terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As nomeações de Dilma

Sem poder consultar o Ministério Público, presidenta deixa seis pastas com o PMDB, uma a mais que no atual Governo.




Com a equipe econômica já definida e nas mãos de Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento), a presidenta Dilma Rousseff avançou na composição do gabinete do próximo Governo. Complexas negociações com o principal partido aliado do PT, o PMDB de seu vice Michel Temer, resultaram nesta terça-feira na indicação de seis ministros para a sigla e outros sete nomes para o gabinete.
Entre os escolhidos, está o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD) que ocupará o Ministério das Cidades. Kassab, uma escolha particularmente dolorosa para parte dos apoiadores à esquerda do PT, apoiou Dilma na disputa presidencial. Derrotado na campanha pelo Senado por São Paulo, esperava-se que fosse acomodado no alto escalão.
Ainda para retribuir apoiadores de sua reeleição, Dilma entregou a pasta de Educação ao Governador do Ceará, Cid Gomes, do PROS, o partido que ele criou com o irmão Ciro. Cid, mais próximo da presidenta desde que rompeu com o PSB, pretendia ocupar um cargo no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington, segundo o jornal Folha de S. Paulo.
No futuro Governo, o PMDB, chave para amenizar a atribulada relação de Dilma com o Congresso, passará a ocupar uma pasta a mais- hoje comanda cinco. O partido, formado por várias facções, já se rebelou contra Dilma no atual mandato e ameaça repetir a dose a partir de 2015, quando ela terá uma base aliada menor do que agora. Quando assumiu seu primeiro mandato, em 2011, Dilma tinha o apoio de 372 dos 513 deputados federais e de 60 dos 81 senadores. Agora seus coligados conseguiram 336 cadeiras na Câmara e 51 no Senado.
O PMDB manterá o estratégico ministério de Minas e Energia, que ficará com Eduardo Braga (AM), líder do Governo no Senado, e terá sob seu comando outros setores importantes de infraestrutura.
O advogado Eliseu Padilha (RS), que contava com o apoio majoritário da bancada do PMDB para ocupar uma cadeira na Esplanada, assumirá a Secretaria da Aviação Civil. Padilha já foi ministro de Transportes no Governo de Fernando Henrique Cardoso. O deputado federal por São Paulo Edinho Araújo, no décimo mandato, ocupará a Secretaria de Portos, com status de Ministério.
Ainda no bloco peemedebista está Helder Barbalho, que vai para o Ministério da Pesca, e a ruralista Kátia Abreu (TO), confirmada na Agricultura.
Helder Barbalho é filho do senador Jader Barbalho, um homem influente na bancada do PMDB. Kátia Abreu, outra nomeação indigesta para parte do PT e apoiadores de esquerda, é considerada da "cota pessoal" de Dilma, e não um nome do comando do partido.
Henrique Alves (PMDB-RN), parceiro do vice Temer e também respaldado pelo partido após encerrar seu mandado como presidente da Casa, não foi nomeado para o Ministério de Turismo como era cotado. O correligionário Vinicius Lajes manterá o cargo. O nome de Alves apareceu em uma lista de políticos beneficiados pelos supostos desvios de dinheiro da Petrobras e ele mesmo pediu para sair do elenco dos ministeriáveis, conforme nota divulgada pela assessoria do deputado.
Por conta das constantes revelações da Operação Lavo Jato que implicariam dezenas de políticos no esquema, Rousseff quis blindar seu gabinete e afirmou na segunda-feira que iria consultar com o Ministério Público Federal o possível envolvimento dos candidatos. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo revelou hoje, porém, que o procurador-geral da República Rodrigo Janot se negou a cooperar.

PC do B E RETAGUARDA PETISTA

O ministério de Ciência será assumido por Aldo Rebelo (PCdoB), ex-ministro de Esportes, pasta que ocupará George Hilton, do PRB. Na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial estará Nilma Lino Gomes, conhecida por ser a primeira reitora negra de universidade do Brasil. Valdir Simão substituirá Jorge Hage na Controladoria Geral da União.
Rousseff indicou o Governador petista da Bahia Jaques Wagner, considerado próximo da presidenta, para liderar o Ministério da Defesa, mas deixou em aberto o destino de outros colegas de partido ligados fortemente ao Planalto. No anúncio desta terça-feira não foi confirmado se o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, manterá o cargo, nem se o atual ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, se mudará, como se especulou, para a pasta das Comunicações, ministério chave se a presidenta decidir levar à frente projeto de regulação da mídia.
A composição completa da equipe de Governo, dificultada pelas revelações do escândalo da Petrobras, não será definitiva até 29 de dezembro, quando Rousseff voltar de suas férias na Bahia.

