domingo, 31 de agosto de 2014

Uma candidata em metamorfose: evolução ou incoerência de Marina?

Adversários apontam falta de lógica nas transformações. Aliados a defendem.

Candidata que tenta ganhar a confiança do mercado financeiro, Marina Silva começou sua trajetória como militante de ala dissidente do partido comunista, nos anos 1980. Hoje, a ex-senadora se reúne com banqueiros e ruralistas para discutir seus projetos para o país. As “metamorfoses” de Marina em diversos setores são encaradas por pessoas que a conheceram nos tempos de liderança seringueira no Acre como uma evolução natural de alguém aberto a novas experiências. Adversários, no entanto, falam em incoerência.



Para o cientista político da UNB José Luciano Dias, é natural os políticos mudarem de posição. Segundo ele, Marina faz agora exatamente o que Lula fez, em 2002, ao se apresentar de forma menos radical.

— É natural que, a medida que você evolua para uma posição de maior relevância, passe a transigir mais e abandone posições mais radicais. Posições radicais servem para colocar o tema na agenda. A política, por definição, é oportunista. O objetivo é chegar ao poder. Se você fica restrito ao radicalismo, fica restrito a ocupar aquele espaço restrito sempre — afirma.

A primeira mudança na trajetória de Marina foi pelas mãos do então bispo de Rio Branco, dom Moacyr Grecchi, quando ela passou de aspirante a freira a ativista nas Comunidades Eclesiais de Base. Em seguida, veio o encontro com o ambientalista Chico Mendes, seu mentor político, que a levou para o papel de líder sindical rural e para o combate ao lado dos seringueiros.

Analfabeta até os 16 anos, Marina ingressou na faculdade de História , onde flertou com a corrente “Caminhando”, uma tendência do PCdoB. Filiou-se ao PT em 1985 para concorrer com o objetivo de ajudar a eleger Chico Mendes.

Hoje, Marina tem ao seu lado figuras que sempre foram vistas como adversários da esquerda, como a herdeira do Itaú, Neca Setúbal, e o ex-deputado tucano Walter Feldman.

De sua saída do PT, em 2008, até a filiação ao PSB, no ano passado, Marina teve intervalos “apartidários” e uma passagem pelo PV, pelo qual se candidatou à Presidência em 2010.

MUDANÇA DE OPINIÃO SOBRE TRANSGÊNICOS E SÃO FRANCISCO

Na questão dos transgênicos, Marina era radicalmente contra como senadora. Como ministra, passou a defender que o plantio comercial só fosse autorizado mediante licenciamento ambiental. Ao longo de sua gestão, o governo deu autorizações por medida provisória, e Marina aderiu à tese de que era melhor a coexistência de safras com e sem transgênicos.



Inicialmente desfavorável ao projeto de transposição do Rio São Francisco, ela se deixou convencer pelo então presidente da Agência Nacional de Águas, Jerson Kelman.

Sua relação com Eduardo Campos também foi marcada por altos e baixos. Eles divergiram sobre a Lei de Biossegurança, que liberou os transgênicos, e pesquisas com células tronco. Mas em relação à política de mudanças climáticas, foram aliados. A aproximação entre os dois se intensificou com a ajuda que o pernambucano deu para a criação da Rede.

Binho Marques, ex-governador do Acre, amigo de Marina desde a universidade, diz que ela sempre teve posições mais moderadas:

— Ela nunca foi intransigente, é uma pessoa que escuta, como o Chico Mendes, que convivia bem com as diferenças. Se relacionava com ambientalistas europeus, comunistas e com o Banco Mundial.

Marina chegou a acenar para o agronegócio, mas, para um dos principais líderes da bancada ruralista no Congresso, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), terá de ser mais clara sobre suas posições quanto ao setor. Ele disse que a candidata apoiou Ações Diretas de Inconstitucionalidade contra o novo Código Florestal e quer saber se ela manterá essa posição se for eleita:

— Temos que saber qual é realmente o pensamento dela. Vai aceitar o Código Florestal aprovado? Vai tirar conquistas do setor? Ela tem que ser bem clara, está faltando objetividade. Dizer que vai manter o que está em lei é muito genérico.

Desculpe, Morena Marina, mas eu estou de mal. De mal com você.

