quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Se não chover, Sabesp vai tirar água de lodo

O presidente da ANA (Agência Nacional de Águas), Vicente Andreu, afirmou nesta terça-feira (21) que se não chover a média nos próximos meses a Sabesp vai tirar água do "lodo" para abastecer a cidade de São Paulo.

De acordo com ele, por causa do agravamento da crise hídrica a Sabesp quer usar uma segunda cota do volume morto. A medida seria, segundo Andreu, uma "pré-tragédia".
"Eles querem tirar o segundo volume morto, ou seja a pré-tragédia. Eu costumo dizer assim: É como se cidadão fosse para o cheque especial e não avisasse a família que está com problema. Sem alternativa, ele quebra o cofrinho da filha, mas mantém a mesma condição financeira", afirmou.

Em uma audiência na Assembleia Legislativa promovida pela bancada do PT na casa, Andreu disse ainda que a parcela da segunda cota do volume morto garantirá água até meados março de 2015. O presidente da ANA, disse ainda que se essa nova reserva técnica acabar não seria possível retirar uma terceira cota.

"Eu acredito que tecnicamente será inviável. Do ponto de vista ambiental, essa água terá problema. Se a crise se acentuar é bom que a população saiba que não haverá alternativa a não ser ir no lodo [captar água] ", afirmou Andreu. No total, estão disponíveis abaixo dos canos de captação da Sabesp 510,9 bilhões de litros de água – o que corresponde a três parcelas do volume morto.

QUEBRA DE CONFIANÇA

De acordo com o presidente da ANA, houve uma "quebra de confiança" entre a agência e o governo do Estado. Andreu disse que as alternativas apresentadas desde o começo da crise hídrica, em meados de fevereiro, não foram ouvidas e que nenhuma decisão em conjunto foi tomada após junho.

"O que nós temos é uma quebra de confiança porque o secretário do Estado [Mauro Arce] assume um compromisso, faz um acordo, você espera o tempo passar e no momento de cumprir aquela obrigação ele diz que o acordo não foi assumido. Não tem sentido negociar com alguém que não cumpre seus compromissos, o que é o caso do secretário Mauro Arce", disse.

Por conta de desentendimentos entre a ANA e o governo do Estado, a agência decidiu sair do grupo de gerenciamento da crise do Cantareira, que havia sido montado para buscar alternativas para solucionar o problema hídrico.

Para Andreu, as medidas paliativas deveriam ser tomadas enquanto havia água nos reservatórios. A solução para ele deveria ser o de controlar desde o começo da crise a vazão conforme a entrada de águas no sistema, o que não foi feito.

"Agora, a quantidade de água que nós temos nos reservatórios é tão pequena que qualquer problema que a gente venha a ter no futuro, a Sabesp não terá controle sobre o sistema de distribuição de água. Portanto, as medidas restritivas tem que ser feitas quando você tem condição de atuar e não quando você perde o controle absoluto", disse.
De acordo com o presidente da ANA, não há alternativa a não ser reduzir o consumo do sistema. O governo do Estado tem como alternativa a captação de água do sistema São Lourenço, mas a obra, segundo Andreu, só entregaria água à região da Grande São Paulo dentro de dois anos, o que é muito tempo para solucionar a crise.

O presidente da ANA também criticou a retirada de água do segundo volume morto do sistema, mesmo antes da autorização da agência.

"Constatamos em uma vistoria que o volume do Atibainha [represa] estava centímetros mais baixo na régua. No dia seguinte eles retiraram a régua e os técnicos não conseguiram fazer a medição", afirmou.

O sistema Cantareira opera nesta terça com 3,3% de sua capacidade, de acordo com dados da Sabesp. Procurada nesta tarde, a Sabesp ainda não se manifestou sobre o assunto.

ELEIÇÃO

O presidente da ANA também rebateu as críticas do candidato à presidência pelo PSDB Aécio Neves, que atribuiu o agravamento da crise da água em São Paulo à ausência de apoio do governo federal ao Estado de São Paulo.

"Agência Nacional de Águas (ANA), criada no governo Fernando Henrique Cardoso, se não tivesse no governo do PT servido a outros fins. Nós nos lembramos bem quais foram as indicações, os critérios para se ocupar cargo de diretoria da ANA. Ela poderia ter sido uma parceira maior do governador [Alckmin]", disse Neves em visita à Serra da Piedade, em Caeté (MG).

Andreu rebateu as declarações. "Todas essas insinuações que ele [Aécio] faz neste momento, no nosso ponto de vista, pouco ajudam para que a gente possa encontrar um consenso necessário para solucionar a crise", disse o presidente da ANA.



10 mitos sobre a crise hídrica

Gostaria de desmistificar alguns pontos sobre a crise hídrica em SP, assunto que tangencia minhas pesquisas acadêmicas.

1- “Não choveu e por isso está faltando água”. Essa conclusão é cientificamente problemática. Existem períodos chuvosos e de estiagem, descritos estatisticamente. É natural que isso ocorra. A base de dados de São Paulo possibilita análises precisas desde o século XIX e projeções anteriores a partir de cálculos matemáticos. Um sistema de abastecimento eficiente precisa ser projetado seguindo essas previsões (ex: estiagens que ocorram a cada cem anos).

2- “É por causa do aquecimento global”. Existem poucos estudos verdadeiramente confiáveis em São Paulo. De qualquer forma, o problema aqui parece ser de escala de grandeza. A não ser que estejamos realmente vivendo uma catástrofe global repentina (que não parece ser o caso esse ano), a mudança nos padrões de chuva não atingem porcentagens tão grandes capazes de secar vários reservatórios de um ano para o outro. Mais estudadas são as mudanças climáticas locais por causa de ocupação urbana desordenada. Isso é concreto e pode trazer mudanças radicais. Aqui o problema é outro: as represas do sistema Cantareira estão longe demais do núcleo urbano adensado de SP para sentir efeitos como de ilha de calor. A escala do território é muito maior.

