domingo, 23 de novembro de 2014

Petrobras mancha o Brasil

A companhia petroleira protagoniza o pior escândalo financeiro e político desde a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder.

O Brasil está enfrentando o que pode ser o pior escândalo financeiro e político desde a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder em 2003 com Lula como presidente. A rede de corrupção política e empresarial – com ramificações de financiamento ilegal do partido governista – tecida em torno da gigante estatal Petrobras ameaça apequenar o famoso mensalão, que há oito anos trouxe à tona um sistema de compra de votos no Congresso e – mais uma vez – financiamento ilegal do PT.














A Petrobras não é uma estatal comum. “A Petrobras é o Brasil e o Brasil é a Petrobras”, gostava de repetir Lula. Sua sucessora, Dilma Rousseff, agora precisa combater em duas difíceis frentes. Em primeiro lugar, como ministra de Minas e Energia do Governo Lula, Dilma ordenou que Petrobras tivesse fornecedores nacionais. Uma medida perfeitamente coerente com o ideário do PT e com o objetivo de criar empregos e ativar a indústria nacional. Mas teve o efeito – inesperado, até prova em contrário – de ser utilizada para engordar uma trama de favores, subornos e comissões ilegais que envolveu pelo menos nove das maiores empresas do Brasil e, até o momento, 85 altos executivos.
A segunda frente tem a ver com o fato de Dilma ser agora presidenta, reeleita nas eleições de outubro. As investigações apontam que as empresas investigadas doaram até 62% do orçamento de campanha dos candidatos locais que pediam votos para a presidenta.
Note-se que a trama não macula só o Governo. As empresas regaram generosamente com suas contribuições todas as forças em combate. E não só isso. Os principais partidos aparecem, segundo diversos testemunhos perante o juiz, como receptores de polpudas comissões. É como se um derramamento do óleo da Petrobras tivesse manchado o Brasil.

Petrobras promete “mais petróleo e mais transparência”

Em um momento “penoso e muito doloroso” para a companhia, a diretoria da Petrobras apresentou nesta tarde os resultados operacionais do terceiro trimestre da empresa estatal e anunciou a “urgente” criação de uma Diretoria de Governança que “melhore os filtros existentes” e previna futuros escândalos. A petrolífera está sendo atualmente investigada pela Polícia Federal pelo suposto desvio de três bilhões de dólares em uma rede de subornos, lavagem de dinheiro e financiamento irregular de partidos políticos que envolve dezenas de grandes empresas fornecedoras. A empresa justificou a decisão de adiar a publicação de seu balanço trimestral não auditado, tomada na semana passada, diante do impacto das confissões feitas à Justiça no dia 8 de outubro por seu ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, e o doleiro e especialista em lavagem de dinheiro Alberto Youssef, ambos presos.

