quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Para onde irá o ódio na segunda-feira?

Me pergunto com que estado de espírito acordará metade do eleitorado brasileiro na manhã do dia 27 de outubro.
Como as dezenas de milhões de derrotados nas urnas vão encarar a segundona brava, no trabalho ou nas ruas, as gozações, os gritos de "chuuuupa ("petralha" ou "coxinha", dependendo do que acontecer)".
O ódio político crescente dos últimos meses tornou o diálogo cada vez mais difícil. Um lado não escuta o outro, estão impermeáveis a argumentos e não são raros casos em que a violência verbal descamba para a física.
O que sentirão os que não elegerem o próximo presidente?
Será que explodirão em ira com a certeza de que o país galopa para o bolivarianismo, condenado à estagnação econômica, refém de um grupo há 12 anos no poder?
Ou prevalecerá a turma que acha que o Brasil jogará para o ralo as conquistas sociais e embarcará em um delírio fascista, despejando hordas de menores no sistema prisional e, quem sabe, até sonhando com a volta da escravatura?
Será que o ódio continuará a crescer, descambando para pequenas guerras urbanas?
Motoristas plantarão coxinhas explosivas recheadas de tachinhas nas ciclovias, gerando reação: guerrilheiros bike blocs, especialistas em depredar qualquer veículo com mais de duas rodas?
Ou talvez, passada a dor de cabeça inicial, seja possível enxergar que PT ou PSDB não vão fazer governos tão diferentes como gostamos de pensar?
Não vão acabar com o Bolsa Família ou ousar políticas econômicas diametralmente opostas. Mas também não devem avançar radicalmente em temas que poderiam fazer a diferença, como a reforma política, da previdência, o combate à corrupção e a possibilidade de uma nova matriz energética.
O novo governo, seja azul ou vermelho, e independentemente das promessas que fez, já nascerá engessado por alianças com políticos e partidos – legitima e democraticamente eleitos, diga-se - sem cores definidas, mutantes.
Enquanto se gastou tanta energia com demonizações, foi perdida uma enorme oportunidade de se tentar diminuir a influência no poder de quem realmente representa o atraso social. De discutir as coisas como elas são para eventualmente mudar o jogo.
Eu sei que é gostoso eleger um vilão e descarregar nele nossas frustrações com toda a força.
Deixa a alma levinha. Mas, para isso, existe videogame. Na política, isso não ajuda muito.
Seria tão bom ver petistas e tucanos apontando o dedo para seus próprios partidos, cobrando-os por suas contradições e malfeitos, em vez de defendê-los cegamente - como se alguma organização política merecesse tal defesa.
Apoiar PT ou PSDB por sentir ódio do outro apenas dá mais liberdade para que o seu "time" faça o que não deve ou o que não pode.
Minha impressão é de que, no futuro, essa selvageria atual será lamentada.
Talvez, se as cabeças de hoje, quentes e desidratadas, esfriarem e avançarmos de alguma forma nos próximos anos, a análise que se fará desse período seja generosa e o entenda como necessário, dores do crescimento, antes da maturidade.
Aposto nisso. Que nosso espírito do "deixa-disso" nos faça perceber que não está com nada, não é produtivo ou divertido nutrir tanta raiva.


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