segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Camarotização = Segregação Social ???

Por que o brasileiro gosta tanto de segregar o espaço?

O Brasil sempre foi avesso e segregado. Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids.


Camarotização. A gourmetização do espaço. A palavra ganhou força na última semana depois de aparecer no tema da redação do vestibular da USP, o mais concorrido do país, mas já faz tempo que o camarote faz sucesso ao prometer fazer do cidadão um ser diferenciado – para usar uma palavra cara ao público adepto.

De comícios políticos à farra do Carnaval, quem está no camarote não quer ser qualquer um. Em Salvador, no maior carnaval do mundo, participa quem paga - e caro- para ter direito a uma camiseta estampada com diversos logos dos patrocinadores. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, para ter acesso ao espaços exclusivos no Carnaval é preciso desembolsar até mais de 1.000 reais. A promessa é viver a festa rodeado de celebridades rodeadas de jornalistas. Os famosos mais trendy, porém, ficam em um cercadinho ao qual quase ninguém tem acesso. É a camarotização do camarote.

O Carnaval foi um start, mas não está sozinho no movimento de camarotização do país. Um dos lugares que lideram o ranking dos mais camarotizados do Brasil também está na Bahia: Trancoso. Há 20 anos era uma praia de pescadores, semideserta, só alcançada por aventureiros (inclusive os endinheirados tradicionais) e hippies. Agora, nas palavras da jornalista e consultora de moda Gloria Kalil, no Réveillon, virou uma espécie de “Cannes tropical”.

“Daqui a pouco, os moradores e antigos frequentadores só vão poder entrar no pedaço se estiverem com um vestido de marca, uma maquiagem de palco e um crachá que os autoriza a circular como no melhor estilo Festival de Cannes em dia de premiação final”, disse Kalil, em sua coluna.

A camarotização, neste caso na política - com seus cercadinhos em cerimônias oficiais e comemorações -, também horroriza Andrea Matarazzo (PSDB), vereador que carrega o sobrenome de uma família da alta sociedade paulistana. “Getúlio Vargas fazia sucesso porque andava no meio do povo”, conta ele. “O Lula, idem”, diz. “E eu adoraria ser o Lula”.

ACESSO E RENDA


Mas, afinal, de festas a eventos públicos, por que o Brasil gosta tanto de segregar o espaço? Para Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga e professora da Universidade de Oxford, a aversão à mistura é o resultado de anos de desigualdade social no país. "O que está por trás [da camarotização] é o desejo de distinção em uma sociedade colonizada como a nossa e marcada por uma grande estratificação social", diz.

"O Brasil sempre foi avesso e segregado. Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids", diz a antropóloga brasileira. Para ela, o acesso das camadas mais pobres da população ao que antes era exclusivo dos mais ricos potencializou a camarotização. "No Brasil pós-Lula, as pessoas das camadas mais populares estão acessando o que antes era exclusivo aos brancos de elite", conta. "Isso faz com que o racismo e a discriminação saiam do armário." Por outro lado, "é também um fenômeno de todas as classes. O cara mais rico de uma comunidade quer camarote também. Afinal, o modelo hegemônico de distinção é pervasivo, se espalha."

É nos aeroportos que esse desconforto com o acesso fica explícito, diz Pinheiro-Machado. Antes, andava de avião quem tinha muito dinheiro. Com a ascensão da classe média, os aeroportos estão mais cheios, e os mais ricos tiveram que se misturar aos mais pobres. As companhias aéreas logo correram para tentar reverter isso: "As companhias aéreas brasileiras, que nos últimos anos só tinham a classe econômica, agora voltam a ter acentos 'diferenciados', mais caros e com mais espaço", diz a professora. "O conforto, na verdade, é apenas uma desculpa apara agradar o passageiro rico que não quer ter o desprazer de sentar ao lado de sua empregada doméstica", explica. "É uma forma sutil de segregação."

A fuga dessa segregação no avião se reflete em um dado econômico do país: o Brasil está em segundo no ranking das maiores frotas de jatinhos e helicópteros particulares do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Para usar um termo popular nos camarotes - se é que podemos usar as palavras popular e camarote na mesma frase -, o que "agrega valor", além de camarotizar, é exibir o ato, com ou sem pau de selfie. Cesar Giobbi, colunista social há décadas, culpa as redes sociais pelo exibicionismo adotado pela elite. “A indiscrição surgiu com a comunicação exacerbada”, diz.

Para Giobbi, a camarotização é o primeiro indício de que o lugar está decadente. Primeiro, um lugar como Trancoso se populariza, então é preciso camarotizá-lo para não perder o elã diferenciador, mas aí ele já perdeu a graça para a primeira elite que o frequentava como exclusivo.

“Quando chega nesse auge, em que o absurdo passa a ser incorporado, o lugar perde a graça”, diz. “Sapato de salto Louboutin no Quadrado não precisa. Tudo tem lugar e hora”, conta. Em tempo: “Quadrado” é o apelido usado pelos habitués de Trancoso, os de antes da camarotização, porque o local foi habitado inicialmente em torno de um gramado quadrado.

