domingo, 30 de novembro de 2014

Roberto Bolaños: Um gigante na América Latina

Roberto Gomez Bolaños não foi apenas um carismático humorista infantil. Ele foi um modificador de tendência dos produtos televisivos voltados para as crianças nos anos 80 e 90. Ele foi responsável pela co-educação de pelo menos três gerações no Brasil. Uma arte simples e marcante, que não permitirá a ousadia de qualquer tipo de plágio. Cada cena gravada tinha seu teor de requinte e mistério, com sua semântica própria que aliava ingenuidade e magia. Obrigado, Chaves!



O roteirista brasileiro Pablo Kaschner afirma que a América Latina e o Brasil perdem com a morte de Bolaños, um importante elemento de integração. Autor de dois livros sobre as personagens da série televisiva Chaves (El Chavo do Oito no México, onde foi criada), Kaschner diz que o humor e a crítica social presentes na obra do artista mexicano transcenderam línguas e fronteiras.

"Chaves é uma série de humor para todas as idades –dos menores aos mais adultos– por trabalhar com vários tipos de comédia, das palhaçadas aos jogos de palavras mais complicados e inteligentes, e que, além disso, transmite grandes valores, como o da amizade e o da solidariedade nos momentos mais difíceis", conta.

"Nenhuma família no bairro de Chaves é completa. Há a mãe e o filho, mas falta o pai. Há o pai e a filha, mas faz falta a mãe. E todos adotam seus vizinhos como parte de sua própria família, em uma realidade comum a vários países da América Latina. Começando pela personagem central, a criança órfã e pobre”, acrescenta Kaschner.

Chaves chegou à TV brasileira em 1984. Desde então, quase não deixou de ser transmitido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), junto das aventuras do Chapolin Colorado. Os episódios, que ainda hoje reúnem em frente à TV diferentes gerações do país, são dublados, e os próprios dubladores são objeto de grande estima por parte dos mais fãs, que costumam compartilhar informações nas redes sociais ou, inclusive, promover suas próprias reuniões.

Os bons índices de audiência fazem com que o SBT recorra com assiduidade aos programas de para incrementar a popularidade do canal em diversos horários. Costuma-se dizer que Chaves e Chapolin atuam como autênticos curingas na programação da emissora.

"Sem querer querendo, Chaves criou um fenômeno de integração latino-americana, unindo culturas diferentes e classes sociais diversas. Inclusive no Brasil, que não tem um grande histórico de exibições de conteúdos latinos em suas TVs", afirma Kaschner.

Um grande fã do trabalho de Chespirito desde criança, Kaschner, que se graduou em Rádio e TV, detalhou ao público brasileiro personagens e histórias de Chaves em dois livros, adotando os jogos de palavras famosos do artista mexicano para titular suas obras.

A primeira foi Chaves de um Sucesso, da editora Senac, e a segunda foi Seu Madruga: Vila e Obra, da editora Mirabolante.

Um jornalista peruano perguntou há 15 anos a Roberto Gómez Bolaños, o Chaves, se sabia que havia se tornado o comediante mais importante da América Latina “de todo o milênio”. O ator respondeu com confiança que sim, mas acrescentou: “Aqui no México não podemos dizer isso, é uma blasfêmia terrível! Ninguém é profeta em sua terra.”

De uma forma ou de outra, o nome de Chaves ficará marcado na história da televisão mexicana por tê-la conduzido à sua época de ouro. Diferentes culturas e países na América Latina sintonizavam seu programa para rir das mesmas piadas. No entanto, no México, seu país natal, deixou uma herança cultural que continua encontrando críticos e defensores.

Em 1984, o historiador Enrique Krauze afirmou que “detestava” seu estilo. “Faço um esforço desesperado para levantar meu filho da lona mental onde Chespirito (como o personagem é conhecido no México) o mantém de segunda a segunda”, disse. Ainda que com o passar dos anos Krause tenha mudado sua opinião sobre Gómez Bolaños, suas primeiras palavras refletiam muitas das críticas feitas ao ator e roteirista por banalizar e comédia e abusar da slapstick comedy(pastelão).