Os máximos responsáveis da maior empresa do Brasil e da América Latina, cujas ações voltaram a cair mais 0,5% nesta segunda-feira depois da prisão de uma vintena de diretores de grandes empresas na última sexta-feira em uma nova fase da Operação Lava Jato, afirmaram sua plena colaboração com a polícia e os órgãos de controle do país “pelo bem da Petrobras e do Brasil” e afirmaram que excluirão de futuras licitações as empreiteiras e empresas de engenharia com participação comprovada em subornos (como aconteceu há poucas semanas com a empresa holandesa SBM Offshore). “Estamos correndo contra o tempo”, declarou a presidenta da empresa, Graça Foster, “para fazer desse momento tão difícil uma empresa melhor”, alinhada com as declarações feitas no fim de semana na Austrália pela presidenta (e ex-presidenta do Conselho de Administração da Petrobras) Dilma Rousseff, que afirmou que o escândalo “poderia mudar o país para sempre”.
A Petrobras divulgou nesta segunda-feira a sua produção de outubro, atingindo o recorde histórico de quase 2,13 milhões de barris diários, mas admitiu que a sua produção neste ano deve ficar apenas entre 5,5% e 6% acima do resultado de 2013 – ou seja, abaixo da meta de expansão para 2014, que é de 6,5% a 8,5%.
Pressionada por jornalistas sobre por que a Petrobras não rompe relações com as empresas brasileiras investigadas pela polícia – ou seja, por que não adota o mesmo rigor com que lidou com a holandesa SBM, excluída de futuras licitações até que seja revelado o nome dos funcionários subornados –, Foster se limitou a admitir que desconhece os processos “com exatidão”. José Formigli, diretor de Produção e Exploração da companhia, prometeu que todas as empresas comprovadamente responsáveis por irregularidades receberão o mesmo tratamento. “Nossas relações futuras vão depender das investigações”, afirmou. Foster disse que o Governo brasileiro continua valorizando a política do “Compre Nacional” (que obriga à contratação majoritária de empresas e pessoal brasileiro em seus projetos), instaurada por Dilma Rousseff na época em que foi ministra da Energia, em 2003, e que está na origem da trama de corrupção investigada.
“Temos o privilégio de ter recebido muitos prêmios técnicos, mas também queremos que nossos processos sejam respeitados. Isso é extremamente importante neste momento”, salientou Foster. “Temos resultados operacionais excepcionais, não somos uma empresa imobilizada”, declarou a presidenta da Petrobras, que assumiu esse cargo em 2012 e disse só ter sido informada sobre as suspeitas de corrupção quando a Operação Lava Jato teve início, em março deste ano.
Com relação ao adiamento na publicação do balanço trimestral (que não recebeu o aval da consultoria PwC), o diretor financeiro da empresa, Almir Barbassa, esclareceu que, se novas revelações derivadas da investigação policial indicarem a necessidade de alterar novamente a data para a divulgação (agora marcada para 12 de dezembro), a Petrobras não teria problema em “se ajustar”. Mas ele rejeitou os rumores de que o atraso estaria ligado a uma impossibilidade temporária de acessar a mercados de dívida, e que isso estaria afetando o funcionamento da maior empresa brasileira. “Trabalhamos com altos níveis de caixa […] Podemos operar durante seis meses ou mais sem acessar novas dívidas”. Barbassa enfatizou que a empresa não publicará balanços “incompletos”, e disse que hipotéticas revelações futuras como parte da Operação Lava Jato poderiam resultar em novos atrasos.

Entenda o caso de corrupção na Petrobras




Em março de 2014, os policiais federais fizeram uma série de prisões contra suspeitos de atuar no mercado clandestino de câmbio com origem em corrupção e desvios de recursos públicos. Entre os 12 detidos na operação Lava Jato, estavam o ex-diretor de abastecimento da Petrobras, o engenheiro Paulo Roberto Costa, e o doleiro Alberto Youssef.

PT, PP e PMDB, partidos aliados ao Governo de Lula e de Dilma Rousseff indicavam os diretores da Petrobras. Entre eles, estavam Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Nestor Cerveró (Internacional), Renato Duque (Serviços) e outros que passaram pelas diretorias de Exploração e Gás. Segundo as investigações, Costa, Cerveró e Duque recebiam propinas de 1% a 3% do valor de cada contrato de novas obras firmado com a Petrobras. Parte desse dinheiro ilegal era repassado aos partidos envolvidos no esquema. Havia alguns intermediadores, como Youssef.

De acordo com as apurações baseadas no depoimento de Youssef, a refinaria de Abreu e Lima, no Pernambuco, custou 3,48 bilhões de reais. Foram pagos 68 milhões de reais em propinas, metade para o PT e metade para o PP. 14 empresas são suspeitas de participarem do esquema. A suspeita é que tenha sido desviado até 10 bilhões de reais.

Ambos se valeram do instrumento da delação premiada, quando ao passar informações relevantes aos investigadores, podem ter a pena reduzida. Os advogados de Costa disseram que ele decidiu colaborar depois que notou que sua pena poderia ser superior ao do operador do mensalão, Marcos Valério, que pegou 40 anos de prisão.

A Petrobras diz que está colaborando com as investigações. O PT disse que todas as doações ao partido foram legais e que vai acionar os advogados do partido para tomarem as medidas judiciais cabíveis. As empresas suspeitas disseram que desconhecem as irregularidades, assim como o PMDB e o PP.

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