segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mussum e o País ingênuo que não existe mais (Por Thiago Muniz)

Vinte anos após a morte do humorista, a sua imagem é hoje usada por quem se ressente por não poder esculachar minorias sem provocar ofensas.

Quem acompanhou as homenagens ao humorista Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, morto há exatos 20 anos, imagina que o Brasil era um lugar puro, ingênuo e agradável no tempo dos Trapalhões. Não havia maldade, não havia patrulha, não havia preconceito. Tal qual Adão e Eva no Paraíso, toda a maldade estava nos olhos de seus criadores, os chatos que inventaram de inventar o pecado e a escuridão e transformaram brincadeira em ofensa e alegria, em constrangimento.

Por algum motivo, o histórico dos Trapalhões se tornou exemplo de como era possível viver em harmonia, sem patrulhas nem amarras politicamente incorretas, até bem pouco tempo atrás. A perda dessa “inocência” é lamentada por quem vê no Mussum, um ator e músico de talento incomparável, o símbolo de um período permissivo, libertário e saudável. Um tempo em que o da poltrona podia ver um negro alcoólatra sacaneando um cearense cabeça chata, que sacaneava o travesti desbocado, que sacaneava o negro banguela.


É sempre delicado analisar, de forma isenta, o que formou e faz parte da nossa memória afetiva. Os Trapalhões são parte dessa memória, pelo menos da minha, que passei boa parte da vida chegando em casa ansioso depois dos passeios de domingo para assistir ao programa da TV Globo. Até hoje me pego rindo à toa das esquetes, algumas disponíveis no YouTube graças às almas mais altruístas. Mas me incomoda um discurso comum entre os antigos fãs do quarteto: naquele tempo não tinha maldade. Como me incomoda o uso da imagem do Mussum como prova desse discurso: “Olha só, batíamos nele e ele nem ligava”.

Aparentemente não ligava mesmo, e isso torna a discussão ainda mais complicada – algo como “se ele não se ofendia, quem sou eu para me ofender por ele?” Mas, zapeando pela internet, encontrei recentemente uma entrevista antiga do comediante à revista humorística Casseta. Me perguntei se aquela entrevista seria aceita hoje e os porquês. Foi o encontro de dois tipos de humor, que tiveram o seu tempo, e hoje talvez não produzissem o mesmo efeito por um motivo simples: evoluímos. Aos trancos, e não na velocidade ou totalidade que deveríamos, mas evoluímos.

Na entrevista é possível rir em muitos momentos e vivenciar o clima de despojamento da época e do bar onde foi gravada. 

Mas há uma certa melancolia ao tropeçar no velho humor sexista e homofóbico do Casseta e Planeta, grupo que fez sucesso nos anos 1990 sem que parte dos seus integrantes tivesse saído da fase anal. 

A cada quatro perguntas, três tinham alguma pegadinha de duplo sentido. Você deu? Sentou? Entrou? É chegado? É de fora pra dentro? E gargalhadas.

Alguém, certificando-se de não estar sendo vigiado, poderia confessar: “Foi engraçado, vai?”. E outros poderiam dizer: engraçado para quem?

Na história dos movimentos sociais, só quem sofreu todos os preconceitos na carne (ou na pele) pode dizer quantos anos foram congelados no tempo graças às piadas que ridicularizavam determinados tipos sociais. 

Quantos anos de luta e sofrimento foram desmoralizados pela ofensa preservada no estereótipo da bicha louca, do negro burro, do judeu (ou o turco/árabe) muquirana, da vizinha devassa?

No caso do Mussum, apelido dado por Grande Otelo em referência a um peixe liso, a história é um pouco mais complexa. Primeiro porque nem ator nem personagem eram totalmente ingênuos, como hoje parecem ser lembrados. 

O primeiro aprendeu a se virar desde cedo, quase sempre em grupo, no morro, no bar, na Aeronáutica, no teatro, na roda de samba, no estúdio da tevê. O segundo rebatia provocações e não levava desaforo para casa – “negro é seu passado”.

A negação à questão causava desconforto aos grupos antirracismo já na época. Na entrevista, Mussum comentava a reação do movimento negro a uma frase de Renato Aragão ao ver integrantes de sua família em uma piscina: "Pensei que fosse uma sopa de berinjela”. Mussum dizia não entender a gritaria. 