“Gómez Bolaños cresceu sob a influência da comédia cênica. Isso era o humor da época”, disse Álvaro Cueva, especialista em televisão mexicana. O próprio Chaves reconheceu seus professores em uma entrevista para La Jornada: “Me inspirei muito no Gordo e o Magro, que eram adoráveis e seu humor sensacional. E algo em Chaplin, um gênio, embora às vezes um pouco amargo”, disse. Cueva afirma que para poder revisitar sua obra de um ponto de vista crítico “é preciso entender o contexto em que trabalhava. Não é um comediante que teve todos os recursos disponíveis atualmente”, acrescenta.

Gómez Bolaños ficou órfão de pai aos seis anos. Na década de cinquenta, deixou seu trabalho em uma agência de publicidade quando viu uma oferta de emprego para roteirista de TV. Seus primeiros textos foram usados pela dupla de comédia Viruta e Capulina, em meados dos anos cinquenta.

O Canal 8 da Televisão Independente do México transmitiu o programa de Chaves pela primeira vez em 1971. O canal era concorrente do Telesistema Mexicano até a fusão de ambos em 1973, criando a Televisa, maior rede de televisão do México. “Chespirito é uma figura permanente da televisão mexicana. Uma criação da Televisa”, disse na tarde de sexta-feira Jacobo Zabludovsky, que comandou por quase 30 anos o jornal noturno do Canal 2.

A Televisa foi um dos pilares mais importantes do regime do PRI até a transição democrática de 2000. Também foi criticada devido à visão de seu criador, o magnata Emilio Azcárraga Milmo, que privilegiou o entretenimento das classes mais baixas em detrimento da difusão da cultura. Foram as telenovelas que encerraram a era Chaves na televisão depois de 25 anos de programa. “Foi uma decepção sair do ar sem terem me avisado. A empresa decidiu colocar apenas telenovelas nos melhores horários”, disse o comediante em 2008.

A relação entre a Televisa e Chaves é outro elemento usado contra o comediante, apesar de ter vazado publicamente sua simpatia pelos candidatos da direita do PAN. Em 2000, votou e apoiou Vicente Fox. Depois fez o mesmo com Felipe Calderón, em 2006 e Josefina Vázquez Mota em 2012. “Vargas Llosa disse que o PRI era a ditadura perfeita. Era mesmo. A expressão é afinadíssima”, disse Gómez Bolaños ao jornal El Comercio em 2008.

Cueva afirma que um dos elementos mais importantes de Gómez Bolaños foi sua visão para entender seu mercado em uma época onde a maioria das estrelas da televisão olhava para os Estados Unidos e para a Europa. Umas de suas primeiras viagens foi a El Salvador. “Foi um dos poucos talentos que entendeu a importância da união latino-americana. “Se esforçava para ir onde ninguém ia”, disse.“Gómez Bolaños era um rebelde em sua época”, afirma Cueva, acrescentando que sua forma de trabalho revitalizou as práticas usadas na empresa. “Gravava sem teleprompter porque sabia seus roteiros de cabeça e escrevia suas falas com uma semana de antecedência. Desafiou o sistema. Se colocava no mesmo patamar do Tigre (o apelido de Azcárraga Milmo, que comandava o Telesistema)”, disse.

Sua importância na região não é questionada. Foi o único convidado mexicano que o jogador argentino Diego Maradona recebeu em seu programa La Noche del 10. Uma das muitas lendas sobre Pablo Escobar, o chefe cartel de Medellín, conta que o traficante levou todo o elenco de Chaves à Fazenda Nápoles em 1984 para o aniversário de seu primogênito, algo que sempre foi negado pelo comediante. Na sexta-feira o Congresso peruano fez um minuto de silêncio em homenagem ao artista.

O legado de Roberto Gómez Bolaños para a cultura mexicana ainda é uma incógnita. Mas, por enquanto, não existe outra figura que fez o mesmo pela televisão do pais. “Perdemos um gênio, algo que não vamos ter por muito tempo”, afirma Cueva.


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