrobras vai conduzir uma estratégia de recuperação do seu capital reputacional.

• Investidores, acionistas, prestadores de serviço, a própria mídia esperam que a Petrobras seja o “pusher” de um processo de recuperação de sua reputação, apurando com seriedade o que aconteceu e revelando tudo à opinião pública. Essa é uma contribuição da empresa para o futuro. Até porque o aparelhamento da máquina, como fica demonstrado no desserviço prestado por ex-presidentes e diretores, que usaram a empresa em benefício próprio ou dos interesses mais políticos do que empresariais, com tentáculos que passam por empresas de fachada e doleiros, não interessa nem aos funcionários, nem à administração, nem ao atual governo, nem ao país, se eles estiverem, realmente, comprometidos com o futuro da empresa.

• Encobrir malfeitos ou tentar minimizar a crise por pruridos políticos ou orientações superiores não contribuirá para resolvê-la. TCU, MPU, CGU, Polícia Federal todos estão de olho nas operações da empresa. Ou ela contribui para abrir a “caixa preta” agora ou terá que amargar um passivo de imagem semelhante ao dos Correios e da Infraero, empresas também aparelhadas no primeiro governo Lula e que pagam ainda um alto preço pelo uso da máquina pública. O resultado, apesar da força econômica e o capital reputacional da empresa, poderá ter impacto muito negativo e duradouro.

• O que a Petrobras corre o risco de perder? A confiança do investidor, do funcionário, da sociedade, do mercado. Há algo pior do que isso? Recuperar essa confiança é o primeiro trabalho da administração da Petrobras. Para isso, precisa mostrar ao mercado que, doravante, não haverá interferência política na administração. Convenhamos. Este talvez seja o capítulo mais difícil nesse processo. Implicaria, para dar maior força, o empenho da palavra da própria presidente da República.

• Finalmente, a par de tudo que se sugere aqui, a empresa deve assumir o compromisso de, no mais curto espaço e tempo, concluídas as auditorias, esclarecer amplamente à opinião pública tudo que aconteceu com os negócios suspeitos. Se preciso, a cada veículo de imprensa em particular. E prepare-se para perguntas complicadas. Como esclarecer, por exemplo, por que a Petrobras manteve por oito anos um diretor de Abastecimento, agora preso sob acusação de conduzir uma operação de lavagem de dinheiro, a partir de contratos intermediados junto à empresa, além de manter relações para lá de suspeitas com um doleiro, também preso. "Quase nenhuma crise termina sem sangue no chão", diz Jack Welch, o guru da GE, no livro Paixão por vencer - A Bíblia do sucesso. Se a Petrobras quiser retomar sua rota de cruzeiro, com o casco do transatlântico preservado, terá, certamente, que tirar muitos fantasmas do armário.

• Enfim, é um trabalho difícil, mas necessário se a empresa quiser realmente entrar numa rota de recuperação da imagem. Nas crises graves, as organizações têm uma oportunidade de conter a intensidade do desgaste à reputação. Chamamos esse timing de “momento zero”. A Petrobras começa a perder esse momento. Como a crise atual vai ser contida ou prosseguir, depende de como a empresa irá administrar esse “momento zero”. Muitas conseguem agravá-lo. Como brasileiros, esperamos que a Petrobras saiba administrá-lo.

• Não esquecer que a maioria das organizações consegue sobreviver às crises. Para a Petrobras, o custo e os reflexos futuros desse Rubicão que ela atravessa depende da forma como essa crise vai ser administrada.


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