sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O ‘annus horribilis’ da Petrobras não termina

Estatal, que vale 40% a menos na Bolsa, acumulou graves danos à imagem em 2014.



Os altos executivos da Petrobras estão prometendo há alguns meses uma nova maneira de fazer as coisas, mas não devem confiar que a mudança do ano traga alívio a suas angústias. O colossal caso de corrupção que atinge a maior empresa do Brasil e até envergonha muitos de seus 80.000 funcionários leva a uma situação complicada: sem ser capaz de apresentar balanços sem auditar, tendo perdido quase 40% de seu valor na Bolsa este ano e em meio a um cenário internacional de queda do preço do barril de petróleo, os danos à sua imagem são irreversíveis no curto prazo.

A presidenta da empresa, Graça Foster, colocou este mês seu cargo à disposição da presidenta da República, Dilma Rousseff (ex-presidenta do Conselho de Administração da empresa), que a manteve no cargo; são esperados, no entanto, mudanças no próprio Conselho de Administração. A determinação de Rousseff não foi afetada pela acusação pública de uma geóloga e ex-funcionária da empresa, Venina Velosa, que diz ter alertado Foster por e-mail em 2009 sobre a corrupção generalizada na empresa (Foster negou veementemente essa informação).

Não há dia em que as manchetes da imprensa não afundem um pouco mais a reputação de uma empresa que há apenas alguns anos tinha sido chamada para garantir “o futuro do país” com a descoberta de jazidas marinhas de pré-sal a 7 mil metros de profundidade. A empresa reagiu em outubro, com a contratação de dois escritórios de advocacia (um brasileiro, outro norte-americano) para impulsionar investigações independentes, com acesso teoricamente ilimitado a computadores e arquivos. A Securities and Exchange Commission (SEC), reguladora do mercado de ações dos EUA também investiga a petroleira por irregularidades e seu impacto sobre o preço das ações.

Os últimos dias do ano foram marcados pela criação de uma nova direção de Governança que será responsável por fazer cumprir a lei e, acima de tudo, pelo congelamento de pagamentos e novos contratos com 23 empreiteiras envolvidas na trama: entre elas estão incluídas as ‘gigantes’ da construção Odebrecht SA, Camargo Correa e Andrade Gutierrez, assim como o grupo ítalo-argentino Techint e a empresa sueca Skanska AB. Completam a lista Alusa, Carioca Engenharia, Construcap, Egesa, Engevix, Fidens, Galvão Engenharia, GDK, IESA, Jaraguá Equipamentos, Mendes Junior, MPE, OAS, Odebrecht, Promon, Queiroz Galvão, Setal, Tomé Engenharia e UTC. A medida audaz vai forçar a Petrobras a buscar novos sócios para seu ambicioso plano quinquenal de investimentos (221 bilhões de dólares, 600 bilhões de reais), destinados a explorar as grandes jazidas descobertas em 2006.

A Polícia Federal, impulsionadora da Operação Lava Jato, e a Procuradoria da República estimam que o volume de dinheiro desviado e lavado em subornos e financiamentos irregulares de partidos políticos pode chegar a 4 bilhões de dólares (10,5 bilhões de reais) tornando-o de longe no maior caso de corrupção conhecido na história do Brasil. Pelo menos 39 pessoas, a maioria delas altos executivos das principais construtoras brasileiras, serão julgados a partir de fevereiro de 2015. Políticos relevantes de três partidos, incluindo o PT (no poder há 12 anos), estão implicados, mas até agora nenhum foi formalmente acusado pelo Ministério Público. O processamento formal será o próximo passo em um caso de repercussão ainda imprevisíveis.

“Com a adoção dessas medidas preventivas, a Petrobras busca proteger a empresa e seus sócios de perdas financeiras de difícil reparação e dos danos à sua imagem”, explicou a empresa em um comunicado esta semana sobre as suas últimas decisões. Os problemas, no entanto, continuam a se multiplicar. A estatal reconheceu que o fundo de pensão dos funcionários da empresa, Petros (o segundo maior do Brasil), com 24 milhões de dólares acumulados, também está sob suspeita. Para piorar a situação, o novo atraso na publicação de seu balanço do terceiro trimestre (cujo auditor, PricewaterhouseCoopers, recusou-se a validar em outubro), agora previsto para janeiro, poderia fazer com que a empresa seja declarada em default técnico parcial por uma ação dos detentores de seus bônus nos Estados Unidos, segundo informou a Reuters. A agência de qualificação financeira Moody’s colocou em revisão para possível rebaixamento, a nota da dívida da Petrobras.