Mas se há um movimento que camarotiza os lugares, também há o contrário a ele: a pipocação. No Carnaval, quando você está fora do cordão ou do camarote, você está 'na pipoca'.

E no embate camarotização x pipocação, às vezes os da pipoca parecem se divertir mais. Na corrida de São Silvestre, que ocorre há mais três décadas no último dia do ano em São Paulo, pode-se pagar pela inscrição – 135 reais – ou correr na pipoca. Os pró-segregação reclamam da “bagunça” e dizem: “paguei 135 reais e é essa zona”, irritados. Enquanto isso, a maioria – inscrita ou não – se diverte. Fantasiados, eles vão ao longo trajeto de 15 quilômetros desfrutando da sensação de correr na Avenida Paulista – e não é fugindo da polícia em alguma manifestação – e de se sentir parte da cidade.

Qual distância separa um camarote do público em geral? No sentido literal, alguns pares de metros. No figurado, pode ser um abismo. A reflexão se traduz num termo que vem se difundindo no Brasil e foi, há alguns dias, tema da redação do vestibular Fuvest 2015, o processo seletivo da Universidade de São Paulo: “camarotização”. Cunhado pelo prestigiado filósofo político americano Michael Sandel e traduzido do inglês skyboxification, o neologismo está associado à ideia de segregação, vista pelo autor na separação entre mais e menos abastados em estádios e outros espaços de eventos, mas também em diferentes lugares na sociedade. No caso brasileiro, pesquisadores destacam casos exemplares como as áreas especialmente reservadas para os chamados VIPs em boates, arenas esportivas, shows ou no carnaval. E associam o fenômeno a recentes tensões geradas pelo acesso de camadas mais populares a shoppings, bairros nobres e até mesmo a algumas praias.

— Há outros três termos ligados à ideia de “camarotização”: distinção, desigualdade e segregação. O impulso de distinção está associado a se apresentar ao mundo pelo consumo, de forma a se diferenciar. Já a desigualdade e a segregação, no Brasil, são ainda mais agudas — avalia Alexandre Barbosa Pereira professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo (USP).

O fenômeno é histórico no país, ressalva Pereira, citando clássicos literários que visitaram temáticas relacionadas, como “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda. No entanto, recentes avanços na distribuição de renda teriam agregado novos componentes aos conflitos entre classes.

— O acesso de pessoas mais pobres a aeroportos, shoppings ou bairros mais nobres através do metrô gera uma grita dos que antes tinham vantagens. Essas pessoas querem preservar certas coisas porque não as entendem como privilégios, mas como consequência de mérito ou de dom — opina, lembrando casos que tiveram grande repercussão como os chamados rolezinhos e o episódio em que um passageiro foi ironizado nas redes sociais por estar de bermuda num aeroporto. — Esse processo de segregação é a negação do outro, da convivência com ele. E, embora às vezes a violência seja pretexto para a segregação, a segregação muitas vezes é a causa da violência.


EDUCAÇÃO DIFERENCIADA

Para o antropólogo, outra amostra de efeitos nocivos da “camarotização” está nos resultados da avaliação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013, que, pela primeira vez, teve divulgadas notas por escola com estratificação nos níveis socioeconômicos. Análises mostraram que os colégios com melhores notas são os de faixa socioeconômica muito alta e alta, o que, para ele, indica que apartar crianças pobres e ricas em escolas resulta em uma má distribuição do ensino de qualidade.

A avaliação se aproxima da abordagem de Michael Sandel, cujo trabalho se propõe a refletir sobre qual o papel do dinheiro na sociedade. Professor de Harvard, ele é autor de palestras e textos em que afirma que a lógica de mercado da economia se reproduziu na sociedade, penetrando instâncias como saúde, educação e política. A mercantilização de tudo, teoriza, leva ricos e pobres a terem vidas cada vez mais separadas.

A “camarotização” representaria ameaça à democracia, uma vez que o regime, em suas palavras, “exige que os cidadãos compartilhem uma vida comum”. “O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes se encontrem e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e a respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum”, afirma, em trecho destacado pelo vestibular da USP.

Professora da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Rosana Pinheiro-Machado, cientista social e antropóloga, também condena o fenômeno que, para ela, “emburrece”.

— A “camarotização” é uma expressão máxima do que temos assistido no patético comportamento de nossas elites, que, na Europa, adoram pegar ônibus e, no Brasil, nunca entraram em um porque tem muito povão — critica. — Ao segregar, perde-se em diversos aspectos trazidos pela negação da alteridade. Ao nos confinarmos, emburrecemos. Achamos que estamos agradando, mas estamos nos tornando caricaturas do ridículo e da falta de imaginação.

A visão se distancia da interpretação de Everardo Rocha, antropólogo especializado em consumo. Professor da PUC-Rio, ele admite que o desaparecimento do convívio entre pessoas de classes sociais diferentes pode ser nocivo. No entanto, em determinados casos, diz ser inevitável.

— Acho que a separação das pessoas diante do dinheiro é inerente ao sistema capitalista — avalia. — O convívio pacífico entre diferenças é sempre uma coisa boa. A experiência humana se enriquece dessa forma. Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil tornar todos absolutamente iguais diante do capital.


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