3- “Não choveu nas Represas”. Isso é uma simplificação grosseira. O volume do reservatório depende de vários fluxos, incluindo a chuva sobre o espelho d’água das represas. A chuva em regiões de cabeceira, por exemplo, pode recarregar o lençol freático e assim aumentar o volume de água dos rios. O processo é muito mais complexo.

4- “As próximas chuvas farão que o sistema volte ao normal”. Isso já é mais difícil de prever, mas tudo indica que a recuperação pode levar décadas. Como sabemos, quando o fundo do lago fica exposto (e seco), ele se torna permeável. Assim a água que voltar atingir esses lugares percola (infiltra) para o lençol freático, antes de criar uma camada impermeável. Se eu fosse usar minha intuição e conhecimento, diria que São Paulo tem duas opções a curto-médio prazo: (a) usar fontes alternativas de abastecimento antes que possa voltar a contar com as represas; (b) ter uma redução drástica em sua economia para que haja diminuição de consumo (há relação direta entre movimento econômico e consumo de água).

5- “Não existe outras fontes de abastecimento que não as represas atuais”. Essa afirmação é duplamente mentirosa. Primeiro porque sempre se pode construir represas em lugares mais e mais distantes (sobretudo em um país com esse recurso abundante como o Brasil) e transportar a água por bombeamento. O problema parece ser de ordem econômica já como o custo da água bombeada de longe sairia muito caro. Outra mentira é que não podemos usar água subterrânea. Não consigo entender o impedimento técnico disso. O Estado de São Paulo tem ampla reserva de água subterrânea (como o chamado aquífero Guarani), de onde é possível tirar água, sobretudo em momentos de crise. Novamente, o problema é custo de trazer essa água de longe que afetaria os lucros da Sabesp.

6- “O aquífero Guaraní é um reservatório subterrâneo”. A ideia de que o aquífero é um bolsão d’água, como um vazio preenchido pelo líquido, é ridiculamente equivocada. Não existe bolsão, em nenhum lugar no mundo. O aquífero é simplesmente água subterrânea diluída no solo. O aquífero Guaraní, nem é mesmo um só, mas descontínuo. Como uma camada profunda do lençol freático. Em todo caso, países como a Holanda acham o uso dessas águas tão bom que parte da produção superficial (reservatórios etc) é reinserida no solo e retirada novamente (!). Isso porque as propriedades químicas do líquido são, potencialmente, excelentes.

7- “Precisamos economizar água”. Outra simplificação. Os grandes consumidores (indústrias ou grandes estabelecimentos, por exemplo) e a perda de água por falta de manutenção do sistema representam os maiores gastos. Infelizmente os números oficiais parecem camuflados. A seguinte conta nunca fecha: consumo total = esgoto total + perda + água gasta em irrigação. Estima-se que as perdas estejam entre 30% e 40%. Ou seja, essa quantidade vaza na tubulação antes de atingir os consumidores. Água tratada e perdida. Para usar novamente o exemplo Holandês (que estudei), lá essas perdas são virtualmente 0%. Os índices elevados não são normais e são resultados de décadas de maximização de lucros da Sabesp ao custo de uma manutenção precária da rede.

8- “Não há racionamento”. O governo está fazendo a mídia e a população de boba. Em lugares pobres o racionamento já acontece há meses, dia sim, dia não (ou mesmo todo dia). É interessante notar que, historicamente, as populações pobres são as que sempre sentem mais esses efeitos (cito, por exemplo, as constantes interrupções no fornecimento de água no começo do século XX nos bairros operários das várzeas, como o Pari). A história se repete.

9- “É necessário implantar o racionamento”. Essa afirmação é bem perigosa porque coloca vidas em risco. Já como praticamente todas as construções na cidade têm grandes caixas d’água, o racionamento apenas ataca o problema das perdas da rede (vazamentos). É tudo que a Sabesp quer: em momentos de crise fazer racionamento e reduzir as perdas; sem diminuição de consumo, sem aumentar o controle de vazamentos. O custo disso? A saúde pública. A mesma trinca por onde a água vaza, se não houver pressão dentro do cano, se transformará em um ponto de entrada de poluentes do lençol freático nojento da cidade. Estaremos bebendo, sem saber água poluída, porque a poluição entrou pela rede urbana. Por isso que agências de saúde internacionais exigem pressão mínima dentro dos canos de abastecimento.

10- “Precisamos confiar na Sabesp nesse momento”. A Sabesp é gerida para maximizar lucros dos acionistas. Não está preocupada, em essência, em entregar um serviço de qualidade (exemplos são vários: a negligência no saneamento que polui o Rio Tietê, o uso de tecnologia obsoleta de tratamento de água com doses cavalares de cloro e, além, da crise no abastecimento decorrente dos pequenos investimentos no aumento do sistema de captação). A Sabesp é apenas herdeira de um sistema que já teve várias outras concessionárias: Cantareira Águas e Esgotos, RAE, SAEC etc. A empresa tem hoje uma concessão de abastecimento e saneamento. Acredito que é o momento de discutir a cassação dessa outorga, uma vez que as obrigações não foram cumpridas. Além, é claro, de uma nova administração no Governo do Estado, ao menos preocupada em entregar serviços público e não lucros para meia dúzia apenas.

Enfim, se eu pudesse resumir minhas conclusões: a crise no abastecimento não é natural, mas sim resultado de uma gestão voltada para a maximização de lucros da concessionária e de um Governo incompetente. Simples assim, ou talvez, infelizmente, nem tanto.


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