Devidamente tendo o apoio de Deus que derrubou o avião de Eduardo Campos e lançou a sua candidatura, como a mesma já disse com outras palavras, Marina lança seu programa econômico. Vamos a ele porque isso não é brincadeira e afeta a todos nós:

A) Marina pretende dar autonomia ao Banco Central e, certamente, não é por acaso que os banqueiros estão apoiando sua campanha. O que o Banco Central faz? Há de se entender para entrar na discussão. Não é complicado: Ele é responsável pelo sistema financeiro de um país.Emite a moeda e fixa a taxa de juros básica, que serve de parâmetro para todas as demais taxas de juro do mercado, como a do seu cartão de crédito. Atua no mercado de câmbio, sendo o principal responsável, em última instância, pela cotação do dólar e do euro, por exemplo. O BC ainda coordena os depósitos compulsórios, mecanismo que garante que o dinheiro de todas as contas e investimentos do País "exista de verdade". Em alguns casos, o Banco Central também empresta dinheiro a bancos em dificuldades, buscando evitar que o país entre em crise. Muito bem. Isso posto, Marina, dentre os candidatos, é que tem a posição mais firme no sentido de deixar o mercado se autorregular. Tudo bem que a posição da candidata difere da que ela defendeu no pleito de 2010, quando disputou o Planalto pelo PV. Isso não vem ao caso já que o plano de governo dela, como já estão dizendo, é escrito á lápis para facilitar as mudanças. Continuemos. A independência do BC impede que o Executivo interfira nas decisões do BC. Seria uma forma de manter a entidade mais preservada de pressões políticas. Porém, quem tem de definir a política econômica do País, que tem forte impacto no dia a dia da população, não deveria ser um governo eleito? Deixar isso nas mãos de técnicos financeiros cheira bem a alguém aí? Fala sério!

Se observarmos bem, veremos que os banqueiros, que antes elogiavam o governo, passaram a hostilizá-lo e a promover campanha com o objetivo de desqualificar a atual presidente e seu governo quanto à capacidade de manter a inflação e o gasto público sob controle. Por que será? Será que tem algo a ver com o fato de nos governos do PT o dinheiro de origem trabalhista (FAT, FGTS e alguns Fundos de Pensão de estatais), com baixa intermediação do sistema financeiro privado, ter sido utilizado para fornecer crédito barato, gerar emprego e renda? Perguntando de outra forma, será que tem a ver com o fato de em lugar de ir para a especulação, com ganhos astronômicos dos rentistas, esse dinheiro ter sido usado para um investimento produtivo? Ou será que tem a ver com a criação do Banco do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que poderá ser utilizado, com custo mais baixo, por seus sócios, o que, como todos acompanhamos nos jornais, não agradou aos banqueiros brasileiros? Será???

B) Redução das prioridades de investimento da Petrobrás no pré-sal. Ora, a Petrobras é a empresa com maior conhecimento na exploração de óleo em águas profundas. Diminuir os investimentos não seria uma boa estratégia, pois o país perderia essa liderança tecnológica. Além disso, como disse Nivaldi de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, isso seria uma decisão estratégica que alteraria substancialmente a capacidade de investimentos do país em duas áreas fundamentais para o Brasil entrar numa rota de desenvolvimento social, a Educação e a Saúde já que, acrescento eu, 75% dos royalties e 50% do fundo social pré-sal estão sendo destinados à Educação. Como bem colocou Renato Rovai,o governo atual estimou que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo. Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas que o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.É um jogo absolutamente obscuro que está por trás dessa decisão. Tem sido em nome de "uma causa em tese ecológica", o discurso de entregar nossas reservas a abrir mão de um determinado futuro.

C) Outra diretriz do programa — a proposta de tirar o foco do Mercosul por meio da busca de acordos bilaterais fora do bloco econômico regional — foi bem recebida por dirigentes do setor de comércio exterior. Opa! Por que? Em vez do fortalecimento do Mercosul, o programa da candidata, que " quer fazer a nova política," prega o fortalecimento das relações bilaterais com os Estados Unidos e União Européia. Eu não entendo bulhufas de economia, mas baixar o perfil do Mercosul e estabelecer acordos bilaterais aponta para uma reinserção distinta do Brasil no marco internacional. Entendo também que mexer dessa forma com o Mercosul é limitar as atuais opções preferenciais do governo atual, como alternativa aos Tratados de Livre Comércio com os EUA. Dito de outra forma, podemos retroceder e assistir a um aumento da desnacionalização da economia latino-americana. No mais, veja que confuso: ao contrapor acordos bilaterais ao Mercosul, a posição é contraditória, porque os acordos do Mercosul impedem esses acordos. Como se pode imaginar que a visão é dirigir acordos com os EUA, a contradição é maior ainda e eu fico sem entender como isso pode ser pensado.

Vou parar por aqui porque fiquei cansada e para não cansar quem me lê também. Mas vale dizer que ainda faltou falar sobre dois pontos importantes: 

(1) sobre as políticas fiscais e monetárias que serão instrumentos de controle de inflação de curto prazo que tem tudo, ao meu ver, para aumentar as taxas de desemprego; e; 

(2) sobre essa tal de diminuição de normas para o setor produtivo que nada tem a ver com diminuição de carga tributária e burocracia para as empresas e sim de reduzir encargos trabalhistas com a supressão de direitos que facilitem as demissões.

Fica para a próxima.

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