Argumentava que também sacaneava os cearenses, caso do colega, chamando-os de cabeça de passar roupa. E que ninguém se ofendia por isso.

Talvez seja esse o fator de nostalgia de quem hoje vê no período um tempo de inocência: o tempo em que uma minoria podia sacanear outra minoria em canal aberto e ninguém dizia se ofender por isso.

Na mesma resposta, Mussum dizia não aceitar as críticas de que não ajudava os negros, e citava como exemplo o fato de alimentar vários deles em sua casa. 

E terminava dizendo estar disposto a debater o racismo apenas em casos de discriminação expressas, caso alguém dissesse, por exemplo, ter sido proibido de entrar em determinados lugares por causa da cor.

A entrevista é de outubro de 1991. Mussum já havia visto e vivido muito da vida. Consolidara uma carreira brilhante com uma generosidade ímpar, como atestam todos os testemunhos sobre ele desde a sua morte. Mas não parecia ter se dado conta a tempo do quanto servia a um discurso violento, que na prática, e fora das telas, provocava mais choro do que gargalhada – ao menos para quem era diariamente maltratado e/ou ridicularizado por causa da cor da pele.

O Brasil dos tempos dos Trapalhões, como o Brasil de hoje, não era um País inocente. Era um País onde a maioria da população era negra ou morena, mas não era maioria nas universidades, nos postos de destaque de empresas, nos gabinetes públicos, nos sistemas de representação, na produção científica, nos tribunais e até nos shoppings. Era maioria, no entanto, nas ruas, nos grupos de jovens abandonados, nos morros, nas cadeias, nas fotos com tarja preta dos jornais.

No Brasil do tempo dos Trapalhões, como o Brasil de hoje, poucos admitiam ter preconceito, e poucos seriam capazes de barrar a entrada de alguém em um espaço público pela cor da pele. Como hoje, e como em outros países, havia quem atirasse bananas para jogadores negros ou mulatos no campo, mas só porque eram, como ainda são, protegidos pelo anonimato da arquibancada.



Ao pé do ouvido, e certificando-se de não estar sendo vigiado, havia, como ainda há, quem colocasse em prática os mecanismos invisíveis de seleção, a começar dentro de casa, na escolha das companhias dos filhos (sobretudo das filhas), no discurso de dois pesos e duas medidas a depender da cor de quem prestava um serviço (ou uma barbeiragem no trânsito ou um chute torto no jogo de futebol) ou nas piadas inocentes que mantinham todos na mesma posição herdada dos avós, quando a escravidão formal fora substituída por outras formas de escravidão.

Naquele Brasil, o personagem negro e alcoólatra sacaneava o cearense cabeça chata, que sacaneava o travesti desbocado, que sacaneava o negro banguela – para alegria dos patrões brancos que não entravam na trama.

O Brasil de hoje não é tão diferente do Brasil dos Trapalhões, mas o acumulado de anos, lutas, instrumentos de políticas públicas, campanhas e debates começam a produzir um mínimo de constrangimento a velhas gracinhas antigamente aceitas e transmitidas de pais para filhos.

Tempos atrás, o integrante de uma banda de um stand up comedy abandonou o espetáculo ao ser chamado de “macaco” por um comediante branco diante de uma plateia de maioria branca. Esses são os tempos de consciência que a casa grande confunde com hipocrisia: os tempos em que os anos de sofrimento e luta não estão expostos para o riso, nem dos amigos, nem da plateia. Uma pena que Mussum não tenha vivido para ver. E uma pena que sua imagem, entre genial e inocente, seja usada hoje para apelos ao retorno de outros tempos: os tempos em que a risada era a única arma disponível contra o esculacho dos séculos de escravidão não abolida.

40 coisas incríveis que você provavelmente não sabia sobre a vida e a carreira do Mussum:


1. Foi Grande Otelo quem deu o apelido de “Mussum” para Antônio Carlos Bernardes Gomes.

2. Isso aconteceu de improviso durante a participação dos “Originais do Samba”, grupo do Mussum, em um programa de TV junto com Grande Otelo.

