domingo, 4 de janeiro de 2015

Mal na Foto: Segregação ou mero apoio político?

Na escolha do ministério, Dilma desperdiçou a chance de promover a construção de igualdade que promete no discurso.




Lá pelo 60º parágrafo da longa carta-compromisso apresentada como discurso de posse, Dilma Rousseff tratou de construção da igualdade. Afirmou que o Brasil tem como destino ser um país desenvolvido e justo, onde as pessoas tenham os mesmos direitos, “independentemente de raça, credo, gênero ou sexualidade”. A presidente foi precisa nas palavras, mas falhou na representação. Seu retrato oficial com os 39 titulares do primeiro escalão do governo é um desfile de homens brancos. Há seis mulheres, uma negra; ninguém assumidamente homossexual. As ministras de Direitos Humanos, Mulheres e Igualdade Racial, por menos importantes, foram agrupadas na última fila. Para a parede vai a velha imagem, desigual como sempre, do andar de cima da política brasileira. O segundo mandato, aquele de construir biografia, começou mal na foto.

A história de vida da presidente, que enfrentou a tortura por combater um regime de força, sugere ser verdadeiro seu compromisso com um Brasil democrático, de oportunidades para todos. Nada disso é visível na composição do governo. Homens brancos estão em 85% dos cargos top; na Câmara eleita em outubro passado, a proporção é de 72%, calculou o Laeser/UFRJ; entre os empregadores na PME/IBGE, são 48%. Interesses político-partidários predominaram na seleção dos ministeriáveis, em detrimento tanto da meritocracia quanto dos modelos de ação afirmativa.

A participação das mulheres minguou no segundo mandato, sem que o primeiro escalão sequer tenha diminuído de tamanho. Não faz sete meses, a presidente sancionou a Lei 12.990, que reserva para negros 20% dos postos de trabalho oferecidos em concursos públicos federais. Na composição da equipe, Dilma desperdiçou a chance de, espontaneamente, aplicar a legislação que ajudou a criar.

Se o fizesse, enviaria aos brasileiros pretos e pardos a mensagem de possibilidade de ascensão aos cargos máximos da nação. Foi o papel que ela própria encarnou em 2010 (e voltou a exaltar três dias atrás), quando tornou-se a primeira mulher presidente da República. Foi a posição que, solitariamente, Joaquim Barbosa desempenhou ao assumir uma cadeira (e, depois, a presidência) no Supremo Tribunal Federal. Atos simbólicos também ajudam a quebrar ciclos de perpetuação de papéis sociais.

Difícil acreditar que não exista no país um engenheiro negro de pensamento ortodoxo, currículo assemelhado ao de Joaquim Levy, para conduzir a Fazenda pelos caminhos do tripé macroeconômico que Dilma abraçou no discurso de posse. Ou que não haja uma brasileira doutora em economia por universidade americana, como Alexandre Tombini, para assumir o Banco Central. Ou uma médica capacitada em gestão e planejamento para, como Arthur Chioro, comandar o Ministério da Saúde. Certamente, o Brasil tem gays, negros e mulheres formados em Direito, com mandato em Câmara Municipal, cargo executivo em empresa pública e experiência em assessoria parlamentar para estar à frente dos Transportes, cargo de Antonio Carlos Rodrigues.

Dilma reconhece no discurso a necessidade de igualdade, mas nega protagonismo aos grupos que penam com a exclusão. Boas intenções constroem leis e políticas públicas. Tomara, elas venham. Mas representação subjetiva também desmonta modelos arcaicos de hierarquia.


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