No final de 2014, a Petrobras caiu da segunda para a quarta posição na lista de empresas brasileiras com maior valor de mercado, depois de perder mais de 80 bilhões de reais (30 bilhões de dólares) este ano: um reflexo da queda de cerca de 40% no preço nominal de suas ações, arrastadas pelas contínuas denúncias de corrupção e a queda do preço do petróleo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais no Brasil, anunciou esta semana que abriu a primeira investigação oficial contra a Petrobras. A situação da empresa é tão complicada que algumas fontes citadas por InfoMoneyindicam que a petroleira poderia paralisar alguns projetos e demitir até 10.000 trabalhadores. Seu peso na economia nacional é tão relevante que muitos políticos e empresários prendem a respiração enquanto esperam que o castigo das construtoras acusadas não paralise as obras em andamento e desacelere ainda mais, se for possível, o crescimento da sexta economia mundial.



TEM CAROÇO NESSE ANGU. GEORGE SOROS ESTÁ SE ENTUPINDO DE AÇÕES DA PETROBRAS


Enquanto grandes fundos dos Estados Unidos reduziram nos últimos meses as apostas em papéis da Petrobrás, um grande investidor está indo na direção contrária, o bilionário George Soros. Desde o começo do ano ele vem aumentando as compras de ações da empresa brasileira e no último trimestre dobrou a quantidade de papéis em suas carteiras.

Soros fechou o terceiro trimestre com 5,1 milhões de ações e opções de compras da Petrobrás. No período anterior, ele tinha 2,4 milhões de papéis, também acima dos 2 milhões do primeiro trimestre, de acordo com dados enviados pela Soros Fund Management, que administra cerca de US$ 28 bilhões, para a Securities and Exchange Commission (SEC, que regula o mercado de capitais norte-americano). Pelas regras dos Estados Unidos, os fundos precisam informar à SEC a cada trimestre como estão suas carteiras no fechamento do período, com a quantidade de ações e as empresas em que investem.

Já outros grandes fundos dos EUA têm vendido ações da Petrobrás. A Millennium Management, que administra cerca de US$ 22 bilhões, reduziu sua exposição em 86% no terceiro trimestre comparado com o segundo período de 2014. A Discovery Capital, que faz a gestão de US$ 15 bilhões, cortou em 28%, e a D.E. Shaw, com recursos de US$ 34 bilhões, em 9%.

Outros fundos foram ainda mais radicais. A AlphaBet Management, que agora se chama Saiers Capital e administra US$ 2 bilhões, zerou a posição. A Arrowstreet Capital, que faz a gestão de US$ 25 bilhões, também se desfez dos 1,1 milhões papéis da petroleira, segundo os dados da SEC compilados pelo site especializado em fundos de hedge InsiderMonkey.

Os American Depositary Receipts (ADRs), recibos que representam ações da Petrobrás e são negociados na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse, na sigla em inglês) acumulam queda de 50% este ano. Uma série de notícias negativas nos últimos meses tem ajudado a provocar estas perdas. Entre elas, as denúncias de corrupção na empresa, prisão de executivos da companhia e de prestadoras de serviços, falta de divulgação do balanço do terceiro trimestre, alto endividamento e a queda do preço internacional do petróleo.

Na avaliação dos analistas de petróleo do Credit Suisse, Andre Sobreira e Vinicius Canheu, a Petrobrás já quebrou uma série de promessas feitas aos investidores e é crucial, para restaurar a confiança, que a empresa apresente números e metas confiáveis e que as investigações das denúncias tenham resultados concretos, escrevem em um relatório a investidores.

Investidores estrangeiros têm operado na praça financeira internacional com a expectativa de lucrar com a quebra do Brasil. No mercado de idéias sobre o futuro do país, as sucessivas declarações do financista George Soros de que o Brasil caminha para a bancarrota começam a chamar a atenção. Há quem diga que Soros provavelmente tem “levado sua boca aonde seu dinheiro está” (tradução de expressão comum em Wall Street, “putting his mouth where his money is”).

Ou seja, Soros integraria o time dos que lucrariam se o Brasil desse calote em sua dívida, ou a reestruturasse, como os especialistas de mercado preferem dizer.

“Infelizmente, eles (os investidores estrangeiros) começam a cheirar o sangue na água, como tubarão. Eles vêem que o Banco Central vai ter de fazer leilão (de títulos cambiais e operações com dólar no mercado futuro interno) e começam a empurrar o Brasil até que não consiga fazer a renegociação”, disse Raphael Kassin, chefe para mercados emergentes da área de renda fixa do ABN-Amro Asset em Londres.

Para Kassin, as declarações de Soros não são isentas de interesse. “Acho que o Soros nunca deu uma declaração que fosse independente de sua posição (no mercado financeiro). Ninguém nunca o levou a sério. Quando ele faz um comentário, já se sabe que ele o faz de acordo com sua posição (no mercado). Agora, é comentário que machuca, que afeta”, diz.