3. Chico Anysio foi quem deu o conselho para que Mussum falasse com “is” no final, tipo “Como de fatis”, “tranquilis” e “não tem problemis”.

4. Na época, ele ainda não era humorista “assumido” e fazia algumas participações na “Escolinha do Professor Raimundo.”

5. O convite para Mussum entrar para “Os Trapalhões” foi de Dedé Santana, que era fã de “Originais do Samba”.

6. Mussum fabricava seu próprio reco-reco.

7. Ele serviu a aeronáutica e aprendeu a tocar bateria lá.

8. Mussum passou por um treinamento para enviar mensagens em código Morse.

9. Antes da fama, ele também fez curso de ajustador mecânico.

10. Mussum tinha licença de Cabo Arraiz para dirigir lanchas.

11. Certa vez, ele pintou uma lancha de verde e rosa em homenagem à Mangueira.

12. Mussum se arriscou no ramo das empreiteiras, montando a Construtora Ébano.

13. Mussum foi diretor da Ala das Baianas da Mangueira.

14. Ele era muito querido pelas baianas, mas também considerado um diretor bem rígido.

15. Mussum usou a gíria “Lepo Lepo” muito antes do Psirico e em dois momentos diferentes.

16. O primeiro foi na música “Because Forever”, gravada para o seu disco solo em 1986, e o segundo foi numa entrevista nos anos 1990 para a revista Casseta Popular.

17. Uma das primeiras músicas composta por Zeca Pagodinho a fazerem sucesso foi gravada por Mussum e se chama “Chiclete de Hortelã”.

18. Mussum era fã também de bossa nova e gravou a música “Rio Antigo”, sobre as belezas da cidade maravilhosa nos anos 1940, junto com Chico Anysio.

19. Ele também gravou “Nega Besta”, composta por João Nogueira.

20. A música conta a história de uma moça “que tem a boca torta e diz que fala ingleizis”.

22. Mussum ainda gravou uma música de Vinícius de Moraes.

23. E três do Adoniram Barbosa: “Samba do Arnesto”, “Saudosa Maloca” e “As Mariposas”.

24. Ganhou um festival ao lado de Elis Regina.

25. Mussum ficou muito amigo de Garrincha por tocar com Elza Soares na boate Fred’s.

26. Essa amizade durou a vida inteira e Mussum foi visitar Mané quando estava internado.

27. Mussum contracenou com Hebe Camargo e Ronald Golias em uma encenação de “Romeu e Julieta” na TV Record nos anos 60.

28. Ele interpretou Jesus Cristo no filme “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”.

29. Ele era amigo pessoal de Solange Couto (a Dona Jura), que contracenou na novela América com seu filho Mussunzinho.

30. Mussum era chamado de Caco pelos familiares, por causa do boneco dos Muppets.

31. Certa vez, Mussum tomou umas porradas de Bud Spencer. (Bud Spencer e Terence Hill participaram dos Trapalhões.)

32. Mussum declarou apoio à candidatura de Maluf à presidência.

33. Mussum adotou o Corinthians como segundo time do coração quando morou em São Paulo, entre 1967 e 1976.

34. Isso aconteceu porque Mussum não conseguia assistir todos os jogos do Flamengo e era próximo dos integrantes da escola de samba Camisa Verde-e-Branco, que era um reduto de corinthianos.

35. Ele tinha uma bandeira do Flamengo autografada por Zico em casa.

36. Mussum colaborou com diversos projetos sociais nas décadas de 80 e 90.

37. Dentre eles, a doação de um consultório odontológico para a Comunidade do Morro da Mangueira.

38. No comercial da campanha do Programa Nacional de Prevenção da Cárie Dental, ele dizia “dente cariado não tem graça nenhumis”.

39. No bairro do Morumbi, em São Paulo, há uma rua com o nome de “Rua Comediante Mussum”.

40. Ela fica bem perto da Rua Comediante Zacarias.

BIO

Thiago Muniz tem 33 anos, colunista dos blog "O Contemporâneo", do site Panorama Tricolor e do blog Eliane de Lacerda. Apaixonado por literatura e amante de Biografias. Caso queiram entrar em contato com ele, basta mandarem um e-mail para: thwrestler@gmail.com. Siga o perfil no Twitter em @thwrestler.

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