Ministros confirmados até hoje (23/12/2014)

Ministério de Fazenda: Joaquim Levy
Ministério de Planejamento: Nelson Barbosa
Ministério da Agricultura: Kátia Abreu (PMDB)
Ministério de Minas e Energia: Eduardo Braga (PMDB)
Ministério de Educação: Cid Gomes (PROS)
Secretaria de Aquicultura e Pesca: Helder Barbalho (PMDB)
Secretaria de Portos: Edinho Araújo (PMDB)
Secretaria de Aviação Civil: Eliseu Padilha (PMDB)
Ciência Tecnologia e Inovação: Aldo Rebelo (PCdoB)
Ministério de Esporte: George Hilton (PRB)
Ministério das Cidades: Gilberto Kassab (PSD)
Ministério da Defesa: Jacques Wagner (PT)
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: Nilma Lino Gomes
Controladoria Geral da União: Valdir Simão
Ministério de Turismo: Vinicius Lajes (PMDB)

Levy, o homem de 80 bilhões de reais

A escolha dos ministros da Fazenda é sempre esperada com muita ansiedade no Brasil. Mas no caso deste segundo mandato do Governo Dilma Rousseff, a espera estava se transformando em uma angústia tangível na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Um dia depois de confirmada a reeleição de Dilma Rousseff, no dia 26 de outubro, por exemplo, as ações da bolsa derreteram logo após a abertura. E o sobe e desce se manteve a cada nome lançado no mercado de apostas de quem assumiria. Pois o nome de Joaquim Levy, confirmado nesta quinta para suceder Guido Mantega, já mostrou que vale, pelo menos 80,7 bilhões de reais, pelas contas do jornalista Cláudio Gradilone, da revista IstoéDinheiro. “Esse é o aumento do valor de mercado de 306 empresas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo, um aumento de 3,46% em relação à quinta-feira 20 de novembro, último pregão antes da indicação de Levy”, escreveu Gradilone, nesta terça.
No caso de nove empresas estatais federais e estaduais - como Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras - a valorização é ainda mais expressiva. Nesse período, o valor de mercado dessas companhias aumentou 6,2%, um ganho de 22,6 bilhões de reais.
As credenciais do novo czar da economia valem ouro no momento que o manejo das contas públicas pede mais ortodoxia e menos “contabilidade criativa”, como ficaram conhecidas as manobras aplicadas sob a gestão de Guido Mantega para que a equação de receitas e despesas se adaptassem aos parâmetros aceitos pela lei de Responsabilidade Fiscal do Brasil. Formado em engenharia naval, e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, Levy já é conhecido do mercado, pela sua passagem como secretário do Tesouro dos anos Lula, e secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. Levy não chega a ser unanimidade, como mostrou uma carta de intelectuais nesta semana, que rejeitaram o seu nome, incluindo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos conselheiros de Lula para os assuntos econômicos.
Mas, o país e o mercado financeiro ainda estão ao sabor dos ventos. Na quarta, a Bovespa caiu novamente, demonstrando que a confiança em Levy pode ser plena por parte dos agentes financeiros, mas em Dilma, o apoio ainda é limitado. Com fama de intervencionista e centralizadora, a dúvida é se a presidenta deixaria o novo ministro da Fazenda trabalhar. “O novo ministro terá voz? Ainda não está claro”, disse ao EL PAÍS, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que não vê outra saída para o país se não colocar alguém com o perfil de Levy na condução da economia agora. Essa autonomia é fundamental, principalmente para que o país entre em sintonia com os investidores, uma vez que as oscilações terminam embaçando as lentes dos donos do dinheiro, que perdem o referencial de quanto vale a moeda, o que prejudica as decisões de investimentos.
Numa conversa em dezembro do ano passado, quando ainda estava como economista-chefe da gestora de investimentos Bradesco Asset Management, Joaquim Levy contou algumas impressões suas sobre o cenário brasileiro. Àquela altura, o Brasil havia acabado de conhecer o resultado do terceiro trimestre de 2013, que havia recuado 0,5% no período. “Quando a maré baixa um pouquinho, as coisas que não pareciam relevantes, ficam importantes. [O país tem] muita burocracia. Se você for legislando mais, complica mais. É preciso encontrar um balanço correto, entre riscos, e proteger direitos. Temos que estar sempre nos questionando, isso é um dos fatores para ter eficiência”, afirmou ao EL PAÍS.
Para ele, o grande segredo para continuar a crescer é fomentar a tranquilidade global. “Quanto menos surpresas, mais [o setor privado] consegue se fixar no seu negócio”, explicou. Mensagem esta que soa como música para os empresários, a ponta que falta estimular no Brasil, onde a demanda está garantida - com um vasto mercado consumidor que cresceu nos anos Lula - mas a oferta, não. A falta de crédito no Governo Dilma tem mantido o setor privado com o pé no freio, engavetando projetos.
Levy, porém, com a recente passagem pelo Bradesco está familiarizado com a linguagem corporativa, e pode ter a facilidade de passar as mensagens certas para o empresariado. Mas, como disse o ex-presidente Fernando Henrique, se a presidenta provar que é capaz de mudar a impressão geral de que não sabe delegar funções. O fato de Dilma ser economista seria um fator complicador. Quem convive com Levy, de qualquer forma, se impressiona com a sua cultura e seu nível de inteligência, o que deixa claro que o debate será de alto nível, uma vez que ele conhece também os pontos de resistência do setor privado melhor que seu antecessor. Mantega saiu direto da vida acadêmica para o ministério da Fazenda, onde ficou 8 anos, o mais longevo ministro da democracia brasileira.
Levy, segundo a Folha de S.Paulo, está deixando um salário da casa de milhão de reais anuais para um rendimento mensal de 26.723,16 reais. Seus proventos certamente subirão caso seja bem-sucedido na missão, assim como a popularidade de Dilma caso ele cumpra a expectativa inicial de que tem tudo para ser bem-sucedido.

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