Dois operadores de mercado, um de Nova York e outro de São Paulo, também disseram à Folha que suspeitam do objetivo do financista quando ele faz esse tipo de análise sobre o Brasil. Ambos ressaltaram, no entanto, que não há como afirmar se seus fundos de investimento estão em posição contrária ao Brasil.

“Curto em Brasil”

Posicionar-se contra o país é o mesmo que ficar “short” (fazer venda a descoberto) nos títulos da dívida externa brasileira. É uma operação muito comum no mercado internacional de bônus soberanos, ou seja, de papéis de governos.

De forma resumida, a transação funciona da seguinte maneira: o investidor “aluga” os títulos da dívida externa de outro investidor, com o compromisso de devolvê-los em data pré-acertada. Em seguida, vende os títulos no mercado. Se o país quebrar, o preço dos títulos da dívida externa do governo despenca.

Assim, o investidor que alugou os papéis, e que espera a bancarrota, recompra os títulos no mercado por uma fração do que embolsou com a venda, e os devolve para quem os alugou, pagando ao dono dos papéis pequena taxa de juros. Essas operações contribuem para a queda dos papéis no mercado, pois fazem com que a oferta desses títulos aumente.
No caso do Brasil, tais transações são mais frequentes com os C-bonds, títulos da dívida externa mais negociados no mercado. Na sexta-feira, esses papéis fecharam cotados a US$ 0,50, isto é, a 50% de seu valor de face.

No final do mês passado, Soros disse, em entrevista à TV americana ABC, que, independentemente dos resultados da eleição para presidente, o Brasil deveria quebrar. “Será eleito um presidente que não é apreciado pelos mercados. As taxas de juros [risco-país” vão chegar a 25%. A essa altura, o Brasil estará falido”, afirmou. O presidente a que ele se referiu é Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT.

No final do mês passado, no encontro anual do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial, Soros podia ser encontrado sem dificuldade nos seminários sobre o Brasil.

Em um deles, em que o presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga, era palestrante, Soros levantou-se para fazer perguntas a Armínio sobre a situação do país. Armínio foi seu funcionário, como administrador de um de seus fundos especulativos.



O que está em jogo é mesmo a corrupção?


Por mais que sempre ouçamos falar que o petróleo mundial vai acabar, a verdade é que, desde 2008, com a crise do capitalismo, vemos a demanda caindo ao mesmo tempo em que a oferta tem aumentado.

Houve novas descobertas como o pré-sal (Brasil e Argélia), o petróleo não convencional Xisto (EUA) e Areia Betuminosa (Canadá), assim como um aumento da produção nos países da OPEP devido a uma maior estabilidade política depois da “Primavera Árabe”. (Vale ressaltar que estudos apontam a inviabilidade da exploração do Xisto em longo prazo).

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. O valor do barril que chegou a ser mais do que U$120 agora está U$66.

Apesar do raciocínio ser esse, não é fácil sua caracterização porque a derrubada dos preços não necessariamente é abaixo do custo de extração que assim como a dependência da economia dos países produtores de petróleo variam. Sendo assim, países como Arábia Saudita e Estados Unidos podem trabalhar com um preço inferior do que Rússia e Venezuela, por exemplo.

O preço de exploração divulgado pela Petrobrás é de U$14 (sem participações governamentais) e estima-se U$50 somando tudo, inclusive os investimentos para a descoberta. Portanto, a exploração, mesmo com a queda dos preços, continua viável. Porém os investimentos de U$141 milhões por dia e o conteúdo nacional, nem tanto. Os investimentos que planejam colocar o Brasil como quarto ou quinto maior produtor mundial de petróleo.

É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção. Denunciamos no ano passado a espionagem americana no Brasil e no México (não à toa, houve a quebra do monopólio mexicano de petróleo).

Se as empresas estrangeiras não certificarem o balanço da Petrobrás, esta não poderá mais negociar ações e terá muitas dificuldades para financiamentos. No ano que vem já estão previstos dois leilões de petróleo no Brasil, dos quais estão fazendo de tudo para que a Petrobras sequer possa participar. O jornal “O Globo” já questiona abertamente a lei de partilha que garante a participação e controle da Petrobrás no pré-sal.

Se não conseguiram vencer as eleições, não conseguiram entregar de vez o nosso petróleo para o EUA, vão tentar inviabilizar a Petrobrás tanto nos investimentos quanto em conseguir novas reservas de petróleo. Se o mercado quer nos estrangular será que não é a hora de fazer o inverso e tornar a Petrobrás 100% pública?!


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